terça-feira, 14 de junho de 2016

Desconstruindo nos anos 90, ao som de Sei Miguel




https://archive.org/details/AirfAuga

1992 - Airf'Auga recordings were made by some people at their home, in someone else's home, on the streets, in bars, in trains, at night, by day. Most of these people never made conscious sound before. Some of them don’t know that it was recorded. Most of these recordings were made on tape, some on minidisc, and were collected as is. Airf’Auga sound recordings represent several untouched audiograms of real time existence of some people.


segunda-feira, 13 de junho de 2016

... e ali estava Fulano de tal, vivo, numa folha de papel.

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Todo o bairro conhecia o meu irmão como sendo capaz de desenhar «tudo» -- uma bicicleta, uma árvore, um boneco de desenho animado como Lil'Abner --, embora ultimamente o seu interesse fossem os rostos verdadeiros. Juntavam-se miúdos à sua volta, a observá-lo, sempre que, depois da escola, se instalava em qualquer lado com o seu grande bloco de desenho com lombada em espiral e a sua lapiseira e começava a esboçar as pessoas que se encontravam perto. Inevitavelmente, os mirones desatavam a gritar: «Desenha-o, desenha-a, desenha-me», e Sandy fazia-lhes a vontade, quanto mais não fosse para que parassem de lhe gritar aos ouvidos. Entretanto, a sua mão não parava de trabalhar, ele olhava para cima, para baixo, para cima, para baixo... e ali estava Fulano de tal, vivo, numa folha de papel. Qual é o truque, como é que consegues, perguntavam-lhe todos, como se desenhar -- como se a magia pura -- pudesse ter contribuído de algum modo para o feito. A resposta de Sandy a toda aquela importunação era um encolher de ombros ou um sorriso: o truque para fazer aquilo residia no facto de ele ser o rapaz calmo, sério e simples que era. Chamar a atenção, onde quer que fosse, por fazer os retratos que lhe pediam, aparentemente não produzia qualquer efeito no elemento impessoal existente no cerne da sua força, a modéstia inata que era a sua firmeza e que, mais tarde, ele fintou à sua própria custa.
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, página 25

'A conspiração contra a América'
Philip Roth
Edição Biblioteca Sábado

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No meu caso,
não sei se foi modéstia ou desinteresse mas
aos onze, doze anos desenhei em duas folhas de papel cavalinho
as equipas de futebol do fcporto e slbenfica
a partir da caderneta de cromos das equipas de futebol da primeira divisão.
Estes cromos eram caricaturas, penso eu, desenhadas pelo Mário Zambujal.
E eu copiei a lápis de cor alguns jogadores, 
outros, recordo-me, coloquei-os em posições corporais diferentes.
Não sei hoje o quão bem feito foi este meu trabalho porque ofereci os dois trabalhos a colegas da escola, mas posso situar aqui o início de uma habilidade que só, mais tarde,
quando entrei na faculdade para estudar engenharia, se começou a verdadeiramente afirmar.
Contribuiu para isso ter amigos que se interessavam por arte
e que, à maneira deles, também puxaram por mim e me tornaram um autodidacta que se foi afastando
cada vez mais da engenharia e se tornando pintor.



Aguarelas sobre desenho em linha preta impressa a laser
2016
ZMB

sábado, 11 de junho de 2016


As pessoas dizem, nem sempre acertam
from zmb_mur on Vimeo.

Video description from the art exhibition of Rui Lourenço, aka ZMB, at Galeria Inklusa, Porto, Portugal.
From June 10 to August 31, 2016.
Pictured on the video are also dozens of works of art by other students of Espaço T.
In the video,
'Ishmael' by Dollar Brand on the album 'At Montreux' was used as the sound base to the soundtrack processed and altered by ZMB
The title of the exhibition and this video translates to English, more or less as
'People say, but not always correct things'

Corpo do meu corpo, corpo do teu corpo

A mostra que se dá corpo neste catálogo nasce de um projecto galerístico diferenciador e original. A Galeria InKlusa, sediada na cidade do Porto, é um espaço 'de convergência de diferentes tipos de Arte, desde a arte 'marginal' até à arte contemporânea'. A galeria pretende ser um 'catalizador de arte feita por pessoas com deficiência e com potencial artístico'. Um projecto democrático, democratizante e inclusivo que se deve aqui realçar.
A exposição de ZMB pretende contribuir para ultrapassar o confinamento geográfico que, tradicionalmente, delimita a arte bruta, a outsider art, a arte singular e os seus protagonistas.
A exposição individual agora patente na galeria Inklusa do artista ZMB reúne trabalhos executados entre os anos 1996 e 2016. As quinze obras expostas [nota do pintor e blogger: mais uma realizada nos ateliers do EspaçoT], de pequeno e médio formato, dividem-se em treze [catorze] óleos sobre tela, um trabalho em técnica mista, óleo e cera sobre tela, e um desenho a lápis e pastel sobre papel.
Os trabalhos expostos levam-nos numa viagem. Uma viagem sem ponto de partida nem retorno, vamos sim, graciosamente, de mão dada com o artista mergulhar no seu corpo, na sua mente, nas suas tormentas, no universo que o habita.
A arte é uma representação, é uma manifestação exterior da diversidade, a diversidade do homem e da sua relação com a vida. Todos estabelecemo esta relação, todos somos vozes do coro humano, todos somos a expressão da vivência humana, todos a representamos, todos temos uma voz nesta melodia, individual e original, todas as vozes devem ser ouvidas e expressas. A arte é a manifestação por excelência da individualidade da existência, da diferença. Toda a arte é Inklusa. Todo o corpo é um manifesto.
Somos aquilo que representamos, quer nos papéis que ocupamos no nosso quotidiano, em que imprimimos a nossa textura e espessura nas relações que estabelecemos, quer nas representações físicas que executamos, sejam textos, desenhos ou pinturas, ambos os momentos são traços de um mesmo giz, indissociáveis do nosso corpo, o corpo que habitamos, o corpo em que vivemos, o corpo que expomos, são socalcos da mesma ardósia em que escrevemos o pó da nossa existência.
Nesta exposição de ZMB, alter-ego de Rui Lourenço, uma das suas vozes, somos confrontados com o corpo, figurado ou literal, em composições intuitivas habitadas por ausências, o corpo sempre presente, interrogativo, exclamativo, inquisidor e acusador, carrasco e vítima. Em 'People think people say' ZMB mostra-nos um reflexo, o outro lado do espelho de MAI (I AM), uma acusação, um julgamento, o estereótipo vertido em cor, um plano redutor, um mundo estigmatizado em que a arte é uma janela, o pólo libertador e aglutinador, o veio de ligação da viagem.
Noutros trabalhos como em 'A natureza, Diotima e Herberto Hoelderlin' somos remetidos para Diotima de Mantineia filósofa e sacerdotisa grega que está na origem do conceito platónico do amor, Diotima no poema de Hölderlin, Hyperion, diz "Tu queres um mundo. É por isso que tens tudo e não tens nada", a ânsia e a vontade, a realização de um corpo, entre tudo querer e nada ter, todos tocar sem nunca alcançar. Os trabalhos expostos nesta mostra são plenos de originalidade, visões assertivas e audazes do inconsciente, numa linguagem crua e despida das normas que formatam a linguagem artística, são peças directas, no título e na representação, são um bilhete de ida para a mente, para os impulsos, são trabalhos feitos de um jorro, uma arte pura, crua, sem subterfúgios, que se encontra despida de preconceitos, que se expõe lívida na clareza da sua nudez.

Texto de
Hugo Andrade e José António Costa
no catálogo da exposição 'As pessoa dizem, nem sempre acertam'



Galeria Inklusa

O Espaço surgiu, criando o lugar
Cada um criou o seu.
Um ponto, uma recta, um círculo,
Um saco, um desenho, um lugar.
Cada um no seu lugar e todos no seu lugar.
Lugar físico mas também imaginário,
Lugar para afectos, mas também para afirmações e decisões.
Lugar criado onde o Homem se afirma e vive na plenitude possível.
Com um ponto, uma recta, um círculo, um saco, um desenho, um lugar.
Este é o desejo desta luta de vinte anos para que nos próximos cem, os pontos, as rectas, os círculos, os afectos, os desenhos, os lugares e os sacos se unam; para dar lugar a um só lugar onde todos façam parte dele e sejam dele.
Criar um lugar incluso é um começo do fim do caos. O caos que existe nos semáforos, na lógica das cores, na lógica dos conceitos, nas pedras da rua.
Vinte anos passaram e o lugar foi criado só com um ponto.
São precisos milhares de pontos, de sacos, de círculos, de rectas, de afectos, de vidas.
Mas surgem no tempo com o tempo.
Para isso surgimos para lutar por um lugar.

Jorge Oliveira
Presidente do Espaco t

http://www.espacot.pt

, texto incluído no catálogo da exposição 'As pessoas dizem, nem sempre acertam'





quinta-feira, 9 de junho de 2016

«As pessoas dizem, nem sempre acertam», exposição de pintura

É já amanhã,
às 4h da tarde, dia 10 de Junho, na galeria Inklusa


(A exposição montada.)


O convite:

'As pessoas dizem, nem sempre acertam'

Inauguração 10 Junho às 16h00
exposição de pintura de Rui Lourenço

com a curadoria de Hugo Andrade e José António Costa
de 10 Junho a 31 Agosto de 2016
na Galeria Inklusa (Espaço T)

Edifício Escola EB1 da Sé
Rua do Sol, nº14, 2º andar
Porto, Portugal

Evento facebook: