segunda-feira, 22 de agosto de 2016
sábado, 20 de agosto de 2016
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Em nome da sacrossanta honra da raça, sem pensarem no facto de que, na cama, também é preciso amor, jogo e brincadeiras
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O banquete do casamento realizou-se no restaurante Na Cidade de Amesterdão, e de novo via que era verdade que todos bebiam, também, à minha saúde, mas tudo rodava à volta de Lisa e eu comecei a sentir-me cada vez mais relegado para o papel dum mais ou menos suportado, é verdade que ariano mas sempre pequenote checo, embora tivesse cabelo amarelo clarinho, ao peito uma faixa e, na anca, a condecoração em forma de estrela dourada. Todavia, não deixei transparecer nada e, como se não visse, sorria, até me fazia bem pensar que era o marido de uma mulher tão célebre, que todos os oficiais, certamente solteiros, pretenderiam ou poderiam pretender, mas nenhum a conquistara, e tinha sido eu quem a tinha encantado, provavelmente estes soldados não sabiam fazer mais nada senão saltar para cima da mulher, na cama, com botas e tudo, em nome da sacrossanta honra da raça, sem pensarem no facto de que, na cama, também é preciso amor, jogo e brincadeiras, e isso sabia-o eu, que o tinha descoberto, por instinto, há muito tempo, no Éden, quando ornamentei a barriguinha da putinha nua com margaridas e pétalas de azália... e depois, há dois anos, também a barriga desta alemã consciente, desta comandante das enfermeiras militares, desta alta funcionária do partido. Por isso, entre toda esta gente, ninguem conseguiria imaginar aquilo que eu estava a ver: nua e deitada de costas, vou pondo à volta do seu ventre os raminhos verdes de abeto, que ela recebe como uma homenagem, talvez mesmo como homenagem mais valiosa do que aquela em que o magistrado nos apertava, aos dois, as mãos através da bandeira vermelha e nos lamentava porque não podíamos morrer os dois na luta pela Nova Europa, pelo novo homem nacional-socialista. Lisa, vendo que eu sorria, que tinha aceitado o jogo a que tinha sido condenado por aquela cerimónia, pegou no copo e piscou-me o olho, cúmplice, perante os convidados um pouco atónitos com a solenidade desta cerimónia, eu peguei também no meu copo e levantei-me para ficar ainda maior: estávamos de pé, face a face, levantando os nossos copos, os oficiais olhavam e, para verem melhor, arregalavam os olhos, examinavam-nos como se estivéssemos num interrogatório; Lisa riu da mesma maneira como ria quando estávamos juntos, na cama, quando a tratava com cortesia francesa: olhámos um para o outro, como se ela estivesse nua e eu também, e vi a névoa branca que cobria novamente os seus olhos, um olhar turvo que as mulheres têm no momento do abandono, aquele momento em que as mulheres caem mas não é desmaio, em que deitam fora os últimos obstáculos e abrem o caminho para que aconteça tudo o que no momento for oportuno, em que se abre um mundo diferente, o mundo dos jogos amorosos e das carícias... e assim, beijou-me longamente, à frente de todos, eu fechei os olhos, segurávamos os copos com champanhe enquanto nos beijávamos longamente, o vinho escorria devagarinho, sobre a toalha, dos nossos copos inclinados, e todos os convidados se calaram; a partir daquele momento estavam todos como que perplexos, observavam-me com olhos diferentes, até me examinavam atentamente e neste exame verificaram que com o sangue eslavo o sangue germânico goza muito mais do que só com o sangue alemão, e em poucas horas eu tornei-me, é verdade que estrangeiro, mas um estrangeiro que todos, com uma ligeira inveja ou raiva, estimam, mesmo as mulheres me olhavam e como que percrutavam o que provavelmente eu poderia fazer na cama, e com elas. Imaginando, sem dúvida, que eu era capaz de uns jogos especiais ou diabólicos, suspiravam docemente, reviravam os olhos e começaram a conversar, embora me enganasse nos artigos der, die, das eu conversei com todas estas mulheres que, com aquele horrível alemão delas, tiveram que falar comigo devagar, como na primária, a pronunciar lentamente os seus discursos, deliciavam-se com as minhas respostas e chegaram à conclusão que os meus erros de gramática eram um encanto que as fazia rir, que lhes transmitia o sortilégio das planícies eslavas, de bétulas e prados... mas todos os militares, tanto da Wehrmacht como das SS, todos ficaram insensíveis comigo, quase zangados, todos entenderam muito bem como conquistei Lisa, a bela loura que à honra e sangue alemães tinha preferido o amor sensual e belo... contra o qual eles, embora cheios de cruzes de guerra conquistadas nas campanhas da Polónia e da França, eram impotentes...
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, página 138-140
"Eu que servi o Rei de Inglaterra"
Bohumil Hrabal
Tradução de Ludmila Dismanová
Edições Afrontamento
O banquete do casamento realizou-se no restaurante Na Cidade de Amesterdão, e de novo via que era verdade que todos bebiam, também, à minha saúde, mas tudo rodava à volta de Lisa e eu comecei a sentir-me cada vez mais relegado para o papel dum mais ou menos suportado, é verdade que ariano mas sempre pequenote checo, embora tivesse cabelo amarelo clarinho, ao peito uma faixa e, na anca, a condecoração em forma de estrela dourada. Todavia, não deixei transparecer nada e, como se não visse, sorria, até me fazia bem pensar que era o marido de uma mulher tão célebre, que todos os oficiais, certamente solteiros, pretenderiam ou poderiam pretender, mas nenhum a conquistara, e tinha sido eu quem a tinha encantado, provavelmente estes soldados não sabiam fazer mais nada senão saltar para cima da mulher, na cama, com botas e tudo, em nome da sacrossanta honra da raça, sem pensarem no facto de que, na cama, também é preciso amor, jogo e brincadeiras, e isso sabia-o eu, que o tinha descoberto, por instinto, há muito tempo, no Éden, quando ornamentei a barriguinha da putinha nua com margaridas e pétalas de azália... e depois, há dois anos, também a barriga desta alemã consciente, desta comandante das enfermeiras militares, desta alta funcionária do partido. Por isso, entre toda esta gente, ninguem conseguiria imaginar aquilo que eu estava a ver: nua e deitada de costas, vou pondo à volta do seu ventre os raminhos verdes de abeto, que ela recebe como uma homenagem, talvez mesmo como homenagem mais valiosa do que aquela em que o magistrado nos apertava, aos dois, as mãos através da bandeira vermelha e nos lamentava porque não podíamos morrer os dois na luta pela Nova Europa, pelo novo homem nacional-socialista. Lisa, vendo que eu sorria, que tinha aceitado o jogo a que tinha sido condenado por aquela cerimónia, pegou no copo e piscou-me o olho, cúmplice, perante os convidados um pouco atónitos com a solenidade desta cerimónia, eu peguei também no meu copo e levantei-me para ficar ainda maior: estávamos de pé, face a face, levantando os nossos copos, os oficiais olhavam e, para verem melhor, arregalavam os olhos, examinavam-nos como se estivéssemos num interrogatório; Lisa riu da mesma maneira como ria quando estávamos juntos, na cama, quando a tratava com cortesia francesa: olhámos um para o outro, como se ela estivesse nua e eu também, e vi a névoa branca que cobria novamente os seus olhos, um olhar turvo que as mulheres têm no momento do abandono, aquele momento em que as mulheres caem mas não é desmaio, em que deitam fora os últimos obstáculos e abrem o caminho para que aconteça tudo o que no momento for oportuno, em que se abre um mundo diferente, o mundo dos jogos amorosos e das carícias... e assim, beijou-me longamente, à frente de todos, eu fechei os olhos, segurávamos os copos com champanhe enquanto nos beijávamos longamente, o vinho escorria devagarinho, sobre a toalha, dos nossos copos inclinados, e todos os convidados se calaram; a partir daquele momento estavam todos como que perplexos, observavam-me com olhos diferentes, até me examinavam atentamente e neste exame verificaram que com o sangue eslavo o sangue germânico goza muito mais do que só com o sangue alemão, e em poucas horas eu tornei-me, é verdade que estrangeiro, mas um estrangeiro que todos, com uma ligeira inveja ou raiva, estimam, mesmo as mulheres me olhavam e como que percrutavam o que provavelmente eu poderia fazer na cama, e com elas. Imaginando, sem dúvida, que eu era capaz de uns jogos especiais ou diabólicos, suspiravam docemente, reviravam os olhos e começaram a conversar, embora me enganasse nos artigos der, die, das eu conversei com todas estas mulheres que, com aquele horrível alemão delas, tiveram que falar comigo devagar, como na primária, a pronunciar lentamente os seus discursos, deliciavam-se com as minhas respostas e chegaram à conclusão que os meus erros de gramática eram um encanto que as fazia rir, que lhes transmitia o sortilégio das planícies eslavas, de bétulas e prados... mas todos os militares, tanto da Wehrmacht como das SS, todos ficaram insensíveis comigo, quase zangados, todos entenderam muito bem como conquistei Lisa, a bela loura que à honra e sangue alemães tinha preferido o amor sensual e belo... contra o qual eles, embora cheios de cruzes de guerra conquistadas nas campanhas da Polónia e da França, eram impotentes...
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, página 138-140
"Eu que servi o Rei de Inglaterra"
Bohumil Hrabal
Tradução de Ludmila Dismanová
Edições Afrontamento
terça-feira, 16 de agosto de 2016
A voz de François Testory
A primeira vez que ouvi a sua voz foi, nos anos 90, num album de Von Magnet,
numa música chamada 'Sur-realista',
e na realidade pensei que era uma gaja a cantar, uma bela voz de gaja.
Dois ou três anos mais tarde, assisti na tv a excerptos de um filme de Franco Zeffirelli
onde aparecia um 'castrato' e sua voz.
https://en.wikipedia.org/wiki/Castrato
A bem dizer, nada sei sobre a vida por detrás desta voz,
nem isso me interessa particularmente,
mas na música pop é raro uma voz masculina assim e, além desta, só conheço a voz do Antony,
que agora se apresenta com o nome de Anohni.
A bem dizer, nada sei sobre a vida por detrás desta voz,
nem isso me interessa particularmente,
mas na música pop é raro uma voz masculina assim e, além desta, só conheço a voz do Antony,
que agora se apresenta com o nome de Anohni.
Mas só num album de Coil já no novo milénio
conheci o homem e o seu nome por detras da bela voz.
Ele participou no último concerto desta banda, realizado em Dublin 2004,
e, após a morte de John Balance, Sleazy Christopherson editou e remisturou a música
para o album póstumo chamado 'Aple of Naples'.
A música chama-se Going Up
o original está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=ztdatfUEW94
ao vivo em Dublin:
domingo, 14 de agosto de 2016
Operação Flores -- dia 12 (tarde)
Hoje, só trabalhei de tarde
mas correu bem.
Tenho a declarar que, entre outros eventos,
ganhei uma refeição de pasta de graça no Rossi Ristorante situado a 30km de Bruxelas,
propriedade do senhor Rossi que, com a sua mulher chinesa,
comprou a aguarela em baixo.
Também tiraram fotografias, disseram que a aguarela era para a casa deles.
Kum Kleopatra Kum - Into the crypt, by Sleep Chamber
Track VII and VIII from Sleep Chamber on the release 'Stolen Sleep'
https://www.discogs.com/Sleepchamber-...
"Mummies robbed ov their sleep. Sacred dreams interrupted. Holy dimensions disturbed. Whom so ever awakens these sacrosanct sleep chambers, seal their fate to thee underworld"
Anubus 23
sábado, 13 de agosto de 2016
O pintor e a sua obra
ZMB, fotografado com o seu burrofone
pelo, também pintor, Manuel Feliz
12 Agosto 2016
Rua das Flores, Porto, Porto
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