quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
Fazia o meu ensaio na literatura frascária
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Três dias de recolhimento, com os meus passos tolhidos pela asma. Ficava no quarto do tio Juca a pensar disparates, a ler os livros dele, de cima da cómoda. Havia um que lia todas as noites, uma meia hora antes de adormecer, com um castiçal perto da rede: era um romance imoral, com umas figuras como aquelas dos cartões que ele tinha. E quando ele saía eu ficava a ler o livro com a excitação de quem estivesse com uma rapariga no quarto. O Santa Rosa lá por fora devia estar nos seus dias maravilhosos, pois levantara-se o sol para fazer mais verdes os campos e abrir as flores de todo o jardim que era o engenho. Mas nos meus dias de doença o livro do tio Juca fechava-me os ouvidos e os olhos a tudo que não fossem aqueles amores dos seus heróis. Fazia o meu ensaio na literatura frascária, e nunca um livro se ligou tão intimamente com as minhas tendências. Lendo-o, era como se estivesse animando os meus sentidos doidos por se soltarem. O homem da história só vivia de beijos e de coitos; as mulheres expunham-se nas figuras em trajos naturais.
Podia o Santa Rosa dar festas com todos os encantos da sua natureza, enfeitar-se nas estacas do cercado com o florido das suas trepadeiras. Podia o mussambé cheirar como um frasco de essência derramado pelo caminho. Eu não sabia de nada, com a minha asma a piar, e naquele mundo diferente daquele em que eu vivia, o mundo alegre do romance do tio Juca.
A literatura começava a seduzir-me com ares assim de deboche. Era o primeiro livro que lia do começo ao fim por gosto, sem a obrigação da lição. E a leitura empolgou-me de tal forma, que me confundia com o desejos libertinos da história. O tio Juca passava o dia inteiro fora. Vinha para o almoço, e voltava para o serviço até à noitinha.
-- Você anda a ler os meus livros hoje, bem?
E não ralhou comigo. Tirava a roupa e deitava-se na rede para o seu sono profundo. Com as minhas vigílias de asmático, ouvia o seu ressonar ritmado, forte, bem diferente daquele estertor de Aurélio. Achava boa a vida do tio Juca. queria ser como ele. Tinha dinheiro no bolso para gastar. Fazia tudo o que desejava. Ia ao Recife de vez em quando. Ninguém mandava nele.
(...)
-- Não leia estes livros, que fazem mal -- disse-me sem ralhar, advertindo somente.
Doutra vez:
-- Você está amarelo de mais! Que diabo é isso? abra os olhos: isso faz-lhe mal.
Eu sabia o que o meu tio pretendia ferir, até onde ia a sua malícia:
-- Você precisa de dar um passeio por fora.
Sabia também a extensão do seu conselho. Um passeio por fora, chegar terra para o pé da cana, era como eles se referiam à necessidade do coito para a saúde. Eles tinham este preconceito contra a castidade. Atribuíam à abstinência uma porção de males. Havia amarelos por isto, doidos por falta de mulher. Vinha ao engenho um parente nosso, chamado Fernando, que sofria de ataques.
-- Aquele bicho precisa é de vadiar um pouco -- dizia o tio Juca.
'
, páginas 135-137
'Doidinho'
José Lins do Rego
edição Livros Unibolso
Três dias de recolhimento, com os meus passos tolhidos pela asma. Ficava no quarto do tio Juca a pensar disparates, a ler os livros dele, de cima da cómoda. Havia um que lia todas as noites, uma meia hora antes de adormecer, com um castiçal perto da rede: era um romance imoral, com umas figuras como aquelas dos cartões que ele tinha. E quando ele saía eu ficava a ler o livro com a excitação de quem estivesse com uma rapariga no quarto. O Santa Rosa lá por fora devia estar nos seus dias maravilhosos, pois levantara-se o sol para fazer mais verdes os campos e abrir as flores de todo o jardim que era o engenho. Mas nos meus dias de doença o livro do tio Juca fechava-me os ouvidos e os olhos a tudo que não fossem aqueles amores dos seus heróis. Fazia o meu ensaio na literatura frascária, e nunca um livro se ligou tão intimamente com as minhas tendências. Lendo-o, era como se estivesse animando os meus sentidos doidos por se soltarem. O homem da história só vivia de beijos e de coitos; as mulheres expunham-se nas figuras em trajos naturais.
Podia o Santa Rosa dar festas com todos os encantos da sua natureza, enfeitar-se nas estacas do cercado com o florido das suas trepadeiras. Podia o mussambé cheirar como um frasco de essência derramado pelo caminho. Eu não sabia de nada, com a minha asma a piar, e naquele mundo diferente daquele em que eu vivia, o mundo alegre do romance do tio Juca.
A literatura começava a seduzir-me com ares assim de deboche. Era o primeiro livro que lia do começo ao fim por gosto, sem a obrigação da lição. E a leitura empolgou-me de tal forma, que me confundia com o desejos libertinos da história. O tio Juca passava o dia inteiro fora. Vinha para o almoço, e voltava para o serviço até à noitinha.
-- Você anda a ler os meus livros hoje, bem?
E não ralhou comigo. Tirava a roupa e deitava-se na rede para o seu sono profundo. Com as minhas vigílias de asmático, ouvia o seu ressonar ritmado, forte, bem diferente daquele estertor de Aurélio. Achava boa a vida do tio Juca. queria ser como ele. Tinha dinheiro no bolso para gastar. Fazia tudo o que desejava. Ia ao Recife de vez em quando. Ninguém mandava nele.
(...)
-- Não leia estes livros, que fazem mal -- disse-me sem ralhar, advertindo somente.
Doutra vez:
-- Você está amarelo de mais! Que diabo é isso? abra os olhos: isso faz-lhe mal.
Eu sabia o que o meu tio pretendia ferir, até onde ia a sua malícia:
-- Você precisa de dar um passeio por fora.
Sabia também a extensão do seu conselho. Um passeio por fora, chegar terra para o pé da cana, era como eles se referiam à necessidade do coito para a saúde. Eles tinham este preconceito contra a castidade. Atribuíam à abstinência uma porção de males. Havia amarelos por isto, doidos por falta de mulher. Vinha ao engenho um parente nosso, chamado Fernando, que sofria de ataques.
-- Aquele bicho precisa é de vadiar um pouco -- dizia o tio Juca.
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, páginas 135-137
'Doidinho'
José Lins do Rego
edição Livros Unibolso
domingo, 28 de janeiro de 2018
Barney Wilen
https://www.discogs.com/Barney-Wilen-Moshi/release/9752910
Tocou com Miles Davis
but he stands on his own as a great visionary on the sax
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Três trabalhos em madeira
realizados em 2008
envernizados e emoldurados em 2018
'As 4 amiguinhas'
óleo sobre madeira
26,5cm por 27cm (com moldura)
2008
ZMB
'Na cabeça só piroca'
óleo sobre madeira
28,5cm por 27cm (com moldura)
2008
ZMB
Este título referencia o verso de uma música de Buraka Som Sistema
'Xarutitando'
óleo sobre madeira
27cm por 27,5cm (com moldura)
2008
ZMB
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Cristo, perdoa-me porque sou cego, nº1
'Cristo, perdoa-me porque sou cego, nº1'
técnica mista sobre papel
58cm por 44cm (com moldura)
1998
ZMB
Em 1998, eu estava a trabalhar na Irlanda
e andava a ler um livro de Kenneth Clark chamado 'The nude',
ao mesmo tempo pesquisava na biblioteca universitária,
ao ver uma pintura de El Grecco num livro,
retirei dela um detalhe para fazer um segundo quadro baseado neste tema:
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