domingo, 24 de julho de 2016

Cha deu por si a soletrar mentalmente as palavras «metadona soup»

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Não se pode afirmar com veracidade que foi por falta de dois euros que o Mancha não foi buscar os taparuéres com os jantares de Sábado e Domingo daquele último fim-de-semana de Novembro. Afinal, a dia vinte e quatro, a dona Zelda tinha-lhe batido à porta do quarto para lhe entregar uma carta da segurança social. Agradeceu, fechou a porta, sentou-se no pequeno sofá e abriu o envelope. Era, finalmente, o vale com o rendimento mínimo. Uma fortuna: trezentos e cinquenta e seis euros mais uns cêntimos, dois meses de prestação a contar a partir do momento de assinatura do contrato de inserção. Cha enrolou um cigarro e pensou em celebrar. Era quinta-feira, podia pensar em matar as saudades que tem da erva sagrada de Jah, viu o saldo do telemóvel e decidiu-se a ir carregá-lo com cinco euros na payshop para que pudesse ainda hoje ligar ao empresário. Ele fornecer-lhe-ia três gramas. Assim, decidiu-se, mesmo de verdade, a ir jantar fora no fim-de-semana.
Aconteceu que, na Sexta-feira, Cha vinha de casa uns dez minutos antes da hora de almoço e sentou-se na soleira de uma porta contígua à caridade para esperar pelo bater do sino anunciando a hora certa de entrar, sentou-se e começou a sentir um cheiro intenso e fétido a seu lado, até que, à sua frente e do outro lado da rua, um gajo chamou por ele convidando-o a sentar-se a seu lado. Foi aí que Cha percebeu que se tinha sentado ao lado de um velho, doente e desamparado, que se tinha mijado durante a noite e nem sequer conseguira tomar um banho e vestir roupa limpa para ir almoçar. Cha atravessou a rua e sentou-se ao lado do homem que o chamara. Já o conhecia da cantina mas nunca tinham falado um com o outro. Era pintor da construção civil, actualmente desempregado e a viver nas ruas, ganhava uns trocos arrumando carros, foi ele que lhe falou das carrinhas de distribuição de comida nas ruas. Cha sabia que elas existiam, já tinha por vezes visto uma ou outra mas não sabia horários nem locais certos, acabou a pensar que, em vez de ir jantar fora ao restaurante, podia no fim-de-semana ir jantar às carrinhas.
Almoçou às onze e voltou para o quarto. Pensou que, de facto, era uma seca ter de, todos os dias por volta do meio-dia, subir o monte para ir à rua das cordas buscar a refeição da noite. Pensou que o faria, ainda, nesse dia mas que não reservaria na recepção as duas senhas de refeição para o fim-de-semana. A dona Cármen até se assustou e ficou quase preocupada quando o senhor Mancha lhe respondeu com palavras evasivas que não iria buscar as refeições. De qualquer modo, após recolher a refeição de Sexta, Cha dirigiu-se ao parque municipal onde podia descansar, fumar um charro de erva e ler um livro. Tudo para que não estivesse sempre em casa e para que o cheiro não invadisse a casa de hóspedes. Com a excepção do charro que era uma novidade, Cha costumava passar no parque uma boa hora lendo à sombra dos carvalhos nos dias em que o tempo permitia. Levou consigo o livro Aparição de Vergílio Ferreira e sentou-se ao sol na relva, meia hora da tarde, o sol aquecia o ar, aquecia-lhe os ossos, pensou em enrolar a erva mas eis que avistou uma mulher, com óculos de sol e máquina fotográfica, caminhando a partir do lado do sol para si. Cha levantou os olhos do livro, fechou-o e fitou a mulher, era jovem, seguramente mais jovem que ele e, de facto, dirigia-se para ele, isso é que era extraordinário. Ela apresentou-se, disse que tinha um blogue de fotografia com pessoas reais lendo livros em locais públicos, quis tirar uma foto ao Mancha, contar a sua história e a do livro que ele lia. Mas o Mancha recusou educadamente, pedindo mesmo desculpa por não aceitar e adiantando apenas que o fazia porque queria manter anónima a sua cara, não queria ser vedeta das redes sociais. Ela aceitou, afastou-se e Cha pode continuar com o seu modo de vida, pode fumar a sua erva, ouvir pelo telemóvel uma compilação de reggae antes de voltar para a casa de hóspedes, colocar o taparuére no frigorífico, abrir as duas janelas-guilhotina do quarto para o ar circular e poder assim dedicar-se ao ritual sagrado no fim-de-semana.
Aconteceu que no Sábado estava a chover. Viu o pintor na caridade e combinou encontrar-se com ele às sete e meia da noite em frente ao cinema. Era aí que, ao Sábado, a carrinha distribuía comida aos pobres da metrópole. Como estava a chover, Cha chegou do almoço às onze e meia da manhã e só saiu do quarto às sete da tarde para subir o monte até ao cinema. Passou o tempo a fumar. Estava em tal estado de intoxicação que o seu caminhar, passeio acima, era feito aos ziguezagues. Cha teve disso consciência ao ver o olhar das pessoas cruzando-se com ele.
Chegou finalmente ao cinema, viu que a fila de esfomeados dava a volta ao prédio. Procurou o pintor, viu que ele continuava a arrumar carros, aproximou-se dele mas viu que atrapalhava o seu trabalho e decidiu abrigar-se da chuva e enrolar um cigarro. Quando o pintor achou por bem terminar o seu trabalho e dirigir-se ao seu lugar na fila, Cha foi atrás dele e colou-se ao seu lugar na fila, que por sinal era no início da fila, mesmo ao lado da entrada de um salão onde um candidato às eleições municipais fazia nessa noite campanha. Foi só quando a carrinha com os voluntários e a comida chegou, que os protestos pela usurpação de lugar na fila se fizeram sentir nos ouvidos do Mancha, mas a erva, o tédio da tarde, tinham-no alienado a tal ponto da sociedade que ele só pensava na fome que tinha e ignorou por completo o que o mundo dizia e comeu antes dos outros sem remorso. Comeu uma pequena covete de feijoada. Mas foi só o copo de sopa bebível que o fez despertar para a realidade, aquela sopa pareceu-lhe líquida de mais, Cha deu por si a soletrar mentalmente as palavras «metadona soup», a sopa actuou como um laxante e teve de sair dali sem demoras, com pressa de chegar a casa e se aliviar na casa de banho. Foram mais de quinze minutos em que ele forçou o esfíncter para não se borrar todo. Chegou a casa e a casa de banho estava ocupada, a agonia dava-lhe tonturas, uma dor insuportável nos intestinos, quando finalmente pode aliviou-se e reparou que as suas fezes tinham sangue, suspeitou de uma cólica intestinal e amaldiçoou a sorte deste dia, afinal a celebração tinha-se desfeito em merda, no dia seguinte iria jantar a uma casa de sandes e tentaria esquecer que tivera vontade de se sentir um miserável por um dia e assim que chegasse o primeiro dia de Dezembro mudar-se-ia para o quarto alugado pela dona Luzia, que ainda esta semana lhe chamara homem de deus e lhe oferecera um quarto por cem euros logo ali ao virar da esquina. Pelo menos lá poderia usar uma cozinha.
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Claudio Mur

sábado, 23 de julho de 2016

Aguarelas com artistas de rua na Ribeira

As telas que tenho pintado ao longo deste último ano
e aquelas que tenho etiquetado como 'artistas de rua'
foram feitas a partir de fotografias tiradas por mim.
Tenho tentado pintá-las o mais aproximadamente possível à realidade da fotografia,
embora tnha intrroduzido elementos de 'arte outsider' 
tais como pintar grafitis onde eles não existiam.
Só me falta pintar um da série que pensei fazer.

Entretanto, ao colocar as telas na parede do meu quarto,
lembrei-me de fazer desenhos em estilo livre e informal 
sem quaisquer preocupações em parecerem reais as figuras
e por observação à distância da tela na parede.
Fiz esses desenhos a lápis de grafite em folhas de papel tamanho A5.
Digitalizei-os, imprimí-os em papel de aguarela tamanho A4
e, finalmente, colorí-os com tinta de aguarela.
Serão, no total, doze aguarelas, das quais apresento as primeiras quatro.
Farei igulmente desenhos destes artistas em pastel seco usando o mesmo método.






sexta-feira, 22 de julho de 2016

Muzenza - História do preto velho


Balada dos que já nascem mortos

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Com a arrogância de um actor habituado ao sucesso, Tareq percrutou insolentemente aquela assembleia, que representava a população de Dofa, e fungou com desdém. Depois, ergueu o braço com um gesto soberano e reclamou o silêncio ao bando infantil que o acompanhava no seu périplo. (...) Enquanto abria passagem por entre as mesas -- parecendo um gavião aproximando-se velozmente da presa --, o seu olhar cruzou-se com o de Samantar. Tareq lançou-lhe um sinal de conivência, como que para incitá-lo a seguir o seu jogo.
Rapidamente se fez luz sobre o personagem que suscitava o interesse de Tareq e que não era outro senão Higazi, o qual não abandonara o seu jornal e parecia insensível ao silêncio súbito que se tinha instaurado na esplanada. Com efeito, e para surpresa de todos, Tareq foi visto a parar à frente do homem da fatiota semi-militar, imobilizando-se numa postura exageradamente humilde, parodiando o mais absoluto respeito. Durante um momento, Tareq manteve aquela atitude servil, provocando a perplexidade de todos os espectadores daquela cena, que especulavam sobre os excessos oratórios de Tareq para reconfortarem as suas próprias incertezas. Era sempre agradável ouvir alguém fustigar o governo, qualquer governo, mas o que aquele idiota estava a fazer não fazia qualquer sentido. O que eles rejeitavam acima de tudo era o tédio. Começaram a sentir-se frustrados quando Higazi que não podia continuar durante muito mais tempo a ignorar a óbvia agressão à sua tranquilidade, acabou por pousar o jornal, dando consigo de caras e sem hipótese de socorro com a silhueta filiforme de Tareq, cujos traços zombeteiros representavam a máscara do escárnio. (...)
Apenas Samantar atingira o significado daquele ridículo gesto de vassalagem. Com a sua intervenção cómica, Tareq pretendera assinalar-lhe a presença de um indivíduo de uma incontestável autoridade e cujos movimentos ele tinha todo o interese em vigiar daí em diante. Mas qual era a essência daquela autoridade e em que se baseava? (...)
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, página 124-127

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Higazi era uma das poucas pessoas a quem a sinistra colecção de retratos que ornamentava a parede do gabinete ministerial não impressionava. Muito pelo contrário, considerava a sua presença entre aqueles dignitários -- mesmo falecidos -- um privilégio particularmente tonificante. O sentimento da sua importância multiplicava-se por dez naquela atmosfera austera onde os veneráveis emires o acolhiam na sua respeitável confraria. (...) Pois, à semelhança do seu mestre, Higazi era ambicioso. Uma ambição comedida, é certo, mas não desprovida de uma indomável determinação. Nascido na miséria, tinha seguido a carreira de todos os deserdados do mundo, até ao dia em que um incidente trivial o pusera na via do sucesso. (...) Aos vinte anos, deseperado, mas não completamente vencido, vagabundeava pelas ruas de Dofa, (...), quando, (...) viu um agente da polícia -- uniforme branco e matraca na cintura -- a dar vários estalos, e com um afinco bestial, num pobre diabo acusado de ter, com o seu andar desajeitado, manchado de lama o fundo das suas calças. (...) Esta constatação constitui para Higazi uma verdadeira iluminação. Acabara de compreender que aquele que tinha o direito de seviciar impunemente e com tamanha brutalidade o seu semelhante (o que deixava adivinhar as execuções mais sangrentas) ocupava seguramente o melhor papel na sociedade, sem por isso dispor dos recursos da fortuna. Não era preciso ter os bolsos cheios de ouro para atingir a posição de um vulgar tirano. Como era possível não ter ainda pensado naquilo ao longo do seu interminável calvário de deserdado da vida? Aquele uniforme branco, que ele apenas notara por receá-lo, pareceu-lhe mais desejável do que a coroa de um monarca. Sem mais demoras, juntou o que lhe restava de audácia e correu a apresentar-se no centro de recrutamento onde foi contratado com gratidão, dada a escassez de candidatos. Desde a sua entrada em funções -- finalmente salvo da fome e das humilhações -- havia decidido não se contentar em ser um simples organismo da máquina de repressão.
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, página 152-154

'Uma ambição no deserto'
Albert Cossery
Tradução de Sarah Adamopoulos
Edição Antígona

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Uma música de Sheila Chandra



Eu comecei a comprar o jornal Blitz quando tinha 16 ou 17 anos.
A princípio ocasionalmente mas quando entrei aos 18 na universidade,
já com uma mesada oficial para gerir, era rara a semana em que não comprava.
Foi pelo jornal que conheci Sheila Chandra.
Li uma crítica-reportagem de um concerto em Londres e
também referências aos seus álbuns.
Fiquei curioso e quando encontrrei, comprei o álbum 'Speaking at my ancestor's voices',
de onde esta música é retirada.
É uma música que fala de amor, tanto espiritual mas igualmente carnal,
é uma música para ouvir naqueles dias de preguiça
em que estamos felizes por termos passado o dia anterior bem-acompanhado
mas também em que lamentamos o amor que vai deixar saudades.
É uma música que cria laços saudáveis entre um homem e uma mulher.
É a música do dia.