sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hermes & Afrodite


'Hermes & Afrodite'
óleo sobre tela
80cm por 70cm
2001 - 2017
ZMB

Foi feita uma pequena alteração à cor do cabelo e da cauda da sereia.

(fotografia de época)







domingo, 12 de novembro de 2017

Um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura

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Num Domingo de São Martinho, sem castanhas mas com uma vaquinha reunida entre os vizinhos para comprar um pacote de vinho, ao qual se adicionará acúcar para o vinho virar suminho, disse-lhes eu: «vocês gostam é do suminho eheheh!» e eles respondem: «Sabes?, Mur irmão, é para cortar o amargo deste vinho...» «Sim, eu sei, faz-me lembrar o vinho doce, a primeira tiragem pela torneira do lagar, antes da fermentação, antes até de se pisar as uvas, dá cá uma diarreia eheheh».
De modo que o Benjamim quis saber: «Mur, diz lá, tu outro dia disseste que estiveste hospitalizado, pois eu diria que tu és normal, irmão!»
«Eu pareço normal não pareço?»
«Tu não pareces, tu és!»
«Sim, eu sou normal.» Concedo porque reparo que ele acha estranho eu lhes ter um dia dito que tinha sido internado, sei que eles querem perceber o porquê, porque eu não pareço louco, pareço até o mais calmo e são desta pequena comunidade que se foi formando este ano de 2017, algures na mitológica cidade de Derza, acabo por dizer:
«É complicado explicar, sei que hoje estou bem, mas nem sempre foi assim, a minha sorte foi melhor que a do Giuliani e do Heitor, a família deles abandonou-os, a minha nunca o fez, sei que tenho as minhas culpas, fui uma espécie de agente-provocador, mas sempre que saí do hospital tive o meu pai, a minha mãe e o carro de família para me trazer de volta à casa, isso diz tudo o que é necessário dizer, é tudo o que preciso de reconhecer como nota-testamento de vida, o que os meus pais me deram -- se não foi boa-vida e boa-educação -- foi amor filial, um pai, uma mãe não abandonam a cria e a cria volta sempre pródiga para casa e agradece, agradeço a meus pais o terem-me dado uma cama, comida, roupa limpa, um tecto para dormir, uma anexo para desenvolver o meu passatempo que começara a germinar, se eu não tivesse tido esta necessidade básica da vida resolvida pelas pessoas que mais sofreram com a explosão da minha cabeça, eu certamente morreria na rua como sem-abrigo ou na prisão com a cabeça aberta, se eu não pudesse, caso os meus pais não me dessem abrigo, alugar um quarto... eu na rua estaria desgraçado, teria fome e iria roubar um pão?... levavam-me para uma prisão com presos comuns e eu não passaria da primeira noite, chegaria lá dentro, pôr-me-ia a espingardar com um maioral e tratar-me-iam do sebo!... acredita.»
«Sim, irmão, mas... o que eu gosto em ti é tu és tão calmo, não procuras confusão, pareces um buda, que...»
«... que não pareço gajo maluco, não é? Olha que te digo, que um maluco não é idiota, um maluco sabe quando parar, por exemplo, uma vez evitei que me fodessem o corpo, levantei o braço e disse 'tens razão, desculpa, eu errei, vou-me embora', e eles, sorte a minha que repararam que eu estava alterado, eles recuaram quando já se formavam neles as mesmas chispas assassinas que devolvi do meu olhar a um gajo que estava comigo a assistir ao concerto do Iggy Pop em Coimbra, na Queima das Fitas em '94, porque eu me lembro do meu olhar nesse concerto que procurava uma eventual vítima para uma bulha, também eu nesse olhar a formar-se neles reparei, levantei a mão, pedi desculpa e vim-me embora, por isso tive a consciência de que se continuasse a provocar iria sair mal e magoado da bulha, por isso um maluco não é um idiota!»
«Sim, é do caralho!, tu tens consciência do que fazes mas isso só prova que não és maluco, irmão acorda!»
E eu pensei, tenho de lhe contar algo de verdadeiro que o faça perceber porque eu próprio me considero um maluco-lúcido, então digo-lhes:
«Uma vez fiz de cicerone de um amigo imaginário, e passei pela noite dentro na cidade de Triza, de cabeça pregada no chão e só a levantando para dizer ao meu amigo que ia a meu lado e não existia nem como fantasma e quem me visse só viria um gajo a falar sózinho e parar numa casa e dizer alto '... e então aqui no ano de '93 morei e estive com estas pessoas e aconteceu isto e aquilo...', é claro que eu sabia que o meu amigo imaginário não existia, era eu que estava a representar uma peça de teatro em directo para o mundo, as estrelas, a lama e o azul escuro do céu eram a minha audiência.»
De modo que eles ficaram pasmados, e eu pedi um pouco de vinho, senti-me emocionado ao falar e quando falo com emoção sinto a garganta a ficar seca, e só ouvia o Benjamin a dizer com o seu sotaque angolano: «é do caralho essa história irmão!»
«Mas há mais irmão Ben!, houve uma altura em que eu e um amigo estávamos na fase de roubarmos bicicletas, passámos num bairro social e roubámos uma bicicleta...»
«Oh, isso é coisa má irmão...»
«Sim eu sei!, e deu problemas porque eu fui reconhecido um dia num café ao qual fui com a bicicleta e o dono confrontou-me e eu devolvi a bicicleta e fui-me embora, não me aconteceu nada e o meu amigo mais tarde foi lá explicar-se em meu nome e saber de eventuais novidades ou se o assunto morreria ali. E morreu ali. Até que eu o desenterrei nessa viagem que já te falei pela noite a dentro em Triza, até à hora do primeiro comboio de volta à Derza, cheguei nesse Domingo a Derza e liguei a televisão no quarto, e observei que passavam um especial em directo na cidade de Triza, o jornal falava de teatro, é estranho, num tempo em que ainda não havia internet e tecnologia e redes sociais era como se a televisão e os jornais comentassem a minha viagem de véspera a Triza, é muito estranho... mas dizia-te desenterrei nessa noite o caso das bicicletas roubadas porque ao fazer a minha caminhada nocturna entrei no tal bairro social, primeiro olhei para o chão e disse alto 'encontrei uma pedrinha, vou já fumá-la!', e depois disse 'oh é merda é apenas um calhau de merda', e continuei a avançar, seria meia-noite, via-se pessoas reunidas no café do bairro, cá fora a fumarem, eu não olhava para eles mas sabia que eles olhavam para mim, então cheguei ao sítio das bicicletas e disse alto ao meu amigo imaginário ' e aqui no ano de '95 roubei uma bicicleta' e continuei a andar, diz lá que isto não é de maluco! Um gajo entra num local cheio de gente e começa a dizer que os roubou, é mesmo não ter amor à vida, e eu na altura não me importaria de morrer, mas não... para te provar que não sou um total idiota e apenas um maluco lúcido que se reformou da vida de merda... pois eu digo-te que bastou ter pressentido ou mesmo ouvido dizerem não sei se para mim ou não 'está a pisar a linha!', para eu ter virado costas ao local de bicicletas, ter seguido em frente sem falar, e a ouvir enquanto me afastava as vozes a silenciarem-se ao fundo, no fundo o que te digo é que um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura, às vezes até ao colapso, compreendes agora, Benjamim?»
«Sim, agora te compreendo irmão, fumemos!»
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Claudio Mur




sábado, 11 de novembro de 2017

Abraçar e chorar, beijos e lágrimas de perdão

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As mesmas ideias que todo o dia na rua o haviam perseguido amontovam-se-lhe agora no cérebro doente, sem lhe deixar um minuto de repouso. Reflectiu, reflectiu, e levou-lhe muito tempo a dormir.
«Se ele quis matar-me sem premeditação -- cismava --, o pensamento já lhe devia ter vindo à mente, pelo menos uma vez. Sonharia com isso nos seus dias maus?»
Respondeu a essa pergunta de maneira bastante estranha: «Sim, Pavel Pavlovich queria matá-lo, mas a ideia do assassínio nunca antes lhe acudira.» Isto é: «Pavel Pavlovich queria matar mas não sabia quem queria matar.» «Não faz sentido, mas é assim -- dizia consigo Velchaninov. -- Não foi por causa de Bagautov nem para obter a nomeação que veio a São Petersburgo, ainda que, tivesse corrido os ministérios e ido ver Bagautov; a morte deste enraiveceu-o; ele, porém, desprezava Bagautov como um insignificante. Foi por minha causa que veio a São Petersburgo e que trouxe Lisa...»
«E eu? Estava à espera que ele tentasse matar-me?» Concluiu que sim, precisamente a partir do momento em que o vira a acompanhar de carro o enterro de Bagautov. «Desde aí eu esperava qualquer coisa, mas sem saber que era isto; não esperava com certeza que ele me degolasse!»
«Será possível -- exclamou erguendo bruscamente a cabeça da almofada e abrindo os olhos -- que fosse sincero quando me declarava ontem a sua amizade, de queixo a tremer e mãos no peito?»
«Sim, era sincero -- deduziu levando mais longe a sua análise. Esse Quasimodo de T.... era bastante generoso e estúpido para se enamorar do amante da mulher cuja conduta, durante vinte anos, acreditara irrepreensível. Pelo espaço de nove anos respeitou-me e venerou a minha memória, guardando consigo as minhas «expressões». Deus meu! E eu que não suspeitava de nada! Ontem, ele não mentiu. Mas estimar-me-ia ao afirmar essa estima e ao dizer: «Saldemos as nossas contas?» Sim, estimava-me odiando, que é o amor mais forte...»
«Foi pois assim. Em T... produzi-lhe uma impressão verdadeiramente formidável e «benéfica». Não podia acontecer de outro modo com este Schiller desdobrado em Quasimodo. Julgou-me cem vezes maior do que aquilo que sou porque o impressionei na sua solidão filosófica... Seria curioso saber o que ao certo o impressionou. Talvez as minhas luvas claras ou a maneira de as calçar? Os Quasimodos apreciam muito a estética! As luvas são o bastante para certas almas muito generosas, sobretudo para os «eternos maridos». Quanto ao resto, exageram e batem-se por nós se for preciso. E como ele avalia os meus meios de sedução! Talves esses meios de sedução o conquistassem. E a sua exclamação de outro dia: «Se aquele foi também, em quem posso acreditar?» Depois de um tal desabafo, tornou-se selvagem...»
«Hum! Veio aqui para me abraçar e chorar, como ele próprio se exprimiu tão vilmente; o que quer dizer que veio a São Petersburgo para me cortar a garganta, embora julgasse que não era senão para me abraçar e chorar... E trouxe a Lisa. Se eu chorasse com ele talvez me perdoasse, porque ele desejava furiosamente perdoar!... E tudo, desde o primeiro encontro, resultou em esgares de bêbado, em gestos grotescos, em lamentos de mulher ofendida (e os cornos, os cornos de que se gabou?) Foi por isso que apareceu embriagado, para poder despejar o que ocultava na consciência. Se não estivesse bêbado, não ousaria falar... Muito ele gosta de caretas e de palhaçadas! E qual não foi a sua alegria quando por fim conseguiu que eu o beijasse! Não sabia ainda, no entanto, como tudo terminaria, se por beijos, se por facadas. Finalmente achou que o melhor seria beijar e matar. A solução mais natural. Sim, a vida não ama os monstros e desembaraça-se deles por meio de soluções naturais. O mais monstruoso dos monstros é o que tem sentimentos nobres. Sei-o por experiência, Pavel Pavlovich! A natureza não é mãe para os monstros, mas madrasta. A natureza produz um monstro, e em vez de ter pena dele, condena-o. E assim deve ser. Beijos e lágrimas de perdão não convêm sequer às pessoas honestas, na época em que vivemos, quanto mais a nós, Pavel Pavlovich!»
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, páginas 167-169

Dostoievski
em 'O eterno marido'
Edição Livros Unibolso
Tradução de Maria Ondina

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Like Giuliani's methadone

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... then I arrive home after spending two hours washing and drying my clothes on a self-service laundry and turn on the door key. Ben looks to me from his flat window and says «come along for a spiced fag!», I think first on saving my clothes on the drawer and go for an homemade coffee and reply to Ben «maybe in a while.»
So I go to the kitchen, put the coffeemaker over the electric oven and go upstairs to unpack and save  the clothes. Then, I listen to smashing knocks on the door and go to see what's going on, I open the door and she enters and says «hold me love, hold me, let me kiss you...» I hold her and kiss her one time, hold her skinny torso and think «where were you for the last couple of days...» but I just kiss one more and go to the kitchen to finish the coffee, she comes along and says «you are angry with me, aren't you?», I say nothing and look to the coffee starting to boil, I switch off the oven, take a cup from the drawer and spill the coffee in it and she says «yes, you are angry with me but I am in deep trouble, just hold me, I'll tell you...».
I sip a bit of coffee and say «so, tell me, where have you been?»
«At home, I could not call in, I lost my cell phone...»
«You lost your cell...»
«Yes, in the toilet, it was swallowed by the toilet, I could not call you...»
«But you were not to just call me on the phone, you were to come in here two bloody days ago...»
«I have a problem, I'll tell, just hold me dear...»
«Let's go upstairs and you'll tell me all of it...»
«At least what I can tell love, let's just listen to our record!»
«Yeah, I told you, I have a new one»
So, we go upstairs, she sits on a bench and I go on to switch the Nass El Ghiwane CD for the newest Blackhouse record I bought over just because she told back in the day how beautiful their sound was and I had to buy it. The first one was a massive hit in our private parties, full of hash and beer, sometimes champagne and black beans with chicken, yeah loads of Blackhouse for our private nights, every night she had a new story and I always took the time to listen to her just like now I will listen to this new story of her because she is drunk and I can see it clearly and she is feeling alone and in need of shelter and I if I reach the very deep of the situation, I think and I realise she really needs me, she thinks on me when she's in deep trouble and looking for a secure place, so I will put the new Blackhouse and will listen to every bit of her story and will take the true parts out of her drunkenness «if only she thought of me she wouldn't drink so much, but let's just listen...»
«So tell me your story?»
«It's a maf situation, it's either kill or be killed, tomorrow is the deadline and will be over, I'll be in forever. I am being monitored»
«So what are you doing here?»
«I am giving you the explanation, are you still upset?, I will have to leave tonight at eight o'clock, I needed to talk to you, to hold you, I have to kill a person tomorrow...»
«How's that? That's way too far, what the fuck are you drinking, Rasa?»
«It's the truth babe, I am being monitored, they have put five g's on my account, there's no way out, I can not go back where I was before...»
«So, you're telling me you've accepted money from a guy to kill a person, and now you are telling me exactly what?»
«My blood is venom, I will not die, I will kill, I'm telling you, the guys are watching me, if I don't kill they kill me, this guy...»
«Who the fuck is he?»
«You wouldn't want to know, it's the maf, I told you already, it was the guy I trusted more and he is in the maf...»
«I thought I was the guy you trusted more...»
«The guy put money on my wallet and said tomorrow you'll fly and kill a person...»
«Yeah, I can see, you said yes for the money and the drinks, so now just deal with it, I will visit you at Santa Cruz do Bispo...»
«Hôw's that? I'll be dead tomorrow, they will catch me, I have to kill, actually I am a killer you know, do you still love me dear?»
«No, I can not love a killer, I am just waiting for eight o'clock, the moment you'll leave, I want to have nothing with your killings, at least you'll have money to fly home...»
«Wait a second, turn off this record, put our record, I don't like this, let's listen to 'Five minutes after I die', please?»
«Oh, this is great also, I bought it for us...»
«Just put five minutes, it's an order!»
«Ok ok your voice is my command.» (when I am on the mood I'll tell you Rasa)
So I put the old Blackhouse and she starts to calm down, asks for a cigarette and doesn't remember if she has taken her pouch, I go downstairs and grab it, she looks for her cigarettes and asks me for lights, I give her fire, she breeds, and asks me to unzip her cowboots.»
«I was with Fa, she's from the maf too, the guy works for her, I was there until now and I am drunk and I came because I wanted to tell you, do you understand?»
«You need sleep, you'll not go to work tonight.»
«But I have to kill someone...»
«Kiss me instead!»
«Call me a cab!»
«No deal Rasa, I am just waiting your leaving.»
And she falls over the bed in deep sleep like if she didn't sleep all the weekend. I switch Blackhouse for a Gipsy air mail music CD, and leave her sleeping for the afternoon, and go out for a walk to Ben's flat, well just to relax and have a spiced fag.
«I tell you Mur, I saw her, she was knocking Ernest's door, I told her Mur's door was the next one...»
«Oh brother, she's totally fucked up, she told me such a story, she's sleeping now...»
«What story did she told?»
«I can't tell, she's like Giuliani, whether he's for the methadone, she's for the drink, I'll tell you, I'm feeling like a father instead of a lover, she's in bad shape, her life is in a mess.»
«Yeah, I sensed that the other day she came here, but I tell you, if she comes to sleep in your house you should be grateful because if she comes to sleep with you it is because she feels secure with you... Is she going to work tonight?»
«That's what I am telling I don't know, she's sleeping, she once told me her boss, Fa, a woman you know, wants to take her out to Madeira, go with her everywhere sleep included you see, but she once told me also that Fa before, she was actually a man that has done a surgical operation for dick removal, so you see, she's sleeping now, I came here now but I have to go back because she may awaken and freak out because I'm not there...»
«Ok but just roll a fag to calm down brother, what's her story I sensed before?»
«Her head is on a mess, she's married, her husband is on a long vacation with a dragqueen, they are there for the whole year...»
«You mean, her husband is with a guy, oh I get it, I had a girlfriend who once told me about a friend who was left out for a man, she was so... she felt so abandoned... she even had thoughts on not being a woman at all, she even thought she was a lesbian, oh I understand Rasa's head brother and I totally support you but hey why don't you give her a way out of the situation, why she just don't come to live here with you?»
«No, I can't, I cannot afford, and she lives by the night and I live by the day, she's nice as a friend but I wouldn't live with her, I would have to support her booze, her smokes, her food, her music, it would not be us, it would be only her eating my self, that's the way she is, she is a child in need of a father to whip his ass and crave for annihilation of the other, my life is collapse, but I will not collapse anymore, I like her as a friend, she's a good laugh, she's tender, but her life is not for me, I get few for so much given, no, I will not be cheated again...»
«Yeah brother Mur, I totally understand you, When you told me before you were hospitalised for craziness... I'll tell you, you look no fool to me!»
«I'v been hospitalised four fucking times, nobody fools me anymore, yeah this fag is great your turn now...»
«Do another, roll on!»
«No, I don't have time for another, let's just finish this, I have to go and check her sleep.»
«Ok brother, see you later.»
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John Moore,
o irmão imaginário de Claudio Mur

domingo, 5 de novembro de 2017

Para os fãs de Zero Kama

Alcatrão e penas

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E era a pura verdade.
-- Não falemos mais disso, meu jovem e excelente amigo. Tomemos juntos e cordialmente um copo deste sauterne.
Bebemos e o grupo seguiu o nosso exemplo. Eles tagarelavam, brincavam, riam e cometiam mil absurdos. As violas rangiam, o tambor multiplicava os seus rataplãs, os trombones mugiam como tantos touros de Phalaris, e todo o cenário, alterando-se cada vez mais à medida que os vinhos aumentavam o seu domínio, tornou-se, com a continuação, uma espécie de pandemónio in petto. Entretanto, o senhor Maillard e eu, com algumas garrafas de sauterne e de clos-vougeot entre nós dois, continuávamos a dialogar com toda a força. Uma palavra pronunciada no diapasão vulgar não tinha mais sorte de ser ouvida do que a voz de um peixe no fundo do Niagara.
-- Senhor -- gritei-lhe ao ouvido -- falava-me antes do jantar do perigo que apresentava o antigo «sistema da bondade». Qual é ele?
-- Sim -- respondeu-me -- havia algumas vezes um grande perigo. Não era possível dar conta dos caprichos dos doidos, e na minha opinião bem como na do doutor Goudron e na do professor Plume, nunca é prudente deixá-los passear livremente e sem vigilante. Um doido pode ser adouci, como se diz, por um tempo, mas é sempre capaz de actos de turbulência. Para mais, a astúcia é proverbial e verdadeiramente muito grande. Se quer executar um projecto, ele sabe escondê-lo com uma maravihosa hipocrisia; e a habilidade com a qual ele contrafaz a sanité oferece ao estudo dos filósofos um dos mais singulares problemas psíquicos. Quando um doido aparece tout a fait, estamos mesmo a tempo de lhe vestir a camisa de forças.
-- Mas o danger, meu caro senhor, o perigo de que me falava? Com a sua própria experiência, desde que a casa está sob a sua direcção, tem uma razão material, positiva, para considerar a liberdade como perigosa num caso de loucura?
-- Aqui? Depois da minha própria experiência? Certamente, posso responder: sim! Por exemplo, «não há muito tempo», um estranho acidente ocorreu nesta mesma casa. O «sistema da bondade», sabe, estava então na moda e os doentes andavam em liberdade. Eles comportavam-se notavelmente bem, a tal ponto que todas as pessoas de senso teriam podido tirar, do que se passava, a conclusão que se urdia entre estes rapazes qualquer plano demoníaco. E, com efeito, uma bela manhã, os guardas encontraram-se atados de pés e mãos, deitados nos calabouços, onde eram vigiados como doidos pelos próprios doidos, que haviam usurpado a função dos guardas.
-- Oh!, que me diz? Nunca na minha vida ouvi falar de um tal absurdo.
-- É um facto. Tudo isso aconteceu graças a um tolo animal, um doido, que tinha, não sei como, metido no cérebro que era inventor do melhor sistema de governo, de doidos, bem entendido. Ele desejava, suponho, fazer uma prova da sua invenção, e, assim, persuadiu os outros doentes a juntarem-se a ele numa conspiração para deitar abaixo o poder reinante.
-- E realmente conseguiram?
-- Perfeitamente. Os guardas e os guardados tiveram de trocar os respectivos lugares, com uma única diferença: os guardas foram imediatamente metidos nos calabouços... e tratados, confesso-o com desgosto, de uma maneira pouco gentil.
-- Mas presumo que teve de se efectuar prontamente uma contra-revolução. Os camponeses da vizinhança, os visitantes que vinham ver o estabelecimento deram, sem dúvida, o alarme.
-- Nisso é que está errado. O chefe dos rebeldes era demasiado astucioso para que isso pudesse acontecer. Ele não admitia daí em diante nenhuma visita, com excepção, uma só vez, de um jovem gentleman com uma fisionomia muito ingénua e que não podia inspirar-lhe nenhuma desconfiança. Permitiu-lhe visitar a casa, como para introduzir nela um pouco de variedade e para troçar dele. Assim que o deixou descansar suficientemente, deixou-o sair e enviou-o à vida dele.
-- E quanto tempo durou o reinado dos doidos?
-- Oh!, muitíssimo tempo, um mês, talvez mais; quanto, não saberei dizê-lo. No entanto, os doidos proporcionaram a eles próprios uma boa vida -- poderia jurar-lhe. Eles deitaram fora os fatos velhos e rasgados e usaram à sua vontade o guarda-roupa da família e as jóias. As caves do castelo estavam fornecidas de vinhos, e esses diabos dos doidos eram conhecedores e sabiam beber. Eles viveram à larga, posso afirmá-lo.
-- E o tratamento? Qual era a particularidade do tratamento que o chefe dos rebeldes pusera em prática?
-- Ah!, quanto a isso, um doido não é na verdade um idiota, como já lhe fiz notar, e a minha humilde opinião é de que o seu tratamento era bem melhor do que aquele por que foi substituído. Era um tratamento verdadeiramente simples, realmente delicioso, era...
Aqui as observações do meu hospedeiro foram bruscamente interrompidas por uma nova série de gritos, da mesma natureza dos que já nos tinham desorientado. Desta vez, no entanto, pareciam provir de pessoas que se aproximavam rapidamente.
-- Valha-me Deus! -- exclamei eu -- os doidos fugiram, sem dúvida alguma.
-- Receio bem que tenha razão -- respondeu o senhor Maillard, tornando-se muito pálido.
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, páginas 194-196
''O sistema do Doutor Goudron e do Professor Plume''
por
E. A. Poe
em ''Histórias Extraordinárias'
Tradução revista por L. Nazaré'
Edição Ediclube 1990