quinta-feira, 16 de março de 2017

Publicidade a um amigo


O fotógrafo brasileiro Rafael Alves passou por Portugal no Verão de 2016.
Apresenta agora em Itália, com passagem por várias cidades, o trabalho realizado em Lisboa.




Palavras soltas deste meu amigo:

'As coisas simples são as melhores neste mundo de enfeite!'

'Sim, mas as visões são universais.
Tem olhos que enxergam além.'

Boa música da qual ele gosta e partilha:



Boa sorte!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Um discurso no jantar de Domingo

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Nem sei por onde começar, Acho que tudo começou no dia internacional da mulher, na Quarta-feira. Resolvi esmerar-me e preparar-lhe um bom jantar, com aquele menu que ela tinha sugerido, houve cerveja e café, houve até saída para um bar. Despedimo-nos nessa noite, ela tinha compromissos bem de manhã cedo, eu tinha de me deitar também porque, na realidade, estou a entrar na idade cota ou a cota de pdi já é elevada na existência que levo e, portanto, para mim a noite é para dormir (ou para pinar). Não havendo disposição para voltar junta comigo para minha casa, não estando eu prevenido com um preservativo no bolso para irmos para algum quarto de hotel, querendo ela ficar a terminar a cerveja, eu decidi-me a regressar sozinho a casa no autocarro da madrugada, um pouco frustrado é certo. Trocámos uns beijos apetitosos e combinámos para o dia seguinte. 
No dia seguinte, acordei tarde e cansado, nada fiz de produtivo, esperei pela hora de a ver, nada, não houve comunicação, o telemóvel tocando e nada, desisti e desliguei, pensei que, no fundo, eu também não estava em condições de estar com ela, e por isso ela também não ligar ou não atender o telemóvel acabava por até ser uma opção pragmática, afinal ninguém tem uma morte súbita por falta da dose diária de beijinhos, mas ainda assim pensei que algo se tivesse passado de fora do normal, visto todos os dias falarmos pelo menos uma vez.
Só voltamos a falar na Sexta, ela explicou-me que passara o dia de Quinta a dormir, faltara a todos os compromissos e ficara a dormir, depois de eu a deixar sozinha a terminar a sua cerveja no bar tinha conhecido alguém que a convidara para um copo fora-de-horas, e ela aceitara, por isso pedia desculpa. Reparou igualmente que eu fiquei macambúzio e perguntou se eu estava zangado com ela, eu disse «não, não estou, só acho que não aproveitas quando estás comigo, queres sempre mais um copo e acabas por não cumprir com os teus compromissos além de mim, há aqui um padrão.» Ela diz que eu tenho razão e que «agora hoje o meu telemóvel recebe sms como se eu fosse uma prostituta!, tenho de facto que mudar de posição» «sim, agora resolve os problemas que te surgem durante a noite!»
Desliguei, mais frustrado do que zangado, afinal o padrão mantem-se, ela prefere beber a pinar, não adianta muito ser romântico e planear um programa «com jantar à luz de vela, no final com romance ou sem ele, ficas a ver os navios passarem no cais.» Ou seja, estava frustrado como se não soubesse o que a casa gasta. Mas comecei a ficar misógino no meu pensamento, quando somei dois mais dois e deu cinco, porque ela disse-me que tinha ido com a amiga beber noutro bar e depois apanharam um táxi para o quinto dos infernos (por tão longe ser) mas também me disse na mesma conversa que tinha encontrado nessa noite um antigo rival meu, conhecido na praça por oferecer bebida, algo em que me bate aos pontos, quero dizer, ele tem simplesmente condições que eu não possuo. Portanto, tornei-me misógino em pensamento, porque «afinal ela foi beber com ele, diz-me que bebeu com uma amiga, faltou aos compromissos, não pinou comigo, não vale de nada fazer a minha parte no negócio, o amor não passa de um negócio!»
Passei Sexta e Sábado a ouvir música, Sei Miguel e Bernardo Devlin, um lp e um cd, música feita e editada em Portugal por músicos portugueses, música mais do que portuguesa, música com um som universal, música que transcende a nacionalidade mas na qual eu sinto orgulho de ser feita por gente-da-minha-terra, música que tem um som que eu quase transformo  em banda sonora para os meus pensamentos, música que me faz pensar «eu tenho a minha riqueza, todos estes discos têm memórias para mim, digo que o meu passado está enterrado, mas toda esta música me evoca fantasmas, ou me evoca situações em que não preciso de mais ninguém, estou bem só, eu e a minha música, ela é-me fiel, ela não me troca, ela não me exige nada, ela vem quando eu a escolho da minha colecção, ela vem, o som sai das colunas e uma memória surge, uma memória que me preenche, eu hoje à noite vou assistir a um novo concerto de Pop dell'arte, espero que ninguém do meu passado apareça para me foder o juízo!»
Foi assim, ao som de música editada pela Ama Romanta e pela Ananana, que eu preenchi dois dias de misoginia transformando-se rapidamente em misantropia, a música tem esse efeito, isola-me, fecha-me no casulo e deixa-me a pensar que não preciso de falar com ninguém, de resolver mal-entendidos. Fui ao concerto mas saí a meio, não estava afinal bem, a música era demasiado social, demasiado pop, popular, festiva, era afinal a celebração do regresso da banda ao Porto. Mas eu não estava com o sentimento certo, estava misantropo e associal sem ser ofensivo, pelo menos pensei isto até um tipo do meu passado me encontrar e me cumprimentar, foi aí que eu de facto cortei a conversa, dizendo que «ia dar uma volta». Senti-me incomodado na minha solidão e pensei «se queres estar sozinho fica em casa não gastas dinheiro e ninguém te incomoda ao tentar falar contigo!» Vim-me embora a meio do concerto.
Ontem, Domingo, estava combinado que iria almoçar com a minha família mas como dormi mal, acordei de manhã mais cansado do que me deitara. Acabei por, ao meio-dia, ligar ao meu pai para me desobrigar do almoço «e se poderia ir jantar aí». O meu pai disse-me que assim seria «só nós os dois e a tua mãe, vem almoçar, mesmo que chegues tarde, as tuas irmãs e os meninos também vêm.» Eu desculpei-me dizendo que tinha acordado há pouco, ainda tinha de tomar banho e fazer a barba e que me doía a cabeça. O meu pai aceitou e eu adiei o almoço para o jantar. Saí de casa e fui comprar pão. Voltei e fiz quatro sandes de ovos mexidos, passei a tarde a ouvir o «your funeral my trial» do Nick Cave e a ignorar as mensagens que ela me enviava, saí de casa ao fim da tarde, apanhei o autocarro para casa dos meus pais. 
Ao jantar, falei da novidade-boato do dia, os gémeos do Ronaldo e disse «Se daqui por uns anos o Cristianinho se virar contra o pai eu não me admirarei, ele diz que muitos meninos não conhecem ou não têm pai ou mãe, e diz que o seu filho tem a avó, as tias, etc, certo!, o filho do Ronaldo não chora por falta de brinquedos, nem por falta de comida, nem vive num mundo em guerra, não lhe falta nada, mas, se calhar, talvez lhe falte tudo, uma mãe, mesmos os filhos que já não têm mãe têm pelo menos uma memória, uma fotografia, um nome, o Ronaldo não tem uma mãe para dar ao filho dele... estas coisas entre gente rica abafam-se às vezes, basta um cheque ou uma viagem de estudantes paga como compensação... mas não me admiraria se o Cristianinho se zangasse com o pai um dia...» «Pois é,» diz a minha mãe «tens razão, o menino precisa de uma mãe...» Eu, embalado pelo discurso e sentindo um peso libertar-se de mim ao falar, ao proferir palavras e sair do meu casulo, lembrei-me de outro assunto de noticiário e continuei a discursar, desta vez sobre o milagre de Fátima, disse-lhes que há cem anos previram através de notícia no jornal o milagre, dois meses antes de Maio, e disse-lhes que bastou irem mil devotos em romaria por estradas que na altura não existiam, chegarem à Cova da Iria, olharem para o céu, e nada verem... disse-lhes que a igreja arranjou três pastorinhos e os meteu depois no convento, isolados do mundo, disse-lhes que a irmã Lúcia disse em 1945 que Salazar era um enviado de Deus, disse-lhes que Fátima era um embuste e que a igreja era fascista, disse-lhes que eles, os meus pais, não tinham culpa, já tinham nascido com aquilo «talvez até o avô tenha lá ido de burro...» A minha mãe riu-se e disse «o avô não tinha burro!» «Pronto, de bicicleta, ele andava de bicicleta, foi tudo uma invenção dos jornais!» O meu pai disse «tens direito à tua opinião, mas não podes estar aqui a fazer campanha contra coisas em quem nós acreditamos, porque criticas no teu discurso a igreja e não os radicais do islão?, alguma vez a igreja te fez mal?», eu respondi que a igreja não me fez mal, só acho que é hipócrita, e há muita gente a aproveitar-se dos chamados milagres e  falei dos mil euros por um saco-cama, falei de quem vende tubos «com ar de Fátima», falei do ouro nazi do santuário e depois falei na constituição portuguesa, disse que somos um estado laico, que devemos respeitar todas as religiões e não favorecer nenhuma e disse-lhes que não posso falar do que não conheço, que fui educado num meio cristão e que só depois de resolvermos os nossos problemas é que podemos ter alguma autoridade para «meter o bedelho no assunto dos outros» O meu pai não ficou muito convencido com o que eu disse mas o jantar foi pacífico e eu desabafei.
Desabafei e, hoje, ganhei coragem, voltei a falar com ela e fizémos as pazes, afinal o cinco era imaginado, a soma tem, na realidade, o quatro como resultado, ela explicou-me que deixara o meu rival plantado no bar no outro dia, no dia em que este relato começou, e que não me tinha trocado por ele. E eu fiquei aliviado, o amor é assim, voltei a sentir-me seguro, o céu voltou a ser azul, o amor, para mim, é sempre assim, um turbilhão inconstante: nuns dias sinto-me um anjo conquistador e noutros dias um chifrudo do inferno. O que me vale é que o processo de oscilar entre estes dois sentimentos é agora mais suave, os danos são já reduzidos, nesta vida tudo passa, e a minha amiga gosta de mim, tem o seu feitio peculiar, é deslumbrante sem ser top-model e, acima de tudo, não é má para mim: isso faz toda a diferença.
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Claudio Mur

sexta-feira, 10 de março de 2017

quinta-feira, 9 de março de 2017

O génio de Vitor Rua e seus javardos



No Verão de 2008, e por alturas da minha última crise psíquica, nem tudo foi mau.
Explico-me: nem tudo foi depressão e desejo de explodir-me ao mundo e de me vingar.
Também tive momentos de quase obsessiva alegria louca, era raro não ter a mente ocupada
por uma qualquer vontade, a maior parte das quais no dia seguinte esquecia se não a passasse ao papel. A música andava sempre por perto.
Numa noite de sábado, estando sozinho na rua, dei por mim a explorar
a bouça e os atalhos e as ruínas abandonadas perto da linha de caminho de ferro,
o meu desejo era tomar café e fazer um charro ao ar livre e fumá-lo sozinho,
nada de novo nisto que digo, era habitual eu isto fazer,
o que foi diferente foi a banda sonora do evento,
em casa no leitor de cd passava ultimamente a compilaçao da Ama Romanta,
e eu bloqueei nesta música dos PSP: Fadó Samba,
bloqueei no ritmo e principalmente no poema javardamente cantado,
o que foi absurdamente hilariante e digno de registar foi que a hora passada
a encontrar um local seguro no meio do nada para fazer a broca foi acompanhada
da minha própria interpretação vocal da letra da música, repetitivamente encontrando novas rimas
até ao final em apoteose quando encontrei um café-salão onde havia uma festa de verão com dj
onde tomei café e vim depois para casa com uma espécie de quase epifania.

A minha versão da letra é esta:

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Meia noite nas esquinas e
Um pacote no verão
Estavam as pinhas à pina
Encastradas no varão

tantan tantan tantan
tintin tintin
tão tão tão
barbeia-te com omnisciência
a mosca ajuda-te...
                        intensa mente
livre livro libra libris...
                        lânguida mente
Mentiras mentindo mentiras.
Mentirias a quem? quem? quem?
Quem? Eu? Tu?
Amanhã vou cortar o cabelo.

Um clitóris dois pentelhos
Uma vinhaça um sabão
'bora lá torrar o escaravelho
Encaderná-lo em cartão.
"

Claudio Mur

quarta-feira, 8 de março de 2017

Philippe Parreno

Ontem, o grupo de utentes de psiquiatria do CH S João, onde eu me incluo,
teve a oportunidade de ver a exposição de Philippe Parreno no Museu de Serralves.
Além de ver, pudémos ouvir as explicações do nosso guia-formador sobre a obra exposta.
Esta é uma meta-exposição: transcende a pintura, a escultura e mesmo o discurso, a linguagem.
Ao início da exposição somos confrontados com uns balões de gás suspensos no tecto, 
o formador pergunta-nos o que querem dizer aqueles balões, 
a uma colega nossa, talvez pela cor roxa dos balões, sugere-lhe baratas de cozinha,
o guia diz que os balões são signos de discurso -- como numa bd onde no balão com cauda vem a frase --,
o tecto coberto de balões significa um discurso, não de uma pessoa, mas um discurso colectivo,
onde o tom da frase enunciada é dado pela cor do balão: 
desde o dourado que refulge um discurso na escuridão, 
ao prateado que espelha o discurso,
ao transparente, ao laranja energia, que se combina com o amarelo luz e o vermelho vida,
ao azul -- antigamente uma cor cara e difícil de obter,
ao negro, símbolo de escuridão.

A exposição ocupa todo o museu, e em todas as salas se dialoga com a luz e o som,
que é gravado com microfones de contacto acoplados às resistências das lâmpadas e candeeiros,
com estores que sobem e baixam nas janelas como que por magia,
mas toda a luz das salas e o som que se ouve é controlado por um programa de computador.

Eu, se viesse ver esta exposição e não ma eplicassem, certamente que gostaria 
e acharia até surreal os balões, pensaria nas brillo boxes de Warhol, 
não compreenderia as tomadas de luz no centro das salas a que o autor chama «cobras»
mas acharia repetitivo 200 desenhos a negro com manchas de luz
(não percebendo que o autor os fez numa época de doença e que os pontos brancos nos desenhos
significavam a luz dos pirilampos num mundo de escuridão e portanto um sinal de futuro com esperança),
acharia kitsch ver um ou vários pinheiros de natal de metal pintado e com bolas de enfeite
e não saberia distinguí-los de um verdadeiro plantado junto ao solo
e do lado de fora de uma grande janela que deixa entrar luz natural.
O pinheiro de natal tem como função, o dizer-nos que o natal deve ser todo o ano e não só uma época.
Assim, na maior sala, o tecto é baixo com balões pretos, 
entra-se  e o tecto sobe, caminha-se até à parede oposta, viramo-nos de frente para a saída
e vemos que o tecto, no meio de tanta escuridão tem zonas brancas,
em frente uma linha de «cobras» indica-nos a porta de saída
e do lado de fora vê-se o pinheiro de natal.



Após a visita, fômos até a sala do serviço educativo
e o formador pediu-nos que trabalhássemos palavras de um discurso
e as arranjássemos espacialmente.
Três exemplos do nosso trabalho:





segunda-feira, 6 de março de 2017

A cada instante pode intervir um condensador,
através do qual milhões de dejectos esparsos e inconfessados se objectivam monstruosamente em vontade

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Existem na nossa vida manhãs privilegiadas em que chega até nós a advertência, em que logo que acordamos ressoa para nós, através de uma deambulação ociosa que se prolonga, uma nota mais grave, como quem se demora, de coração confundido, a manejar um a um os objectos familiares do seu quarto no instante de uma grande partida. Qualquer coisa como um alerta longínquo se introduz em nós naquele vazio claro da manhã, mais pleno de presságios do que os sonhos; é talvez o ruído de uns passos isolados na calçada, ou o primeiro grito de um pássaro que chega debilmente através do último sono; mas esse ruído de pássaros desperta na alma uma ressonância de catedral vazia, esse grito passa como que sobre os espaços do horizonte, e o ouvido apura-se no silêncio sobre um vazio em nós que de repente não tem outro eco além do mar. A nossa alma purgou-se dos seus rumores e do vozear da multidão que a habita; uma nota fundamentl rejubila nela, despertando-lhe a exacta capacidade. Na medida íntima da vida que nos é devolvida, renascemos para a nossa força e a nossa alegria, mas às vezes essa nota é grave e surpreende-nos como o passo de um transeunte que faz ressoar uma caverna: é que uma brecha se abriu durante o nosso sono, é que uma parede nova se desmoronou sobre a pressão dos nossos sonhos, e teremos que viver agora por longos dias como num quarto familiar cuja porta desse inopinadamente para uma gruta.
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, página 111-112


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Ainda hoje, quando procuro na minha detestável história, à falta de uma justificação que tudo me recusa, pelo menos um pretexto para enobrecer uma desgraça exemplar, aflora-me por vezes a ideia de que a história de um povo é assinalada aqui e além como que por pedras negras, por algumas figuras de sombra, votadas a uma execração particular, menos por um excesso na perfídia ou na traição, do que pela faculdade que o recuo do tempo lhes parece conferir, pelo contrário, de se fundirem até se tornarem solidárias da desgraça pública ou do acto irreparável que, ao que parece, para além do que é ordinariamente dado ao homem, assumiram inteira e plenamente na imaginação de todos. Relativamente a essas figuras vestidas de sombra, cujos contornos e singularidades pessoais são poderosamente roídos pelo tempo mais depressa do que os de outras, a violência universal da renegação adverte-nos de que esta participa -- muito mais do que da reprovação cívica descolorida que os manuais de história dispensam sem calor -- do carácter lancinante do remorso, e que reaviva a chaga aberta de uma cumplicidade intimamente sentida; é que a força que repele para as margens da história, onde a luz cai mais oblíqua, essas figuras assombradas, é a de um doente assediado de maus sonhos, que sente, não como uma fria obrigação moral, mas como a mordedura de uma febre que lhe come o sangue, a necessidade de se livrar do mal. Tais homens talvez não tenham sido culpados senão de uma docilidade especial que todo um povo, pálido tarde de mais por ter abandonado neles, no terreno, a arma do crime, recusa confessar a si próprio que por instantes quis, porém através deles; o recuo espontâneo que os isola denuncia menos a sua infâmia pessoal do que a fonte multiforme de energia que os transmutou por momentos em projécteis. Mais estreitamente entretecidos da própria substância de todo um povo do que se fossem a sua sombra projectada, são verdadeiramente as suas almas penadas; o terror semi-religioso que os torna maiores do que o natural tem que ver com a revelação, de que são veículo, de que a cada instante pode intervir um condensador, através do qual milhões de dejectos esparsos e inconfessados se objectivam monstruosamente em vontade. O olhar que atravessa essas sombras perde-se numa profundidade em que se receia ler: o fascínio que exercem provém da suspeita que nos vem de que a comunicação privilegiada -- ainda que para o pior -- que lhes foi consentida os elevou, por alguns segundos em que valia a pena ser, a uma instância suprema da vida: dançamos como uma bóia num oceano de vagas loucas que a cada instante nos ultrapassam, mas um instante do mundo na plena luz da consciência conduziu a eles -- por um instante, neles, a angústia extinta do possível fez a noite --, o mundo tempestuoso de milhões de cargas esparsas descarregou-se neles num imenso relâmpago; o seu universo, refluindo de toda a parte até eles em torno de uma passagem em que imaginamos que a segurança profunda se mistura inexplicavelmente com a angústia, foi por um segundo o da bala no cano da espingarda.
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, página 202-204

'A Costa das Sirtes'
Julien Gracq
Tradução de Pedro Tamen
Ediçõa Edições António Ramos, Lisboa 1979