quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A minha história paralela com os Ornatos Violeta

Eu passei alguns anos a estudar em Aveiro,
na altura frequentava uma casa com estudantes pelo prazer da farra
e indirectamente conheci, não sei se pessoalmente não me recordo,
um trompetista que actuava no que era uma banda que começava a despontar:
os Ornatos Violeta.
Tambem conheci brevemente, em finais de 1998, uma pintora
que me mostrou uns trabalhos gráficos que dizia serem para a mesma banda.
Reconheci mais tarde, estes trabalhos na capa do álbum:
'O monstro precisa de amigos'.
Quando este álbum saiu não o comprei. Não conhecia as músicas.
Mas fiquei sempre com a memória do título do disco, era uma imagem que se aplicava a mim próprio: eu não tinha amigos e mesmo as amigas se afastaram, a partir do momento em que adoeci.
Sentia-me um monstro.

Só por alturas de 2007, quando os blogs explodiram com posts músicais e links para partilha e download de álbuns completos, ouvi pela primeira vez o disco.
Gostei demais, foi playlist durante meses. As letas smplesmente fabulosas.

Entretanto, o boom deu-se, o público português rendeu-se à banda, redescobriu a banda e tornou-a um mito. Fizeram concertos com o álbum completo.
Em 2012, vi pela primeira vez o vídeo oficial da música 'Ouvi dizer',
e há neste um grafiti e uma letra torna a música ainda mais especial e
cheia de sincronicidade para mim.
Quem conhecer o livro 'Kcoillapso' de Claudio Mur,
poderá conseguir perceber porque chamei a este post:
a minha história paralela com os Ornatos Violeta.
Note-se que tudo isto é apenas plausível e passível de ser verdade para mim e
para os outros, para os falsos, será totalmente impossível.




This post is dedicated to my sweet friend Alex:
she knows better and she has class.
This post is not dedicated to the squeamish.

sábado, 10 de setembro de 2016

Boas vibrações


Álvaro, the great


'Álvaro, the great'
Desenho a lápis de grafite, digitalizado a preto e branco
tamanho A5
2016
ZMB

Álvaro toca temas de guitarra clássica,
entre várias melodias toca aquela que os Doors adaptaram em 'Spanish Caravan'.
Tem igualmente uma banda de heavy metal !!

O desenho por detrás do Álvaro é um grafiti do artista Costah.
Este desenho foi feito por observação de uma foto tirada na Rua das Flores.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ignorava que não é necessário ter dinheiro para ser rico

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Adquirira o hábito de olhar à minha volta, de observar as pessoas com quem me cruzava na rua, no metro, na tasca onde fazia as minhas refeições do meio-dia. Que é que via? Caras tristes, olhares fatigados, indivíduos desgastados por um trabalho mal pago, mas obrigados a fazê-lo para sobreviver, apenas podendo dispor do mínimo essencial. Seres condenados à mediocridade perpétua; (...) Seres que conhecem o futuro por não o terem. Robôs explorados e paralisados, respeitadores das leis, mais por medo do que por honestidade moral. Submissos, vencidos, escravos do despertador. Eu fazia parte deles por obrigação, mas sentia-me estranho àquela gente. Não aceitava. Não queria que a minha vida estivesse previamente resolvida, nem que fosse decidida por terceiros. Se às seis da manhã tivesse vontade de fazer amor, queria ter tempo de o fazer sem olhar para o relógio. Queria viver sem horas (...). Eu queria «ter tempo para viver», e a única maneira de lá chegar era não ser escravo dele. Sabia como a minha teoria era irracional, que era inaplicável como fundamento de uma sociedade. Mas o que era essa sociedade sem os seus belos princípios e as suas belas leis?
Aos vinte anos, mandara-me ela fazer a sua guerra em nome das liberdades, esquecendo-se simplesmente de me dizer que com a minha acção entravava a dos outros. Em nome de quê me dera ela o direito de matar homens que eu nem sequer conhecia e que noutras circunstâncias poderiam tornar-se meus amigos? Essa sociedade servira-se de mim como um peão, aproveitando-se da minha juventude e da minha inexperiência. Criara apenas um falso ideal em nome da «honra da pátria»... Servira-se da minha violência interior e explorara-a para fazer de mim um bom soldado, um bom matador. Via-a, essa mesma sociedade, indiferente à morte dos jovens que morriam em nome da pátria. Comia, arrotava, fodia e dormia na maior das calmas. A sua guerra era longe, estava-se nas tintas, desde que os dissabores não lhe tocassem de muito perto. (...) A sociedade enganara-me ao fazer-me arriscar a pele por uma falsa causa. Entregara-me à vida civil sem se preocupar com as sequelas que essa guerra deixara no meu psiquismo. Portanto, eu ia atirar-me a ela e fazê-la pagar o preço do que havia destruido em mim. Sabia que ao recusar as suas leis, ao recusar-me a seguir o rebanho, ia, mais cedo ou mais tarde, pagar muito caro. No entanto, friamente, conhecia todos os riscos que uma vida marginal podia acarretar para mim e aceitava previamente pagar o respectivo preço. Estava a suicidar-me socialmente. Talvez a minha ideia de felicidade fosse falsa. Ignorava que o homem que ganha pouco fica feliz por ter ganho esse pouco pelo seu trabalho; que não é necessário ter dinheiro para ser rico; que o facto de não ter tempo dá ainda mais sal à vida quando se pode aproveitar um momento de lazer; que criar um lar e ver viver os filhos gerados por nós é a base de uma verdadeira e sã felicidade; que o heroísmo talvez seja justamente fazer face à vida e aos seus problemas. Não sentia nada disso. (...) Queria tudo, mas repudiando o trabalho como se fosse uma doença vergonhosa. (...) Sim, aos vinte e três anos ia fazer do crime uma profissão. Sabia-o, porque assim o decidira. (...) Essa determinação ia conduzir-me ao topo e fazer de mim «o inimigo público número um»  de dois países: a França e o Canadá.
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, página 76-79

Jacques Mesrine
'O instinto de morte, autobiografia de um fora-da-lei'
Edição Antígona