terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Presépio e música de um natal moderno

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Peço extrema desculpa mas
devido à vergonhosa greve a decorrer neste momento
e que não foi sequer desconvocada
(ler notícia na imprensa de referência)
não me foi possível arranjar um camelo que me transportasse ao presépio
de modo a oferecer o meu presente aos babosos pais do menino.
vá lá que aluguei uma segway para estar presente juntamente com a estrela,
encontrei o tone do Krampus, esse maléfico que assusta o natal das famílias tristes,
mas ele não quis ouvir the cramps,
preferiu ouvir o natal narrado pela memorável lady jaye com música dos iconoclastas thee majesty
e a mim sobrou-me de recompensa a selfie do nascimento do menino
que na realidade não sei quem tirou, a foto anda a circular,
avisem para que se possa fazer justiça e dar nome ao dador do presente em forma de selfie,
hic hic io
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assinado: o quarto rei magro










segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

sábado, 22 de dezembro de 2018

Clube Negro


'Clube Negro'
técnica mista sobre papel
49,5cm por 53,5cm (com moldura)
2018
ZMB

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Espelho meu


'Espelho meu'
técnica mista sobre papel
56cm por 53,5cm (com moldura)
2018
ZMB

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Bem utilizado, o espelho pode no entanto apoiar a meditação moral do homem em si. Segundo Diógenes Laércio, Sócrates exortava os jovens a mirarem-se para que, se fossem belos, se tornassem dignos dessa beleza, e se fossem feios, soubessem esconder o seu infortúnio através da educação. Auxiliar do conhece-te a ti mesmo, o espelho convida o homem a não se tomar por Deus, a evitar o orgulho conhecendo os seus limites, e a aperfeiçoar-se: não um espelho passivo da imitação, mas um espelho activo da transformação.
Diógenes acrescenta ainda que Sócrates dava um espelho aos bêbedos para que vissem o reflexo dos seus rostos desfigurados pelo vinho. O espelho não reflecte por isso apenas traços físicos mas uma atitude interior. Instrumento para uma vida moral, ele deve ajudar o homem a vencer os seus vícios; mostra-lhe o que ele é e o que deve ser. Séneca põe um espelho nas mãos do homem em fúria porque o afeamento da alma altera os traços. O mesmo tema é desenvolvido e popularizado por uma personagem de Plauto, um ancião que no espelho lê os erros da vida passada. O espelho da introspecção lança simultaneamente a sua luz sobre o passado, o presente e o futuro.
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páginas 160-161

'História do espelho'
Sabine Melchior-Bonnet
tradução de José Alfaro
edição Orfeu Negro

domingo, 16 de dezembro de 2018

Siouxsie Sioux Queen



Listening to their murmurings
Trespassing thru the topiary
Lulled by siren perfumes
Of their seductive petal openings

Cannibal roses
Enticing our noses
With exotic aromas
Then they bite off our noses
Whilst stoof on our toeses

Red snappers and finger pops
Fighting off psycho pomps
Ring a ring a roses
To Cannibal roses

One of those mornings
They came with no warning
It's been one of those mornings

Dead City Radio



WS Burroughs reading
John Cale playing


sábado, 15 de dezembro de 2018

Anedota cigana

contada por um cigano 
a um nosso amigo que ontem nos contou,
é natural que se tenham perdido pormenores de riqueza oral
mas como li nas entrevistas a Olivier Rolin nestas últimas semanas:
escrevemos para que a memória que nos rodeia não se perca,

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Uma vez no tempo do botas e da velha senhora, um grupo de caravanas ciganas chegou perto de uma cidade à beira mar. Naquele tempo, eles não podiam instalar o acampamento por muitos dias e foi grande a preocupação da polícia em os controlar.
Vai daí, aconteceu que num aviário, ou num simples galinheiro, deram por falta de sete galináceos. Não sabiam quem podia ser o infame pilha-galinhas mas, logo que lhes chegou ao nariz que havia calés por perto, a ronda começou, naquela altura os polícias não faziam greve às horas extraordinárias, a noite caíu e eles repararam numa fogueira ao longe na praia, dirigiram-se para lá a cavalo.
Os calés. ao verem quem lá vinha, apagaram a fogueira, os guardas desmontaram e aproximaram-se, perguntaram: -- Não sabem que não é permitido fazer fogo à noite? Não foram vocês que roubaram as galinhas ao Tone Manco?
O cigano, que contou a história ao nosso amigo que nos contou ontem, respondeu ao guarda:
-- Não, não fomos nós!
-- E aquelas penas... de quem são?, pergunta o guarda.
-- Ah, são as roupas das nossas mulheres que foram tomar banho e nós estamos aqui a guardá-las.
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:D :D :D :D :D

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Corolário anedótico e temporário

sobre a minha participação na exposição «Desvios e extravios»

1. Humor sexista

Um senhor chega à galeria, entra, extasia-se, pergunta informação e preços, diz que volta com a mulher para ela aprovar.
Ela chega curiosa, vê e sentencia:
«O quê? Um lobisomem na minha sala de jantar? Nem pensar!»

2. Humor surrealista britânico

Uma das minhas heroínas musicais dá-se ao trabalho de comentar uma publicação online, onde apareço fotografado em frente aos meus trabalhos expostos na parede da exposição, e escreve:
«Fantastic stiff»
Donde se admira o humor, conciso e de duplo sentido em apenas duas palavras, dos britânicos.
Eu pensei que fosse uma gralha tipográfica e respondo «thanks Rose :)», e só depois vou ao dicionário para ver se «stiff» é ou não gralha de «stuff» e descubro que «stiff» sgnifica «cadáver».
É um elogio sardónico: sou um cadáver fantástico, an exquisite corpse, un cadavre exquis. sou ZMB, o zombie, o cadáver vivo, o lobo homem que se pergunta, the wanderer.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Perdidos estamos todos

Eu às vezes sou mau. Tenho pensamentos maus. Estou habituado a ter tempo livre demais e a nem sempre ter vontade de pintar e a estar a maior parte do tempo sózinho em casa e a não querer ir passar o tempo no café, por exemplo, a ler e ser objecto dos mirones que passam e se espantam e dizem uns para os outros «sabes ler?». Passo o tempo em casa, saio só para fazer as compras necessárias e quando não estou a ler, ponho-me a pensar comigo próprio. Às vezes, falo mesmo comigo como se eu fosse um tu e assim me responde a consciência. Em tempos de descompensação mental, fazia este diálogo em voz alta em casa, na rua, no café e toda a gente era obrigada a levar comigo e com frases que não compreendiam e atitudes exóticas e ou obtusas, das quais ou se riam ou então dizia «olha, vai ser internado». Agora, às vezes, e já só em casa, falo entre dentes, comigo e contra os outros. Ando numa luta para me regenerar das coisas erradas que fiz, do mal que expressei em palavras ou acções, das pessoas que fui perdendo, a luta é por tentar ser um gajo saudável o mais possível aprendendo com o que de bom e de mau acontece e aconteceu. Como sei que às vezes a causa dos meus males e de perder pessoas sou eu-próprio, estou sempre a atacar-me nestes meus diálogos e agora já não sei se sou egocentrista porque estou só ou se estou só porque sou egocentrista, as outras pessoas serão talvez egocentristas também, todo o ser humano se acha especial ou quer se sentir especial, reconhecido por alguma qualidade digna de destaque. Acontece que eu, às vezes, de me preocupar tanto comigo, com as minhas razões, com o pensamento de agora ser não mais mau mas bom e entrando nos eixos da sociedade das boas maneiras, esqueço que as outras pessoas poderão não ser como eu, ou ter ideias diferentes das minhas, verem o mundo de modo diferente. E aqui há um paradoxo: se eu não quero ser líder de Coisa Nenhuma também não quero ver as minhas ideias como erradas e ver as pessoas a fazerem diferente, a ignorarem as minhas ideias. É uma questão de extremos: não quero ser líder mas também não quero ser um zero.
É em coisas como estas que eu penso quando estou só, invento diálogos entre mim e a minha consciência, e quando as coisas não me correm bem socialmente começo a pôr um «eles» no diálogo, é aí que sou mau, e, porque eles fazem diferente ou dizem coisas com que eu não concordo, fico a ruminar pensamentos sobre o que deveria ser e não é, sobre o que eles são, o que dizem e não fazem, o porquê de certas atitudes, certas palavras. O mundo não é como eu o quero, e se eu quero fugir à degradação e tento elevar o meu pensamento e fugir das coisas rasteiras do quotidiano, não consigo muitas vezes aceitar que os outros não façam o mesmo, que não tenham o sucesso, que não se esforcem mais, que não consigam sair de condições adversas e se deixem abater por depressões ou iludir por ideais de telenovela e reality-show. É o que disse. o mundo não é como o queremos e cada um o vive à sua maneira, no nosso caso vamos todos sobrevivendo na prosa dos dias, a nossa vida pode parecer, aos de fora, a quem connosco não vive, poética e mesmo romântica no sentido século XIX, mas o nosso dia-a-dia é pobre, não tem glamour, vamos passando o tempo cada um na sua luta:
O Giu tentando arranjar cigarros e escrevendo poemas declarativos, eu tentando deixar de fumar e não deixar de pintar, o Luis sem vontade de viver dormindo de dia e de noite, o Dário sempre calado e propondo-me o negócio «eu ofereço a ganza e tu pões a tocar esse duplo cd do Bob Marley», a Bidente sonhando em subir de vida, deixar este abrigo do qual está farta e inspirando-se nas estrelas cor-de-rosa da sociedade portuguesa, como ela diz e é verdade «na vida, é preciso um pouco de hipocrisia, um petit peu». 
Vivemos numa ilha e todos somos a ilha e precisamos uns dos outros para manter a comunidade em paz, para termos alguma alegria e conforto, para que estejamos menos sós. Mas é como eu digo: eu tenho pensamentos maus e às vezes ignoro as razões dos outros, culpo-me primeiro a mim e castigo-me, e quando vejo algo de errado nos outros e sem compreender as suas razões ponho-me com pensamentos maus contra eles e chego mesmo a ser irracional, perco mesmo a razão nas situações, acabo sempre prejudicado e só.
Vem tudo isto para dizer que, ontem fui pedir desculpa à Bidente, disse que fui estúpido na minha atitude, e ela disse a palavra que já antes haviam escrito «Não gostei do teu carácter, da tua atitude».
Falou das suas razões: ela é epiléptica mas desde que está connosco ainda não teve nenhuma crise, está medicada e é de nós quem tem menos dinheiro, além disso diz que a sua memória devido à doença se degrada, se esquece das coisas, não se lembra. Eu ouço e faço mea culpa, salta-me a tampa contra o meu semelhante, contra as pessoas que como eu sofrem da cabeça, e por isso me considero mau por vezes. Mas uma coisa que tenho conseguido fazer recentemente é «fazer as pazes», primeiro ressabio interiormente mas depois ajo, dou um passo em frente para reduzir os danos do mal criado, vou pedir desculpa. Se não o fizesse ficava sózinho. E que me importa que tenha razão se fico sózinho no final. É por isso que engulo muitas vezes sapos com ou sem copo de água. 
Perdidos estamos todos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Branca e os quatro anões


'Branca e os quatro anões'
óleo sobre tela
22cm por 16cm
2018
ZMB

Este trabalho tem como base um desenho de Bruno Schulz,
um desenho presente no livro 'as lojas de canela' editado pela Sistema Solar.
Este trabalho pisca o olho ao trabalho 'Saturno' de Goya 
transformando Saturno num Pregador da Cruz


Bruno Schulz


Goya


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A semana passada, apresentei este quadro aos meus vizinhos durante uma sessão de café de saco e brinde, e em especial à Bidente porque ela mencionara que gostava do amarelo de um outro quadro. Eu pensei: «Está a aproximar-se o Natal, se calhar, se ela gostar deste amarelo, é uma tela pequena, vendo-lha por vinte euros se ela quiser, num misto de prenda de bom vizinho e negócio de natal, ai o disco que eu não comprava se os vinte chovessem...» Dito e feito, pergunto:
-- Atão, que tal gostas deste amarelo, Bidente?
-- Ã...
-- São quatro anões, faltam três..., diz o Giu.
-- Os outros três são dissidentes eheheh, digo eu.
-- Eu estava a olhar para o espelho, parece mesmo uma cara de bruxa, gosto do vestido verde, costumas fazer telas pequenas como esta?. pergunta a Bidente.
-- É uma tela que eu tinha há algum tempo, pensei e porque não dar-lhe uso?
-- E todos a olhar como famintos para a Branca-de-Neve... parabéns, gosto da tua pintura. diz o Giu engraxando o meu chinelo, que eu dentro de casa uso chinelos. É aí que digo a ver se o peixe morde:
-- Estou a pensar vendê-lo, se me derem trinta euros, eu se calhar...
-- Ó trinta é pouco eu diria sessenta... diz o Dário.
-- Ó ninguém me dá sessenta..., acabei por dizer e, vendo que a Bidente não se pronunciava mais, acabei por lhe dar uma pequena brochura com poemas com títulos de flores, um livrinho que me deram na fnac quando lá fui comprar o lp 'Impressions' do John Coltrane.

Ontem, quando saí ao pátio da ilha, por volta das onze da manhã, para fotografar com luz natural e sem reflexos de sol o quadro, a Bidente aproximou-se e perguntou:
-- O que é? É o pai natal?
Eu já estava mal acordado e sonolentamente indisposto, pois passei-me com a pergunta, com a opinião dela, pensei que ela devia reforçar as lentes «vês mesmo mal com qu'então o pai natal! A ti não contarei eu nunca a anedota do pai natal, sua burra», não disse mas pensei, disse ao invés:
-- Não!, é a Branca-de-Neve e os quatro anões, são os que te aturam.
-- Ah já havias dito.
Eu, com trombas por a minha visão das coisas não ser perceptível às pessoas que me rodeiam, por elas não perceberem o conteúdo do que pinto, e por esse modo sentir que há uma fractura e um falhanço entre a compreensão que as pessoas e eu temos do mundo, vim-me embora a resmungar interiormente e a dizer entre dentes «ela é má, é bruxa, tem uma língua viperina, diz que a Cristina Ferreira é inteligente só porque subiu na vida, o que ela quer é ganhar um convite para o novo programa dela, é... faz-te ao Celito faz, de mim eu digo-te sou dissidente, fica-te com os quatro.»
É, por vezes a minha mente, se fotografassem a minha mente creditariam um Saturnino mau

O Giuliani veio à minha porta fumar uma cachimbada e oferecer-me 'Lisa' de Somerset Maugham. O Giu muitas vezes vem ter comigo, porque está no seu quarto sózinho e ou o Dário não está ou a Bidente não quer enrolar, e eu faço o favor, aceito e fumo com ele, falamos de livros, digo que em casa dos meus pais está lá uma edição do Círculo de Leitores de 'A servidão humana' mas que nunca li, falo-lhe do conto do anão do Fialho d'Almeida onde este morre defenestrado do alto da torre da igreja, trocamos ideias sobre a igreja católica e chegamos à conclusão que divergimos em quase tudo, mas o que nos une é a ideia da luta, de nunca desistir, ofereço-lhe café e as horas passam. Giu diz-me que a Bidente diz que não fala mais comigo.
Diz o pregador com a cruz: «Ó que pena! Ela não percebe as coisas que lhe dizem, um dia destes falou de tirar o passe do autocarro e eu disse-lhe que ela, como reformada, tem direito a desconto, e falei, comecei a explicar-lhe e ela olhava para mim, parecia vazia, sem interesse, acabei por me calar, eu acabo sempre por me calar sempre que vejo que estou a dar seca, mas a seca que dou às vezes é para ajudar, as pessoas andam mal-informadas, às vezes nem querem saber, ando a pensar, só vejo perdidas, onde andam as mulheres com testa?»
É o que digo para mim sempre «pintar pintar e não molhar o pincel de vez em quando não faz de mim um ser completo, ando lucidamente triste.»
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Claudio Mur, inspirado por ZMB e o seu quotidiano

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Trar-lhe-ei esta noite a cabeça dele, num prato.

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-- Lá em Sevilha... nunca foi a Sevilha, señorita?
-- Nunca -- disse ela.
-- É uma terra de má reputação, por esse mundo. Imagina-se que os homens só sabem tocar guitarra e dar facadas; que as mulheres só têm paixões excepcionais; e que o sol que amadurece as laranjas e o moscatel das encostas faz rebentar nas cabeças vulcões de loucura extraordinários.
-- Chega a parecer uma terra abominável... que entretanto deve ser encantadora.
-- Tudo isto são coisas para pintar nos leques que os forasteiros de lá trazem, ao irem ver as festas da Semana Santa, ou tomar azucarillos nas barracas da feira de Setembro. Assim, o leque, que é um dos prestígios da espanhola, vai-nos desacreditando o país ao mesmo tempo. -- E olhando-lhe as mãos vazias: -- É por isso talvez, señorita, que nunca traz o leque que lhe dei...
Houve um rubor fugaz na face dela.
-- Deixei-o em casa. O tempo está começando a resfriar. Além de que o homem dos paradoxos estragou-me o seu brinde, garatujando-lhe no pano o quer que fosse.
-- Coisa profunda?
-- Não sei. O amor... toda a mulher é pérfida como a onda... comunhão das almas... e tutti-quanti... A sua mania mais grave é achar que me assemelho à grande esfinge.
-- Oh! Oh! mas é que eu vou já daqui contar-lhe tudo.
-- Oh! não se atreva... Demais, que era despersuadi-lo do conceito profundo em que se tem.
-- Na minha terra esfaqueavam-no. Quer que lhe armemos uma cilada, señorita? Um dos meus homens cursou o assassinato nas sierras de Guadalupe. Trar-lhe-ei esta noite a cabeça dele, num prato.
-- Em termos que se mudaram as cenas, e é o senhor quem faz de Salomé.
-- Já adivinhei que gosta dele.
-- Coitado! -- disse ela num tom de comiseração muito dolente.
E a conversa caiu. Pouco depois:
-- Há esta tarde uma burricada a Santo Estêvão, señorita. Quer ir té lá?
-- Não. Estou doente.
-- Prometo-lhe ser um burriqueiro admirável. O caminho da ermida é detestável. Mas eu terei cuidado em bem guiá-la.
-- Solicitudes suas... nem o tempo lhe chega para cercar de atenções as mais senhoras. Aquela francesita sobretudo...
-- Promete-me que vai.
-- Não posso ir.
-- Eu desejava entretanto que lá fosse. Sabe que o altar do Santo é praticado em rocha viva? e a rocha tem uma fenda, que mergulha no chão, e se prolonga, dizem, té uma caverna onde está encantada uma feiticeira que, mesmo enclausurada, vaticina.
-- Desconfio que ela conserva intacta a virtude, depois das consultas que o senhor lhe terá feito.
-- Iremos pois juntos ao altar de Santo Estêvão, já se vê, a ocultas de todos... e eu perguntarei então à feiticeira qual o motivo secreto dessa sua constante abstracção. Imagine, señorita, que a feiticeira respondia! -- exclamou ele fitando-a muito nas pupilas -- e me ensinava os remédios de curar-lha.
-- Mas se eu não estou doente.
-- Disse-me ainda há pouco que estava... e se o prognóstico da velha coincidir co meu prognóstico...
-- O que sucede? -- perguntou ela, parando de sorrir.
Já Paco Ximenez se havia levantado.
-- Sucede que a mamã terá de vir a Portugal.
-- Isto é demais!
-- A Santo Estêvão, señorita?
-- Se não chover -- disse Maria. -- Se não chover!
A verdade é que nunca estivera um dia prometedor de menos chuva.
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'Amores de Sevilhano'
,página 88-91

em
'O país das Uvas'

Fialho d'Almeida
Edição Clássica Editora, 12ªedição

Caseiros da Terra do Nunca


'Caseiros da Terra do Nunca'
óleo sobre tela
29,7cm por 21,4cm (A4)
2018
ZMB

Tantas vezes um Não dela ouvi
que um dia disse-lhe que o Shakes tem um verso em que diz Nunca cinco vezes
foi uma das poucas palavras que ela aprendeu com vontade
começou, em vez de dizer Não, a dizer Never,
raisme foda lá a sorte! em inglês parece mais poeticamente absurdo
logo mais crazy, d'ya get it?


terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Foto da exposição


Eu com os meus trabalhos expostos na exposição colectiva
'Desvios e extravios' na Galeria Cruzes Canhoto
(Rua Miguel Bombarda 452 Porto Portugal)
até Janeiro 2019

Eu com o nome de ZMB
também conhecido na vida real como 
Rui, Ru, Mur, Lourenço, Lou, puta loura para alguns banais colegas de universidade, Sousa para safar ex-companheiras, engenheiro para os vizinhos de infância, actualmente para me distinguirem de outros ruis chamam-me de Rui pintor.

Se virem este postal na rua «façam festas e pinotes» :)

domingo, 2 de dezembro de 2018

Eu era ruim

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--... 
-- Eu tomo atenção... 
-- Ainda agora és bonita! 
-- Estás a brincar comigo ou quê?, pá, eu tenho espelho em minha casa, eu me vejo todo o santo dia... 
-- Estás temperada, sabes o que é temperada? é... ‘tou a ler... olha, estou a ler o Moby Dick 
-- Nem comece! 
-- Tou a ler o Moby Dick que é um livro de caça à baleia... 
-- Pronto lá tá tu. 
-- Uma coisa que hoje em dia já não se deve fazer porque é uma atrocidade e qualquer dia as baleias não existem... 
-- Estão a ficar extintas. 
-- E pronto, lá no livro eles falam de fabricar um arpão para arpoar a baleia, para matar a baleia e, então, explicam como o arpão é fabricado, na forja, está o ferreiro, está o carpinteiro a fazer o cabo... 
-- Ah mas eu não quero saber dessa história não, ela é muito comprida. 
-- Eles temperam o aço com sangue. 
-- Olha só, não queres que eu acabe a conversa? 
-- Prontos, fala. 
-- Eu ia dizer uma coisa, o meu oitavo namorado, era o Luciano, é... ele morreu tão triste pá quando eu acabei o namoro, praticamente eu fui a culpada... 
-- Oh a sério? 
-- É me’mo, ele se matou... numa festa na terra onde eu moro ‘tás a ver, eu fui para a puta da festa, e ele com raiva porque eu acabei o namoro... a gente, eu me chateei com ele, eu acabei o namoro, a gente se desentendeu... e aí eu acabei o namoro, como tinha muitos né? 
-- Claro... 
-- Eu tinha por onde escolher, se acabasse já tinha outro na agulha... 
-- É, é a lei do mercado eheheh. 
-- Nunca ficava sem! 
-- Um mercado de namorados... ehehehe. 
-- Um harém, era tipo um harém... 
-- Eheheh... 
-- E então portanto... ele nessa noite bebeu todas e mais algumas, foi para a puta da festa, chega na festa, e dá uma de doido pá! 
-- Urr! 
-- Muito bêbado começou a pensar na nossa situação, juntou... 
-- Tomé com bebé... 
-- ... tomé com bebé... e disse «eu vou acabar com a puta da festa, não estou feliz, ninguém vai ficar feliz», pois, subiu... atrepou-se no poste... é... comé que vocês chama aqui? 
-- Quê?, da luz? É um poste de iluminação, de alta tensão... 
-- Mas vocês chama de candeeiro... 
-- ... é... um candeiro de iluminação pública... 
-- É mas a gente chama de poste... então... ele pegou no fio de alta tensão, tásaver... e... 
-- Deu um choque nele próprio... 
-- ... e acabou com a festa toda... 
-- Pois, o curtocircuito... morreu no poste... 
-- Pendurado no fio... acabou com a puta da festa, faltou a energia na hora... e no outro dia... quando eu acordei foodasse levo logo com essa má notícia: «olha sabe quem morreu?, fulano, sabe aquele teu namorado e tu acabou o namoro, ele suicidou-se e tu és a culpada!» 
-- Urr... 
-- Tásaver... as pessoas me incriminavam... aí eu dizia: «eu não... eu nem sequer conheço!», sou culpada nada, quando uma história acaba acaba, tudo que tem começo tem fim, não é? 
-- Sim... 
-- As pessoas me apontavam o dedo e diziam que eu era culpada, quando não era... e depois, deixa eu ver... qual foi o último namorado que eu tive, tá no céu o meu nono namorado... 
-- ... urr, ele morreu da mesma maneira? 
-- Não, morreu de ataque cardíaco. 
-- Sei. Não tiveste também um coreano com quem estavas a falar pelo computador... e morreu de ataque cardíaco? 
-- Não. Eu tive um namorado coreano mas quem morreu de ataque cardíaco foi o Renato. 
-- Ah tábem, então eu confundi, uma vez falaste de um coreano, que queria casar contigo, tu disseste que sim, e ele teve um ataque cardíaco... 
-- Foi o Renato. 
-- Atão não era o coreano?, fooda-se disseste que sim e ele morreu?!
-- Porque é assim: eu quando conheci o Renato... ele era amigo do meu noivo. 
-- Ãh 
-- E houve um dia em que num jantar do meu namorado, comemorado em minha casa... e ele trouxe esse amigo dele que era o Renato, apresentou o Renato... 
-- Sim. 
-- E aí pronto! Se axaiponou por mim e eu comecei a irritar-me com aquilo. Depois eu pensei e decidi ir a casa dele conversar sobre isso, e ele disse que um dia eu ainda ia ser namorada dele. 
-- eheheh 
-- Bom, namorada eu fui, isso ele não mentiu, eu fui com a cara dele, e um dia, também ele me pediu em noivado, aí eu disse: vou pensar no caso, ainda não estou preparada para casar. 
-- Mas quando disseste que estavas finalmente preparada ele... pumba! 
-- Ele tinha uma academia, só de homem, onde se fazia musculação. Ele um dia abriu a academia, tomava o pequeno-almoço, fazia o que tinha a fazer, ia para a academia, tásaver? 
-- Sim. 
-- E... depois que ele abriu a academia, ele sempre me ligava, e a gente em conversa, ele dizia assim: «Então minha resposta?, estou à espera, já pensou?», eu disse: «Ó, pensar eu já pensei, mas não sei se vais gostar da resposta...», 
-- urr... 
-- «vá lá eu sou forte!» 
-- Ei-iiií! 
-- «Eu sou forte, eu vou aguentar.» 
-- Fooda-se... 
-- E não é isso, ele continuou: «se for um não... eu vou aguentar, a gente vai ficar amigo na mesma, não vai alterar nada», tásaver era esta a nossa conversa, e eu disse «olha, não custa nada dar-te um oportunidade, mas tem calma comigo, porque eu sou assim e assim e assim assado.»
-- Iá. 
-- Eh... eu disse: «eu quebro o meu noivado, eu aceito», disse sim na cara podre, e o homem ficou tão animado, tão alegre, tão feliz... olha deu-lhe o peripato, abriu a academia mas ainda não tinha chegado ninguém, e ele estava morto ali dentro da academia sózinho, e quando os alunos começaram a chegar, para falar com ele e ele não responder... estava morto, eh pá, foda-se! 
-- Iá... 
-- O pai dele não fala comigo, ele diz que eu matei o filho dele, e o irmão dele também não, ele se abria com o irmão, era o confidente... enfrentar a família foi... 
-- Mas tu agora estás diferente... 
-- Mas eu fui a culpada, não fui? 
-- Foste a culpada tu? Não, tu não tens culpa se as pessoas se as pessoas têm ataques cardíacos, pensa assim, ele tinha uma academia de musculação, fazia tanto exercício físico... 
-- Ele não fazia, ele estava lá a gerir... 
-- Ah pronto ele não era treinador... 
-- Não, ele ensinava os alunos... 
-- Mas dizer que a culpa é tua? 
-- Eu estava lá, eu passei um fim-de-semana lá na casa dos pais, transei com ele, ia na academia, ele me levou lá, fizeram o jantar para os pais dele me conhecer... 
-- Tu falas do ataque cardíaco... mas tu até lhe disseste uma coisa boa... 
-- Olha ninguém pode ter alegria demais nem tristeza de mais, acaba por morrer. 
-- Mas que culpa, tu também foste uma vítima, tu até ias casar com ele, ele estava todo contente, iam ser os dois felizes... 
-- Ou eu ia ser muito feliz, ele me amava de uma tal maneira, ele esperou por mim. 
-- Lá está, vocês iam ser felizes, ele morreu e tu ficaste infeliz, que culpa tens tu que ele tenha ficado tão feliz e tenha tido um ataque?, não tens culpa! Foi uma desgraça, para a família dele, para ele e para ti, não é?, tu foste vítima dessa desgraça... e se formos a ver... também não tens culpa do primeiro que se suicidou no candeeiro público, não é?, esse quis vingar-se de toda a gente, que culpa tens tu que um gajo se queira vingar? 
-- Mas tirando a própria vida? 
-- Tábem mas... 
-- A vida é bonita mas as pessoas são feias... 
-- É, a vida é bonita mas as pessoas não conseguem gerir as rejeições, as pessoas não conseguem aceitar que os outros possam não gostar delas, de nós, de não nos querer para todo o sempre, os amores começam e os amores acabam. 
-- Acabam para quem morre... é... e depois o Geraldes quando eu acabei o namoro com ele, ele entrou para a polícia, é... dava para fazer um livro, eu era ruim. 
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Claudio Mur e Anónim@ do século 23

For Virgin Prunes


'For Virgin Prunes'
óleo sobre pano cru
34cm por 34cm (com grade)
2018
ZMB

Dedicado à maior banda deste planeta
e a partir da fotografia em baixo
retirada do 'livrinho de cd' do álbum 'If I die I die'








Mary be so proud, things that aren't allowed
To take your own life, stab it with a knife
They put you in a box, send you up to heaven, heaven

Oh what to do, not to feel and who are you?
Oh what to do, not to feel and who are you?
Give me money, give me sex
Give me food and cigarettes
Oh what to do, not to feel and who are you?
Oh what to do, not to feel and who are you?
(What should we do if baby turns blue)

You broke my heart, it came in two
The faculties of a broken heart
I go out on Monday, looking for a Tuesday
Nothing ever makes much sense
You don't seem to make much sense
Shooting out in someone's dream
Shooting out in something else

It was an accident, I didn't mean it
It was an accident, I didn't mean it

Oh what to do, not to feel and who are you?
Oh what to do, not to feel and who are you?
(What should we do if baby turns blue?)

John had a bomb and he lit it in his head
Went to bed for seventeen weeks
Took too many drugs, now he don't eat
They put you in a box and send you up to heaven, heaven

Oh what to do, not to feel and who are you?
Oh what to do, not to feel and who are you?
Give me money, give me sex
Give me food and cigarettes
Oh what to do, not to feel and who are you?
Oh what to do, not to feel and who are you?
What should we do if baby turns blue?


sábado, 1 de dezembro de 2018

Revolta, um poema do Júlio Poeta

Revolta


Ri o bobo sem vontade

Acendem-se luzes na cidade

Pensa o político por detrás da grade

Choram carpideiras de piedade.

Lembra ao velho a mocidade

O que está longe tem saudade.

Canta o galo porque não é cedo nem tarde...

E eu fico na ansiedade

De encontrar a liberdade



J. Alberto Allen Vidal
1973

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Cantata Mussurana by Sei Miguel



Track 3 from this release https://www.discogs.com/Sei-Miguel-Sa... This second version of the piece had the support of Joachim Bernauer, in behalf of the Goethe Institute in Lisbon, original (French) recitative adapted into Portuguese Creole by Mr Djabaté, recording (November 2012) and mixing by Joaquim Monte at the Namouche studios, Lisbon ' Quoting from the liner cd notes: ' 'Cantata Mussurana is based on a creole purification ritual. You can almost see that, as you listen to the varying tensions and intensities in the music. Through the three movements of the Cantata you sense the snake -Mussurana- that is brought to the place here the ceremony will occur. The snake, which is not poisonous, cleans up an entire world of speculation, eating the poisonous snakes and, in the end, bringing safety and peace to the people. This exotic mood is set through the careful orchestration of ten instrumental voices around a human voice. ' Pedro Costa, Parede, Janeiro de 2014

Súmula do pós-zanga

As pazes foram feitas.
Entrei pela casa do poeta adentro, disse que queria fazer as pazes com o poeta,
o poeta não estava, foram chamá-lo, ele chegou,
sentiu-se contente por eu ter aparecido, ele não o faria porque se sentia oprimido, envergonhado
perguntou-me se eu tenho pintado e eu digo que estou sem inspiração
e ele diz «é minha culpa, eu sei, eu estava sem razão naquele momento»
depois eu falei, falei tanto que acabei por dizer:
«foda-se, tu tens idade para ser meu pai e sou eu que te estou a dar sermão,
eu que não gostava de ouvir sermão agora estou a dar sermão, vou-me calar,
Bidente, arranjas-me um copo d'água, obrigado, estou com a garganta seca de tanto falar,
já não falava há duas semanas»

Giuliani reconhece que se excedeu nas palavras no outro dia, aperta-me a mão, é a sua maneira de pedir desculpa,
decide dar combustível para um cachimbo da paz,
Dário dá a mortalha e o tabaco,
Luis cozinha três fatias de pão-de-forma com fiambre e queijo derretido com molho de francesinha
e a Bidente enrola a pedra.
Comemos como na aldeia de roda do mesmo prato,
cortando com uma só faca e garfo a sua parte do petisco
eu ofereço o café de saco.
A comunidade continua de pé.
Afinal continuo a ter vizinhos e a ter amigos.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Uma zanga por causa do acesso ao facebook

'
Acabou. Cheguei à conclusão que acabou este período da minha vida. Falta talvez definir este estilo de vida e o porquê de ter acabado. Já agora definir como acabou. Acabou. Tenho de me ir embora outra vez. Mais uma vez sinto a necessidade, tenho de fazer a trouxa e partir. Mas partir para onde e será que para melhor? Partir para um local onde possa recomeçar tudo de novo. A partir do zero. Tenho de morrer para este lugar, para estas pessoas e renascer noutro lugar com novos vizinhos. Uma vez mais a sensação se repete, o desadaptado, o alienado, o aluado tem a sensação de ser necessário partir, para que possa continuar a existir, para que não me sinta mais angustiado como nestes últimos dias que vão passando lentos. Ficar seria fechar-me ainda mais sobre mim próprio, perder a noção do mundo à minha volta, hibernar e acordar noutro planeta.
Hoje decidi mudar a rotina destes dias e, depois do almoço, saí para tomar café no centro da cidade. Apanhei o metro, caminhei e comprei um caderno e uma caneta, entrei e sentei-me, pedi um café, tomei-o e comecei a escrever as frases que me têm atormentado e com as quais tenho cismado, ir embora, deixar um local estabilizado mas que me angustia agora, procurar um novo local do qual nada conheço para me tentar uma vez mais integrar, a minha vida parece-me isto, não passa disto, tentativas de integração e descalabro previsto, necessidade e ruína, caos e desejo, «eu quero é ser feliz» diz a minha amiga que, cheia de problemas, deixou de me visitar, e eu digo «porque nos é impossível fazer durar essa felicidade?, porque nos transformamos em ruínas onde nem o musgo cresce feliz nem os ratos arranjam comida, porque nos fartamos da hipocrisia e não conseguimos viver sem hipocrisia porque assim ficamos sozinhos?»
Mas não é só a falta do carinho da minha amiga que me faz estar sozinho, livre e infeliz e com vontade de me ir embora e arriscar um novo desconhecido, é algo mais, algo muito mais que outras situações igualmente desconcertantes que se vão passando à minha volta e o modo como vou sendo reduzido a menos-que-zero pelas pessoas que não me compreendem, uma sensação que vem de longa data, veio antes de eu viver na Irlanda: o menos-que-zero sentido durante uma recuperação de uma tentativa de suicídio; e veio depois da Irlanda com os internamentos e os começar do zero, na Irlanda tudo correu bem com a excepção de que o contrato não foi renovado nos moldes desejados por mim: iria ficar a ganhar menos porque perderia a bolsa de estágio dada pelo programa Leonardo (o Erasmus dos recém-licenciados) durante um ano. Isso fez terminar esse período de quinze meses de aprendizagem de vida e fez-me voltar a um ninho do qual sempre quis fugir, este país, esta cidade, as pessoas. É-me difícil às vezes explicar sem me autocriticar ou sem me queixar dos outros, como se fosse um coitadinho, porque parece que a confissão para algumas pessoas é sempre forçada, e só um coitadinho se autocritica ao mesmo tempo que se afirma misantropo.
Sou uma pessoa que não suporta bem as idiossincracias das outras pessoas porque elas muitas vezes não suportam as minhas e sou uma pessoa que tenta escrever esse porquê para que o dia lhe faça algum sentido e para que se justifique cozinhar um jantar digno de me saciar a fome criada pelo esforço feito para me sentir com sentido, com um senso racional, mas fico sempre a achar que, quando pego na caneta ou teclo no portátil, as palavras me falham. Durante a viagem de metro, os meus pensamentos pareciam-me mais vivos, mais urgentes, parecia-me necessário tentar fixá-los, escrevê-los e agora só me lembro da frase «tenho de morrer para renascer noutro lugar». No metro, esta frase parecia-me poesia, quase uma oração, mas agora ao escrever sinto que me repito e não pareço avançar na página, pareço estar a perder o que tinha começado por querer dizer, a loucura ou estado místico só é possível descrever em poesia ou relatando as condições que levaram a essa consequência, e por não ser capaz de me libertar da consequência sinto-me angustiado, sinto a necessidade de me desalojar e realojar outra vez, a minha vida é isto: ruptura again porquê? Que me explique portanto, que fale outra vez para o meu próprio ventríloco:
Sinto esta necessidade de mudar porque a comunidade onde vivo, a ilha acabou, perdeu o interesse, as amizades odeiam-se. Já não me sinto em comunhão com os meus vizinhos, chateei-me com eles do mesmo modo que me chateio com toda a gente, eu primeiro ofereço os meus serviços e depois retiro a confiança, faço o contrário das pessoas que primeiro aproveitam os serviços que recebem de quem não gostam e depois ganham confiança, chateei-me com o único que ainda se parecia dar comigo e com o qual eu sentia afinidade, a afinidade da poesia, da palavra, do acto de escrever e nunca desistir do acto criativo, viver mesmo em função dele, tornar-se louco na sua vontade de resistir aos contras do mundo, ser livre mas nunca pedinte. Chateei-me e ele chateou-se comigo e por um pedido estúpido de acesso ao facebook. Uma vergonha. Quero me ir embora por causa de uma vergonha, ter-me chateado com a única pessoa que valia a pena na ilha, ter-me chateado com o poeta por causa do facebook, merda eu sentia-me ligado ao poeta!, mas o poeta chamou-me de previlegiado e rico e de incorrecto, fino e mal-agradecido, só porque eu o não deixei ir ao facebook no meu portátil.
E como ele começasse a protestar contra o que ele dizia ser uma injustiça para ele e um previlégio para mim (ter um computador com facebook), e como eu não estivesse para o ouvir queixar-se mais uma vez de lhe terem dado um computador e ele o ter perdido ao fim de cinco dias, de o pai professor lhe bater nas aulas, de ter gasto a fortuna com os irmãos e a ele não lhe ter dado nada, apesar de o pai já ter morrido há vinte anos... como eu não estivesse para ouvir estas queixinhas mais uma vez, cortei ali o assunto dizendo que lhe já tinha dito que não o deixava ir ao facebook e que não ia sequer enrolar a ganza que ele dera para nós fumarmos naquele momento. Foi esta minha recusa, recusar fumar um cachimbo da paz por ele oferecido para me corromper e lhe deixar usar o computador, foi esta recusa que na realidade desencadeou as suas palavras: «És rico e mal-agradecido!». 
São estas palavras, é este ódio que me faz querer ir embora outra vez, cortar todas as ligações e recomeçar noutro lugar. Um ódio vindo de alguém que eu estimava e com quem me identificava apesar das diferenças, mas alguém que escrevia, que escreve, que se sente e foi de facto inustiçado, um poeta sem reconhecimento oficial mas que, como todos os poetas, se sente o melhor do mundo e a merecer o Nobel, um poeta no qual reconheço uma ilusão mediúnica que eu já tive, a ilusão de escrevermos e as pessoas certas o lerem e as nossas palavras mudaram o curso do mundo, causarem mudança, a palavra ser magia: um poeta que diz que escreveu um poema destinado a acabar com a guerra e que as suas palavras levaram à paz nessa guerra, um poeta que quase não foi ainda editado, que quase ninguém conhece fora desta cidade e a quem não vale a pena dizer (porque ele parece não compreender) que para ser Nobel teria de ter vários volumes traduzidos em várias linguas estrangeiras e até em sueco. Um poeta assim inédito chama-me rico e vomita-me ódio por não lhe enrolar o charro e não o deixar ir ao facebook, um poeta que não sabe sequer enrolar um charro sozinho, um poeta vítima de ser pobre e ter uma reforma de pobre chama-me de rico quando eu tenho uma reforma de pobre semelhante. A diferença é que ele não paga nem renda nem luz nem água nem alimentação e eu pago tudo isto com um subsídio da minha mãe e quando ela me faltar serei mais pobre do que o poeta que se diz pobre e gasta a sua reforma em tabaco, ganza, café e bolinhos e comida para a gata, enquanto eu gasto a minha reforma em comida, livros, discos, algum tabaco e ainda alguma ganza mesmo que esteja lentamente a reduzir os consumos. Como disse à minha psiquiatra, agora que reduzi os consumos tenho mais dinheiro disponível, «até vou comprando uma frutinha!», mas isto o poeta não percebe, chama-me rico porque não pareço pobre, apesar da minha reforma ser de pobre, no Alentejo (ouvi hoje na rádio) há duzentos e cinquenta mil pessoas com a mesma reforma de pobre que nós, ouviste ó poeta!
Mas de nada lhe vale dizer que ele gasta dinheiro a mais na ganza e que às vezes acende um cigarro quando tem outro ainda a queimar no cinzeiro, que a maior parte das vezes dá o charro a fumar ao cozinheiro do seu jantar ou áqueles a quem paga para lhe fazer companhia e ouvir as suas queixinhas ou o alto valor dos seus versos, para que não se sinta só e o rei regresse e ele continue a dizer que é de esquerda e uma vítima dos pais que o desprezaram quando ele se entregou às drogas. Ora como eu não choro como ele e o dinheiro me chega ao fim do mês, não pareço pobre, logo não sou pobre, para o poeta ganzado sou rico!
Talvez devesse dizer porque não o deixei ir ao facebook nunca mais no meu portátil, não o deixo porque ele não sabe usar um portátil, não sabe teclar, não vê quase nada de um olho, tem sempre o nariz em frente ao écran e nem sequer vê em que tecla carrega e abre janelas esquisitas no écran que desconfiguram o sistema e depois pede desculpas quando eu me chateio e quase chora coitadinho, e eu que resolva os problemas que ele me criou no computador, merda e logo eu que não gosto nada de informática e dos écrans azuis a dizer «prima uma tecla para continuar e outra para reiniciar.» Mas como todos os chorões que pensam que chorando vão acabar por mamar, chorou mais uma vez e eu fiz-lhe o proibido de fazer a um ganzado: recusei o seu charro. Ele levantou-se, disse que sem computador não pode trabalhar e vai morrer sem ser Nobel.
Eu não disse nada mas apeteceu-me dizer: «Fuma menos ganza, paga a dívida aos indianos e vai trabalhar para o cibercafé deles, aí poderás aceder ao facebook e aí poderás ser enganado pela gaja da Síria que te pediu os dados para te enviar um dinheiro e vir viver contigo!»
Era por isso que ele queria ir ao facebook, e de nada valeu falar-lhe que à minha amiga um gajo lhe escreveu para o facebook querendo os dados para lhe enviar um dinheiro da Nigéria, também ele era só palavras como «querida te amo muito envia a morada amor», de nada valeu dizer-lhe que é mais um esquema fraudulento, ele queria ir fazer no meu computador o que um amigo dele no seu computador não o deixou fazer: ser enganado, ele queria dar os seus dados. Como se fosse possível ela querer vir viver com ele, enviar-lhe dinheiro adiantado que ele gastaria à discrição, e dormir na mesma cama e no mesmo quarto que ele como se a casa deste poeta não fosse uma casa devoluta com pessoas dentro. O poeta diz com orgulho que tem o melhor abrigo da cidade mas o poeta não tem espelho, o abrigo resume-se a uma cama onde ele se deita e recebe os vizinhos que se sentam em duas cadeiras a ouvir as suas palavras e a fumar os seus charros, o poeta não tem espelho em casa e nem a barba sabe fazer, nem a máquina de barbear sabe usar, mas o poeta tem amigos que lhe emprestam dinheiro para ir ao barbeiro, o poeta tem uma sorte que muitos pobres não têm, o poeta ofender-se-ia se o chamassem de rico, se o chamassem de lorde que perdeu as maneiras, que precisa que lhe ponham a comida no prato, que nem um prato sabe lavar, que deixa ficar mal os vizinhos quando vão juntos ao café, o poeta que teve uma infância de rico, que é hippie e só sabe escrever poemas. Sim, este poeta com ódio aos que parecem ricos seria bem capaz de me roubar, «never trust an hippie» diz o meme e eu próprio já lhe disse «tu és mais canetas, isqueiros e livros», já me vendeu livros que, se eu não fizesse escândalo no seu abrigo ao descobrir, já estava com eles na mão prontos para os ir vender segunda vez. Agora chama-me mal-agradecido porque eu não fumo o charro dele, a sua prenda:
-- Mal agradecido és tu, que te fiz, te preparei no portátil dois livros com poemas teus para tu imprimires e ganhares dinheiro, para os quais trabalhei de graça e nos quais pus duas imagens minhas na capa, e tu preferiste dar o dinheiro à fotocopiadora e andas agora a ganhar dinheiro vendendo muitas vezes as tuas palavras à custa da bela imagem de capa, seu palhaço!, sou tão maluco como tu, tão pobre como tu, e andamos os dois a fazer de otários.
Nada disto lhe disse, pensei tudo isto nestes dias e hoje escrevi-o, mandei-o passear, cortei o poeta da minha vida. Mas também eu fico a perder. Ele apesar de ser um chato era uma companhia de vez em quando. Era o único na ilha que valia a pena. Já não tinha amigos, agora já não tenho sequer vizinhos, ouço-os passar pela minha porta, sinto-me prisioneiro dentro do meu próprio quarto. Por isso quero partir, quero ser livre de começar de novo e com novas pessoas. Quero esquecer estas pessoas. Mas partir não é fácil. O mercado de arrendamento explodiu, já nem os estudantes se safam quanto mais um reformado por invalidez...
'

Claudio Mur

sábado, 24 de novembro de 2018

Divina embriaguez

'
A lição de O Monte dos Vendavais, a mesma da tragédia grega -- e a mais distante de qualquer religião --, é a de que há um movimento de divina embriaguez, incapaz de suportar o mundo racional dos cálculos. Este movimento é contrário ao Bem. O Bem funda-se na preocupação do interesse comum, que implica, de um modo essencial, a consideração do futuro. A divina embriaguez, à qual se assemelha o «movimento impulsivo» da infância, mantém-se inteiramente no presente. Na educação das crianças, a preferência pelo instante presente é a definição comum do Mal. Os adultos interditam, àqueles que devem alcançar a «maturidade» o divino reino da infância. Mas a condenação do instante presente em benefício do futuro, ainda que seja inevitável, torna-se uma aberração quando é extrema. Mais do que impedir-lhe o acesso fácil e perigoso, é necessário reencontrar o domínio do instante (o reino da infância), e isso exige a transgressão temporária do interdito.
'

página 18

'A literatura e o mal'

Georges Bataille
edição Letra Livre
tradução de Manuel de Freitas



Página da exposição «Desvios e extravios»


com informação sobre os artistas envolvidos,
pequenas biografias que não dispensam o contacto pessoal que poderá esclarecer inverdades,
e obras passíveis de ser adquiridas

No Porto e na Galeria Cruzes Canhoto
até Janeiro 2019


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Marcin Patrzalek e a Quinta de Beethoven em guitarra solo



para fãs de guitarra clássica hardcore

Seal it over



dedicado ao manuel a. domingos
e aos seus discos.

Não o conheço, só o que apresenta no blog
mas parece-me que temos afinidades musicais no que a bandas diz respeito
embora possamos eventualmente sentí-las de modo diferente,
bem haja.

domingo, 18 de novembro de 2018

The only thing to fear is fear itself

Lyrics:

"Anything Will be alright If you come out In the night" With your life sewn open Breath in Put the bone back in Buried under the skin Murder in reverse Out of time Out of place Out of spite Swallow the spike The only thing to fear Is fear itself...

-- who cares if this is gay shit ?
-- redrum? this is fucking good crazy shit !

'''
Psychic Surgery
to restore
the whole
complete
with aspects
wrenched
by
sanitized society
''

Panic by Coil

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Caseiros de um marajá


'Caseiros de um marajá'
óleo sobre madeira
27,5cm por 32,5cm (com moldura)
2018
ZMB

Neste trabalho faço uma composição de dois trabalhos 
(um de Vermeer, outro de Degas)


Vermeer

Degas

A família Darko e os coelhos


'A família Darko e os coelhos'
técnica mista sobre papel
46,5cm por 37cm (com moldura)
2018
ZMB


Os aluados


'Os aluados'
óleo sobre madeira
23,5cm por 31,5cm (com moldura)
2018
ZMB

domingo, 11 de novembro de 2018

Podence no Porto


'Podence no Porto'
desenho a grafite, ball point pen (caneta bic preta) e pastel de óleo sobre papel
42cm por 59,4cm (A2)
2018
ZMB


(desenho a grafite em papel A2)

Nos primeiros meses deste ano de 2018,
os foliões mascarados de Podence vieram passear pelo Porto
na sequência da apresentação de um livro sobre máscaras, penso que, na Livraria Lello.

Eu fiz uma pequena filmagem com a minha camera fotográfica
e desta retirei dois fotogramas para compor este meu trabalho.

A casa do Júlio Poeta, 2


'A casa do Júlio Poeta, 2'
desenho a grafite e caneta bic preta (ball point pen) pintado a pastel de óleo sobre papel
59,4cm por 42cm (A2)
2018
ZMB


desenho A2 a grafite em papel



domingo, 28 de outubro de 2018

Com dedicatória

Virgin Prunes - Love Lasts Forever "We can run away..." I know all your secrets Please little girl I like the way you frightened, It makes me feel secure Your eyes say something special "We can run away" "We can run away" Pushed against the wall Never are we wrong You can hold my hand We can be strong A thousand ways to show I care I could give you anything I could give you everything I like the way you frightened "We can run away" "We can run away" Please close your eyes So you cannot see Go to sleep Dream of happy things... Blue sky above Hell waits below Angels dancing Angels falling Devil looks at me Spits into my eye Angels dead Angels dead Our love will last forever Our love will last forever Until the day it dies Until the day it dies Until the day it dies...




É sempre triste dedicar esta música a alguém.
'o nosso amor durará para sempre
até ao dia em que morra'

Mas neste caso, o amor nem se aplica:
como poderia eu gostar de uma little girl da qual só conheço o avatar?
Mas algo morreu e foi mais importante que o amor,
foi o carinho que lhe destinava, um carinho igual ao que dou a qualquer ser humano que me estime,
pelo menos, a qualquer ser humano que se coloque em igualdade comigo: nem acima nem abaixo.
Que essa pessoa fale agore pelas costas e me chame de lambão
e tente arregimentar sócios para a sua causa?
Podem até fundar uma liga de chá das cinco com acta e tudo,
é algo a que não darei muito mais atenção
mas assistirei no camarote e baterei palmas quando chegar o «emprego dos dias»
e deixar de haver dinheiro para o maço de tabaco e para o copo de vinho.
Pelo menos, diz ela que, quando esse dia chegar, deixará de tomar ansiolíticos e ficará saudável.
Faz-me lembrar uma pessoa que foi pedir ao psiquiatra um papel que dissesse que ela não era maluca, há poucos meses vi-a na consulta, continuava chorona, tinha chegado ao lumiar... o pior é depois.
Viva a saúde. Eu já tirei bilhete para a performance.

Não sei se foi Rousseau que o disse, mas escrevo na mesma:
«Não concordo com a tua opinião
mas não impedirei que a exprimas.
Reservo-me o direito de resposta.»

E depois há outro ditado, este mais próximo de raízes populares:
«Não deves bater em crianças, malucos, mulheres e pessoas velhinhas.»

São dois princípios ético-morais que tento seguir.
Nem sempre é fácil. O caminho é longo.


sábado, 27 de outubro de 2018

Direito de resposta a uma leitora

Acabo de ler isto e não sabendo se o meu direito de resposta não seria censurado se lá o publicasse, publico aqui:

A leitora tem uma utopia pessoal a que chama «hospedaria» e que na realidade é um blogue pessoal para o qual ela conviddou quem lhe interessou convidar. Uma dessas pessoas convidadas fui eu. Aceitei. Acontece que se a hospedaria é um espaço colectivo e heterogéneo, foi-se tornando ao longo dos tempos um espaço dedicado à leitora ler os textos dos seus colaboradores (podendo ela avaliar da qualidade e bom gosto do colaborador e preencher o seu vazio ou esvaziar a sua ansiedade) e escrever os seus textos e receber apoio e beijinhos por eles (condição necessária para que o comentador não leve com uma assertividade nas trombas). Acontece que a minha ideia de utopia colectiva pressupõe uma horizontalidade na classe e não uma hierarquia em que há uma «hospedeira» e «colaboradores», pressupõe que eu tenha o direito de escrever em iguais circunstâncias ao da hospedeira e tenha o direito de não levar com o que ela chama de assertividade e eu chamo de gongorismo hormonal (se for insulto, a leitora que o chame de «mau humor») em resposta a algo que eu possa escrever e ela não goste.
Compreendendo eu que ninguém deve ser insultado dentro da sua própria casa, resolvi, como ela diz, pirar-me preguiçosamente da hospedaria. Penso que assim a hospedeira já não terá de se incomodar com algo de que não goste e já não terá de se sentir insultada após receber a resposta que não gosta.
Que ela continue a mencionar a minha fuga ocorrida há dois meses, significa que ainda não digeriu bem a situação. A minha vida não é um blogue.

Na sua carta aberta, a leitora faz ainda considerações sobre o meu estado mental e refere a sua experiência de dois anos como assistente de psiquiatria. Aproveito para lhe dizer: não será bom aproveitar a sua experiência e aplicá-la à sua própria condição mental (já que assume a condição de ansiosa) e tentar avaliar se aquilo que a leitora chama de assertividade não a está a prejudicar nas suas relações sociais quer online quer na sua vida real.
Esperemos sem ironia que a leitora nunca precise de reforçar a toma de medicamentos para a sua ansiedade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Corolário meu sobre a utopia


Para quando uma utopia em que todas as pessoas, independentemente da sua religião, cor, sexo ou género, tenham uma função que gostem de praticar, sintam prazer em trabalhar nessa função e possam ser artistas no seu esforço, numa sociedade onde não haja hierarquia e as classes sejam horizontais e em que as pessoas não precisem de ser reclusas ou violentas para poder criar e viver o melhor possível entre os seus concidadãos com o pleno direito ao respeito pelas diferenças entre cada ser humano?

História das Utopias, de Lewis Mumford: duas transcrições

'
Não devemos, no entanto, deixar de dar atenção a dois trechos significativos [na Cidade do Sol de Campanella]: um deles é sobre o reconhecimento do papel que a invenção pode desempenhar na commonwealth ideal. O povo da Cidade do Sol possui veículos movidos pela força do vento e barcos «que navegam sobre as águas sem remos e sem a força do vento, mas antes por meio de um engenho maravilhoso». Existe uma antecipação muito clara dos avanços da mecânica tão visíveis no século XVIII. Na parte final da narrativa do capitão, o Grão-Mestre exclama: «Ah, soubésseis o que os nossos astrólogos contam sobre a era que se avizinha, que terá mais história em cem anos do que o mundo inteiro viveu nos quatro mil anos já volvidos! O que nos dizem sobre a maravilhosa invenção da imprensa e sobre as armas e o uso do íman [...].» Estando as artes mecânicas muito desenvolvidas, o trabalho alcançou um estatuto de dignidade na Cidade do Sol: não há escravatura. Todos desempenham a sua quota-parte do trabalho comum, pelo que não são necessárias mais do que quatro horas de trabalho por dia. «São ricos porque não lhes falta nada, pobres porque nada possuem; e consequentemente, não são escravos das circunstâncias, as circunstâncias servem-nos a eles.»
O outro ponto sobre o qual a observação de Campanella se revela extremamente perspicaz é a sua análise da propriedade privada e do domicílio privado com a commonwealth. Ei-lo:

    Dizem que toda a propriedade privada tem origem e se desenvolve porque cada um de nós possui casa, esposa e filhos. Isto leva ao amor-próprio, pois todos queremos deixar riquezas e honras aos nossos herdeiros. Então, ou somos tentados a deitar mão à propriedade pública -- quando somos poderosos e temidos; ou tornamo-nos avarentos, astuciosos e hipócritas -- quando somos débeis, de poucos recursos e origem humilde. Mas removido o amor-próprio, resta apenas amor pela comunidade. 

Como evitar que a utopia comunitária seja neglicenciada devido ao investimento de cada indivíduo na sua pequena utopia privada?
Este é o problema crucial que todos os nossos utopistas têm de enfrentar, e Campanella segue os passos de Platão na solução proposta. Será talvez inevitável que a experiência de vida de cada um dos utopistas se reflicta na solução que apresenta, dando-lhe muito da sua cor. É aqui que as limitações dos nossos utopistas se tornam claras. More e Andreae, homens casados, defendem a família individual. Platão e Campanella, solteiros, propuseram que os homens vivessem a vida do monge ou do soldado. Talvez estes dois campos não estejam tão afastados como poderia parecer. Se adoptarmos a teoria de Edward Westermarrck, esse excelente antropólogo, facilmente aceitaremos que o casamento é uma instituição biológica, sendo a promiscuidade, no mínimo, uma forma pouco usual de acasalamento. Platão ter-se-á apercebido disto, deixando-nos em dúvida sobre se os seus artífices e lavradores paticavam de facto a comunidade de esposas -- porventura abrindo, assim, o caminho para uma solução segundo a qual a vida normal, para a maioria dos homens, seria o casamento, com os seus interesses e lealdades de natureza individual, enquanto os elementos mais activos da comunidade praticariam uma forma menos exclusiva de acasalamento. O pintor Van Gogh fornece uma pista ao afirmar que a vida sexual do artista terá que ser a do monge ou a do soldado, pois de outra forma perturba o trabalho criativo.
Podemos deixar esta questão em aberto, desde que compreendamos que todas as utopias dependem da nossa capacidade de chegar a uma solução.
'
, página 92-93


'
Se Coketown, a Casa Senhorial e a utopia nacional tivessem permanecido no papel, seriam indiscutivelmente contribuições agradáveis e edificantes para a nossa literatura. Infelizmente, estes mitos sociais são muito poderosos. Moldaram as nossas vidas e deram origem a muitos males que, como ervas daninhas e malcheirosos, ameaçam sufocar a vida boa nas nossas comunidades. Não é por serem utopias que tenho vindo a criticar tão afincadamente estes mitos, mas por continuarem a provocar tantos danos. Pareceu-me, por isso, que valia a pena realçar que eles são tão reais como a República ou Christianopolis. Poderemos talvez abordar as nossas instituições nacionais com um pouco mais de ânimo se nos apercebermos até que ponto são criação nossa; e com plena consciência de que, sem o nosso eterno «desejo de acreditar», elas desapareceriam como fumo levado pelo vento.
'
, página 195

'História das utopias'
Lewis Mumford
edição Antígona
tradução de Isabel Donas Botto