segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Desemprego e final de má-disposição

O meu terceiro internamento hospitalar foi também o meu primeiro internamento compulsivo. Eu andava doente embora achasse que estava mais lúcido que o mundo à minha volta. Quando me pré-inscrevi num curso de programação php num centro de formação de Derza, uns meses antes, não estava doente, estava apenas deprimido e desempregado. Olhava por mim abaixo e punha-me a pensar nas minhas habilitações profissionais, tinha o canudo do curso superior, isso dizia-me que era engenheiro. Mas eu reflectia seriamente que a pouca coisa que, de facto, sabia era desenvolver aplicações multimédia em formato cdrom. Habilidade que desenvolvera nos trabalhos anteriores, habilidade que se ia tornando obsoleta com o implantar massivo da rede online. Pouco sabia de web e decidi aprender programação php, para, quem sabe, poder encontrar emprego nesta área que já era futuro a explodir. Foi neste espírito que me pré-inscrevi, para que pudesse ter um futuro profissional na minha área de estudos. Ao mesmo tempo ia fazendo desenhos e aperfeiçoando o meu pintar, ao mesmo tempo ia sempre ao café ler o jornal e procurar empregos no «procura-se», o que eu queria na realidade era um trabalho e não me importava a área, queria trabalhar e ganhar dinheiro, sustentar-me, ter a minha casa, e de noite deixar dormir em paz os meus pais no quarto ao lado, queria ter uma vida. Como nos dois últimos anos tinha trabalhado parcialmente mas tinha ganho um salário acima da média e, após desistir ao fim de quinze dias de uma estadia de quinze dias de aprendizagem numa fábrica de reparação de telemóveis, cheguei à beira dos meus pais e disse-lhes que tinha arranjado uma casa de bairro para viver. Eles não gostaram da ideia mas eu levei-a avante, pois podia do meu bolso pagar a renda, o senhorio fizera-me um contrato e pusera um fogão na cozinha e eu assim regressei à cidade onde nascera vinte e nove anos antes. A cidade na qual eu sonhava viver escondido no meio da multidão e pintar e ganhar dinheiro. 
Então se tudo era sonho bom porquê dez meses mais tarde estar a ser internado compulsivamente? Quinze dias antes, estivera com a minha mãe numa urgência psiquiátrica a falar com a minha primeira psiquiatra, fora ideia da minha mãe, eu estava actualmente sem acompanhamento e sem tomar os comprimidos, e a verdade é que ela não podia fazer nada por mim, porque eu estava na fase ascendente, eufórica, cheio de comunicabilidade, debitando discurso de quem lia e lançava ideias para o ar, uma delas foi eu dizer que o meu próximo internamento seria compulsivo, disse-o a rir pensando no filme Lilith, onde o assistente de psiquiatria Warren Beatty se apaixonava pela louca Jean Seberg e, no final do filme, pedia, ele-próprio, para o internarem. Para mim, compulsivo era isso, uma pessoa pedir para a internarem, sentir compulsão em se tratar. A doutora riu-se, não sei se lhe falei realmente deste filme, mas a última frase que ela me disse nessa noite de urgência foi «se calhar, tem razão, o texto está escrito!» e esta frase entrando na mente de um esquizofrénico, que não se considerava doente, foi mais uma acha para a fogueira de ideias continuamente a me virem ao pensamento, uma acha entre tantas outras intuições de que o meu mundo era vigiado, e que eu próprio vigiava, sempre na desportiva, se ia na rua e via um homem num telhado em frente imaginava um sniper, ria-me e roubava um Jornal de Letras do quiosque sem qualquer problema ético, sempre que via na televisão os debates da onu sobre a futura segunda guerra do golfo e reparava que os participantes usavam auscultadores nos ouvidos, eu punha a tocar no leitor de cd música surrealista, porque, em vez de entender que os auscultadores eram a tradução dos discursos, pensava que eles eram janelas de entrada para o som da minha aparelhagem e que assim eu estaria a interferir no debate e a foder os nervos àqueles palhaços que falavam sobre armas de destruição maciça. Ou seja, eu vivia em feedback com o mundo e qualquer frase captada pelos meus ouvidos, fosse na televisão, fosse o Syd Barrett no leitor de cd a interromper-se falando nas diversas takes de voz e guitarra, fosse uma frase lida, fosse um concurso solitário de punhetas de madrugada a ver as modelos de cabeleireiro nos anúncios das televendas, tudo isto contribuía para o cavalgar da psicose, para me fazer sentir se não dono do mundo, pelo menos alguém importante, que tinha a sua palavra a dizer e que ninguém podia ignorar. 
O copo entornou-se quando finalmente fui chamado para começar o curso e reparei que a maioria dos alunos eram mulheres, uma coisa estranha em engenharias informáticas, e a maior parte vinham de letras ou artes, entre outras peculiaridades naquela saula de aula. Comecei a achar que o curso era uma farsa e comecei a disparatar. Habituado a falar alto em casa comigo próprio, comecei a debitar discurso e a perturbar as aulas, fui chamado para falar com os responsáveis pelo curso, ao fim de uma semana chamaram a polícia. Numa manhã de sexta-feira, saí como um senhor a quem davam boleia e fui conduzido a uma esquadra a três ou quatro km de distância e, incrivelmente, dentro do posto lembrei-me de dizer «então já posso ir embora?», eles disseram que sim e eu vim-me embora a rir-me e a dizer «que palhaçada!». Caminhei a distância até ao centro de formação. Ás duas horas da tarde não me deixaram entrar e como eu me recusasse a abandonar as instalações, chamaram de novo a bófia e levaram-me à urgência, médicos e polícias a tocarem-me, a tirarem-me os cigarros, etc, eu a contorcer-me no chão para eles me deixarem em paz, saí directo para o hospital central psiquiátrico onde me largaram na solitária com uma injecção no cu para dormir e sem um penico para mijar. Começou assim o meu internamento compulsivo e, apesar de só depois o ter percebido, foi a autoridade que sentiu compulsão em me internar, o que me fez pensar na ironia das palavras. Já nos dois internamentos anteriores, a solitária tinha o título de sala IQ, como se nela se testasse o coeficiente de inteligência e só os mais aptos lá entrassem, uns brincalhões estes funcionários da autoridade mental. 
Estive seis semanas internado com o meu caso em julgamento, foi-me concedido um advogado que nunca me deixaram ver ou ele nunca me quis visitar e quando foi tempo de sair, disseram-me que tinha de levar uma injecção e assinar a dizer que autorizava a injecção. Recusei porque me lembrei do estado em que a outra, três anos antes, me deixara. Foi marcada a audiência em tribunal mental para julgar a minha situação. Não fui convocado para o meu próprio julgamento. Can you believe? Foram os meus pais interrogados por mim e a sentença foi decretada: a minha mãe ficou de me dar cinco euros por dia e o meu pai pagar-me a renda, além disso, preencheram-me os papéis para o rendimento mínimo e para um curso no centro de desemprego. Quanto a mim, na consulta seguinte, já novamente deprimido aceitei tomar a medicação em comprimidos e os médicos escreveram um relatório que enviaram para o tribunal a recomendar a substituição do tratamento compulsivo por tratamento de ambulatório voluntário, a diferença é que se não fosse à consulta por qualquer motivo, a polícia não viria buscar-me para me levar ao hospital.
Caiu-me mais uma vez a realidade em cima, podia ter esperneado mas nunca deixara de ser um zé-ninguém.
Passei os três anos seguintes integrado em cursos de formação em informática onde a maioria dos formandos parecia estar de férias ou em trânsito para outro lado: havia professores de educação visual, economistas e contabilistas, até realizadores de cinema e engenheiros formados para quem aquelas aulas eram um passatempo e sabiam mais que os formadores. Um destes, por exemplo, formador de linux punha-nos a jogar jogos em linux e depois incomodava-se quando nos testes alguém copiava, os directores do centro privado de formação organizavam lanches com catering de comida e bebida no espaço traseiro e nos confiavam que dentro de pouco tempo iriam começar as obras de ampliação das instalações, e eu alienado no meio daquilo tudo, de nada aprender porque toda a gente parecia estar apenas importada com o subsídio de formação ao fim do mês e com o destino das férias em perspectiva… eu… a coisa mais interessante que experienciei foi o verniz das unhas dos pés de uma colega. O restante era a pasmaceira de dinheiro roubado, um negócio da cee e programas operacionais da treta, agora diz-se negócio da china o dinheiro desbaratado em cursos onde ninguém aprende nada além de cusquices e, às vezes, namoricos. Fartei-me de vez, chegaram a telefonar-me para repetir o mesmo curso, deviam precisar de numerus clausus para poderem obter financiamento. Recusei envolver-me em mais outra fraude e disse que tinha sido admitido na universidade, num curso de pós-graduação de dois anos. Mais uma fuga em frente. Podia ter escolhido design mas como não gostava pessoalmente de alguns professores, escolhi matemática aplicada porque me lembrava de que esta tinha sido uma cadeira que me entusiasmara na minha anterior licenciatura. De um momento para o outro, dei por mim a assistir a aulas de Lógica e Geometria Diferencial e a sentir-me um burro num palácio, deixei de ir às aulas e comecei a frequentar a biblioteca municipal, acrescentei ao meu sentido de perdição, a perdição do Leverkhun, a personagem que enlouquece em 'O doutor Fausto' de Thomas Mann. Acabei expulso por excesso de faltas e a bolsa foi-me cortada. 
Voltei a Derza para o ninho familiar. Arranjei um emprego em que me declaravam engenheiro num contrato sem termo mas ganhava apenas o salário mínimo, o meu trabalho consistia em introduzir dados roubados nas páginas web de outras empresas no sistema administrativo web do nosso futuro site de empresa. Foi aqui que voltei à tona de água, apesar de a empresa se ter revelado mais uma fantochada de apoios públicos à contratação, à compra de material informático, ao financiamento de projectos que não saíam do papel, porque os sócios-gerentes que decidiam e organizavam o nosso trabalho diário, estavam mais interessados em fumar ganza os dois no sótão e a comprar carros para a empresa. Voltei à tona de água porque finalmente tinha um contrato de trabalho seguro, pastava a mula sem nada fazer das 10h às 18h30m, e podia eu próprio dedicar-me à noite às minhas pinturas no Anexus 51 nas traseiras da casa familiar. A boa disposição voltara. Além disso, surgira uma oportunidade de expôr pela primeira vez. O meu rumo até então em ziguezague começava a encontrar o seu norte.

( continua daqui )

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O talento de Frank Zappa para a javardice

Wowie Zowie 
o teu amor é um deleite
Wowie Zowie
ninguém te passa para trás
Wowie Zowie, bebé
és tão simples
eu nem me importo
se tu depilas as pernas

Wowie Zowie, bebé
és tão fixe
Wowie Zowie, bebé
por favor, sê minha
Wowie Zowie
acima e abaixo da minha espinha
eu nem me importo
se tu lavas os dentes

Sonho contigo todas as manhãs
sonho contigo todas as noites
aliás no outro dia fiquei tão agitado
sonhei contigo durante a tarde

Sonho contigo todas as manhãs
sonho contigo todas as noites
aliás no outro dia fiquei tão agitado
tive um flash durante a tarde

Wowie Zowie, bebé
gosta de mim
Wowie Zowie
eu gosto de ti também
Wowie Zowie, bebé
serei verdade
eu nem me importo
se o teu pai é fogo

Wowie Zowie 



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

As musas da minha família


Desenho a lápis de grafite sobre tela
ZMB 2016

As minhas musas este mês para pintar a óleo.

Diz a minha «crítica de arte» actual que
este desenho tem algumas deficiências,
Afirmo que serão resolvidas o mais possível e
de acordo com a minha capacidade de trabalho.
É sempre bom ouvir segundas opiniões, permite valorizar o trabalho final.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Iccata, a grega


'Iccata, a grega'
óleo sobre tela
40cm por 50cm
2001 - 2016
ZMB

Quando este ano decidi melhorar esta pintura,
retirei alguma inspiração num quadro de Eduardo Nery
e depois também em 'O livro dos seres imaginários' de Borges
onde descobri que, na Grécia, as esfínges são aladas.
Como o Egipto foi governado pela Grécia, resolvi colocar asas na minha esfínge. 



quadro de Eduardo Nery:


Iccata começou por ser uma felina egípcia que se transformou numa esfínge.
A ideia do chapéu é retirada do livro e filme 'A insustentável leveza do ser'.
O chapéu de Iccata é o chapéu de Sabina. 
Iccata começou por ser a Sabina com quem eu via filmes em vídeo e falávamos sobre literatura.
Era e, apesar de com ela não ter mais contacto, deve ser ainda muito bonita apesar da idade.
Na altura tentava conquistá-la com o intelecto. Era correspondido ao nível platónico.
Éramos amigos sem a parte sexual, embora certamente pensássemos nisso quando,
por exemplo, ela vinha e eu lhe mostrava o que escrevia e lhe cozinhava um esparguete com costeleta
e ela se lembrava também de malmequeres oferecidos.
Mais tarde, tentei a minha sorte sexual. 
Ela repeliu-me sem qualquer explicação pronunciada, dizendo apenas «não desapareças»
E eu desapareci sem lho dizer e voei sobre o oceano para uma nova experiência de trabalho,
mais tarde vim a saber que ela telefonara para casa de meus pais, enviara emails com cartas,
parecia que afinal eu lhe fazia falta.
Como Iccata nunca foi minha de verdade transformei-a num mistério egípcio, 
uma espécie de musa que transformei em deusa 
quando a minha condição psicológica atingiu um ponto crítico.
Nessa altura, tentei que a memória que tinha do passado pudesse voltar ao tempo presente,
pensei que podia «matar» um amor antigo com outra mulher não nova mas antiga, 
apegando-me à sensação de bem-estar que havia tido com Iccata no passado.
Fiz o que ela me havia feito: escrevi-lhe cartas e emails que foram correspondidos,
chegámos a fazer planos de viagem.
Tudo foi interrompido porque paralelamente fui internado uma nova vez
e entrei em depressão pós-internamento.
Durante anos não nos vimos. Depois voltámos a ver-nos.
Ela continuava bonita mas eu senti que já não a acompanhava,
ela falava-me de escritores croatas e eu nada sabia, nada tinha para contar.
Depois, as palavras trocadas tornaram-se raras.
E eu tive um momento desagradável: 
despeitado por as suas respostas já não terem a rapidez de antigamente, 
escrevi-lhe umas palavras desagradáveis às quais ela respondeu com a sua firmeza.

A distância de segurança que ela introduziu entre nós mantém-se até aos dias de hoje,
não há simplesmente contacto.
O meu erro foi pensar que Iccata era uma cristalização do passado, 
esqueci-me que as pessoas evoluem e fazem escolhas,
ela fez a escolha de me ignorar, não foi a primeira mulher a fazer-me o mesmo.
Da minha parte, não pretendo pedir mais desculpas a pessoas 
que já não querem mais a minha presença.
Cheguei à conclusão que não preciso mais de mendigar carinho ou atenção.

Fica este quadro como memória.

(fotografia de época)



«O que é que pode resolver as coisas?»
«Ela. O desejo de viver que houver nela.

'
«A Lucinda tinha perdido o sorriso à força de pálida», explicou o homem. «E então virou-se para mim e respondeu. 'Então ao menos saiba o que eu tenho calado.' E eu disse: 'E o que é isso?' E ela contou que havia bastante tempo que abastecia a mulher de comprimidos e supositórios comprados em farmácias diferentes, e que 'A senhora sempre que me manda fazer recados dessa natureza diz-me não digas nada a ninguém e muito menos ao senhor.' E o homem contou ao psicanalista como, ouvido aquilo, sentira uma espécie de estrondo silencioso dentro dele. E ficara especado diante do olhar triunfante da Lucinda como uma lebre encadeada pelos faróis dum jeep. A verdade (a descoberta da verdade) entrara nele como o calor de um banho muito quente em que o corpo nu é mergulhado sem preparação nenhuma. E ele conseguira pôr-se a caminho da porta da cozinha. E ao chegar à porta, dissera sem se virar para trás: «Lucinda, tu tens vinte e quato horas para saíres daqui como o que a lei manda pagar em caso de despedimento sem justa causa.»
«E depois?»
Depois o homem telefonara ao tal médico que fora a única pessoa a quem até então ele falara no comportamento bizarro da mulher. Fora informado de que a mulher deixara de contactar tal médico havia mais de três meses. Esta informação originara novo espanto desagradável no homem, porque a mulher dizia-lhe regularmente que ia ao consultório, e o dinheiro das consultas saía da gaveta comum. O homem narrara então ao médico a cena com a criada, e o médico dissera que estava ao corrente do vício da mulher.
«Eu perguntei-lhe: 'Porque é que não me avisou? E ele disse: 'Era segredo profissional'. E eu disse: 'E quando ela deixou de ir ao consultório?' E ele disse: 'Continuava a ser segredo profissional'. Nessa altura eu senti-me verdadeiramente perturbado, porque é preciso que eu lhe explique uma coisa: quando a minha mulher e eu decidimos casar, combinámos que esse casamento teria para nós o sentido de um pacto: entre outras coisas, cada um de nós nunca mentiria ao outro e estaria à vontade para pedir a ajuda do outro em qualquer sarilho que fosse, sem vergonhas. E de um dia para o outro eu encontrava-me a partir a compostura de encontro a segredos profissionais de médicos e criadas.»
«E depois?», perguntou o psicanalista.
«Depois veio outro médico. Havia clínica, tratamento de sono, mais clínica. Durante o tratamento de sono levantou-se da cama sem saber onde estava, e andou a vaguear pelos corredores aterrada de espanto. Acabou por se meter na cama doutro quarto e ainda para mais borrou-se nela, e por fim a enfermeira tratou-a vigorosamente mal. Este género de coisas são todas bastante horríveis, ou pelo menos acho assim. E depois toda a gente começou a não suportar estar com ela, a começar pelos que gostam mais dela. Quando a vão visitar fazem esforço como quem vai ao dentista e ela parece que não dá por isso mas dá. Só que nunca fala dessas modificações. Hoje em dia está mais só do que o último moicano no Polo Norte à meia-noite polar.»
O homem calou-se para engolir um copo de água e disse:
«Neste momento está numa clínica, entrou ao meio-dia.»
«De livre vontade?»
«De direito sim. De facto, à força.»
Pequeno silêncio.
«Afinal já sei o que queria perguntar-lhe», disse o homem.
«C'est-a-dire?»
«Quer dizer: E DEPOIS?»
O psicanalista soriu. «Este alcatifas sorri como um polvo amanda ferrado», pensou o homem. Sentia uma nascente simpatia pelo outro, pressentia-o nadando fora das comuns correntes da linguagem.
«Oiça», disse o psicanalista. «Mesmo que ambos quiséssemos eu não podia ocupar-me da sua mulher. E não lhe posso dar senão uma vaga opinião.»
Desta vez foi o homem quem sorriu: «A minha opinião acerca deste assunto é a coisa mais vaga de todas as coisas vagas», disse ele. «Estou como um soldado francês na campanha da Rússia, ignoro tudo excepto que faz frio e muito russo.» Depois que disse isso, o homem pensou: «Por que raio fui eu buscar a campannha da Rússia?»
O estrangeiro começou a interrogá-lo. As perguntas incidiam fundamentalmente sobre os pais da mulher, sobre os irmãos da mulher. Pelas perguntas o homem acabou por entrever que o outro estava a tentar saber alguma coisa sobre o modo de ser dessas pessoas, e sobre o modo de ser da mulher com elas. Depois foi a vez dos modos do pai dele, dos dele com os pais e dos da mulher com os sogros. «Isto parece uma revista de modos», pensou o homem.
«Olhe», disse o psicanalista ao fim das perguntas todas. «Eu só poderia ter uma opinião um bocado fundada depois de um tempo útil de análise da sua mulher. Nas condições em que nos encontramos, só posso dar-lhe a minha opinião acerca do que você me disse. Seria desumano deixá-lo partir sem lhe dizer nada, mas repare bem: eu disse: uma opinião sobre o que você me disse.»
O estrangeiro falou durante alguns minutos. O homem escutava muito atentamente.
Quando o psicanalista se calou, o homem perguntou-lhe:
«E o que é que você acha que se deve fazer?»
Muito leve encolhimento de ombros.
«Um psicanalista dirá sempre que a análise às vezes pode ser útil. Dirá também que quase sempre vêm ter connosco quando tudo o mais não resultou. Quer dizer, quando todos os erros possíveis foram cometidos. No caso da sua mulher, parece-me de dizer que nem internamentos nem policiamentos resolverão as coisas.»
«O que é que pode resolver as coisas?»
«Ela. O desejo de viver que houver nela.
«Não sei por onde é que anda esse desejo», disse o homem. «Hoje em dia. Não sei de todo onde é que ela o escondeu.»
'

,página 122-124

"Directa"
Nuno Bragança
edição Planeta deAgostini 2000

domingo, 2 de outubro de 2016

Henrique e tio Rui


'Henrique e tio Rui'
óleo sobre tela
40cm por 30cm
2016
ZMB

Futura prenda de natal.
Dedicado ao meu sobrinho.

sábado, 1 de outubro de 2016

Maldito seja o sol



God Damn the Sun - Michael Gira

from the album 'Songs for a dog'

Lyrics:
When, when we were young
We had no history
So nothing to lose
Meant we could choose
Choose what we wanted then
Without any fear
Or thought of revenge
But then you grew old
And I lost my ambition
So I gained an addiction
To drink and depression
(they are mine
My only true friends
And I'll keep them with me
Until the very end)
I'd choose not to remember
But I miss your arrogance
And I need your intelligence
And your hate for authority
But now you're gone
I read it today
They found you in Spain
Face down in the street
With a bottle in your hand
And a wild smile on your face
And a knife in your back
You died in a foreign land
And they found my letter
Rolled up in your pocket
Where I said I'd kill myself
If she left me again
So now she's gone
And you're both in my mind
I've got one thing to say
Before I am drunk again:
God damn the sun
God damn the sun
God damn anyone
That says a kind word
God damn the sun
God damn the sun
God damn the light it shines
And this world it shows
God damn the sun