quinta-feira, 30 de novembro de 2017

L'homme et son chien -- le video



A pintura está a secar.
Esta pintura representa o nosso amor por este belo cão.
Speed é o seu nome.

domingo, 26 de novembro de 2017

O substituto

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Ah minha bela!, adoro quando fazes esse beicinho de menina de babete que tenta uma última vez que o seu papá lhe compre um bananaslip, adoro porque pareces mesmo a tua neta, adoro o sorriso que fazes, adoro a carne dos teus lábios, adoro tudo em ti mas agora ouve-me... não precisas mais de fazer de criança mimada, eu expilico, eu já não vou vender o teu quadro ao Benjamim, eu explico, ele ia ter problemas quando chegasse a casa, com a mulher percebes?, tu sabes que vocês mulheres têm um sétimo sentido, notam qualquer tentativa de escondermos, não descansam até descobrir. Por isso, não lhe vendo o quadro, eu explico, ele quando entrou aqui no meu quarto, o quadro que mais lhe chamou à atenção foi o teu, quis logo comprar-mo, disse que ia levá-lo para Alamut para oferecer à mulher, disse que no quadro via o retrato da mulher e da filha, gostou do tom de pele, a sua mulher é africana, a sua pequenina é mestiça, ele não tentou saber quem era na realidade a personagem pintada, identificou-se logo com o quadro, quis comprá-lo e fui eu, que fazendo resistência, comecei por lhe pedir um preço bem acima da minha maior venda -- o que ele aceitou -- e depois lhe contei para ver se o desmoralizava a história do quadro, disse-lhe que o quadro eras tu, tu em dose dupla, do lado direito, tu de olhos bem abertos e com as rugas de hoje e tu do lado bem esquerdo, com a idade e a maquilhagem dos vinte verões gingando na disco, disse que eras uma amiga minha dançando mas isso só veio aumentar o interesse que ele tinha pelo quadro, acertámos o pagamento das prestações, combinámos o envio por correio registado para Alamut, mas os meses foram passando e ele, o Benjamim, foi ficando entre nós, como na sua casa o telhado devoluta chuva, o quadro está bem melhor guardado aqui em casa e o pagamento da primeira prestação ainda não aconteceu pelo que o teu quadro ainda não foi vendido, apesar de estar prometido e reservado, mas tudo isto, Rasa, foi antes de ele te conhecer, agora que ele te conhece ele já não pode contar a história que pretendia contar à mulher, ia-se enrolar na história e a mulher ia ficar a pensar que a mulher no quadro era uma namorada extraconjugal em Derza, e eu digo isto tal como lhe disse a semana passada quando falámos os três ao telemóvel, eu vi o carinho que ele te tem, a voz doce de te aconselhar, ele ia ficar em terra e a mulher seguiria para o México à procura de um chico, como eu não quero que uma pintura feita com amor se transforme num objecto de ódio disse-lhe a ele tudo isto e estou-te a dizer a ti, ele está aqui ao nosso lado e pode confirmar, disse-lhe «não te posso vender este quadro mas vou fazer-te um substituto.», este aqui que vês no cavalete, o que achas Rasinha?
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Claudio Mur

sábado, 25 de novembro de 2017

Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, coros e bailarinos.

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-- Mas, meu caro Marcolini...
-- Quê...?
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prémios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu génio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal género de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais do que os outros -- e acaso para reconciliar-se com o céu --, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-- Senhor, não desaprendi as lições recebidas -- disse-lhe. -- Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e, se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-- Não -- retorquiu o Senhor --, não quero ouvir mais nada.
-- Mas, Senhor...
-- Nada! Nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-- Ouvi agora alguns ensaios!
-- Não, não quero sabber de ensaios! Basta-me haver composto o libreto, estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muitas vezes o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás trataddas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro génio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-- Esta peça -- concluiu o velho tenor -- durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronómica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
-- Tem graça...
-- Graça? -- bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há-de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o , e do fez-se , etc. Este cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Talvez não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
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, páginas 16-17

'Dom Casmurro'
Machado de Assis
edição Visão / Colecção Novis

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

80 anos de Zeca Afonso


'For Zeca Afonso
(nos 80 anos do seu nascimento)'
óleo sobre tela
40 cm por 80cm
2009 - 2017
ZMB

Pretendi colocar o Zeca fazendo a revolução num moliceiro
num canal da ria de Aveiro (a arder)
e investindo contra a porca das finanças.

(fotografia de época)



Este quadro integrou uma exposição colectiva de homenagem
a Zeca Afonso e organizada pela associação
Cadeira de Van Gogh em Maio de 2010 no Porto.
A organização produziu o catálogo seguinte em formato 'livrinho de cd'


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

O inferno e os capeta

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Pois é leitor amigo, estou já deitado debaixo de quatro cobertores porque o frio já se começa a sentir, estou bem e a fumar o penúltimo cigarro do dia. São, agora que escrevo «agora», dez horas e vinte e três da noite, e o dia foi socialmente produtivo, muito hoje aconteceu nesta pequena ilha de vizinhos em Derza, também tenho aqui vizinhos maus, mas os melhores são meus amigos, somos uma comunidade, ocupámos duas casas, e eu pago a minha renda por um quarto a um senhorio, eu estou bem e dentro da lei, eles não têm nem água nem luz, andam a velas e a água... bem, a água somos nós -- os vizinhos bons -- que lhes damos, ou senão, vão fora da ilha recolhê-la no fontanário.
Dizia que estou a fumar o penúltimo cigarrro do dia, o último irei fumá-lo quando acabar de escrever estas novidades sociais do meu dia de hoje.
De manhã, o Benjamim tocou-me à porta a pedir se eu lhe podia guardar o portátil porque ele tinha de ir arranjar os cigarros avulso e ir visitar o Giuliani ao hospital onde estava internado. Giuliani tinha saído de casa na Quarta-Feira, bem antes da sete da manhã, antes de qualquer dos vizinhos acordar, estava com medo porque se dirigia ao hospital, tinha uma consulta às oito da manhã, Giuliani não tem passe social de transporte e como é reformado por invalidez como eu (mas com uma reforma de miséria, e de um valor inferior ao meu, que também não é grande), mas eu safo-me bem, eu tenho passe social de transporte público mas Giuliani anda a pé, não tem dinheiro para comprar nem sequer bilhetes de viagem quanto mais dar vinte e poucos euros por uma assinatura mensal e social de transporte público, eu posso pagar, Giuliani anda a pé, vai para todo o lado a pé, quer chova quer faça sol, e foi a pé que ele saiu de casa há dois dias para ir a uma consulta. Como não voltou nesse dia a casa, percebemos que tinha sido operado, ele tinha um quisto do tamanho de uma moeda de cinquenta cêntimos no pescoço, bem por baixo da orelha. Como hoje ainda não tvesse regressado, dois dias depois, Benjamim fez tenção de o ir visitar, a Raquel ligara ontem à tarde para mim e eu passei o telemóvel ao Benjamim que ficou a saber e nos deu as novidades: Giuliani está internado. Hoje, Benjamim pede-me para lhe guardar o portátil, bate-me à porta, acompanhado do Adriano (marido da Raquel), dizem-me que voltam já depois de arranjar uns cigarros, o que me dá tempo de ir comprar umas coisas no supermercado, e que depois eu guardarei Speed, o nosso cão de estimação, enquanto eles irão visitar Giuliani ao hospital. Quando eu volto do supermercado vinte minutos mais tarde, fico a saber que Giuliani afinal já regressou, deram-lhe alta esta manhã, deram-lhe um bom pequeno-almoço, trataram-no tão bem que ele até escreveu um poema que mostrou ao médico e às enfermeiras e ao qual o médico quis tirar um foto para  recordação, ou até para meter no face, quem o saberá, eu não, nenhum de nós, ficámos todos contentes quando vimos o Giuliani em casa de novo. A verdade é que ele nos faz falta, arranja-nos cigarros quando pode, vai-nos comprar vinho ao supermercado, eu não bebo mas estou sempre com eles, e até contribuo para a recolha de fundos, eles pagam-me de outra maneira, eu ganho uma vida social, até tenho pintado menos mas também não posso só pintar, até porque já não tenho quase paredes disponíveis no meu alojamento para pendurar quadros a secar, tenho de pintar com mais lentidão e aproveito os dias em que não tenho trabalho de pintura para passar o tempo com os vizinhos bons... recordo algumas palavras do Giuliani quando o vi da janela e ia ele já a sair para caminhar quarenta e cinco minutos para almoçar no albergue:
«Vocês são uns queridos ao se terem preocupado comigo, sabes que eu estava com medo, a gente não sabe se acorda da anestesia e depois da operação, mas correu tudo bem, estou vivo!»
É isso, Giuliani!, como o Mané disse um dia destes, és um sobrevivente, escrevo eu agora. O Giuliani estar às onze e meia da manhã cheio de energia e vivo, foi a primeira manifestação do dia importante que tenho para contar, o melhor vem ainda a seguir, é o que vou contar já, mas acho que vou parar para enrolar um finex de tabaco, porque preciso de dar descanso ao dedo, já teclei bem mais que uma crónica da leninha... o texto segue dentro de dois minutos, são agora vinte e três horas e dois minutos.

Despedi-me do Giuliani pela janela, fiquei a vê-lo descer a ilha, e voltei para começar a fazer o almoço, tinha arroz de pimentão doce num taparuere que sobrara do tacho de ontem, tinha dois hambúrgueres já descongelados, foi só grelhá-lhos, depois pensei no Benjamim: «Ele não pôde ir buscar comida ao restaurante da prima, não pode ficar sem comer nada todo o dia, vou-lhe fazer uma sandes com este hambúrguer, cômo só um, e vou tomar o meu café ao sol com ele.». E assim foi, almocei, lavei a louça, fiz café e a sandes, seriam já agora talvez quase uma da tarde.
Saí de casa e perguntei-lhe se não queria comer uma sandes de hambúrguer, ele perguntou se tinha queijo porque não gosta de produtos lácteos, e eu disse que não, é só um pão com hambúrguer, «pensei em pôr um pouco de manteiga mas lembrei-me que tu nã gostas», «sim, vou comer, obrigado Mur».
Comeu, eu bebi o meu café, e estávamos a apanhar sol e a conversar quando aparece o Adriano, de volta a casa, Speed até ladra e Benjamim acha estranho pois o Speed adora Adriano, reparámos então que com Adriano vem a Elisa.
A Elisa é uma amiga que a Rasa está a ajudar, Elisa está por uns dias a viver em casa de Rasa até resolver a sua situação, o seu visto expirou, e ela ou arranja um contrato de trabalho ou tem de voltar para o país de origem. De modo que Elisa aparece com Adriano na nossa ilha. Elisa tinha ido a uma entrevista de emprego de manhã que correra sem sucesso, ao voltar e como tinha de esperar por Rasa, lembrou-se de ir esperar por Rasa perto do trabalho, Rasa está neste momento quase a entrar no terceiro dia de teste num emprego, e amanhã saberá ao fim do dia se fica nesse trabalho, estou também a escrever este texto para ordenar as ideias e fazer a minha parte na história caleidoscópica que fará com que Rasa consiga um trabalho efectivo com salário e folga, é bem melhor que o trabalho anterior onde era tratada abaixo de cão pela Fa, a patroa que gostava de dela mas a fazia trabalhar quinze horas sem folga por trezentos euros, pois é leitor amigo!, quem precisa de ganhar dinheiro tem por vezes que aceitar trabalhos de quase escravo, Rasa saíu dessa escravatura e amanhã ligar-me-á a dar as novidades, que serão boas, vamos aqui pôr um like e transformar o que um católico chamaria de prece, e vamos nós transformá-lo no movimento «Rasa a Efectiva!» 
Assim, esta manhã, Rasa e Elisa saíram de casa, Rasa para o trabalho e Elisa para a entrevista, como esta correu mal, Elisa pensou em esperar por Rasa perto do restaurante, mas enganou-se na referência do local de trabalho, esta referência era a paragem de metro perto do hospital, mas ela saíu na paragem do hospital errado, como reparasse que estava perto de minha casa e como ontem também já cá estivera procurando empregos a partir de anúncios na internet, foi assim que ela arranjou a entrevista desta manhã, assim ela lembrou-se hoje de vir ter aqui à ilha e logo que Rasa terminasse o trabalho iria com ela para casa. Foi um filme, ela não se lembrava do caminho que fizera ontem para aqui, andou perdida pelas redondezas perguntando se ninguém conhecia um Mur pintor, foi assim que deu com o Adriano na rua e ele a trouxe para cá.
Ela chega e conta a história, diz que foi Deus que pôs aquele amigo no caminho dela. Chega e conta a entrevista que fizera de manhã, onde lhe disseram que não lhe fariam contrato, então ela chega e conta isto e diz que se se vai embora, ontem fora ao Centro Nacional de Apoio ao Imigrante e que eles a encaminham para o Estado lhe pagar a passagem de regresso ao país de origem, ficando impedida de voltar durante cinco anos e com uma dívida que lhe será cobrada se ela voltar antes dos cinco anos, diz que chegou a um ponto de ruptura, este país já lhe fez muito mal. Conta que se não fosse a Rasa estaria a viver na rua e que já chega de miséria, ela estava a viver na rua porque, diz ela calmamente, tão calmamente que parece maluca, que fugiu dos irmãos que estão em Portugal a gerir uma casa de alterne, e que a ameaçaram de morte, extorquilharam-lhe o salário, ela era garota de programa no bar dos irmãos e ela simplesmente fugiu, contou o sonho da cobra amarela e da cobra preta, ela tivera um sonho em que duas cobras apareciam: a amarela representava o irmão e ela pisou a cobra amarela mas a cobra preta ia atacá-la, era a irmã que tinha inveja dela, ela conta o sonho, Benjamim e eu ouvimos, eu penso que ela está tendo intuições próximas da loucura, o Benjamim pensa e diz-me mais tarde a sós que ela parece fugida da máfia, Benjamim fala em que ela deve ir à embaixada pedir asilo político, mas eu digo que não, ela está sendo ameaçada pelos irmãos em Portugal, o que ela precisa é de não ver mais a família, nunca mais ter contacto com eles, arranjar um trabalho com contrato e ficar com a autorização de residência e daqui a um ano ela obtém o seu cartão do cidadão. 
Pergunto ao Benjamim se não sabe se alguém precisa de funcionária num restaurante, ele diz que talvez e liga do meu telemóvel para um amigo da família que tem um restaurante, combina-se uma entrevista para amanhã de manhã.
Amanhã de manhã, Elisa sairá de casa com Rasa, irá ter com Benjamim que a levará à entrevista, Benjamim diz-me depois que fará tudo e só dependerá dela o ficar no trabalho e ganhar o contrato. Elisa foge de um submundo que ela próprio definiu como «O inferno e os capeta», nós tentámos dar-lhe boa moral, ela oscila e conta pormenores da sua vida no inferno do alterne, nós dizêmos-lhe: «só depende de ti, amanhã se tudo correr bem ficarás já a trabalhar, se trabalhares bem, o patrão faz-te um contrato como a Rasa terá já amanhã após o seu período de experiência, faz por te correr bem, trabalha duro e fala pouco e faz o teu melhor, é a tua última oportunidade, aproveita-a bem, tu podes sair do inferno, os teus irmãos podem ser da máfia mas de dia dormem numa cidade bem longe daqui, se tu tiveres um trabalho diurno e te afastares dos locais nocturnos de alterne, não terás problemas em desaparecer e a tua família não mais te fará mal, eles não saberão onde te procurar. Arranjas o contrato e trabalhas, ao fim de um ano e alguma burocracia tornas-te portuguesa e tudo correrá pelo melhor, terás o teu dinheiro, sairás de casa da Rasa que não te pode ter em casa por muitos mais dias, e arranjarás um quarto para dormir, ter-nos-ás como amigos, este é o caminho bom e o melhor que a gente te pode ajudar, não é fácil, se seguires este caminho bom saírás bem desta situação, se amanhã não ficares ao trabalho irás ao CNAI na Segunda-Feira e pedirás a tua passagem.»
Ela ouviu-nos, entretanto a Rasa passou por cá depois do trabalho de hoje, concordámos todos com este plano de fuga da Elisa, estamos conscientes que ela vive numa situação pior que a nossa, uma mulher na rua está sujeita a muitos mais perigos que um homem, e vamos todos esperar que amanhã ela resolva a situação. 
Eu agora vou rever este texto e fumar um último cigarro e dormir. É meia-noite e quatro, é já Sábado, amanhã é um dia importante para a nossa comunidade. Vai correr tudo bem, boa noite leitor ou leitora.
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Claudio Mur

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hermes & Afrodite


'Hermes & Afrodite'
óleo sobre tela
80cm por 70cm
2001 - 2017
ZMB

Foi feita uma pequena alteração à cor do cabelo e da cauda da sereia.

(fotografia de época)