terça-feira, 12 de dezembro de 2017
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
E saiu de casa para comprar um burrofone mais inteligente do que o seu actual
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Hoje saí de casa de manhã e fui comprar o meu tabaco de enrolar, com o troco tomei o pequeno-almoço no café. Depois cheguei à ilha e dirigi-me a casa do Benjamim, lá encontrei igualmente o Rui. cumprimentei ambos e virei-me sorridente, quase hilariante para o Rui e disse-lhe:
-- Atão Rui, estás vivo? ainda bem que estás vivo, nem imaginas o que disseram de ti, olha que o estrunfe e o quim da coreia do norte planearam uma conspiração para te enviar um míssil num drone pelo cu acima?!, nem imaginas... estás vivo! Afinal, ouvi dizer que ontem fugiste com o ouro!
-- Queres um cigarro, Mur? Eu dou-te um cigarro.
Aceito o cigarro e fico contente, Benjamim está calmo, ontem estava com ganas de esganar o Rui, afinal levantaram-se às cinco e meia da manhã, para ir levantar a reforma e a metade do subsídio de Natal mas esperaram até às seis e meia à porta da caixa multibanco. nada, ainda não havia dinheiro, decidiram voltar para casa, mas antes das sete Rui voltou a sair e disse que já vinha, mas não voltou, e Rui devia dinheiro ao Giuliani e ao Benjamim que por sua vez deviam dinheiro ao Adriano e à Bidente que por sua vez é conhecida por se vangloriar por ter sido a maior ladra de Amesterdão e que ganhou a alcunha de Bidente porque um dia resolveu fazer olhinhos a um traficante à frente do companheiro, só para que ele lhe desse uma de borla e o companheiro partiu-lhe os dentes todos, ficaram só dois, daí a alcunha, além disso tem cara de bruxa, anda agora a infernizar o Giuliani que passa frio na cama porque ela lhe rouba os cobertores e a ganza além de se suspeitar que lhe roubou os antibióticos para os vender... é complicada a comunidade a que eu pertenço por afinidade e vizinhança, hoje o Benjamim dizia que o Adriano quase que esteve ontem para entrar num táxi e ir buscar o Rui ao bairro das lagartas, arrastá-lo pela bochecha e dizer-lhe «anda para casa, paga o que deves conho», a própria Bidente afirmava que o Rui era um perigo em qualquer casa porque era toxicodependente, mas hoje o Rui estava sorridente, ofereceu-me um cigarro, pagou as dívidas, deu vinte euros ao Adriano por umas sapatilhas e saiu de casa para comprar um burrofone mais inteligente do que o seu actual. Quando ele saiu, virei-me para o Benjamim e disse-lhe:
-- Afinal estavam tão alarmados, ele nem gastou muito, pagou tudo e ainda tem dinheiro para um smartphone! Bem vou para casa fazer o almoço, até logo.
Vim para casa, fiz o almoço e pus-me a ler, continuando a leitura de «O idiota» de Dostoievsky, o que eu tenho a dizer é que a personagem principal, supostamente, um idiota recuperado é na realidade a pessoa que mais calma e inteligência apresenta no livro até ao começo da segunda parte, chega a dizer a um palhaço qualquer coisa como «era idiota, mas fui tratado, e estou curado, e já não me sinto idiota, por isso trata-me com respeito, se não vira à direita e eu à esquerda». é certo que o idiota assim o era por causa da epilepsia que era tratada com métodos hoje considerados antiquados, é certo que o idiota ganha uma herança que torna muito mais fácil a sua recuperação, de qualquer modo e para terminar que estou com vontade de fumar... esta história é uma fonte de orgulho, é quase um manual de sobrevivência, é uma inspiração, um grande livro. Disse.
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Claudio Mur
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Mente, sai dizendo que me ama
Composição: Paulo Vanzolini / Eduardo Gudin Mente ainda é uma saída É uma hipótese da vida Mente Sai dizendo que me ama Mente Espalha essa fama Me chama de meu amor constantemente, no meio de toda gente e a sós, entre nós dois, mente. Mente pra dar um novo inicio, ninguem liga sacrificio, quando ele é o único meio. Pois na mentira, meu amor, crer, eu não creio. Só pretendo que, de tanto mentir, repetir que me ama, você mesma acabe crendo.
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
L'homme et son chien -- le video
A pintura está a secar.
Esta pintura representa o nosso amor por este belo cão.
Speed é o seu nome.
domingo, 26 de novembro de 2017
O substituto
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Ah minha bela!, adoro quando fazes esse beicinho de menina de babete que tenta uma última vez que o seu papá lhe compre um bananaslip, adoro porque pareces mesmo a tua neta, adoro o sorriso que fazes, adoro a carne dos teus lábios, adoro tudo em ti mas agora ouve-me... não precisas mais de fazer de criança mimada, eu expilico, eu já não vou vender o teu quadro ao Benjamim, eu explico, ele ia ter problemas quando chegasse a casa, com a mulher percebes?, tu sabes que vocês mulheres têm um sétimo sentido, notam qualquer tentativa de escondermos, não descansam até descobrir. Por isso, não lhe vendo o quadro, eu explico, ele quando entrou aqui no meu quarto, o quadro que mais lhe chamou à atenção foi o teu, quis logo comprar-mo, disse que ia levá-lo para Alamut para oferecer à mulher, disse que no quadro via o retrato da mulher e da filha, gostou do tom de pele, a sua mulher é africana, a sua pequenina é mestiça, ele não tentou saber quem era na realidade a personagem pintada, identificou-se logo com o quadro, quis comprá-lo e fui eu, que fazendo resistência, comecei por lhe pedir um preço bem acima da minha maior venda -- o que ele aceitou -- e depois lhe contei para ver se o desmoralizava a história do quadro, disse-lhe que o quadro eras tu, tu em dose dupla, do lado direito, tu de olhos bem abertos e com as rugas de hoje e tu do lado bem esquerdo, com a idade e a maquilhagem dos vinte verões gingando na disco, disse que eras uma amiga minha dançando mas isso só veio aumentar o interesse que ele tinha pelo quadro, acertámos o pagamento das prestações, combinámos o envio por correio registado para Alamut, mas os meses foram passando e ele, o Benjamim, foi ficando entre nós, como na sua casa o telhado devoluta chuva, o quadro está bem melhor guardado aqui em casa e o pagamento da primeira prestação ainda não aconteceu pelo que o teu quadro ainda não foi vendido, apesar de estar prometido e reservado, mas tudo isto, Rasa, foi antes de ele te conhecer, agora que ele te conhece ele já não pode contar a história que pretendia contar à mulher, ia-se enrolar na história e a mulher ia ficar a pensar que a mulher no quadro era uma namorada extraconjugal em Derza, e eu digo isto tal como lhe disse a semana passada quando falámos os três ao telemóvel, eu vi o carinho que ele te tem, a voz doce de te aconselhar, ele ia ficar em terra e a mulher seguiria para o México à procura de um chico, como eu não quero que uma pintura feita com amor se transforme num objecto de ódio disse-lhe a ele tudo isto e estou-te a dizer a ti, ele está aqui ao nosso lado e pode confirmar, disse-lhe «não te posso vender este quadro mas vou fazer-te um substituto.», este aqui que vês no cavalete, o que achas Rasinha?
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Claudio Mur
sábado, 25 de novembro de 2017
Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, coros e bailarinos.
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-- Mas, meu caro Marcolini...
-- Quê...?
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prémios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu génio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal género de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais do que os outros -- e acaso para reconciliar-se com o céu --, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-- Senhor, não desaprendi as lições recebidas -- disse-lhe. -- Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e, se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-- Não -- retorquiu o Senhor --, não quero ouvir mais nada.
-- Mas, Senhor...
-- Nada! Nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-- Ouvi agora alguns ensaios!
-- Não, não quero sabber de ensaios! Basta-me haver composto o libreto, estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muitas vezes o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás trataddas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro génio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-- Esta peça -- concluiu o velho tenor -- durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronómica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
-- Tem graça...
-- Graça? -- bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há-de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Talvez não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
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, páginas 16-17
'Dom Casmurro'
Machado de Assis
edição Visão / Colecção Novis
-- Mas, meu caro Marcolini...
-- Quê...?
E, depois de beber um gole de licor, pousou o cálice e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.
Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prémios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu génio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passado sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera, do qual abrira mão, por entender que tal género de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais do que os outros -- e acaso para reconciliar-se com o céu --, compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.
-- Senhor, não desaprendi as lições recebidas -- disse-lhe. -- Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e, se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...
-- Não -- retorquiu o Senhor --, não quero ouvir mais nada.
-- Mas, Senhor...
-- Nada! Nada!
Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.
-- Ouvi agora alguns ensaios!
-- Não, não quero sabber de ensaios! Basta-me haver composto o libreto, estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.
Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. Com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muitas vezes o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás trataddas com grande pericia. Tal é a opinião dos imparciais.
Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro génio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.
-- Esta peça -- concluiu o velho tenor -- durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronómica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: «Muitos são os chamados, poucos os escolhidos.» Deus recebe em ouro, Satanás em papel.
-- Tem graça...
-- Graça? -- bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: - Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia, quando todos os livros forem queimados por inúteis, há-de haver alguém, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálice (e enchia-o novamente), este cálice é um breve estribilho. Não se ouve? Talvez não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...
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, páginas 16-17
'Dom Casmurro'
Machado de Assis
edição Visão / Colecção Novis
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
80 anos de Zeca Afonso
'For Zeca Afonso
(nos 80 anos do seu nascimento)'
(nos 80 anos do seu nascimento)'
óleo sobre tela
40 cm por 80cm
2009 - 2017
ZMB
Pretendi colocar o Zeca fazendo a revolução num moliceiro
num canal da ria de Aveiro (a arder)
e investindo contra a porca das finanças.
(fotografia de época)
Este quadro integrou uma exposição colectiva de homenagem
a Zeca Afonso e organizada pela associação
Cadeira de Van Gogh em Maio de 2010 no Porto.
A organização produziu o catálogo seguinte em formato 'livrinho de cd'
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