quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Carreiros 2008


'Carreiros 2008'
óleo sobre cartão canelado
56cm por 76cm
2008 - 2017
ZMB

Este quadro tinha inicialmente o título:
'A vizinha, a sobrinha, a maradinha e a coisa que olha a foto que tirou'
Ainda não tinha colocado uma fotografia de época aqui no blog, porque
ainda não tinha resolvido interiormente 'a maradinha e a coisa'.
Maradinha era um adjectivo carinhoso; e a Coisa um sinónimo de baixa auto-estima.

Este quadro é um reflexo de um momento feliz.

(fotografia de época)


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

As damas de Avinhão



'As damas de Avinhão'
óleo sobre tela
70cm por 100cm
2017
ZMB a partir de Picasso


Fiz algumas pequenas alterações desde que publiquei a foto em baixo:
o traço negro não estava balanceado no quadro, 
as damas do lado esquerdo não tinham 'linha de mama' :)

Este é o primeiro de vários quadros de versões em grande formato 
que estou a fazer por encomenda.
O próximo será 'A dança' de Matisse, já está no cavalete.


(fotografia há um mês atrás)


Le Tour de France in Ireland



'Le Tour de France in Ireland'
óleo sobre pano cru
90cm por 72cm
2007 - 2017
ZMB

Em 1998, a volta à frança em bicicleta passou pela Irlanda.
Em Cork, local de fim de etapa numa longa recta citadina,
o ambiente nas ruas era quase de assombro.
E depois quando eles passaram, trinta segundos depois,
a volta à cidade acabou. 
- Era só isto?, e fomos tomar chá.

Este ano, clarifiquei alguns pormenores,
 não porque a tela estivesse degradada pelo tempo, mas porque
havia partes mal pintadas e quase desleixadas --
sinónimo pelo qual o comprador chamou de aldrabão,
tendo-me dito para melhorar esses pormenores.
Fi-lo com todo o gosto, porque não sou aldrabão, apenas às vezes um pouco descuidado
 e porque considero este um dos meus melhores quadros.



(fotografia de época)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O estúdio de ZMB


'O estúdio de ZMB'
óleo sobre tela
60cm por 80cm
2005 - 2017
ZMB

Baseado num desenho de 2001 (ver em baixo)
é agora uma paisagem desactualizada 
pela passagem do tempo
e das circunstâncias.

Este ano de 2017 ao voltar a pegar neste trabalho. adicionei-lhe alguns elementos:
a imagem do caçador com o cão é uma peça de artesanato que ainda hoje continua no Anexus 51;
as capas de dois discos -- um de Albert Ayler e outro de Annie Anxiety;
e uma interpretação minha de um desenho de Austin Osman Spare.
 que está incluído numa re-edição do livro 'The Focus of Life' de AOS pela editora Fulgur Esoterica.

(desenho de 2001)

Anexus 51


(fotografia de época)

domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Alfa-Chaud gotajava, gotejava;
Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava.

'
-- Esse homem está a perder a razão! -- exclama Jill.
-- Estás mais uma vez enganada -- diz Jabber. -- Acabo de encontrar a razão, só que é uma espécie de razão diferente da que tu imaginavas. Pensas que um poema deve ser encarado. Mas não. No momento em que o escreves, o poema acaba. O poema é o presente que não és capaz de definir. Vivê-lo. Qualquer coisa é um poema se tem o tempo em si. Não precisas de apanhar o "ferry-boat" ou de ir para a China para escrever um poema. O mais belo poema que jamais escrevi foi um lava-louça. Já alguma vez te falei nisso? Havia duas torneiras: uma chamada Froid, a outra chamada Chaud. Froid vivia a vida "in extenso", por meio de um tubo de borracha ligado ao "schnausel". Chaud era viva e modesta. Chaud estava sempre a gotejar, como se tivesse gonorreia. Às terças e sextas ia à mesquita, onde havia uma clínica para torneiras com doenças venéreas. Às terças e sextas Froid era obrigada a fazer o trabalho todo... uma torneira danada para trabalhar. Isso constituía todo o seu mundo. Chaud, por outro lado, tinha de ser mimada, adulada. Se não dizíamos «mais devagar», escaldava-nos a pele. Por vezes, trabalhavam em uníssono, Froid e Chaud, mas isso era raro.Nas noites de sábado quando lavava os pés na pia do lava-louça pensava na maneira perfeita como funcionava o mundo que estas duas torneiras governavam. Só existia esse lava-louça de ferro com as suas duas torneiras. Nem princípio nem fim. Chaud, o alfa, e Froid, o ómega. Perpetuidade. Os Gémeos, com domínio sobre a vida e sobre a morte. Alfa-Chaud percorria todos os graus de Fahrenheit e Réaumur, os fios magnéticos e as caudas de cometas, ia do caldeirão efervescente de Mauna Loa até à luz seca da lua terciária Ómega-Froid, atravessava o Gulf-Stream e ia até aos leitos paludiais do mar de Sargaços, corria por marsupiais e foraminíferos, corria através das baleias mamíferas e das brechas polares, descia os universos insulares, atravessava os cátodos mortos, os ossos mortos e a podridão seca, os folículos e os tentáculos de mundos incriados, modos inatingíveis, mundos invisíveis, mundos por nascer e para sempre perdidos. Alfa-Chaud gotajava, gotejava; Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava. Mãos, pés, cabelos, rosto, pratos, legumes, peixe, tudo bem lavado; desespero, tédio, ódio, amor, ciúme, crime... gotejando, gotejando. Eu, Jabberwhorl, minha mulher, Jill, e, depois de nós, legiões sobre legiões... tudo diante do lava-louça de ferro. As sementes iam pelo cano abaixo: tenros canatupos, abóboras, caviar, macarrão, bile, cuspo, muco, folhas de alface, espinhas de sardinhas, flocos de aveia, tabaco de mascar, pólen, poeira, gordura, lã, algodão, fios, fósforos, vermes vivos, trigo desfibrado, leite a escaldar, óleo de ricino. Sementes de desperdício, caíam para sempre, voltando em puras emanações de uma miraculosa substância química que recusa ser denominada, classificada, rotulada, analisada, desenhada, esquartejada. Voltavam como Froid e Chaud perpetuamente, como a verdade que não pode ser negada. Pode-se tomá-la quente ou fria, ou pode-se tomá-la tépida. Com ela, pode-se lavar os pés ou gargarejar a garganta, tirar o sabão que se tem nos olhos ou o pó das folhas de alface, dar banho aos bebés acabados de nascer ou esfregar os membros rígidos dos mortos; pode-se ainda molhar com ela o pão das "fricadellas" ou misturá-la ao vinho. As primeiras e as últimas coisas. Elixir. Eu, Jabberwhorl, saboreio o elixir da vida e da morte. Eu, Jaberwhorl, de desperdício e de H2O composto, de quente e frio e de todos os níveis intermédios, de espuma e de crosta, das mais finas e das mais minúsculas substâncias que jamais foram perdidas, de grandes costuras e de osso compacto, de brechas de gelo e de tubos de ensaio, de sémen e de óvulos misturados, dissolvidos, dispersos, de "schnausel" de borracha e de torneiras de latão, de cátodos mortos e de infusórios retorcidos, de folhas de alface e de sol engarrafado... Eu, Jabberwhorl, sentado ao lava-louça de ferro, estou perplexo e exaltado, nunca mais nem nunca menos que um poema, uma estância de ferro, um folículo efervescente, um leucócito perdido. O lava-louça de ferro, onde cuspo o coração, onde banho os meus pés delicados, sobre o qual levantei o primeiro filho, onde lavei a gengivas irritadas, onde cantei como um diamante e estou a cntar neste momento e cantarei através dos canos entupidos e das torneiras enfrujadas, embora o tempo corra e eu seja tudo o que há de presente, de passado e de futuro. Canta, Froid, canta transitiva! Canta, Chaud, canta intransitiva! Canta Alfa e Ómega! Canta Aleluia! Canta, ó torneira, canta enquanto o mundo desencanta...
E a cantar numa voz alta e clara, como um cisne ferido, deitámo-lo na cama.
'

, páginas 144-146
"O Oho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017