sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Operação Flores -- dia 10 (manhã)

Hoje, de manhã, na Rua das Flores aproximou-se de mim um senhor
que, ao ver os meus trabalhos na janela devoluta, me perguntou,
primeiro, se eu era português; depois, se eu podia avaliar umas folhas pintadas.
Ele disse que tinham sido feitas por miúdos
e eu reparei que tinham todas um mesmo tema:
pinturas a guache mostrando um mar e um barquinho.
Como eu virava as folhas e dizia que não queria comprar,
ele falou que estava a pensar em 20 cêntimos cada folha,
eu resmunguei, ele disse dois euros por todas as folhas, eram à vontade umas quinze.
Acabei por lhe dizer: 20 cêntimos nem dá para a tinta,
porque não faz como eu e vem para a rua e tenta vender,
eu diria 2 euros por cada folha.
(eu disse este valor porque ele queria ainda menos,
e as folhas não eram propriamente umas grandes obras de arte,
se não valeriam certamente mais)
Não garanto -- continuei -- que tenha sorte
mas pode sempre tentar.
E podia ter dito o que um outro pintor,
que um dia destes parou para falar comigo, me disse:
em Portugal não há um culto da pintura,
não se vê, como noutros países, os cafés e bares com obras de arte na parede.
A maioria dos pintores em Portugal dá aulas para ganhar a vida
embora também seja certo que alguns já atingiram um nível de reconhecimento
que os faz ter avenças com galerias ou vender quadros por dezenas de milhar.
Eu, pelo meu lado, sigo o meu caminho, apesar de me sentir um proscrito
devido, não só mas também, ao meu modo de ser.
Mas vou continuando, vou sendo livre o mais possível.
E gostando da minha ocupação actual.

(em baixo, 3 pastéis de artistas na Ribeira, Porto)







quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Vou contar a história toda, tim tim por tim tim, e que se foda o tintin

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A vida de uma pessoa, que recebe o rendimento mínimo, é triste. Mas por estranho que possa parecer, o Mancha tinha agora alguma esperança. Mudara-se para um quarto numa casa arrendada pela dona Luzia. O quarto era minúsculo, nem sete metros quadrados teria, mas o Mancha estava feliz, era finalmente o seu quarto, não era uma vulgar pensão disfarçada de casa de respeito e hóspedes, cuja senhoria estava sempre à espera do dia de pagamento da renda para poder encomendar o almoço take-away, parecia passar fome três semanas durante o mês mas quando o Mancha desembolsava cento e cinquenta palhaços, no dia um, até vinho havia. Além disso, estava sempre a tentar pôr o Mancha fora do quarto e da casa, fosse com o pretexto de fazer a limpeza, fosse com medo que o Mancha roubasse, na realidade a dona Zelda era uma somítica e dona de uma hipocrisia nojenta, não tinha qualquer respeito pelo Mancha. O Mancha reparou que a dona Luzia era diferente, tinha vindo da aldeia para trabalhar na cidade, sabia o que era usar as mãos para trabalhar, não se limitava a contar o dinheiro e a destrocá-lo, dizia:
-- Senhor Mancha, aqui tem uma cozinha, para usar o fogão fala com o Juvenal, a botija de gás é dele, mas o mais importante é que esta é a vossa casa, aqui ninguém vos incomoda, nem eu venho cá acima espiar-vos, custa-me a subir os quatro andares.
O Mancha pensou: «Ela leu os meus pensamentos, sabe como a Zelda é falsa e cheia de aparência, filha e neta de negreiros, só tenho é que caber aqui dentro, o quarto é tão pequeno, bem, posso levar algumas coisas de volta para Tintus Rius, os meus pais não me fecharam a porta.»
A primeira coisa que fez foi café numa cafeteira, o café à faroeste no fogão eléctrico era agora história, uma história com seis meses que dá para encher vinte páginas com letra tamanho onze, vinte páginas até chegar o Juvenal a casa e o Mancha lhe oferecer cinco euros para partilhar o gás, ele aceita e informa-o sobre a casa, entre outras coisas diz-lhe para não deixar comida no frigorífico, diz que o Correia, às vezes, quando chega janado a altas horas da manhã, não perdoa e abre o frigorífico para comer: -- Ficas avisado.
O Mancha é, geralmente, um gajo dado à solidariedade: ele, que é maluco, sente-se solidário com todos os desgraçados do mundo que vai conhecendo. E responde por impulso deste modo: 
-- Ah ok, obrigado por me dizeres. Eu conheço o Correia…
-- Conheces o Correia de onde? -- pergunta o Juvenal com voz grossa.
-- Daqui, de Derza, não sei o que faz…
-- Pois não queiras saber, toma cuidado apenas.
Mas a coisa correu mal. O Mancha teve um banho de realidade. Deu pela falta da máquina fotográfica e do minidisc. E logo no dia em que, dir-se-ia, tentava ensinar a missa ao padre e dizer ao Correia que, ao fundo da rua, havia uma cantina social onde podia almoçar de graça, dir-se-ia, pois ele era residente de nascença na zona e sabia-o, claro que sabia e o Mancha sabia que ele sabia, mas disse-o como se fosse um conselho, uma filantrópica boa-accão, uma caridade, o Mancha achava que se devia fazer o bem porque também lhe faziam o bem a ele. O Correia negou o furto, o Juvenal também desconfiou, numa discussão a três o Mancha ironizou que teria sido mais valioso, para a futura venda no bairro das lagartas, se também lhe tivessem levado o carregador e «carregaste ao menos o minidisc?, aquilo não tem bateria, não vale nada assim!» «não, não tenho carregador para aquilo…»
Ao ouvir o vocábulo «aquilo», o Mancha bloqueou, como podia o Correia dizer «aquilo»?, se não tivesse visto o minidisc, quando muito diria «isso». O Mancha teve aqui a prova imaterial, mas não soube recuperar os objectos roubados, afinal eles já não estavam em casa, só desfazendo o Correia à pancada, mas isso só lhe traria problemas com os gunas da zona, esses de quem o Mancha se gostava de pensar amigo de, a dona Luzia pô-lo-ia na rua, os vales do rendimento mínimo não chegariam mais à sua mão, ficaria na merda mais uma vez, ir à polícia fazer queixa exigia pagar a taxa de abertura de processo de averiguações, além disso não tinha facturas dos equipamentos para provar a pertença. Não iria dar em nada. O Mancha bloqueou, a discussão ficou-se por ali, umas noites mais tarde ouviu-os falar e o Juvenal perguntava pela verdade ao Correia, e este só dizia: «O gajo é polícia, se eu perco o quarto por causa daquele filho-da-puta…». O Mancha compreendeu que não havia nada a fazer. Aquele Correia era um gajo que se pudesse vendia a mãe por uma linha de branca mais um caneco de crack. «O teu dia chegará e eu ouvirei falar de ti. És pedra morta a partir de hoje.»
Assim, o Mancha engoliu em seco, afinal estavam a privá-lo das suas ferramentas de trabalho, o Mancha fazia música usando fontes sonoras como, por exemplo, gravações de campo, e gravava tudo, até instrumentos convencionais, com o minidisc. Ficara sem ele. A Sony já não fabrica mais, o comércio de minidiscs usados só funciona em leilões online de valor proibitivo. 
O Mancha engoliu em seco e foi à jukebox beber um pirata de cerveja, até o Sancho, com quem o Mancha nunca mais falara, parecia saber do caso, aliás toda a gente parecia falar baixinho sobre o caso. 
Estava a passar o futebol ao fim da tarde, Mancha sentiu uma vontade enorme de esquecer este roubo e todas as ofensas que lhe tinham sido feitas, hoje ele sabe, tem consciência, mas, na altura, ainda não compreendera que também ele sente quase afecto pelos seus ofensores, uma versão lusa do síndrome de Estocolmo, fazia-lhe mal, a cabeça doía-lhe de angústia e resolveu aproximar-se do Sancho e pedir-lhe desculpa por ter vomitado em cima dele, e, esquecendo-se que há muito tempo a conta fora saldada com um sopapo e que mais nada havia a parlare, fê-lo com quase lágrimas nos olhos. O Sancho não conseguiu com o espanto evitar e, ao lhe apertar a mão, riu-se dele. O Mancha reparou tarde no erro. O Sancho, se antes pensava que o Mancha era um duro, agora sabia que o Mancha não passava dum cobardolas. O Mancha veio para casa a pensar: «O defeito é meu, eu dou tudo ao início e depois vou retirando abruptamente, as pessoas, a princípio, tentam chular-me, depois, desprezam-me, faço tudo ao contrário dos outros, não tenho amigos, não há compatibildade possível entre mim e este tipo de pessoas, o mundo não tem amigos para me oferecer, não tenho com quem falar, não vale a pena ligar a ninguém, nem ao secretário da empresa, esse queria pôr-me a render para ele, vender droga para ele, ele que recebeu umas massas e comprou mais um topo de gama e agora quer escravizar um miserável a receber o rsi, demorei tanto tempo a perceber que não posso querer ser amigo de ladrões, mas eu vou fodê-los, vou contar a história toda, tim tim por tim tim, e que se foda o tintin, além do mais é uma história em que apenas alguém tenta com força acreditar, servirá como prova caso não mais seja visto, e se ele aparecer para fazer perguntas chatérrimas eu dir-lhe-ei apenas: fizeste-te passar por polícia e roubaste-me a ganza mas não passas de uma personagem de série b e, para o comprovar, vou queimar a folha onde vens descrito e tu desaparecerás no fumo e nas cinzas, será aí que te rirás pela última vez e deixar-me-ás, então, em paz com a certeza de eu ser um tolo que não diz coisa com coisa. Poderei então seguir a minha vida e encontrar finalmente uma pintassilgo de nome Sofia.»
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Claudio Mur

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Hoje, de manhã, ao meu lado


Não vendi nada, hoje de manhã,
mas foram momentos bem passados.
A música estava excelente: sons metálicos ajudando à reflexão, à meditação.

Agora descanso, em casa, e preparo-me para fazer um café.
Daqui a meia-hora estou na rua outra vez para o turno da tarde.

Apareça quem quiser ou puder.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Quem diria que o António Ouriço, depois de morto, havia de arregimentar toda aquela fúria!

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Novamente, conforme os aguaceiros iam minguando, começavam a reunir-se no largo, à boa vida, e de bem má catadura, os coitados, os sem-trabalho, os maltrapilhos, os pedintões; e vinham com eles acompadrar-se homens válidos e enxutos de vergonha, operários, camponeses, pastores, os mesmos de onde agora, uns de ganga, outros de bombazina, ou de saragoça e com jaquetas listradas, aldeãs, patriarcais, gente em barda, amaltesada, excitada. Uma atmosfera de segredo, de conjura, amordaçava as vozes iradas, mas falavam alto os olhos cúmplices, acirrados pelas espingardas da Guarda. Ali, ali mesmo, debaixo daqueles balcões amaldiçoados do hotel, ali não havia nada a fazer. Ali não. E, no entanto, lá para meio da tarde, fora por uma unha negra que eles não haviam arrebentado aquelas janelas à pedrada. Já tinham mesmo a boca cheia de gritos. E houveram de os engolir. Até parecia que a Guarda lhes adivinhara os propósitos. Mas o Teté agora tivera uma ideia. Uma ideia bem diferente! E essa ideia de brasa, de desforra, correra, entrara, como o vento bravo, nas casas em sossego, nas vendas aguardentadas, e, mais viva do que a chuva, no largo enxaboucado, prurira, incendiara, os bons e os maus, mansos e assanhadiços, diligentes e calões, mancebos imberbes e pais de família, saídos dos seus temores, servos pacíficos que, a sós, os mais dos dias, antes se amagariam e se deixariam malhar, por mor de filhos e cadilhos. Mas a febre subira de repente. E estavam arrimados uns aos outros, todos, naquela hora, irmanados numa contagiosa cólera surda e crescente. Vinte, trinta homens ao corrente da coisa, não convinha que fosse além dessa conta. Minuto a minuto, «Arre! cuidam os gajos que a gente somos de merda!», os nervos crispavam-se, as veias doíam, a chusma destemperada não podia com a espera. quem diria que o António Ouriço, depois de morto -- excogitava o tio Romualdo --, havia de arregimentar toda aquela fúria!
Quando escurejasse a noite, assim que ela abafasse a vila, de vez -- então seria tempo. Até lá era mister aguardar com cautela. Com muita cautela.
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, página 52-53

"Margem esquerda"

Urbano Tavares Rodrigues
na colecção de novelas entitulada "As aves da madrugada"

edição Livraria Bertrand 1959

domingo, 7 de agosto de 2016

Alternativa à mulher insuflável

só para maiores de dezoito anos eheheh



Operação Flores -- Dia 5 (tarde)


Exibição-venda por ZMB
Rua das Flores
Porto, 07 Agosto 2016

Três mulheres artistas desenhadas com lápis de pastel seco




Em papel A4

À venda, cada folha por 20 smiles

Juntamente com as aguarelas. estou 
na Rua das Flores, Porto, Portugal
(a caminho da Ribeira),

quase todos os dias em dois turnos:
o da hora de almoço a partir das 11h30m
e o de fim-de-tarde a partir das 17h.