terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Supus poder responder erguendo o boné
'
No fim da refeição, Floritchica dise:
-- Trasnila, queriamos ouvir uma história cigana. Sabes alguma?
Trasnila, jovial, e perfeitamente à vontade, respondeu:
-- Uma história «cigana»? Sei uma, a minha, mas suponho que ela é acima de tudo humana.
-- Pois bem, conta-no-la.
-- Aí vai, honrados boiardos. Não posso esperar que isto vos divirta. Os ciganos são em geral bons para isso. Não é o meu caso. Nem sou eu o culpado.
O princípio da minha história faz-me lembrar um famoso provérbio romeno: Quando um cigano se torna imperador, começa por mandar prender o pai.
Pobre imperador! Devia ter um pai como o meu. Se não enforquei o meu, vontade não me faltou.
O meu pai é um boiardo romeno dos lados de Calafate. Ainda vive, gordo e com saúde. Não sou eu o único filho. Éramos um montão de ciganos, rapazes e raparigas, que lhe devíamos a vida, sem para isso termos que lhe guardar um eterno conhecimento, visto que, a exemplo de todos os senhores, não fez outra coisa que emprenhar as mais belas moças das tribus de que era o déspota, o que os cães fazem com muito mais equidade.
Sabia-lhe a crónica (que minha mãe me contara numa noite de chuva). Tinha herdado toda a fortuna do pai, ainda muito novo, quando iniciava os estudos; nunca se tinha querido casar, porque «as mulheres podem enganar os maridos»; tinha regressado de junto das Frautzouchras farto das mulheres perfumadas e gostava imenso, das raparigas ciganas.
'Quando os meus olhos se abriram para a ignomínia da nossa condição de escravo, estava ele na plena força da vida. Um pouco mais tarde -- tinha então dezasseis anos -- vi indicarem uma jovem cigana e gritarem-nos:
-- Aquele que tocar em Profiritza será morto! Ela nunca mais trabalhará, de hoje nem diante!
Já se sabia o que aquilo significava. Supus poder responder erguendo o boné:
-- Senhor! Que os dias felizes da tua vida sejam sem fim como o número de mulheres belas que poderás ter, mas deixa-me Profiritza! Ela é minha e eu quero-lhe muito!
Disse aquilo dum jacto e imediatamente toda a tribu se pôs a gritar, como é seu hábito nos enterros. As mulheres arrancaram os cabelos. Os homens cuspiam com indignação:
-- Ptrou! Cigano burro! Vai ser morto!
Meu pai, o senhor, desceu as escadas e perguntou-me:
-- Já tocaste em Profiritza?
-- Não!
-- Felizmente para ti!!
Depois dirigiu-se ao intendente:
-- Apliquem-lhe cinquenta chicotadas!
Profiritza lançou-se-lhe aos pés e implorou, com toda a ternura dos seus quinze anos, para me perdoar, mas o coração daquele pai não se enternecia e recebi a minha conta. Não senti nada, porque os meus olhos puderam ao menos fixar durante todo o tempo, os de Profiritza, que flamejavam.
Não devia tornar a vê-la tão cedo: ela foi entregue aos cuidados duma cigana velha que preparava o corpo daquelas que haviam de cair na cama do senhor, e eu, com outros escravos, homens e mulheres, parti no dia seguinte de manhã escoltados por um esbirro armado de chicote. Eramos oferecidos ao superior dum mosteiro muto afastado de Calafate, onde chegamos após uma semana de marcha. Tinha separado o marido da mulher, a mãe do filho, o noivo da noiva, e ficado frio ante os nossos gritos e as nossa lágrimas como se fica perante os balidos das crias separadas dos pais.
'
Panaït Istrati
em "O cigano Trasnila"
páginas 101-103
no Volume 'Antologia do conto moderno'
edição Atlântida Editora, Coimbra 1964
No fim da refeição, Floritchica dise:
-- Trasnila, queriamos ouvir uma história cigana. Sabes alguma?
Trasnila, jovial, e perfeitamente à vontade, respondeu:
-- Uma história «cigana»? Sei uma, a minha, mas suponho que ela é acima de tudo humana.
-- Pois bem, conta-no-la.
-- Aí vai, honrados boiardos. Não posso esperar que isto vos divirta. Os ciganos são em geral bons para isso. Não é o meu caso. Nem sou eu o culpado.
O princípio da minha história faz-me lembrar um famoso provérbio romeno: Quando um cigano se torna imperador, começa por mandar prender o pai.
Pobre imperador! Devia ter um pai como o meu. Se não enforquei o meu, vontade não me faltou.
O meu pai é um boiardo romeno dos lados de Calafate. Ainda vive, gordo e com saúde. Não sou eu o único filho. Éramos um montão de ciganos, rapazes e raparigas, que lhe devíamos a vida, sem para isso termos que lhe guardar um eterno conhecimento, visto que, a exemplo de todos os senhores, não fez outra coisa que emprenhar as mais belas moças das tribus de que era o déspota, o que os cães fazem com muito mais equidade.
Sabia-lhe a crónica (que minha mãe me contara numa noite de chuva). Tinha herdado toda a fortuna do pai, ainda muito novo, quando iniciava os estudos; nunca se tinha querido casar, porque «as mulheres podem enganar os maridos»; tinha regressado de junto das Frautzouchras farto das mulheres perfumadas e gostava imenso, das raparigas ciganas.
'Quando os meus olhos se abriram para a ignomínia da nossa condição de escravo, estava ele na plena força da vida. Um pouco mais tarde -- tinha então dezasseis anos -- vi indicarem uma jovem cigana e gritarem-nos:
-- Aquele que tocar em Profiritza será morto! Ela nunca mais trabalhará, de hoje nem diante!
Já se sabia o que aquilo significava. Supus poder responder erguendo o boné:
-- Senhor! Que os dias felizes da tua vida sejam sem fim como o número de mulheres belas que poderás ter, mas deixa-me Profiritza! Ela é minha e eu quero-lhe muito!
Disse aquilo dum jacto e imediatamente toda a tribu se pôs a gritar, como é seu hábito nos enterros. As mulheres arrancaram os cabelos. Os homens cuspiam com indignação:
-- Ptrou! Cigano burro! Vai ser morto!
Meu pai, o senhor, desceu as escadas e perguntou-me:
-- Já tocaste em Profiritza?
-- Não!
-- Felizmente para ti!!
Depois dirigiu-se ao intendente:
-- Apliquem-lhe cinquenta chicotadas!
Profiritza lançou-se-lhe aos pés e implorou, com toda a ternura dos seus quinze anos, para me perdoar, mas o coração daquele pai não se enternecia e recebi a minha conta. Não senti nada, porque os meus olhos puderam ao menos fixar durante todo o tempo, os de Profiritza, que flamejavam.
Não devia tornar a vê-la tão cedo: ela foi entregue aos cuidados duma cigana velha que preparava o corpo daquelas que haviam de cair na cama do senhor, e eu, com outros escravos, homens e mulheres, parti no dia seguinte de manhã escoltados por um esbirro armado de chicote. Eramos oferecidos ao superior dum mosteiro muto afastado de Calafate, onde chegamos após uma semana de marcha. Tinha separado o marido da mulher, a mãe do filho, o noivo da noiva, e ficado frio ante os nossos gritos e as nossa lágrimas como se fica perante os balidos das crias separadas dos pais.
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Panaït Istrati
em "O cigano Trasnila"
páginas 101-103
no Volume 'Antologia do conto moderno'
edição Atlântida Editora, Coimbra 1964
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
E viveram felizes para sempre
Ontem, dia 7, na oficina em Serralves com o grupo de utentes do CH S.João
Fotografias da
retroprojecção no canto da sala de formação de sombras recortadas.
Material utilizado:
Acetatos coloridos, cartolina, cola, fita-cola de papel, tesoura e x-acto
Dei como título a este trabalho a primera frase que o formador expressou
quando me viu a preparar este trabalho.
(Esta última foto foi tirada pelo formador)
domingo, 5 de fevereiro de 2017
sábado, 4 de fevereiro de 2017
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
No tears for the creatures of the night
Lyrics to No Tears
No tears for the creatures of the night
No tears
No tears for the creatures of the night
No tears
My eyes are dry
Goodbye
My eyes are dry
Goodbye
I feel so hollow I just don't understand
Nothing's turned out like I-- like I planned
My head's exploding
My mouth is dry
I can't help it if I've forgotten how to-- cry
No tears for the creatures of the night
No tears
Uh oh, oh no, uh oh, oh no, uh oh, oh no
No tears for the creatures of the night
Uh oh, oh no, uh oh, no tears
Uh oh, oh no, uh oh, oh no, uh oh
My eyes are dry
Goodbye
My eyes are dry
Goodbye
Goodbye
Goodbye
Goodbye
Goodbye
Goodbye
Goodbye
My eyes are dry
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Lust in the eye Love in the heart
'Lust in the eye Love in the heart'
óleo sobre tela
40cm por 30cm
2000 2017
ZMB
ZMB
'
Assim conheci Maria por intermédio de um dos meus eus, uma das minhas consciências num baile do enterro com os Mão Morta tocando Aum e nós nos beijando. Movido de uma espiritualidade correcta, saí de casa bem vestido e de barba feita. Joana dissera-me que teria de mudar e entrar num novo rumo. No entanto, meti uma vez mais o pé na poça e sujei os meus novos sapatos de camurça tendo chegado ao café exausto após procurar os meios para os limpar.
O Blitz é um longo rectângulo espelhado. Ao fundo, pequenas mesas decoradas a veludo vermelho; de um lado, um balcão de cabedal preto com lindos cinzeiros de mármore; um café escuro com muito fumo, muita cerveja e onde só falta o piano enferrujado.
A minha consciência senta-se, pede um café e um copo de água, olha em frente e vê, por entre as garrafas, os isqueiros nas prateleiras e a máquina de café, a sua imagem recortada e pulsante de dor. Existem superfícies longitudinais que escondem por meio da multiplicação os seus olhos e/ou deformam certas formas que logo se transformam em outras imagens tão naturais como respirar. Não fosse o problema dos sapatos e tudo estaria bem. A minha consciência sente-se exausta porque hoje é domingo à noite e saiu há dois dias de um centro de reeducação alimentar ou prisão perto de nós, tendo estado algum tempo com a família somente por 'amigos' ser algo do qual foi perdendo o conhecimento, até que veio aqui ao Blitz ter com Maria, talvez por razões de re-inserção social. Para mim tudo bem mas devagar. Para Joana, apenas uma vontade imensa de fazer bem.
São dez horas. É altura de ver uma série americana na tv, de se ler o jornal e procurar emprego, de procurar lugares bons e baratos para viver, de procurar as últimas novidades de toda uma diversidade de mundos normais.
Mas o que é um mundo normal?, pergunta a minha consciência na altura em sente uma violenta pancada nas costas e repara que eu, a pessoa mais normal do mundo, a engasgou.
Então meu já a curtir?
Resposta simples e humilde: Estava a ler o jornal.
We fall onto oblivion...
We fall onto oblivion...
Desculpa lá o atraso. Estás cá há muito tempo?
Há cerca de vinte minutos. Ela ainda não chegou.
Peço uma cerveja e pergunto quem é ela. Ela quem?
Pois, ainda não a conheceste pessoalmente. Repito: é filha do professor O.
Não te lembras? Quando lá foste naquela quinta-feira...
Certo. Quando houve aquela espécie de recolher obrigatório...
Hum... então se ela é filha do professor e eu sou pai de mim próprio...
Hum... que interessante, que perversão mais... que história invisível...
Exactamente.
Pergunto-me o que esta palavra dita em quatro tons de secura, rispidez, segurança e concordância quererá dizer. Penso: É disso que preciso - uma vida de pintor alimentada a ganza e um emprego como engenheiro de software.
A cor do cabelo interessa?
Claro que não.
A minha consciência pensa: vou precisar de comprar uma televisão, com o dinheiro que amealhei o ano passado não deverei ter problemas.
São por vezes engraçadas as coincidências astrológicas, pensa o misógino
R. que entra despercebido pois ninguém o vê, e ainda bem, indo sentar-se debaixo da prateleira da televisão. Após ser iniciado, digo que tive duas elas com o nome da minha avó, eram ambas do signo virgem tendo nascido no mesmo dia de Setembro. Conheci a segunda numa noite de maio que anos mais tarde se veio a revelar a data de anos de uma terceira ela. Talvez os astros estejam ligados. Eu misógino e/ou misantropo digo que não amei mais depois de maio. Pensem talvez moon uterus day 1.
Eis que ela entra. Traz longos cabelos castanhos encaracolados, calças de ganza agul clara e em maio traz uma camisola preta. Nos espelhos ela parece simplesmente fenomenal. Stunning. Pede com modos delicados desculpa pelo atraso e sorrindo fala de problemas domésticos com o seu gato.
Não sabia que tinhas um gato...
A minha consciência pergunta-lhe o que quer beber, aproveita para me apresentar e eu ofuscado por tanta luz retribuo o cumprimento.
Olá tudo bem.
Ela pede um fino.
O Blitz é um cenário apenas. Um foco de luz amarela ilumina o balcão, o chão é de taco encerado e os espelhos abismais.
Eu Claudio sou, vendedor de produtos domésticos, há quem diga que sou um drifter.
Eu sou Carlos, um ressacado da vida.
Eu sou Joana, professora primária.
We are all out, therefore we all are.
Todos se riem da verdade e quem são eles? Todos os nossos ídolos e admiradores.
O misantropo eu levanta-se e vai ao balcão pedir um café. Quando retorna lembra-se que o tempo é algo difícil de explicar, vai-se vivendo e às vezes damos conta de que o tempo passa, às vezes ele voa e ficamos sem saber onde estamos e quem sabe se fomos felizes e de que modo?
Sendo o Blitz um cenário destinado a dar vida social ao eu ressacado para que ele se possa sentir mais seguro na afirmação das suas posições e, por outro lado, permitir que o eu normal conheça a mulher de todos os meus sonhos uma primeira vez, é difícil pensar no que dirão durante toda esta situação. Talvez observando o mecanismo visceral da máquina de ar condicionado, do tabaco, do café, das pastilhas elásticas, do calor humano, das frases que são adivinhadas, tudo... até as que são mal compreendidas.
Que importa o amor numa vida?, pergunto-me eu misantropo. Aos quarenta a ternura dos quarenta e as obsessões religiosas, aos cinquenta a andropausa e a menopausa, aos sessenta a segunda infância, que importa toda uma vida? O humanismo é poesia, as crianças continuarão a chorar por falta de brinquedos e as bombas continuarão a cair. Qual será a nossa função?, seguir o destino?, e qual é o destino?, para que servirá criar se depois tudo cristaliza na nossa falta de vontade, na falta de compreensão das pessoas com as quais é necessário falar, em todo um mundo dito de normal para depois eventualmente ser tudo gravado e esquecido numa placa na via pública.
Do you like the Swans?
Do you like blue swans or Michael Gira's swans?
Como tudo é relativo.
Tenho de me ir embora. Volto dentro de dias. Estou a pensar arranjar quarto aqui. Se souberem de alguma coisa digam. Tchau.
Um beijo. Um beijo para todos os solitários.
Vou apanhar o foguetão.
O que tu não sabes meu querido Carlos é que, no momento seguinte à tua partida, o Armenia será destruído por um meteoro. Mesmo assim, ainda poderás acrescentar algo à história que o professor O. te entregou para publicação.
Claudio e Joana olham um para outro. Um momento depois beijam-se.
Justificação: Atracção fatal! Salvar-me-ás? Claro.
Porquê? Por sentirem o momento. Para quê? Talvez o conhecimento, o que nos distingue de uma máquina é termos um coração ou tomates ou uma cona.
Qual é o valor de um quadro oferecido...
Qual é exactamente a nossa relação com a pessoa a quem se oferece um quadro...
Será que essa relação é especial ao ponto de merecer um quadro especialmente concebido...
Porquê conceber um quadro a alguém especial...
Terá um quadro o valor especial adequado...
… Eu cá só ofereço quadros a elas. Diz Claudio.
… Eu cá não ofereço quadros a ninguém. Diz Carlos. Não sei fazê-los.
… Eu cá não me importo. Diz Joana.
A minha consciência decide ir finalmente para casa sozinha para ouvir rádio.
Nós somos...
e estamos ali na sombra projectada pelos estores como um quadro .
Pedimos dois shots e amamo-nos ao som de Mão Morta em Maio.
Assinado: Claudio Mur, suicida.
'
Retirado do livro Kcoillapso, capítulo Z
(fotografia de época)
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