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domingo, 18 de março de 2018

Jesse Garon Parker

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-- Quem é ele? Como se chama esse ladrão?
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, página 93

'O chão que ela pisa'
Salman Rushdie
edição Planeta DeAgostini



mas se Jesse Garon Parker é
uma personagem de Rushdie inpirada no Elvis

existe Jessé Garon
cantor e guitarrista inspirado no Elvis



talvez o Rushdie tenha bebido daqui para o seu livro
'O chão que ela pisa'

quarta-feira, 14 de março de 2018

Remendar o caos

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Hoje, estava para colocar aqui no blogue um texto de 'A atenção' de Alberto Moravia. Isto de manhã por volta das dez horas. Comecei a transcrever mas as letras da edição, que possuo e me foi oferecida pelo Giuliani, são muito pequenas e eu começo a ver mal. Além disso, Gisele, a furacona, resolveu absorver toda a luz que entrava pela minha janela virada a norte. É certo que comprei uma lâmpada led de cinco watt que fornece cinquenta e portanto poderia acender a luz para ver melhor as letras e continuar a transcrever a passagem que geralmente selecciono dos livros que termino de ler. Mas não o fiz, desisti de transcrever e guardei o rascunho, «estou a ficar cegueta... da outra vez, no poema do Giuliani transcrevi que o cão tinha a língua perfurada quando na verdade tinha a língua apenas pendurada, era a palavra 'pendurada' que estava escrita, vê só: um cão punk!» pensei «a Gisela roubou a luz, lá como se chama aquela barragem lá na China que recebe o dinheiro da minha electricidade aumentou-me o tarifário, e eu estou sem paciência para escrever...» Às vezes, desisto facilmente, é uma espécie de mentalização, a ideia de que algo não está bem cresce, vai crescendo ao longo dos dias, e eu como geralmente estou sempre sozinho passo o tempo a pensar, é natural que as ideias cresçam assim, neurónio a neurónio. Às vezes, há uma rotina para me distrair dos meus neurónios e passar o tempo mas outras vezes a agonia instala-se logo que acordo e tomo uma caneca de café de saco pelas nove da manhã. Talvez tenha sido esse o caso hoje. Não, não totalmente. Às vezes, a agonia, a sensação de mente deslocada e fora do seu suporte -- o corpo -- e que me faz abandonar tudo e me estender ao comprido na cama porque não aguento a dor de cabeça, de barriga para baixo sentindo as ondas de energia transfixarem-se-me entre a cabeça e os pulmões, o estômago e a bexiga... às vezes penso que esta sensação se deve a eu na noite anterior não ter tomado os comprimidos, ou pelo menos não me conseguir lembrar de os ter tomado, e enquanto tento refazer a rotina do fim do jantar anterior para me recordar se os tomei ou não, a vontade de agir ou de lutar vai-se, a rotina desfaz-se e mais nada no dia correrá bem, hoje não transcreverei A atenção de Moravia porque estou meio doente, olho pela janela a chuva quase saraiva, o vento perfurando as línguas dos cães e deito-me ao comprido na cama, «hoje não chega correio, tenho de ir buscar a medicação e as molduras mas vou de tarde, talvez, talvez se o tempo abrir, mas senão... fazer o quê?, hoje não tenho vontade de pintar, aquela cor tem de secar antes de eu repintar, não consigo ler, que vou eu fazer hoje, miséria de vida secante!»
O telefone toca, o farmacêutico avisa-me de que a medicação só chega de tarde porque o laboratório não a enviou por o stock ter uma validade curta, o farmacêutico ligou-me para me perguntar se não havia problema, eu disse que não, disse até logo e desliguei. Levantei-me do ninho e decidi pôr a tocar Jac Berrocal no giradiscos. Achei que tinha de consertar um pormenor numa moldura e passei assim meia hora enquanto pela janela relampejava de vez em quando. 
Primeiro, preparei um pouco de cartão canelado, cortei um rectângulo e pintei-o a acrílico em tons de azul com nuances adicionadas com amarelo. A minha ideia era colar este rectângulo ao k-line branco e disfarçar o fundo da moldura, porque num canto a placa de baquelite, que era o suporte do quadro pintado, estava amputada e parecia mal aquele branco da k-line por baixo do quadro. Eu tinha pedido ajuda à senhora da loja onde encomendo as molduras e ela sugeriu, caso eu não conseguisse, que ela mesmo abriria o verso da moldura, lascaria com x-acto o papel craft, retiraria as tachas que prendem a k-line à moldura e colaria do lado de dentro o rectângulo de cartão, «mas aí teria de lhe orçamentar a colagem e o senhor como é pintor pode fazer isso, caso não consiga ou tenha medo de danificar venha cá que eu faço... se conseguir venha cá que eu forro-lhe o verso da moldura sem custo adicional.» Na altura, fiquei sensibilizado com a sua ajuda e é por coisas como esta que eu tenho a minha lista de vendedores top para quando preciso de alguma coisa, mesmo que seja o azeite que só compro naquele supermercado, por exemplo. Fiquei sensibilizado e ela chamou-me de pintor, o que fez com que eu pensasse que não basta ser chamado de pintor, tenho também de agir como pintor e foi isso que fiz, hoje, pus-me a reparar um erro de casting: um suporte de baquelite com um corte que o torna iregular num canto e que, por isso, exigiria que eu o tivesse reparado antes sequer de o ter começado a pintar, como este quadro foi começado há dez anos e abandonado, ando ainda hoje a receber as ondas de choque, mas só porque me decidi a resgatá-lo do meu lixo artístico como se ele fosse um filho abandonado, não consigo abandonar uma tela e hoje sofro com os erros de casting, eu crio os erros e depois tento consertá-los, os pragmáticos chamam-me naif.
Almoçei e tomei o meu café de saco, pus-me a pensar que talvez fosse só buscar a medicação, porque está a chover e não queria ir de guarda-chuva numa mão e na outra a moldura para ser fechada na loja, «tanto peso e algo pode correr mal... vou lá amanhã, venho para casa e ponho-me a ler o Rushdie.» Entretanto, o sol por cima das nuvens começou a dar alguma claridade e eu pensei em acabar de transcrever o Moravia, teria tempo até sair às três da tarde mas desisti da ideia. Pus Lydia Lunch a tocar e a minha mente continuou a navegar quase apaticamente, é um daqueles dias em que me apetece não sair da cama, sem vontade até de ouvir som stereo saindo por colunas, nada para querer nada por que agir mas depois pensei «ouço o cd fumo mais um e saio, levo a moldura para fechar levo o guarda-chuva vou à farmácia e depois logo se vê se tenho luz natural ou vontade de ler ou escrever...»
Saí, entrei no metro, subi a rua e entrei na loja, a senhora atendendo uma cliente não deixou de me cumprimentar e eu fiz o mesmo. Veio outro empregado atender-me e eu entreguei a nota de encomenda para levantar e pagar o remanescente das três novas molduras, e agora vou escrever o diálogo para reforçar o que no fundo me levou a chegar a casa e escrever este texto:
-- E este trabalho, para que é?, diz o empregado olhando para a moldura que eu tinha desembrulhado.
-- Aqui, está a ver, foi com a sua colega... e apontei para o canto inferior direito mostrando o remendo de cartão que eu tinha colocado.
O senhor olhou para mim e num tom de voz que me pareceu quase demonstrar que ia resolver um problema criado por um colega disse-me: -- É para forrar?
-- Sim. Disse eu, e fiquei sem saber se ele já sabia o que eu pretendia, por a sua colega lhe ter falado que eu iria lá com este trabalho para finalizar, ou se estava zangado com os colegas que tinham feito um mau trabalho. A senhora olhou para mim e eu senti-lhe alguma mágoa no olhar, talvez ou talvez não, talvez fosse só que eu tenha percebido, que com a minha falta de palavras adequadas para explicar o que pretendia, dei a entender que me queixava de um serviço mal feito e ainda por cima apontei o dedo a dizer quem foi, e tudo isto não passava de um mal-entendido que eu criei, estupidamente não o consertei, o senhor disse que só demorava uns minutos, o trabalho veio finalizado, embrulhou-mo juntamente com os outros três que acabara de pagar e desejámos boa tarde. Saí da loja, a pensar em tudo isto, a pensar se é defeito e um sintoma ou é feitio o eu proceder assim: «a senhora ajudou-me e eu sem perceber o que eu próprio disse dei a entender que a culpa fora dela... quando não foi!, há aqui um padrão, às vezes queixo-me que o mundo me agride, e quantas vezes já não tratei mal as pessoas que me fazem bem?, por mais que tente sai merda de vez em quando.»
Há muita coisa que tenho de melhorar: há um desfasamento entre os meus actos e a consciência dos meus actos e palavras, talvez seja um défice de atenção, talvez, o meu eu-pragmático diz-me apenas para honrares a loja e continuares a lá ir fazer molduras, mas o meu eu-penitente não pode deixar de escrever este texto para registar o erro e pedir desculpa através do éter, não é a primeira vez que recorro a este meio, habituei-me a ele mas gostaria que fossem poucas as vezes em que a ele tenha de recorrer, preferia fazê-lo pessoalmente, e voltar a falar com algumas pessoas e ver se ainda seria possível remendar o caos.
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Claudio Mur

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Tudo pela vitória


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Tudo pela vitória

Se vires um polícia
correr atrás de mim com uma pistola
não lhe apontes a tua ponta e mola
Se me vires cair num horto baleado e morto
toca apenas um triste e fúnebre hino
que encha de esperança o teu coração menino
Se vires um velho cansado de mala na mão
dá-lhe a tua ajuda sê tu também meu irmão
Se vires um batoteiro prégar e bater nos filhos
é porque não acertou no totobola senta-te no chão
e deixa que entre no seu rude coração
uns acordes de viola
Se vires um cego
e uma bengala branca de Sofrimento
dá-lhe a tua ajuda
não o deixes cair com o vento
Se ouvires histórias imundas de mulheres
procura conhecê-las na beleza dos malmequeres
Se te sentires preocupado com a bomba atómica
ou a de neutrões
Segue em frente
no meio da gente
que há-de calar os maus corações
Se a morte te vencer ergue-te
tu és mais forte
O que conta é o teu querer
Se vires teu irmão na miséria
dá-lhe ainda a tua mão
não deixes que lhe falte nunca em tua casa
o teu carinho e o teu pão
Se levares pontapés em troca
não esmoreças
porque a vitória só será vitória
quando nós a merecermos
e tu que nada fazes
que só desgostos nos trazes a mereças
Sim porque a vitória também
ou é de toddos ou não é de ninguém


1984
J. Alberto Allen Vidal

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Neste abrigo nada se perde, tudo se encontra

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-- Havias de ter visto... ontem parecia um circo.
-- Um circo, então porquê?
-- Não encontro a meia, onde está a meia?
-- Vê ao fundo da cama, nas prateleiras...
-- Ah, Giuliani, procura as meias, este homem põe-me fora do sério...

Quem assim fala é a Bidente, o Giuliani e eu. Estamos na Casa 4, o Giuliani procura a meia branca de algodão que a Bidente lhe deu. Tem a outra na mão. A cama ocupa o quarto todo, à volta uma parede onde estão as fotocópias de quadros de pintores famosos e uma fotografia de Giuliani personificando Cristo na cruz durante uma procissão pascal, outra parede com armários e livros e outra parede com uma estante onde está o rádio e alguns retratos e caricaturas que um amigo do Giuliani lhe faz. «Olha aqui esta do Guevara, está fixe não está? As pessoas não dão nada por ele, dizem que ele é maluco, mas olha está fixe, quero ver se encaixilho.» Disse-me isto no outro dia, agora procura a meia junto à entrada do quarto-cama, procura por baixo da cortina.
-- Olha, debaixo da cama. Diz a Bidente.
-- Não está, a cama não tem fundo. Ó Mur, queres fazer um charrinho?
-- Está bem, tens uma mortalha grande? Não, pronto, eu uso duas das minhas e faço um l. Mas ó Bi, 'tavas a dizer que ontem foi um circo eheheh, atão porquê?
-- Tudo começou porque o bacalhau à espanhola estava uma merda, o mastodonte passou-se, o bacalhau estava duro e sabes que a Bi não tem papas na língua... Diz o Giuliani.
-- Ihihih até já lhe tinha chamado de fascista, ele ficou pior que estragado. 
-- Mas eu fiz-lhe frente, diz o Giuliani, ele sabe que não pode abusar, se não quiser que vá morar para os palácios que diz que a família tem.
-- E eu ajudei, meti-me à frente como um cento e doze, eu sou assim, estou tão orgulhosa do Giu... foi uma cenas de ciúmes na verdade, o mastodonte viu que o Giu me pôs a mão na cintura e passou-se, deu um chapo ao Giu e o Giu rispostou com um soco, eu meti-me à frente, o mastodonte chama às gajas de vacas, ele quando me punha a manápula eu tinha medo, tenho medo dele, ando há uma semana a dizer-lhe para ir ao hospital levar com o decanoato no cu...
-- É isso mesmo Giuliani, ele tem que saber que há limites, fizeste bem, tens de te defender.
-- Ele não paga nada, queria que a Bi lhe pagasse a ele, quem pensa ele que é?, as coisas mudaram, sinto-me bem, o Benjamim ensinou-me, foi ele quem me defendeu no Verão quando o Luis se passou, na altura tive medo, ele andava a dizer que a casa era dele, até queria alugar a Casa 4 e a 5, partiu-me a clavícula e eu fui amigo dele. retirei duas queixas, ele ontem passou-se e depois pôs a Bi fora da 3, e ela veio práqui, prá minha beira, estou tão feliz...
-- Só não consegues encontrar a meia, não te arranjo mais meias!, ah eu não posso viver aqui, passo-me com a falta de higiene, eu vi um anúncio perto do albergue, amanhã tiro o número...
-- Calça já essa para não a perderes... digo eu. Viro-me para a Bidente e continuo: -- Não Bi, não precisas de te ir embora, só precisam vocês os três, tu, o Giuliani e o Rui de arranjar maneiras de todos contribuirem para o bem-estar desta casa, por exemplo, tu tratares da limpeza, o Rui ir buscar água, o Giuliani... não sei, mas vocês são muito taralhoucos, já no tempo do Speed e do Ben as meias desapareciam eheheh mas na altura a culpa era do cão, agora não sei é preciso ter mais paciência...
-- Ah este homem tira-me do sério.
Eu vejo o Giuliani com um cigarro numa mão, a outra a levantar a cortina e a procurar no chão entre a cama e a parede com a prateleira do rádio. Ele está stressado porque não tem mais cigarros e quer ir comprar. Faz tenção de calçar os sapatos sem meias e, quando pega num deles, embate no aquecedor que se vira e danifica, parte-se uma das três varetas eléctricas e os vidros caem ao chão.
-- Cuidado Giuliani, olha os vidros, cuidado com os pés.
-- Olha encontrei, vou calçar esta.
Vejo-o calçar uma meia azul, a meia desirmanada que ele procurava era branca. Vejo e a Bi não porque está na sala, mas eu não digo nada senão ela irrita-se, ela diz que o Giuliani tem cultura mas está a ficar primitivo. É um pouco verdade, às vezes penso que o Giuliani se desleixa com a saúde, penso não, desleixa-se mesmo, perdeu a medicação pós-operatória há dois meses atrás, a gente até pensou que alguém a roubasse para ir vender no mercado negro mas, afinal, foi encontrada um mês depois ao fundo da cama, o problema é que o problema de pele, ao qual tinha sido operado, passou~lhe para a orelha, agora alastrou para a cara, porque ele não tomou os antibióticos na altura certa, vá-lá que houve um enfermeiro na Caixa que lhe fez um penso a cobrir a cara toda, assim ele não vai lá coçar o pus.
Agora já ele calçou os sapatos, faz ideias de ir ao café buscar o tabaco.
-- Espera aí Giu, olha o charro, fuma um pouco, acalma um pouco, relaxa.
Entretanto o Rui entra em casa, estamos todos a mudar a nossa opinião acerca dele, está a fazer-se à vida, arranjaram-lhe um curso de formação num centro textil, três dias por semana, subsídio de almoço e de deslocação, são mais algumas dezenas de euros por mês, está contente, a Bidente aproveita para me contar que o Luis quando a expulsou da Casa 3 convidou o Rui para jantar.
-- Sentiu-se sozinho ihihih.
O Riu ri-se monocórdico: -- Ah a conversa dele, só filmes, esteve no Afeganistão como sniper, matou o terrorista, apanhou o avião para casa, aterrou no lago e ainda acordou antes de nós, só filmes...
-- E quando ele disse que foi a Madchester... ouviram bem, a Madchester tocar quatro horas e meia no concerto de solidariedade ihihih. Ri-se a Bidente.
-- Bem, Bi, sabes o que eu acho, tu estavas a dormir com o inimigo, tu dormias a dois metros do colchão dele, a imaginação dele cresceu, o teu sofá estava mesmo ali pertinho...
-- Não, ele não era inimigo, ele não toma, é, os comprimidos, qualquer dia está aqui a polícia para vir buscá-lo para o acompanhar ao hospital. Mas ele, às vezes, até era fixe, tínhamos conversas interessantes, falávamos sobre sexo...
-- Atão claro, interrompi eu, é o que eu digo, a dormir com o inimigo, é natural, a imaginação cresceu, cresceu.
Repito e faço um pouco de silêncio dramático para que ela perceba que além de ter crescido a imaginação também cresceu mais qualquer coisa ao mastodonte. O efeito na Bidente foi tão grande que ela disse:
-- De facto, tens razão, eu andava mesmo a dormir com um inimigo, ah aquelas manápulas...
-- Olha, vou-vos dizer uma coisa, vocês não se passem com ele, mas o Giuliani não foi sem meias ao café, ele calçou uma branca e uma azul, vá lá, tenham paciência, não lhe fodam a cabeça, a meia aparece. Levem na desportiva. Riam-se apenas, dormirão melhor.
Começo a fazer outro charro quando Giuliani chega. Senta-se em cima da cama em frente a mim que estou na sala, sentado na poltrona de executivo que encontraram no lixo. A Bidente e o Rui estão ao meu lado sentados em bancos. A Bidente repara na cor das meias quando ele passa e ri-se para mim. O Giuliani tira os sapatos e mostra o saco com os novos sapatos que um amigo do café acaba de lhe oferecer, estende-se ao comprido, puxa de mais um cigarro, mete-o na boca, procura o isqueiro.
-- Onde está o isqueiro, alguém viu o meu isqueiro vermelho?
-- Este é meu, diz o Rui.
Giuliani leva a mão ao bolso e, surpreso, olha para mim. Eu olho para a mão dele e vejo que ele tem a meia branca, aquela que faltava, na mão. Desato a rir:
-- Ahahahah olhem, o Giuliani andava à procura do isqueiro, meteu a mão no bolso e encontrou a meia ahahah o Giuliani é o maior.
-- Eu sou mágico, neste abrigo nada se perde, tudo se encontra.

Agora só falta encontrar o isqueiro mas agora vou-me rir até adormecer. O riso é terapêutico
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Claudio Mur

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Beto police on the dread

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Horace, um agente da polícia, estava a preparar frangos do campo Rock Cornish para um jantar especial. Estes frangos do campo estão congelados, duros que nem pedra, pensou Horace. Tinha vestidas as calças azuis do uniforme.
Dentro dos frangos do campo estavam os miúdos num saco de plástico. Usando o alicate de pontas finas, Horace extraiu os miúdos congelados do interior das aves. Hoje a noite vai ser o baile da polícia, pensou. Vamos dançar até de madrugada. Mas, antes de mais nada, estes frangos do campo têm de ir para dentro do forno a cento e oitenta graus.
Horace engraxou os sapatos pretos de atacadores. Será que Margot iria «para a cama» com ele naquela noite? Naquela noite tão especial? Bom, se não fosse... Horace remirou os pescoços de frango, que o alicate dilacerara. Não, reflectiu, este pensamento não é apropriado. Porque eu sou um membro das forças da ordem. Tenho de tentar refrear o meu ódio. Tenho de tentar ser um exemplo para o resto das pessoas. Porque se elas não podem confiar em nós... nos homens de uniforme azul...
No escuro, à porta do baile da polícia, a mais negra melancolia esperava por Horace e Margot.
Margot estava sozinha. As companheiras de quarto dela tinham ido passar o fim-de-semana a Provincetown. Pintou as unhas com verniz de pérola, para condizer com o tecido cor de pérola do vestido novo. Vão lá estar coronéis e generais da polícia, pensou. O condestável da polícia em pessoa. Ao rodopiar diante do palanque, irei volver um olhar para o alto. O tom de pérola dos meus olhos a cruzar-se com o cinzento de aço das altas patentes.
Margot meteu-se num táxi e foi até à casa de Horace. O taxista estava a pensar: Que bela lasca. Era bem capaz de dar umas voltinhas com ela.
Horace tirou as aves do forno. Enfiou pequenos anéis de folhos dourados, que vinham incluídos na embalagem, nas pontas das pernas dos bichos. Em seguida, tirou a rolha do vinho, pensando: Esta cidade é impiedosa, impiedosa. Para aqueles a cuja voz falta o timbre da autoridade. Felizmente, o uniforme... Porque é que ela não se me entrega? Será que se julga capaz de resistir à força? À força das forças de ordem?
«Estes frangos estão deliciosos.»
Conduzindo Horace e Margot suavemente até ao arsenal, o novo taxista pensava acerca de basquetebol.
Porque é que as pessoas aplaudem sempre o homem que lança ao cesto?
Porque é que não aplaudem a bola?
É a bola que, na realidade, entra no cesto.
O homem não entra no cesto.
Nunca vi um homem que entrasse no cesto.
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páginas 232-233

'60 histórias'
Donald Barthelme
tradução de Paulo Faria
edição Antígona



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Um pintor de cavanhaque

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Eu, Mur, me pergunto: escrever, escrever porquê, escrever para quê?, eu que não sou, não me considero escritor pergunto porque ainda escrevo textos. E porque digo que não sou escritor se até tenho já cinco livros editados em papel e encadernados pela minha própria casa e três já disponíveis em pdf no archive-ponto-org? É assim tão diferente a minha situação daqueles que escrevem para a gaveta?, não escrevo eu para a gaveta também? E porque escrevo eu para a gaveta? Há muito tempo, enviei para uma editora uma encadernação em papel A4 do que pensava ser o meu primeiro livro acabado e eles responderam dizendo que a obra era original e que a editariam se eu pagasse na altura quinhentos euros pela edição de três mil exemplares, eu telefonei para lá dizendo que não tinha esse dinheiro e eles sugeriram que eu arranjasse patrocínios, eu desinteressei-me, fiquei a pensar que aquilo não era uma editora e era mais uma tipografia, foi também numa altura em que eu estava mal psico e fisiologicamente, abandonei mesmo o livro, deixei-o de lado, mas as palavras não me largaram, não descolaram da memória, tornaram-se fantasmas, o que era verdade tornou-se ficção por não haver testemunho e o que era ficção saltou da campa para me abismar, coisas mal resolvidas que se iam diluindo em quadros como gritos pincelados a partir de ideias navegadas entre a memória e o meio-ambiente, ia tentando arranjar um emprego quando sentia que nada de útil sabia fazer, o stress era diário, todos os dias caminhava meia-hora até ao cibercafé para ver se havia propostas de entrevista no email e quando uma aparecia eu ia e eles olhavam para mim e diziam que depois ligavam, a medicação deixava-me em estado rigído com os nervos e músculos atrofiados, descer escadas sem mexer a cabeça seria mais fácil a um aleijado do que a mim, ele já estaria treinado para esforços físicos, eu era novo ainda mas parecia um inválido, pensei que uma editora queria simplesmente ganhar dinheiro à minha custa. Verifiquei que se pagasse eles editariam um livro cheio de erros ortográficos e gralhas não pretendidas. Escrever por isso para quê? Para que algo bem feito, algo de bom se transmita, algo faça o mundo girar em certa direcção, escrever para criar um lóbi, escrever para ter dinheiro nos bolsos, para ter cem mil amig@s na conta do face mandando beijinhos e forças e abraços? Porque escrevo eu em primeiro lugar?, sei porque escrevi no passado, escrevi para me libertar do que estava mal dentro de mim, daquilo que era errado fazer, escrevi talvez para contar uma história de como um gajo pode andar a vida inteira sem nunca perceber o que anda cá a fazer, a espécie de confissão de um Dostoievski louco e não epiléptico, se anda cá para agradar aos outros já que ninguém nos agrada, há um grau de paranóia no mundo em que eu vivo, será que eu vivo?, será que me respeitam será que eu respeito os outros?, a comunicação é dolorosa, faz-se de quase-agressões a todo o momento, coisas que ficam no ar quase-ditas, os olhos que as pessoas fazem e o significado que imagino nesses olhos, as pessoas limitam-se a ganhar o seu e a afastar quem lhes pode causar problemas, escrever, escrever, escrever a agressão diária?, escrever que estive duas horas e meia no centro de saúde e vi a médica sair para ir tomar café e voltar e meter à minha frente um ou mais doentes para depois me dizer que se era para pedir uma receita podia ter feito um pedido por escrito?, escrever o que está mal no mundo, escrever para quê?, vai a médica mudar o seu modo de atender os doentes?, vai ao menos dizer-lhe boa tarde quando ele entra no seu gabinete?, não, vai fazer tudo igual no dia seguinte e ainda queixar-se que tem muito trabalho, escrever talvez que lhe disse que a última consulta tinha sido há seis meses, escrever que lhe dei a entender que o seu trabalho não vale nada assim, deverei eu estar a cair de morto para aí se preocuparem comigo, escrever que saí de lá com fúrias e que  por causa da fúria quase tratei mal uma mãe cigana, vestida de preto que trazia o filho à consulta marcada para uma hora à qual eu ainda não tinha sido atendido, escrever que a funcionarária em atendimento usou a minha fúria para dizer à mãe cigana que ainda teria de esperar mais, e que por causa disto não consigo descansar, é por isso que escrevo, escrevo para ver se a ansiedade me deixa dormir, escrever um livro do ressabiado, dizer os males que me fazem, escrever que me quiseram publicar um livro que estava cheio de erros ortográficos, será que o leram, será que ia haver um revisor de texto, será que um editor não se preocupa com a qualidade do que publica, ou são tudo sociedades anónimas onde o editor se descarta e remete para o autor a responsabilidade?, eu fui revisor do meu próprio texto e ainda hoje encontro erros, gralhas nos pdf online, eu quis ser tudo e a tarefa é grande demais para uma só pessoa, mas lá está ninguém se interessou e eu também me desinteressei, não procurei outros editores, não conheço muitos, não tenho amigos no meio, e os amigos publicam os amigos, eu não sou escritor, eu sou um escrevedor, quem é escritor é o meu vizinho Giuliani, mais velho que eu quase vinte anos, esse sim, sempre de livros e cadernos e esferográficas na mão, sempre a escrever poemas, eu à beira dele não posso ser escritor, não levo vida de escritor, a minha vida de escritor resume-se a dois ou três anos do meu passado, refere-se à passagem da universidade para o hospital passando por um período de emprego, foi nessa altura que mais escrevi, também eu andava entre casa e o café com livros na mão, ia ler e fumar para o café, a lei do tabaco acabou com a minha vida de café e o tempo em que eu ia ler para o Armenia Bar às três da manhã já é apenas uma memória selectiva, não foi só a lei do tabaco, foi também o aparecimento de um quase-sósia no café, Claudio como eu entrando de livro debaixo do braço, mas ele todos os dias trazia um diferente, parecia ser o seu objecto equivalente a uma mala de senhora, nunca falava do livro «que andava a ler», anos mais tarde faliu uma imobiliária, cansei-me, cansei-me de escrever e de andar com molesquines, só durante surtos psicóticos posteriores no que chamei as cartas-bomba a escrita voltou, tornou-se epistolar, agora, escrever é rever todo esse caos e o modo como eu me conjugo agora com o caos, o mundo, a selva, como eu dou um sentido ao dia-a-dia, as ligações que vou fazendo. O Giuliani tem isso tudo também, à maneira dele, e também ele está bloqueado num período do seu passado, o tempo que passou em Angola, o boi-cola que ia comprar aos musseques, os palácios dos pais dos amigos que visitava e com quem acampava no Mussulo, também ele tem saudades de um idílio que não voltará, eu talvez já me tenha desinteressado de ter saudades, poucas pessoas ficaram desse passado, com poucas tenho contacto e não é difícil esquecer-me até das caras das pessoas, um amigo com quem não falo há quase três anos trabalha agora como segurança no centro de saúde, passei por ele e não o vi da primeira vez, eu esqueço-me das pessoas, vou vivendo o dia com a comunidade, aprendendo histórias, uma ou outra lição de vida com o Giuliani, fiquei a perceber que há famílias bem piores que a minha, eu que me queixo de indiferença e falta de amor... não posso senão concordar que a família do Giuliani o trata bem pior, contou-me que o quiseram interditar, pô-lo debaixo de um tutor tinha ele já mais de trinta  anos, chegou mesmo a ser internado e a receber tratamento de electrochoques na Casa Rosa, isto em 1984, por causa de um charro, por causa de fumar ganza, a família pô-lo fora de casa, deixou de lhe dar dinheiro, preencheu-lhe os papéis para uma reforma de invalidez e obrigou-o a assinar a sua condenação à indigência, deu-lhe três casas devolutas com telhado, a irmã desloca-se do seu palácio para visitar o outro irmão internado-para-sempre na Casa Rosa e nem uma visita de cortesia ao Giuliani lhe faz!, eu ouço ele contar tudo isto e depois pergunto a mim próprio porque me queixo de as minhas irmãs quase não me telefonarem, da minha mãe me ligar uma vez por semana, do meu pai mal me dirigir a palavra, o pai do Giuliani deixou de lhe dar brinquedos aos seis anos porque ele espatifou um carrinho de brincar... tirando todo o exagero, a minha história é pequena em comparação com a de Giuliani, ele vende uma encadernação A4 a preto e branco de um livro seu por vinte euros, os meus textos pouco valor têm em comparação, há muito que tenho dificuldade em escrever, há muito que descobri que prefiro pintar imagens, há muito que deixei de querer ser tudo, sou apenas um pintor de cavanhaque que foi vêr a exposição da Mariza Merz a Serralves.
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Claudio Mur




quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Publicidade literária:
Barthelme, João Ubaldo Ribeiro, Diogo Vaz Pinto e Alface por Teresa Carvalho

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Ontem à tarde, encontro o Rui na Casa 4, ou melhor, o Rui encontra-me na sua própria casa. eu estava a ajudar o Giuliani a colar na parede do seu quarto impressões em papel formato A3 de quadros de piintores para os quais estou a fazer algumas versões. Aproveitei para fotografar Giuliani, talvez o venha a pintar, tenho ideias de fazer composições em tela dos meus vizinhos. O Rui que anda longe e só chega noite dentro para dormir, entra e, cheio de alegria, cumprimenta-me, a Bidente vem atrás porque lhe cheirou à ganza do Giuliani e com grande lata-de-pau pois, uma hora antes, ela tinha-lhe dito, à frente de todos nós, que ele causava mau ambiente, foi aí que ele, Giuliani, me convidou para irmos para a casa ao lado. Mas, na realidade, a Bidente sentiu-se só, entrou e disse «o mastodonte está a dormir.» Ora, compreendi eu «a dormir o mastodonte, como tu lhe chamas, não representa besigol...» mas fiz por lhe sacar à socapa uma foto e ela, zangada ou surpresa com a audácia, ordenou-me, é quase o termo para o seu tom de voz, ordenou-me que ligasse o cilindro para ela tomar banho e eu respondi-lhe que só Domingo próximo. Como o Giuliani me fez sinal, disse à Bidente que queria falar a sós com Giuliani, foi uma espécie de chamada à ordem, afinal, ela parece putativamente a nova mandona em duas casas ocupadas e está a querer tomar banho duas vezes por semana no meu polivan, pensando talvez que o meu alojamento é um hotel com electricidade de graça. Por isso e como ela estava feita estátua em mármore, apliquei-lhe a taxa turística e repeti-lhe se não se importava de abandonar a Casa 4 para eu ter umas palavras com Giuliani. Para a compensar da sua descida à realidade e, também para poupar ao Rui e ao Giuliani a ida ao fontanário para recolher bidões de água, disse que lhes arranjaria a água eu-próprio. 
Eles vêm comigo buscá-la, eu trago o casaco que troquei com o Giuliani e com o qual agora já não vou passar frio e ao mesmo tempo melhorar a minha aparência em público, quando sair do buraco e me tornar mais apetecível aos olhares femininos, Valha-me Cão, foi assim que gastei o dinheiro do último quadro que vendi: dois pares de calças de ganga em saldo, um casaco comprido em terceira mão, um almoço no restaurante à patrão e o sinal de entrada (metade do valor) para três molduras em caixa alta de madeira, uma nova tela para pintar «O circo de amigos» a partir de Chagall. Fiquei com trinta euros para comprar comida e tabaco. Ainda assim, o vício da literatura tentou-me e pensei em comprar «A casa dos budas ditosos» de João Ubaldo Ribeiro, lembrei-me da tesão que a sua leitura parcial me deu há anos numa noite surrealista numa livraria-galeria, entretanto já falida, onde vi o livro à venda pela última vez. O vício deste livro tentou-me uma vez mais, mas ainda não foi desta.

Oito horas da noite, não me apetece demorar muito tempo na cozinha, arranjo três sandes de pão-de-forma com duas fatias de queijo, uma de mortadela, um bom pedaço de omolete e duas salsichas grelhadas, ponho o café de saco a ferver, tomo a medicação rotineira e lembro-me que o Rui não tem aparecido em casa a horas decentes porque não tem quem lhe cozinhe o jantar, a Bidente anda sempre a mandar bocas dizendo ao Giuliani para o põr debaixo da ponte, e eu tenho pena do Rui porque ele é esquizofrénico como eu, aliás como muitos nesta comunidade e todos, mesmo a Bidente, já passámos pelo sistema hospitalar, o Rui é como eu, como a Bidente, como o Giuliani, como o Luis, como o amigo Dário saído há um mês da Casa Rosa onde esteve noves meses em tratamento a uma psicose tóxica e enquanto a assistente social não lhe arranjou um quarto, todos fumamos e alguns tomam metadona, alguns recebem uma injecção quinzenal intra-muscular na nádega, e eu sei que o Rui não jantou, a Bidente não cozinha para ele, aliás, tenho sérias dúvidas de que saiba cozinhar, uma vez de passagem em casa deles reparei que ela perguntou ao repatriado Benjamim como se cortavam batatas para fritar, o Luis também se desenrasca mas era Ben que cozinhava para todos, agora que ele se foi embora ninguém cozinha de tacho, comem o que a associação de caridade lhes oferece: sandes, iogurtes fora de prazo, sopas e fios de ovos, bolos de creme e pão de sementes, «... se ao menos dessem carne e sacos de arroz e massa, agora doces e guloseimas...». Nada disto chega à boca do Rui, ela não deixa, ela que rouba brincos nas lojas dos chineses está obcecada e diz que ele lhe roubou o topo-de-gama, ela quer ver o Rui fora da casa, casa!, um abrigo, não passa de um abrigo com telhado!. e eu penso a meio da minha segunda sandes mista: «vou-lhe ligar e dizer para vir aqui.»
Ele chega e eu pergunto-lhe se já comeu e ele diz que não, ofereço-lhe uma sandes, arranjo-lhe um iogurte líquido para ele não se empanturrar, verto a cafeteira para duas canecas e preparo um dos charros que o Giuliani me arranjou. É ai que Rui me diz que o seu jantar costuma ser duas sandes mistas e uma cerveja no café onde tem conta mensal, paga quando recebe a reforma, paga cinquenta euros ao Giuliani por um colchão numa casa sem porta, sem água, sem luz e sem comida, compra tabaco barato ao Adriano e fica sem dinheiro dois dias depois. Digo-lhe para nunca deixar de pagar ao Giuliani todos os meses: «tu não arranjas mais barato e em nenhum quarto tens comida grátis, a tua reforma tal como a minha é pequena, mas nunca te esqueças de pagar, isso é uma garantia para que não te obriguem a sair, sabes que a Bidente manda mais ou menos no Giuliani, ela não gosta de ti...»
Rui pergunta-me o que estou a ler e eu digo-lhe que é um livro de Donald Barthelme e falo-lhe das histórias absurdas e sem sentido, dou um exemplo: « eh pá, uma história é uma gajo a falar, começo a ler e leio um gajo a falar, um monólogo ao longo das frases, depois começo a reparar que ele está a falar para dois amigos que de vez em quando vão também falando com inserções de parágrafos em calão acerca da vida familiar, e depois reparo que eles estão num carro a falar, conduzem um carro e conversam a caminho de algum lado, eles falam do caso em que um deles foi abandonado pela mulher que partiu para o estrangeiro num avião, alguns calam e lembram na sua memória o seu caso semelhante acontecido anos antes, depois viram-se para o defunto e dizem que não acreditam nele!»
«Não acreditam nele?!» diz Rui. «Conta lá isso melhor, Mur?»
«Dizem que ele não está a contar os pormenores, dizem que falta emoção e que ele está a mentir, que não está a contar que roupa vestia ela, o que jantaram juntos pela última vez, a frase fatal, etc. sei lá, e depois a história acaba com eles saindo, acho que, numa estação de serviço e dando-lhe uma carga de porrada eheheh, é absurdo!»
Despeço-mo do Rui e venho ler para o quarto, leio mais uma história e decido fazer o último finex, abro o email e vejo uma nova mensagem de uma livraria em Derza, faço planos de ir lá amanhã gastar os meus últimos euros e comprar «Ultimato» de Diogo Vaz Pinto e «Alface. Levantar as saias ao Diabo», dois livros da editora Maldoror. O que vale é que dia 8 recebo a reforma.
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Claudio Mur

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Fazia o meu ensaio na literatura frascária

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Três dias de recolhimento, com os meus passos tolhidos pela asma. Ficava no quarto do tio Juca a pensar disparates, a ler os livros dele, de cima da cómoda. Havia um que lia todas as noites, uma meia hora antes de adormecer, com um castiçal perto da rede: era um romance imoral, com umas figuras como aquelas dos cartões que ele tinha. E quando ele saía eu ficava a ler o livro com a excitação de quem estivesse com uma rapariga no quarto. O Santa Rosa lá por fora devia estar nos seus dias maravilhosos, pois levantara-se o sol para fazer mais verdes os campos e abrir as flores de todo o jardim que era o engenho. Mas nos meus dias de doença o livro do tio Juca fechava-me os ouvidos e os olhos a tudo que não fossem aqueles amores dos seus heróis. Fazia o meu ensaio na literatura frascária, e nunca um livro se ligou tão intimamente com as minhas tendências. Lendo-o, era como se estivesse animando os meus sentidos doidos por se soltarem. O homem da história só vivia de beijos e de coitos; as mulheres expunham-se nas figuras em trajos naturais.
Podia o Santa Rosa dar festas com todos os encantos da sua natureza, enfeitar-se nas estacas do cercado com o florido das suas trepadeiras. Podia o mussambé cheirar como um frasco de essência derramado pelo caminho. Eu não sabia de nada, com a minha asma a piar, e naquele mundo diferente daquele em que eu vivia, o mundo alegre do romance do tio Juca.
A literatura começava a seduzir-me com ares assim de deboche. Era o primeiro livro que lia do começo ao fim por gosto, sem a obrigação da lição. E a leitura empolgou-me de tal forma, que me confundia com o desejos libertinos da história. O tio Juca passava o dia inteiro fora. Vinha para o almoço, e voltava para o serviço até à noitinha.
-- Você anda a ler os meus livros hoje, bem?
E não ralhou comigo. Tirava a roupa e deitava-se na rede para o seu sono profundo. Com as minhas vigílias de asmático, ouvia o seu ressonar ritmado, forte, bem diferente daquele estertor de Aurélio. Achava boa a vida do tio Juca. queria ser como ele. Tinha dinheiro no bolso para gastar. Fazia tudo o que desejava. Ia ao Recife de vez em quando. Ninguém mandava nele.
(...)
-- Não leia estes livros, que fazem mal -- disse-me sem ralhar, advertindo somente.
Doutra vez:
-- Você está amarelo de mais! Que diabo é isso? abra os olhos: isso faz-lhe mal.
Eu sabia o que o meu tio pretendia ferir, até onde ia a sua malícia:
-- Você precisa de dar um passeio por fora.
Sabia também a extensão do seu conselho. Um passeio por fora, chegar terra para o pé da cana, era como eles se referiam à necessidade do coito para a saúde. Eles tinham este preconceito contra a castidade. Atribuíam à abstinência uma porção de males. Havia amarelos por isto, doidos por falta de mulher. Vinha ao engenho um parente nosso, chamado Fernando, que sofria de ataques.
-- Aquele bicho precisa é de vadiar um pouco -- dizia o tio Juca.
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, páginas 135-137

'Doidinho'
José Lins do Rego
edição Livros Unibolso

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A Vontade de Ordem

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Pode definir-se a ciência como a redução da multiplicação à unidade. Ela procura explicar os fenómenos diversos da natureza, ignorando a especificidade de acontecimentos particulares, concentrando-se naquilo que têm em comum e, finalmente, deduzindo uma espécie de «lei» que nos permite compreendê-los e lidar com eles. Por exemplo, as maçãs caem da árvore e a Lua move-se no céu. As pessoas observam estes factos desde tempos imemoriais. Como Gertrude Stein, estavam convencidas de que uma maçã é uma maçã é uma maçã, enquanto a Lua é a Lua é a Lua. Coube a Isaac Newton perceber o que estes fenómenos muito diferentes tinham em comum e formular uma teoria da gravitação nos termos da qual certos aspectos do comportamento das maçãs, dos corpos celestes e de tudo o resto no universo físico podiam ser explicados e abordados em termos de um único sistema de ideias. Com este mesmo espírito, o artista parte das inúmeras diversidades e especificidades do mundo exterior, bem como da sua imaginação, para lhes dar um significado dentro de um sistema ordenado de padrões plásticos, literários ou musicais. O desejo de impor ordem na confusão, de gerar harmonia a partir da dissonância e unidade a partir da multiplicidade é uma espécie de instinto intelectual, um impulso primário e fundamental do espírito. Nos domínios da ciência, da arte e da filosofia, os mecanismos daquilo que posso designar como «Vontade de Ordem» são sobretudo benéficos. É verdade que a vontade de ordem produziu muitas sínteses prematuras com base em indícios insuficientes, muitos sistemas absurdos de metafísica e biologia, muita confusão pretensiosa entre ideias e realidade, entre símbolos e abstrações para os dados da experiência imediata. Mas estes erros, ainda que lamentáveis, não são muito prejudiciais, pelo menos directamente - embora por vezes aconteça que um mau sistema filosófico possa ser nefasto de maneira indirecta quando é utilizado como justificação para actos insensatos e desumanos. É no âmbito social, no domínio da política e da economia, que a Vontade de Ordem se torna realmente perigosa.
Aqui, a redução teórica de uma multiplicidade difícil de gerir a uma unidade compreensível transforma-se na redução prática da diversidade humana à uniformidade sub-humana, da liberdade à servidão. Em política, o equivalente de uma teoria científica ou sistema filosófico plenamente desenvolvidos é uma ditadura totalitária. Em economia, o equivalente de uma obra de arte é uma fábrica a funcionar sem incidentes, em que os trabalhadores se encontram bem adaptados às máquinas, A Vontade de Ordem pode converter em tiranos os que apenas pretendem pôr cobro à confusão. Utiliza-se a beleza da ordem para justificar o despotismo.
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páginas 45-46

'Regresso ao admirável mundo novo'
Aldous Huxley
tradução de Luis Leitão
edição Antígona

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O filho disfuncional e o desabafo sincrético

"sincretismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 
2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/sincretismo [consultado em 08-01-2018].
3. Amálgama de concepções heterogéneas.


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Olha, Via Láctea minha irmã, olha que eu não tenho inveja do que o pai te dá a ti ou à nossa irmã, a sério que não, eu apenas queria o que é meu por direito, o que é justo, tu bem vês como o pai me trata, ainda agora por causa da maçaneta da porta do anexo, eu a falar-lhe que a fechadura precisa de um parafuso para fixar a maçaneta, e que sem esse parafuso quando se fecha a porta fica-se com a maçaneta na mão, o que pode impedir que a porta feche bem... e tu viste como ele me falou, mandou-me comprar uma fechadura, tu até intervieste protestando dos seus modos de falar comigo, ora eu não moro cá, o anexo não é minha propriedade, a casa é dele e ele manda-me comprar uma fechadura, parece que não se importa que o roubem, olha que aquilo já está assim... já dei pelo problema há seis meses, no Verão, e eu é que sou o nabo porque lhe tentei falar de um problema na sua propriedade e é isto, não me fala direito, até parece que não sou filho dele, trata-me mal, desde pequeno que é assim, parece que nunca gostou de mim, um dia por causa de uma birra minha mandou-me para a escola com um olho negro, tu eras bebé, não podes recordar, ele tem mais respeito aos meus cunhados do que a mim, eu é que sou o filho, mas ele agora tem dois filhos novos que foram igualmente abandonados pelos pais e que agora são seus filhos-genros, ele com eles fala bem, quando chega o Domingo e vocês chegam para almoçar ele deixa o que está a fazer para vos vir cumprimentar, e eu chego antes de todos vocês apesar de vir de transporte público e ele não faz o mesmo esforço, tenho que ser eu a ir procurá-lo para lhe dar um beijo, pois eu estou farto deste tratamento, tu bem viste no outro dia em que chegámos os três a casa e tu tocaste à campainha e eu abri a porta porque tenho a chave que ele me deu e se tu não ouviste ele dizer-me «então, entras em casa sem avisar!», se tu não ouviste eu protestar com ele, por ele me estar a chamar de gatuno, foi porque eu decidi ignorar em vez de lhe dizer «arranja a campaínha!», ignorei porque estou habituado a ignorar este tratamento, e sabes porquê?, porque senão sou eu que berro alto, sou eu que faço escândalo, é a mim que a tampa salta e estrago o almoço de família e porquê, por causa destes pequenos pormenores que me caem mal, é que vocês chegam para comer à uma da tarde mas eu chego antes, e nessa meia-hora ouço e vejo muitas coisas que me desagradam que me fazem ficar de trombas todo o almoço, porque se protestar sou eu sempre o mau, aliás tenho currículo de maluco, mas eu digo-vos, que eu se errei no passado, se vos fiz mal já admiti, já confessei, já fui condenado, já paguei a minha dívida, já não faço nada de errado, nada que me envergonhe ou tenha de esconder, eu não tenho de ignorar e ficar de trombas todo o almoço nem tenho de ser hipócrita com as banalidades e novos-riquismos que se palram nestes almoços, eu sempre que venho comer aqui fico doente, pois eu não quero ficar doente outra vez, eu não preciso de vir aqui para ficar doente, eu não preciso de comer bifes de dez euros, ou cabrito ou lombo ou seja lá o que for, eu não preciso de nada disto, eu não morro à fome, eu sei cozinhar, se há coisas que as minhas namoradas me ensinaram foi a cozinhar, eu não morro à fome, não preciso de vir aqui para comer, para ficar doente, posso comer sempre arroz mas não preciso de vir aqui, eu sei porque as coisas estão assim, estão assim desde Fevereiro do ano passado, desde que eu descobri que o dinheiro que ele me dava vinha afinal da mãe, quando houve aquele desentendimento e ele descobriu que eu descobri e ele se sentiu desautorizado, quando no fundo o dinheiro não era dele e ele tinha tiques de dono do dinheiro, desde essa altura que ele me trata mal, há um ano que esta merda corre e eu a encher a cabeça, a engolir, a calar, a ignorar, pois não pode ser, e digo mais, virei cá das próximas vezes para retirar o que ainda é meu no anexo: os quadros, os cds, os livros, e depois se alguém assaltar a propriedade... já nada é meu, acreditem que estou a ficar indiferente, acreditem que esta selva em que nos dizem que temos de viver... esta selva diz-me que eu tenho de ficar indiferente, no passado emocionei-me, indignei-me, protestei e o resultado foi ficar doente, quatro vezes internado quatro vezes a recomeçar do zero, pois desta vez não , não vou adoecer, não vou deixar que por vossa causa, por causa do mundo, da selva, por causa de eu não saber reagir educadamente... é o que te digo estou a ficar indiferente aos vossos problemas, aos problemas dos meus semelhantes, vocês contribuem para o banco alimentar mas eu já saciei a fome a um vizinho, vocês subsidiam uma organização eu dou a um pobre, há aqui uma diferença que vocês não conseguem compreender, o pai não consegue compreender, e eu estou a ficar indiferente, estou a deixar de ser psicótico para ficar neurótico, estou a ficar sem paciência, estou a ficar velho como ele, pois há uma coisa que eu uma vez lhe disse «se eu sou mal-educado é porque tu não me soubeste educar», estou a ficar como ele mas já não tenho paciência para o aturar e vocês pagam por tabela, eu e ele na mesma sala dá faísca, tu não tens culpa, os meninos também não, a mãe idem, mas vamos ver-nos menos vezes, desculpa tudo isto, obrigado pela boleia, beijinho.
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Claudio Mur

sábado, 23 de dezembro de 2017

Então Guma começa a chorar e ele mesmo não sabe se é por ter encontrado sua mãe, se é por ter perdido a mulher que esperava.

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Por volta das nove horas Guma chegou com o saveiro, que era o Valente. Parou no pequeno cais, botou as mãos em torno da boca e gritou:
-- Tio! Ó tio!...
-- Já vou lá...
Guma ouviu as vozes que se aproximavam. Alguém vinha com seu tio, um desconhecido, porque ele conhecia as vozes de longe. Mestre Manuel gritou do seu saveiro:
-- Vem visita pra você, menino.
Quem seria que vinha com seu tio? Era uma mulher, pela voz. Seria que seu tio trazia uma mulher para dormir com ele? Já há algum tempo Francisco e outros homens do cais haviam começado com indirectas, negócios de mulher, e o tio ameaçava trazer uma para deixar com ele sozinha no saveiro no meio do mar...
-- Só quero ver o que você vai fazer, sua besta...
Os homens todos riam em gargalhadas, piscavam os olhos uns para os outros.
-- Já tá um homem o Guma -- dizia Antonico, mestre do Fé em Deus, que parecia não saber dizer outra coisa.
-- Precisa provar -- e Raimundo batia as mãos uma na outra, rindo interminavelmente. -- Meu Jacques já comeu da fruta...
Guma sabia que se tratava de dormir com uma mulher, de satisfazer aqueles desejos que o penetravam nos sonhos e o deixavam como se houvesse tomado uma surra. Muitas vezes nas cidadezinhas onde paravam ele passara naquelas rua das mulheres-damas, porém sempre lhe faltara coragem para entrar. Ninguém lhe daria menos de quinze anos, apesar de ele só ter onze. Por esse lado não tinha o que temer. Mas um receio de não sei o quê, o impedia de entrar. Tinha certeza que ficaria morto de vergonha quando a mulher visse que era a primeira vez. E tinha medo que a mulher não o aceitasse, o tratasse como uma criança, um filho sem pai que se perdeu na rua. Ela não iria adivinhar que ele já conduzia um saveiro e levantava um saco de farinha. Talvez se risse dele. E nunca entrou. Agora seu tio trazia a mulher prometida. Ele ia ficar encabulado diante dela. Com certeza Francisco já dissera que ele nunca conhecera mulher, que era uma besta, um medroso, apesar da faca no cinto. ele ficaria sem jeito diante da mulher. E se o tio quisesse assistir, só para rir, para gozar o mal ajeitado dele, então ele iria embora, fugiria do cais com vergonha, não navegaria mais naquelas águas. E é com verdadeiro pavor que Guma ouve as vozes que se aproximam. Seu corpo treme, e no entanto ele deseja que venham mais depressa porque ele quer ser homem quanto antes e atravessar sozinho com o Valente todos os rios, todos os portos, todos os canais.
As vozes se aproximam. É uma mulher, sim. Seu tio vem cumprir a promessa. Sem dúvida já anda envergonhado do sobrinho que ainda não é homem, que não conhece mulher. E como Guma não tem coragem de entrar na casa de uma delas, o tio vem trazer como se leva comida para cego, como se dá água na boca de um aleijado. É bem uma humilhação, mas ele não quer pensar nisso agora. Pensa que em breve terá a seu lado um corpo de mulher, um corpo que sabe todos o segredos. Pedirá ao tio que vá embora, que o deixe só com ela, e levará o saveiro para o meio da baía. Do forte velho ou de outro saveiro virá uma música. Ele amará, sentirá o mistério de tudo, e então poderá levar sozinho o seu saveiro pelas terras do Recôncavo, poderá, quando seu dia chegar, ver sem susto o rosto de Iemanjá e poderá amá-la porque já aprendeu aqueles segredos em que os homens tanto falam. Por isso está até com frio, se bem que a noite seja morna e o vento que passa esteja quente, uma brisa que quase nem balança o saveiro. A verdade é que tem medo. As vozes estão cada vez mais próximas. Ele já ouve o que conversam:
-- É ainda um menino, mas já tem cara de homem feito...
É seu tio quem fala. Naturalmente a mulher pergunta como ele é. Quer saber como o há-de tratar. Mas ele mostrará que é um homem forte, a apertará até que ela chore, até que diga que ele é mesmo igual a um homem dos que ela conheceu na sua vida. Agora, ouve a voz da mulher:
-- Quero que seja um homem bonito e valente...
O coração de Guma se enche de felicidade. ele já ama essa mulher que ainda não conhece, que seu tio traz para a sua cama (...). Ouve a voz de Francisco:
-- Guma!
-- Tou aqui...
O aveiro está bem perto do cais. (...) A mulher sorri. Guma olha os dois e o seu riso é de inteira satisfação. a mulher pergunta:
-- Você tá me conhecendo?
Ele a conhece, sim. Há muito que ele a espera. Ele a procurou nas ruas de mulheres perdidas, na beira do cais, em todas as mulheres que olharam para ele. Agora a encontrou. Ela é sua mulher. Ele a conhece de há muito, desde que os desejos penetraram seus nervos, perturbaram seus sonhos.
Francisco fala:
-- É tua mãe, Guma.
E o desejo não fugiu. Não era possível que fosse sua mãe, aquela mãe em quem ninguém nunca lhe falara, mãe em quem nunca pensara. Uma pilhéria de seu tio, com certeza. Aquela que estava ali era mulher de rua que viera para dormir com ele. Francisco não devia tê-la comparado com sua mãe, que seria boa e suave, muito longe daquelas coisas em que pensava. Mas a mulher se aproxima dele e o beija como devem beijar as mães. As mulheres da vida beijam de maneira diferente, sem dúvida. A voz da mulher é pura:
-- Te deixei há tanto tempo... Nunca mais te deixo...
Então Guma começa a chorar e ele mesmo não sabe se é por ter encontrado sua mãe, se é por ter perdido a mulher que esperava.
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, páginas 31- 34

'Mar morto'
Jorge amado
edição Círculo de Leitores

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pois é, o Natal...

Pois é, às vezes os homens, como nós ou mesmo como os rapazes, dizem da mulher, da companheira, da namorada, da amiga e menos da mãe, da irmã ou da filha: «elas só querem dinheiro, é só mamar à minha custa, tremoços e finos, sandálias e cinema com pipocas, é só mamar, trabalhar é grupo!»
Eu próprio o cheguei a dizer quando vi que uma mulher lutava antes de eu a conhecer e deixou de o fazer quando me conheceu, também eu disse «tu engordas e eu emagreço» e para mim dizia «até ao dia em que me farte!», esse dia veio, adquiri alegria e força, compreendi ambos os lados da questão: se, por um lado, eu tinha gordura a mais que me tirava saúde, ela, por outro lado, tinha deixado de ter dinheiro para sair à rua e comprar saúde e alimento.
Hoje dou mais sem nada pedir em troca, há dias em que imagino que não seria inverosímil um dia próximo me baterem à porta dizendo «tenho fome» e ficarem estupidamente à espera que eu lhes sacie a fome porque sabem como eu sou, há quem me veja como um anjo, e eu devo ser «católico» porque todos os dias dou e todos os dias me dizem «quando amadeus chegar ele vai-me dar e depois eu dou-te» e todos os dias me canso de ouvir promessas e histórias de enganar o otário católico, que todos os dias lhes dá porque se lembra que, um dia houve em que, também, quis pedir porque não tinha e teve vergonha de pedir e passar por lixo na passadeira ou passar por ser um cão a quem se dá um pontapé. Eu dou mas sei que quem pede hoje, se for atendido, vai pedir o mesmo no dia seguinte, ou mesmo mais, e o abuso vai acabar por encher a cabeça, por fazer saltar a tampa, como naquele dia em que a rir me pediram seis mortalhas, não um mas seis! belos papéis de arroz, e eu mandei-os foder para que soubessem que há um limite.
Além de tudo isto e voltando às mulheres que não querem trabalhar... hoje a situação é distinta: todos os dias fico à espera que ela venha para me ver no intervalo dos seus turnos de serviço e  ela não vem, ela não vem porque sai de casa às nove da manhã e passa o dia no trabalho, come lá, bebe lá, fuma lá, e volta para casa às duas da manhã, para no dia seguinte voltar à mesma rotina, de vez em quando liga e eu tanto a reconforto e lhe digo que estou orgulhoso de ela estar a lutar trabalhando, isto quando estou bem disposto porque, quando estou com os ciúmes, digo que ela nem sabe quanto e quando vai receber, «essa parece ser a tua família, ainda nem sabes qual o teu salário, estás há um mês a trabalhar sem nenhuma folga e nada, nada de salário, nada de descanso, esqueceste-te de mim, ouvi dizer que o restaurante te deu um anel de noivado, fica com ele e com o ramo de flores», e eu desligo o telefone e penso «eu que tenho a cerveja para ela no frigorífico há quase um mês, mulheres houve as quais eu mandaria trabalhar, e esta trabalha de mais, é uma escrava e parece que gosta, aqui ao lado na ilha ninguém trabalha e bastaria que eu gritasse alto Tenho Cerveja para que aparecessem, imediatamente, sete copos limpos e prontos a ser engolidos de penálti, ainda pediriam mais a seguir mas ela não... ela prefere beber com a cozinheira e demais colegas de trabalho, eu já passei à história.»
A verdade é que ela sempre me considerou um amigo e, portanto, não se pode dizer que alguma vez me enganou, fui eu que a seduzi quando ela estava carente e gostámos, sou eu que comecei a vê-la como uma «crítica de arte» mas... a erosão dos dias, as cedências, as adaptações, a necessidade de se jogar às escondidas como a boa desculpa para a ilusão se não transformar em realidade... a verdade é que há muito que a arte deixou de lhe interessar, há muito que a nossa cama está fria, resta-me viver, a pintura é agora essencial nestes dias, sozinho mesmo que tenha vizinhos nesta comunidade que se orgulha de já ter tirado um selfie com o Presidente, pfff!, como se não estivessem igual ou pior desde que se sentiram perús na foto, até dizem «quando eu o voltar a ver, ele vai ouvi-las.», andaram todos com ele na escola e vão todos re-elegê-lo.
Previsões para o natal que chega? O mais certo é não haver perú nem bacalhau nem polvo, o mais certo é passar eu-próprio o natal sozinho e, por opção, comer sozinho o mesmo de todos os dias porque há muito que sou um estorvo para a minha família e uma chucha para a comunidade, as mulheres da minha família são adeptas da Jonet, o meu pai gosta do Cavaco e do Passos Coelho e, para ele, além da geringonça sou eu o inimigo, tem-me ódio ou medo, evita falar comigo e só o faz obrigado- Por isso, sozinho não aborrecerei ninguém e ninguém me aborrecerá, que sa foda o natal e a coca-cola!, eu tenho o jazz.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

E saiu de casa para comprar um burrofone mais inteligente do que o seu actual

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Hoje saí de casa de manhã e fui comprar o meu tabaco de enrolar, com o troco tomei o pequeno-almoço no café. Depois cheguei à ilha e dirigi-me a casa do Benjamim, lá encontrei igualmente o Rui. cumprimentei ambos e virei-me sorridente, quase hilariante para o Rui e disse-lhe:
-- Atão Rui, estás vivo? ainda bem que estás vivo, nem imaginas o que disseram de ti, olha que o estrunfe e o quim da coreia do norte planearam uma conspiração para te enviar um míssil num drone pelo cu acima?!, nem imaginas... estás vivo! Afinal, ouvi dizer que ontem fugiste com o ouro!
-- Queres um cigarro, Mur? Eu dou-te um cigarro.
Aceito o cigarro e fico contente, Benjamim está calmo, ontem estava com ganas de esganar o Rui, afinal levantaram-se às cinco e meia da manhã, para ir levantar a reforma e a metade do subsídio de Natal mas esperaram até às seis e meia à porta da caixa multibanco. nada, ainda não havia dinheiro, decidiram voltar para casa, mas antes das sete Rui voltou a sair e disse que já vinha, mas não voltou, e Rui devia dinheiro ao Giuliani e ao Benjamim que por sua vez deviam dinheiro ao Adriano e à Bidente que por sua vez é conhecida por se vangloriar por ter sido a maior ladra de Amesterdão e que ganhou a alcunha de Bidente porque um dia resolveu fazer olhinhos a um traficante à frente do companheiro, só para que ele lhe desse uma de borla e o companheiro partiu-lhe os dentes todos, ficaram só dois, daí a alcunha, além disso tem cara de bruxa, anda agora a infernizar o Giuliani que passa frio na cama porque ela lhe rouba os cobertores e a ganza além de se suspeitar que lhe roubou os antibióticos para os vender... é complicada a comunidade a que eu pertenço por afinidade e vizinhança, hoje o Benjamim dizia que o Adriano quase que esteve ontem para entrar num táxi e ir buscar o Rui ao bairro das lagartas, arrastá-lo pela bochecha e dizer-lhe «anda para casa, paga o que deves conho», a própria Bidente afirmava que o Rui era um perigo em qualquer casa porque era toxicodependente, mas hoje o Rui estava sorridente, ofereceu-me um cigarro, pagou as dívidas, deu vinte euros ao Adriano por umas sapatilhas e saiu de casa para comprar um burrofone mais inteligente do que o seu actual. Quando ele saiu, virei-me para o Benjamim e disse-lhe:
-- Afinal estavam tão alarmados, ele nem gastou muito, pagou tudo e ainda tem dinheiro para um smartphone! Bem vou para casa fazer o almoço, até logo.
Vim para casa, fiz o almoço e pus-me a ler, continuando a leitura de «O idiota» de Dostoievsky, o que eu tenho a dizer é que a personagem principal, supostamente, um idiota recuperado é na realidade a pessoa que mais calma e inteligência apresenta no livro até ao começo da segunda parte, chega a dizer a um palhaço qualquer coisa como «era idiota, mas fui tratado, e estou curado, e já não me sinto idiota, por isso trata-me com respeito, se não vira à direita e eu à esquerda». é certo que o idiota assim o era por causa da epilepsia que era tratada com métodos hoje considerados antiquados, é certo que o idiota ganha uma herança que torna muito mais fácil a sua recuperação, de qualquer modo  e para terminar que estou com vontade de fumar... esta história é uma fonte de orgulho, é quase um manual de sobrevivência, é uma inspiração, um grande livro. Disse.
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Claudio Mur

domingo, 26 de novembro de 2017

O substituto

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Ah minha bela!, adoro quando fazes esse beicinho de menina de babete que tenta uma última vez que o seu papá lhe compre um bananaslip, adoro porque pareces mesmo a tua neta, adoro o sorriso que fazes, adoro a carne dos teus lábios, adoro tudo em ti mas agora ouve-me... não precisas mais de fazer de criança mimada, eu expilico, eu já não vou vender o teu quadro ao Benjamim, eu explico, ele ia ter problemas quando chegasse a casa, com a mulher percebes?, tu sabes que vocês mulheres têm um sétimo sentido, notam qualquer tentativa de escondermos, não descansam até descobrir. Por isso, não lhe vendo o quadro, eu explico, ele quando entrou aqui no meu quarto, o quadro que mais lhe chamou à atenção foi o teu, quis logo comprar-mo, disse que ia levá-lo para Alamut para oferecer à mulher, disse que no quadro via o retrato da mulher e da filha, gostou do tom de pele, a sua mulher é africana, a sua pequenina é mestiça, ele não tentou saber quem era na realidade a personagem pintada, identificou-se logo com o quadro, quis comprá-lo e fui eu, que fazendo resistência, comecei por lhe pedir um preço bem acima da minha maior venda -- o que ele aceitou -- e depois lhe contei para ver se o desmoralizava a história do quadro, disse-lhe que o quadro eras tu, tu em dose dupla, do lado direito, tu de olhos bem abertos e com as rugas de hoje e tu do lado bem esquerdo, com a idade e a maquilhagem dos vinte verões gingando na disco, disse que eras uma amiga minha dançando mas isso só veio aumentar o interesse que ele tinha pelo quadro, acertámos o pagamento das prestações, combinámos o envio por correio registado para Alamut, mas os meses foram passando e ele, o Benjamim, foi ficando entre nós, como na sua casa o telhado devoluta chuva, o quadro está bem melhor guardado aqui em casa e o pagamento da primeira prestação ainda não aconteceu pelo que o teu quadro ainda não foi vendido, apesar de estar prometido e reservado, mas tudo isto, Rasa, foi antes de ele te conhecer, agora que ele te conhece ele já não pode contar a história que pretendia contar à mulher, ia-se enrolar na história e a mulher ia ficar a pensar que a mulher no quadro era uma namorada extraconjugal em Derza, e eu digo isto tal como lhe disse a semana passada quando falámos os três ao telemóvel, eu vi o carinho que ele te tem, a voz doce de te aconselhar, ele ia ficar em terra e a mulher seguiria para o México à procura de um chico, como eu não quero que uma pintura feita com amor se transforme num objecto de ódio disse-lhe a ele tudo isto e estou-te a dizer a ti, ele está aqui ao nosso lado e pode confirmar, disse-lhe «não te posso vender este quadro mas vou fazer-te um substituto.», este aqui que vês no cavalete, o que achas Rasinha?
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Claudio Mur

sábado, 25 de novembro de 2017

Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, coros e bailarinos.

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-- Mas, meu caro Marcolini...
-- Quê...?
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prémios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu génio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal género de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais do que os outros -- e acaso para reconciliar-se com o céu --, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-- Senhor, não desaprendi as lições recebidas -- disse-lhe. -- Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e, se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-- Não -- retorquiu o Senhor --, não quero ouvir mais nada.
-- Mas, Senhor...
-- Nada! Nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-- Ouvi agora alguns ensaios!
-- Não, não quero sabber de ensaios! Basta-me haver composto o libreto, estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muitas vezes o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás trataddas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro génio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-- Esta peça -- concluiu o velho tenor -- durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronómica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
-- Tem graça...
-- Graça? -- bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há-de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o , e do fez-se , etc. Este cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Talvez não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
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, páginas 16-17

'Dom Casmurro'
Machado de Assis
edição Visão / Colecção Novis

sábado, 18 de novembro de 2017

O inferno e os capeta

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Pois é leitor amigo, estou já deitado debaixo de quatro cobertores porque o frio já se começa a sentir, estou bem e a fumar o penúltimo cigarro do dia. São, agora que escrevo «agora», dez horas e vinte e três da noite, e o dia foi socialmente produtivo, muito hoje aconteceu nesta pequena ilha de vizinhos em Derza, também tenho aqui vizinhos maus, mas os melhores são meus amigos, somos uma comunidade, ocupámos duas casas, e eu pago a minha renda por um quarto a um senhorio, eu estou bem e dentro da lei, eles não têm nem água nem luz, andam a velas e a água... bem, a água somos nós -- os vizinhos bons -- que lhes damos, ou senão, vão fora da ilha recolhê-la no fontanário.
Dizia que estou a fumar o penúltimo cigarrro do dia, o último irei fumá-lo quando acabar de escrever estas novidades sociais do meu dia de hoje.
De manhã, o Benjamim tocou-me à porta a pedir se eu lhe podia guardar o portátil porque ele tinha de ir arranjar os cigarros avulso e ir visitar o Giuliani ao hospital onde estava internado. Giuliani tinha saído de casa na Quarta-Feira, bem antes da sete da manhã, antes de qualquer dos vizinhos acordar, estava com medo porque se dirigia ao hospital, tinha uma consulta às oito da manhã, Giuliani não tem passe social de transporte e como é reformado por invalidez como eu (mas com uma reforma de miséria, e de um valor inferior ao meu, que também não é grande), mas eu safo-me bem, eu tenho passe social de transporte público mas Giuliani anda a pé, não tem dinheiro para comprar nem sequer bilhetes de viagem quanto mais dar vinte e poucos euros por uma assinatura mensal e social de transporte público, eu posso pagar, Giuliani anda a pé, vai para todo o lado a pé, quer chova quer faça sol, e foi a pé que ele saiu de casa há dois dias para ir a uma consulta. Como não voltou nesse dia a casa, percebemos que tinha sido operado, ele tinha um quisto do tamanho de uma moeda de cinquenta cêntimos no pescoço, bem por baixo da orelha. Como hoje ainda não tvesse regressado, dois dias depois, Benjamim fez tenção de o ir visitar, a Raquel ligara ontem à tarde para mim e eu passei o telemóvel ao Benjamim que ficou a saber e nos deu as novidades: Giuliani está internado. Hoje, Benjamim pede-me para lhe guardar o portátil, bate-me à porta, acompanhado do Adriano (marido da Raquel), dizem-me que voltam já depois de arranjar uns cigarros, o que me dá tempo de ir comprar umas coisas no supermercado, e que depois eu guardarei Speed, o nosso cão de estimação, enquanto eles irão visitar Giuliani ao hospital. Quando eu volto do supermercado vinte minutos mais tarde, fico a saber que Giuliani afinal já regressou, deram-lhe alta esta manhã, deram-lhe um bom pequeno-almoço, trataram-no tão bem que ele até escreveu um poema que mostrou ao médico e às enfermeiras e ao qual o médico quis tirar um foto para  recordação, ou até para meter no face, quem o saberá, eu não, nenhum de nós, ficámos todos contentes quando vimos o Giuliani em casa de novo. A verdade é que ele nos faz falta, arranja-nos cigarros quando pode, vai-nos comprar vinho ao supermercado, eu não bebo mas estou sempre com eles, e até contribuo para a recolha de fundos, eles pagam-me de outra maneira, eu ganho uma vida social, até tenho pintado menos mas também não posso só pintar, até porque já não tenho quase paredes disponíveis no meu alojamento para pendurar quadros a secar, tenho de pintar com mais lentidão e aproveito os dias em que não tenho trabalho de pintura para passar o tempo com os vizinhos bons... recordo algumas palavras do Giuliani quando o vi da janela e ia ele já a sair para caminhar quarenta e cinco minutos para almoçar no albergue:
«Vocês são uns queridos ao se terem preocupado comigo, sabes que eu estava com medo, a gente não sabe se acorda da anestesia e depois da operação, mas correu tudo bem, estou vivo!»
É isso, Giuliani!, como o Mané disse um dia destes, és um sobrevivente, escrevo eu agora. O Giuliani estar às onze e meia da manhã cheio de energia e vivo, foi a primeira manifestação do dia importante que tenho para contar, o melhor vem ainda a seguir, é o que vou contar já, mas acho que vou parar para enrolar um finex de tabaco, porque preciso de dar descanso ao dedo, já teclei bem mais que uma crónica da leninha... o texto segue dentro de dois minutos, são agora vinte e três horas e dois minutos.

Despedi-me do Giuliani pela janela, fiquei a vê-lo descer a ilha, e voltei para começar a fazer o almoço, tinha arroz de pimentão doce num taparuere que sobrara do tacho de ontem, tinha dois hambúrgueres já descongelados, foi só grelhá-lhos, depois pensei no Benjamim: «Ele não pôde ir buscar comida ao restaurante da prima, não pode ficar sem comer nada todo o dia, vou-lhe fazer uma sandes com este hambúrguer, cômo só um, e vou tomar o meu café ao sol com ele.». E assim foi, almocei, lavei a louça, fiz café e a sandes, seriam já agora talvez quase uma da tarde.
Saí de casa e perguntei-lhe se não queria comer uma sandes de hambúrguer, ele perguntou se tinha queijo porque não gosta de produtos lácteos, e eu disse que não, é só um pão com hambúrguer, «pensei em pôr um pouco de manteiga mas lembrei-me que tu nã gostas», «sim, vou comer, obrigado Mur».
Comeu, eu bebi o meu café, e estávamos a apanhar sol e a conversar quando aparece o Adriano, de volta a casa, Speed até ladra e Benjamim acha estranho pois o Speed adora Adriano, reparámos então que com Adriano vem a Elisa.
A Elisa é uma amiga que a Rasa está a ajudar, Elisa está por uns dias a viver em casa de Rasa até resolver a sua situação, o seu visto expirou, e ela ou arranja um contrato de trabalho ou tem de voltar para o país de origem. De modo que Elisa aparece com Adriano na nossa ilha. Elisa tinha ido a uma entrevista de emprego de manhã que correra sem sucesso, ao voltar e como tinha de esperar por Rasa, lembrou-se de ir esperar por Rasa perto do trabalho, Rasa está neste momento quase a entrar no terceiro dia de teste num emprego, e amanhã saberá ao fim do dia se fica nesse trabalho, estou também a escrever este texto para ordenar as ideias e fazer a minha parte na história caleidoscópica que fará com que Rasa consiga um trabalho efectivo com salário e folga, é bem melhor que o trabalho anterior onde era tratada abaixo de cão pela Fa, a patroa que gostava de dela mas a fazia trabalhar quinze horas sem folga por trezentos euros, pois é leitor amigo!, quem precisa de ganhar dinheiro tem por vezes que aceitar trabalhos de quase escravo, Rasa saíu dessa escravatura e amanhã ligar-me-á a dar as novidades, que serão boas, vamos aqui pôr um like e transformar o que um católico chamaria de prece, e vamos nós transformá-lo no movimento «Rasa a Efectiva!» 
Assim, esta manhã, Rasa e Elisa saíram de casa, Rasa para o trabalho e Elisa para a entrevista, como esta correu mal, Elisa pensou em esperar por Rasa perto do restaurante, mas enganou-se na referência do local de trabalho, esta referência era a paragem de metro perto do hospital, mas ela saíu na paragem do hospital errado, como reparasse que estava perto de minha casa e como ontem também já cá estivera procurando empregos a partir de anúncios na internet, foi assim que ela arranjou a entrevista desta manhã, assim ela lembrou-se hoje de vir ter aqui à ilha e logo que Rasa terminasse o trabalho iria com ela para casa. Foi um filme, ela não se lembrava do caminho que fizera ontem para aqui, andou perdida pelas redondezas perguntando se ninguém conhecia um Mur pintor, foi assim que deu com o Adriano na rua e ele a trouxe para cá.
Ela chega e conta a história, diz que foi Deus que pôs aquele amigo no caminho dela. Chega e conta a entrevista que fizera de manhã, onde lhe disseram que não lhe fariam contrato, então ela chega e conta isto e diz que se se vai embora, ontem fora ao Centro Nacional de Apoio ao Imigrante e que eles a encaminham para o Estado lhe pagar a passagem de regresso ao país de origem, ficando impedida de voltar durante cinco anos e com uma dívida que lhe será cobrada se ela voltar antes dos cinco anos, diz que chegou a um ponto de ruptura, este país já lhe fez muito mal. Conta que se não fosse a Rasa estaria a viver na rua e que já chega de miséria, ela estava a viver na rua porque, diz ela calmamente, tão calmamente que parece maluca, que fugiu dos irmãos que estão em Portugal a gerir uma casa de alterne, e que a ameaçaram de morte, extorquilharam-lhe o salário, ela era garota de programa no bar dos irmãos e ela simplesmente fugiu, contou o sonho da cobra amarela e da cobra preta, ela tivera um sonho em que duas cobras apareciam: a amarela representava o irmão e ela pisou a cobra amarela mas a cobra preta ia atacá-la, era a irmã que tinha inveja dela, ela conta o sonho, Benjamim e eu ouvimos, eu penso que ela está tendo intuições próximas da loucura, o Benjamim pensa e diz-me mais tarde a sós que ela parece fugida da máfia, Benjamim fala em que ela deve ir à embaixada pedir asilo político, mas eu digo que não, ela está sendo ameaçada pelos irmãos em Portugal, o que ela precisa é de não ver mais a família, nunca mais ter contacto com eles, arranjar um trabalho com contrato e ficar com a autorização de residência e daqui a um ano ela obtém o seu cartão do cidadão. 
Pergunto ao Benjamim se não sabe se alguém precisa de funcionária num restaurante, ele diz que talvez e liga do meu telemóvel para um amigo da família que tem um restaurante, combina-se uma entrevista para amanhã de manhã.
Amanhã de manhã, Elisa sairá de casa com Rasa, irá ter com Benjamim que a levará à entrevista, Benjamim diz-me depois que fará tudo e só dependerá dela o ficar no trabalho e ganhar o contrato. Elisa foge de um submundo que ela próprio definiu como «O inferno e os capeta», nós tentámos dar-lhe boa moral, ela oscila e conta pormenores da sua vida no inferno do alterne, nós dizêmos-lhe: «só depende de ti, amanhã se tudo correr bem ficarás já a trabalhar, se trabalhares bem, o patrão faz-te um contrato como a Rasa terá já amanhã após o seu período de experiência, faz por te correr bem, trabalha duro e fala pouco e faz o teu melhor, é a tua última oportunidade, aproveita-a bem, tu podes sair do inferno, os teus irmãos podem ser da máfia mas de dia dormem numa cidade bem longe daqui, se tu tiveres um trabalho diurno e te afastares dos locais nocturnos de alterne, não terás problemas em desaparecer e a tua família não mais te fará mal, eles não saberão onde te procurar. Arranjas o contrato e trabalhas, ao fim de um ano e alguma burocracia tornas-te portuguesa e tudo correrá pelo melhor, terás o teu dinheiro, sairás de casa da Rasa que não te pode ter em casa por muitos mais dias, e arranjarás um quarto para dormir, ter-nos-ás como amigos, este é o caminho bom e o melhor que a gente te pode ajudar, não é fácil, se seguires este caminho bom saírás bem desta situação, se amanhã não ficares ao trabalho irás ao CNAI na Segunda-Feira e pedirás a tua passagem.»
Ela ouviu-nos, entretanto a Rasa passou por cá depois do trabalho de hoje, concordámos todos com este plano de fuga da Elisa, estamos conscientes que ela vive numa situação pior que a nossa, uma mulher na rua está sujeita a muitos mais perigos que um homem, e vamos todos esperar que amanhã ela resolva a situação. 
Eu agora vou rever este texto e fumar um último cigarro e dormir. É meia-noite e quatro, é já Sábado, amanhã é um dia importante para a nossa comunidade. Vai correr tudo bem, boa noite leitor ou leitora.
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Claudio Mur

domingo, 12 de novembro de 2017

Um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura

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Num Domingo de São Martinho, sem castanhas mas com uma vaquinha reunida entre os vizinhos para comprar um pacote de vinho, ao qual se adicionará acúcar para o vinho virar suminho, disse-lhes eu: «vocês gostam é do suminho eheheh!» e eles respondem: «Sabes?, Mur irmão, é para cortar o amargo deste vinho...» «Sim, eu sei, faz-me lembrar o vinho doce, a primeira tiragem pela torneira do lagar, antes da fermentação, antes até de se pisar as uvas, dá cá uma diarreia eheheh».
De modo que o Benjamim quis saber: «Mur, diz lá, tu outro dia disseste que estiveste hospitalizado, pois eu diria que tu és normal, irmão!»
«Eu pareço normal não pareço?»
«Tu não pareces, tu és!»
«Sim, eu sou normal.» Concedo porque reparo que ele acha estranho eu lhes ter um dia dito que tinha sido internado, sei que eles querem perceber o porquê, porque eu não pareço louco, pareço até o mais calmo e são desta pequena comunidade que se foi formando este ano de 2017, algures na mitológica cidade de Derza, acabo por dizer:
«É complicado explicar, sei que hoje estou bem, mas nem sempre foi assim, a minha sorte foi melhor que a do Giuliani e do Heitor, a família deles abandonou-os, a minha nunca o fez, sei que tenho as minhas culpas, fui uma espécie de agente-provocador, mas sempre que saí do hospital tive o meu pai, a minha mãe e o carro de família para me trazer de volta à casa, isso diz tudo o que é necessário dizer, é tudo o que preciso de reconhecer como nota-testamento de vida, o que os meus pais me deram -- se não foi boa-vida e boa-educação -- foi amor filial, um pai, uma mãe não abandonam a cria e a cria volta sempre pródiga para casa e agradece, agradeço a meus pais o terem-me dado uma cama, comida, roupa limpa, um tecto para dormir, uma anexo para desenvolver o meu passatempo que começara a germinar, se eu não tivesse tido esta necessidade básica da vida resolvida pelas pessoas que mais sofreram com a explosão da minha cabeça, eu certamente morreria na rua como sem-abrigo ou na prisão com a cabeça aberta, se eu não pudesse, caso os meus pais não me dessem abrigo, alugar um quarto... eu na rua estaria desgraçado, teria fome e iria roubar um pão?... levavam-me para uma prisão com presos comuns e eu não passaria da primeira noite, chegaria lá dentro, pôr-me-ia a espingardar com um maioral e tratar-me-iam do sebo!... acredita.»
«Sim, irmão, mas... o que eu gosto em ti é tu és tão calmo, não procuras confusão, pareces um buda, que...»
«... que não pareço gajo maluco, não é? Olha que te digo, que um maluco não é idiota, um maluco sabe quando parar, por exemplo, uma vez evitei que me fodessem o corpo, levantei o braço e disse 'tens razão, desculpa, eu errei, vou-me embora', e eles, sorte a minha que repararam que eu estava alterado, eles recuaram quando já se formavam neles as mesmas chispas assassinas que devolvi do meu olhar a um gajo que estava comigo a assistir ao concerto do Iggy Pop em Coimbra, na Queima das Fitas em '94, porque eu me lembro do meu olhar nesse concerto que procurava uma eventual vítima para uma bulha, também eu nesse olhar a formar-se neles reparei, levantei a mão, pedi desculpa e vim-me embora, por isso tive a consciência de que se continuasse a provocar iria sair mal e magoado da bulha, por isso um maluco não é um idiota!»
«Sim, é do caralho!, tu tens consciência do que fazes mas isso só prova que não és maluco, irmão acorda!»
E eu pensei, tenho de lhe contar algo de verdadeiro que o faça perceber porque eu próprio me considero um maluco-lúcido, então digo-lhes:
«Uma vez fiz de cicerone de um amigo imaginário, e passei pela noite dentro na cidade de Triza, de cabeça pregada no chão e só a levantando para dizer ao meu amigo que ia a meu lado e não existia nem como fantasma e quem me visse só viria um gajo a falar sózinho e parar numa casa e dizer alto '... e então aqui no ano de '93 morei e estive com estas pessoas e aconteceu isto e aquilo...', é claro que eu sabia que o meu amigo imaginário não existia, era eu que estava a representar uma peça de teatro em directo para o mundo, as estrelas, a lama e o azul escuro do céu eram a minha audiência.»
De modo que eles ficaram pasmados, e eu pedi um pouco de vinho, senti-me emocionado ao falar e quando falo com emoção sinto a garganta a ficar seca, e só ouvia o Benjamin a dizer com o seu sotaque angolano: «é do caralho essa história irmão!»
«Mas há mais irmão Ben!, houve uma altura em que eu e um amigo estávamos na fase de roubarmos bicicletas, passámos num bairro social e roubámos uma bicicleta...»
«Oh, isso é coisa má irmão...»
«Sim eu sei!, e deu problemas porque eu fui reconhecido um dia num café ao qual fui com a bicicleta e o dono confrontou-me e eu devolvi a bicicleta e fui-me embora, não me aconteceu nada e o meu amigo mais tarde foi lá explicar-se em meu nome e saber de eventuais novidades ou se o assunto morreria ali. E morreu ali. Até que eu o desenterrei nessa viagem que já te falei pela noite a dentro em Triza, até à hora do primeiro comboio de volta à Derza, cheguei nesse Domingo a Derza e liguei a televisão no quarto, e observei que passavam um especial em directo na cidade de Triza, o jornal falava de teatro, é estranho, num tempo em que ainda não havia internet e tecnologia e redes sociais era como se a televisão e os jornais comentassem a minha viagem de véspera a Triza, é muito estranho... mas dizia-te desenterrei nessa noite o caso das bicicletas roubadas porque ao fazer a minha caminhada nocturna entrei no tal bairro social, primeiro olhei para o chão e disse alto 'encontrei uma pedrinha, vou já fumá-la!', e depois disse 'oh é merda é apenas um calhau de merda', e continuei a avançar, seria meia-noite, via-se pessoas reunidas no café do bairro, cá fora a fumarem, eu não olhava para eles mas sabia que eles olhavam para mim, então cheguei ao sítio das bicicletas e disse alto ao meu amigo imaginário ' e aqui no ano de '95 roubei uma bicicleta' e continuei a andar, diz lá que isto não é de maluco! Um gajo entra num local cheio de gente e começa a dizer que os roubou, é mesmo não ter amor à vida, e eu na altura não me importaria de morrer, mas não... para te provar que não sou um total idiota e apenas um maluco lúcido que se reformou da vida de merda... pois eu digo-te que bastou ter pressentido ou mesmo ouvido dizerem não sei se para mim ou não 'está a pisar a linha!', para eu ter virado costas ao local de bicicletas, ter seguido em frente sem falar, e a ouvir enquanto me afastava as vozes a silenciarem-se ao fundo, no fundo o que te digo é que um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura, às vezes até ao colapso, compreendes agora, Benjamim?»
«Sim, agora te compreendo irmão, fumemos!»
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Claudio Mur




sábado, 11 de novembro de 2017

Abraçar e chorar, beijos e lágrimas de perdão

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As mesmas ideias que todo o dia na rua o haviam perseguido amontovam-se-lhe agora no cérebro doente, sem lhe deixar um minuto de repouso. Reflectiu, reflectiu, e levou-lhe muito tempo a dormir.
«Se ele quis matar-me sem premeditação -- cismava --, o pensamento já lhe devia ter vindo à mente, pelo menos uma vez. Sonharia com isso nos seus dias maus?»
Respondeu a essa pergunta de maneira bastante estranha: «Sim, Pavel Pavlovich queria matá-lo, mas a ideia do assassínio nunca antes lhe acudira.» Isto é: «Pavel Pavlovich queria matar mas não sabia quem queria matar.» «Não faz sentido, mas é assim -- dizia consigo Velchaninov. -- Não foi por causa de Bagautov nem para obter a nomeação que veio a São Petersburgo, ainda que, tivesse corrido os ministérios e ido ver Bagautov; a morte deste enraiveceu-o; ele, porém, desprezava Bagautov como um insignificante. Foi por minha causa que veio a São Petersburgo e que trouxe Lisa...»
«E eu? Estava à espera que ele tentasse matar-me?» Concluiu que sim, precisamente a partir do momento em que o vira a acompanhar de carro o enterro de Bagautov. «Desde aí eu esperava qualquer coisa, mas sem saber que era isto; não esperava com certeza que ele me degolasse!»
«Será possível -- exclamou erguendo bruscamente a cabeça da almofada e abrindo os olhos -- que fosse sincero quando me declarava ontem a sua amizade, de queixo a tremer e mãos no peito?»
«Sim, era sincero -- deduziu levando mais longe a sua análise. Esse Quasimodo de T.... era bastante generoso e estúpido para se enamorar do amante da mulher cuja conduta, durante vinte anos, acreditara irrepreensível. Pelo espaço de nove anos respeitou-me e venerou a minha memória, guardando consigo as minhas «expressões». Deus meu! E eu que não suspeitava de nada! Ontem, ele não mentiu. Mas estimar-me-ia ao afirmar essa estima e ao dizer: «Saldemos as nossas contas?» Sim, estimava-me odiando, que é o amor mais forte...»
«Foi pois assim. Em T... produzi-lhe uma impressão verdadeiramente formidável e «benéfica». Não podia acontecer de outro modo com este Schiller desdobrado em Quasimodo. Julgou-me cem vezes maior do que aquilo que sou porque o impressionei na sua solidão filosófica... Seria curioso saber o que ao certo o impressionou. Talvez as minhas luvas claras ou a maneira de as calçar? Os Quasimodos apreciam muito a estética! As luvas são o bastante para certas almas muito generosas, sobretudo para os «eternos maridos». Quanto ao resto, exageram e batem-se por nós se for preciso. E como ele avalia os meus meios de sedução! Talves esses meios de sedução o conquistassem. E a sua exclamação de outro dia: «Se aquele foi também, em quem posso acreditar?» Depois de um tal desabafo, tornou-se selvagem...»
«Hum! Veio aqui para me abraçar e chorar, como ele próprio se exprimiu tão vilmente; o que quer dizer que veio a São Petersburgo para me cortar a garganta, embora julgasse que não era senão para me abraçar e chorar... E trouxe a Lisa. Se eu chorasse com ele talvez me perdoasse, porque ele desejava furiosamente perdoar!... E tudo, desde o primeiro encontro, resultou em esgares de bêbado, em gestos grotescos, em lamentos de mulher ofendida (e os cornos, os cornos de que se gabou?) Foi por isso que apareceu embriagado, para poder despejar o que ocultava na consciência. Se não estivesse bêbado, não ousaria falar... Muito ele gosta de caretas e de palhaçadas! E qual não foi a sua alegria quando por fim conseguiu que eu o beijasse! Não sabia ainda, no entanto, como tudo terminaria, se por beijos, se por facadas. Finalmente achou que o melhor seria beijar e matar. A solução mais natural. Sim, a vida não ama os monstros e desembaraça-se deles por meio de soluções naturais. O mais monstruoso dos monstros é o que tem sentimentos nobres. Sei-o por experiência, Pavel Pavlovich! A natureza não é mãe para os monstros, mas madrasta. A natureza produz um monstro, e em vez de ter pena dele, condena-o. E assim deve ser. Beijos e lágrimas de perdão não convêm sequer às pessoas honestas, na época em que vivemos, quanto mais a nós, Pavel Pavlovich!»
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, páginas 167-169

Dostoievski
em 'O eterno marido'
Edição Livros Unibolso
Tradução de Maria Ondina