quinta-feira, 1 de março de 2018

VIP lunatics on the grass

The lunatic is on the grass
The lunatic is on the grass
Remembering games and daisy chains and laughs
Got to keep the loonies on the path

The lunatic is in the hall
The lunatics are in my hall
The paper holds their folded faces to the floor
And every day the paper boy brings more

And if the dam breaks open many years too soon
And if there is no room upon the hill
And if your head explodes with dark forbodings too
I'll see you on the dark side of the moon

The lunatic is in my head
The lunatic is in my head
You raise the blade, you make the change
You rearrange me ' till I'm sane

You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me

And if the cloud bursts thunder in your ear
You shout and no one seems to hear
And if the band you're in starts playing different tunes
I'll see you on the dark side of the moon



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Tudo pela vitória


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Tudo pela vitória

Se vires um polícia
correr atrás de mim com uma pistola
não lhe apontes a tua ponta e mola
Se me vires cair num horto baleado e morto
toca apenas um triste e fúnebre hino
que encha de esperança o teu coração menino
Se vires um velho cansado de mala na mão
dá-lhe a tua ajuda sê tu também meu irmão
Se vires um batoteiro prégar e bater nos filhos
é porque não acertou no totobola senta-te no chão
e deixa que entre no seu rude coração
uns acordes de viola
Se vires um cego
e uma bengala branca de Sofrimento
dá-lhe a tua ajuda
não o deixes cair com o vento
Se ouvires histórias imundas de mulheres
procura conhecê-las na beleza dos malmequeres
Se te sentires preocupado com a bomba atómica
ou a de neutrões
Segue em frente
no meio da gente
que há-de calar os maus corações
Se a morte te vencer ergue-te
tu és mais forte
O que conta é o teu querer
Se vires teu irmão na miséria
dá-lhe ainda a tua mão
não deixes que lhe falte nunca em tua casa
o teu carinho e o teu pão
Se levares pontapés em troca
não esmoreças
porque a vitória só será vitória
quando nós a merecermos
e tu que nada fazes
que só desgostos nos trazes a mereças
Sim porque a vitória também
ou é de toddos ou não é de ninguém


1984
J. Alberto Allen Vidal

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Neste abrigo nada se perde, tudo se encontra

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-- Havias de ter visto... ontem parecia um circo.
-- Um circo, então porquê?
-- Não encontro a meia, onde está a meia?
-- Vê ao fundo da cama, nas prateleiras...
-- Ah, Giuliani, procura as meias, este homem põe-me fora do sério...

Quem assim fala é a Bidente, o Giuliani e eu. Estamos na Casa 4, o Giuliani procura a meia branca de algodão que a Bidente lhe deu. Tem a outra na mão. A cama ocupa o quarto todo, à volta uma parede onde estão as fotocópias de quadros de pintores famosos e uma fotografia de Giuliani personificando Cristo na cruz durante uma procissão pascal, outra parede com armários e livros e outra parede com uma estante onde está o rádio e alguns retratos e caricaturas que um amigo do Giuliani lhe faz. «Olha aqui esta do Guevara, está fixe não está? As pessoas não dão nada por ele, dizem que ele é maluco, mas olha está fixe, quero ver se encaixilho.» Disse-me isto no outro dia, agora procura a meia junto à entrada do quarto-cama, procura por baixo da cortina.
-- Olha, debaixo da cama. Diz a Bidente.
-- Não está, a cama não tem fundo. Ó Mur, queres fazer um charrinho?
-- Está bem, tens uma mortalha grande? Não, pronto, eu uso duas das minhas e faço um l. Mas ó Bi, 'tavas a dizer que ontem foi um circo eheheh, atão porquê?
-- Tudo começou porque o bacalhau à espanhola estava uma merda, o mastodonte passou-se, o bacalhau estava duro e sabes que a Bi não tem papas na língua... Diz o Giuliani.
-- Ihihih até já lhe tinha chamado de fascista, ele ficou pior que estragado. 
-- Mas eu fiz-lhe frente, diz o Giuliani, ele sabe que não pode abusar, se não quiser que vá morar para os palácios que diz que a família tem.
-- E eu ajudei, meti-me à frente como um cento e doze, eu sou assim, estou tão orgulhosa do Giu... foi uma cenas de ciúmes na verdade, o mastodonte viu que o Giu me pôs a mão na cintura e passou-se, deu um chapo ao Giu e o Giu rispostou com um soco, eu meti-me à frente, o mastodonte chama às gajas de vacas, ele quando me punha a manápula eu tinha medo, tenho medo dele, ando há uma semana a dizer-lhe para ir ao hospital levar com o decanoato no cu...
-- É isso mesmo Giuliani, ele tem que saber que há limites, fizeste bem, tens de te defender.
-- Ele não paga nada, queria que a Bi lhe pagasse a ele, quem pensa ele que é?, as coisas mudaram, sinto-me bem, o Benjamim ensinou-me, foi ele quem me defendeu no Verão quando o Luis se passou, na altura tive medo, ele andava a dizer que a casa era dele, até queria alugar a Casa 4 e a 5, partiu-me a clavícula e eu fui amigo dele. retirei duas queixas, ele ontem passou-se e depois pôs a Bi fora da 3, e ela veio práqui, prá minha beira, estou tão feliz...
-- Só não consegues encontrar a meia, não te arranjo mais meias!, ah eu não posso viver aqui, passo-me com a falta de higiene, eu vi um anúncio perto do albergue, amanhã tiro o número...
-- Calça já essa para não a perderes... digo eu. Viro-me para a Bidente e continuo: -- Não Bi, não precisas de te ir embora, só precisam vocês os três, tu, o Giuliani e o Rui de arranjar maneiras de todos contribuirem para o bem-estar desta casa, por exemplo, tu tratares da limpeza, o Rui ir buscar água, o Giuliani... não sei, mas vocês são muito taralhoucos, já no tempo do Speed e do Ben as meias desapareciam eheheh mas na altura a culpa era do cão, agora não sei é preciso ter mais paciência...
-- Ah este homem tira-me do sério.
Eu vejo o Giuliani com um cigarro numa mão, a outra a levantar a cortina e a procurar no chão entre a cama e a parede com a prateleira do rádio. Ele está stressado porque não tem mais cigarros e quer ir comprar. Faz tenção de calçar os sapatos sem meias e, quando pega num deles, embate no aquecedor que se vira e danifica, parte-se uma das três varetas eléctricas e os vidros caem ao chão.
-- Cuidado Giuliani, olha os vidros, cuidado com os pés.
-- Olha encontrei, vou calçar esta.
Vejo-o calçar uma meia azul, a meia desirmanada que ele procurava era branca. Vejo e a Bi não porque está na sala, mas eu não digo nada senão ela irrita-se, ela diz que o Giuliani tem cultura mas está a ficar primitivo. É um pouco verdade, às vezes penso que o Giuliani se desleixa com a saúde, penso não, desleixa-se mesmo, perdeu a medicação pós-operatória há dois meses atrás, a gente até pensou que alguém a roubasse para ir vender no mercado negro mas, afinal, foi encontrada um mês depois ao fundo da cama, o problema é que o problema de pele, ao qual tinha sido operado, passou~lhe para a orelha, agora alastrou para a cara, porque ele não tomou os antibióticos na altura certa, vá-lá que houve um enfermeiro na Caixa que lhe fez um penso a cobrir a cara toda, assim ele não vai lá coçar o pus.
Agora já ele calçou os sapatos, faz ideias de ir ao café buscar o tabaco.
-- Espera aí Giu, olha o charro, fuma um pouco, acalma um pouco, relaxa.
Entretanto o Rui entra em casa, estamos todos a mudar a nossa opinião acerca dele, está a fazer-se à vida, arranjaram-lhe um curso de formação num centro textil, três dias por semana, subsídio de almoço e de deslocação, são mais algumas dezenas de euros por mês, está contente, a Bidente aproveita para me contar que o Luis quando a expulsou da Casa 3 convidou o Rui para jantar.
-- Sentiu-se sozinho ihihih.
O Riu ri-se monocórdico: -- Ah a conversa dele, só filmes, esteve no Afeganistão como sniper, matou o terrorista, apanhou o avião para casa, aterrou no lago e ainda acordou antes de nós, só filmes...
-- E quando ele disse que foi a Madchester... ouviram bem, a Madchester tocar quatro horas e meia no concerto de solidariedade ihihih. Ri-se a Bidente.
-- Bem, Bi, sabes o que eu acho, tu estavas a dormir com o inimigo, tu dormias a dois metros do colchão dele, a imaginação dele cresceu, o teu sofá estava mesmo ali pertinho...
-- Não, ele não era inimigo, ele não toma, é, os comprimidos, qualquer dia está aqui a polícia para vir buscá-lo para o acompanhar ao hospital. Mas ele, às vezes, até era fixe, tínhamos conversas interessantes, falávamos sobre sexo...
-- Atão claro, interrompi eu, é o que eu digo, a dormir com o inimigo, é natural, a imaginação cresceu, cresceu.
Repito e faço um pouco de silêncio dramático para que ela perceba que além de ter crescido a imaginação também cresceu mais qualquer coisa ao mastodonte. O efeito na Bidente foi tão grande que ela disse:
-- De facto, tens razão, eu andava mesmo a dormir com um inimigo, ah aquelas manápulas...
-- Olha, vou-vos dizer uma coisa, vocês não se passem com ele, mas o Giuliani não foi sem meias ao café, ele calçou uma branca e uma azul, vá lá, tenham paciência, não lhe fodam a cabeça, a meia aparece. Levem na desportiva. Riam-se apenas, dormirão melhor.
Começo a fazer outro charro quando Giuliani chega. Senta-se em cima da cama em frente a mim que estou na sala, sentado na poltrona de executivo que encontraram no lixo. A Bidente e o Rui estão ao meu lado sentados em bancos. A Bidente repara na cor das meias quando ele passa e ri-se para mim. O Giuliani tira os sapatos e mostra o saco com os novos sapatos que um amigo do café acaba de lhe oferecer, estende-se ao comprido, puxa de mais um cigarro, mete-o na boca, procura o isqueiro.
-- Onde está o isqueiro, alguém viu o meu isqueiro vermelho?
-- Este é meu, diz o Rui.
Giuliani leva a mão ao bolso e, surpreso, olha para mim. Eu olho para a mão dele e vejo que ele tem a meia branca, aquela que faltava, na mão. Desato a rir:
-- Ahahahah olhem, o Giuliani andava à procura do isqueiro, meteu a mão no bolso e encontrou a meia ahahah o Giuliani é o maior.
-- Eu sou mágico, neste abrigo nada se perde, tudo se encontra.

Agora só falta encontrar o isqueiro mas agora vou-me rir até adormecer. O riso é terapêutico
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Claudio Mur

Protect me you

protect me from ravagement I'm ten years old I don't know what to do protect me myself I'm fourteen there's nothing to do protect me yourself I'm sixteen protect me from starving I'm eighteen protect me you I don't know what to do protect me demons that come at night I don't know what they say their whispering sends the night air away and makes me forget I hope they come again and again here they come again and again I hope they come again again again

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Beto police on the dread

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Horace, um agente da polícia, estava a preparar frangos do campo Rock Cornish para um jantar especial. Estes frangos do campo estão congelados, duros que nem pedra, pensou Horace. Tinha vestidas as calças azuis do uniforme.
Dentro dos frangos do campo estavam os miúdos num saco de plástico. Usando o alicate de pontas finas, Horace extraiu os miúdos congelados do interior das aves. Hoje a noite vai ser o baile da polícia, pensou. Vamos dançar até de madrugada. Mas, antes de mais nada, estes frangos do campo têm de ir para dentro do forno a cento e oitenta graus.
Horace engraxou os sapatos pretos de atacadores. Será que Margot iria «para a cama» com ele naquela noite? Naquela noite tão especial? Bom, se não fosse... Horace remirou os pescoços de frango, que o alicate dilacerara. Não, reflectiu, este pensamento não é apropriado. Porque eu sou um membro das forças da ordem. Tenho de tentar refrear o meu ódio. Tenho de tentar ser um exemplo para o resto das pessoas. Porque se elas não podem confiar em nós... nos homens de uniforme azul...
No escuro, à porta do baile da polícia, a mais negra melancolia esperava por Horace e Margot.
Margot estava sozinha. As companheiras de quarto dela tinham ido passar o fim-de-semana a Provincetown. Pintou as unhas com verniz de pérola, para condizer com o tecido cor de pérola do vestido novo. Vão lá estar coronéis e generais da polícia, pensou. O condestável da polícia em pessoa. Ao rodopiar diante do palanque, irei volver um olhar para o alto. O tom de pérola dos meus olhos a cruzar-se com o cinzento de aço das altas patentes.
Margot meteu-se num táxi e foi até à casa de Horace. O taxista estava a pensar: Que bela lasca. Era bem capaz de dar umas voltinhas com ela.
Horace tirou as aves do forno. Enfiou pequenos anéis de folhos dourados, que vinham incluídos na embalagem, nas pontas das pernas dos bichos. Em seguida, tirou a rolha do vinho, pensando: Esta cidade é impiedosa, impiedosa. Para aqueles a cuja voz falta o timbre da autoridade. Felizmente, o uniforme... Porque é que ela não se me entrega? Será que se julga capaz de resistir à força? À força das forças de ordem?
«Estes frangos estão deliciosos.»
Conduzindo Horace e Margot suavemente até ao arsenal, o novo taxista pensava acerca de basquetebol.
Porque é que as pessoas aplaudem sempre o homem que lança ao cesto?
Porque é que não aplaudem a bola?
É a bola que, na realidade, entra no cesto.
O homem não entra no cesto.
Nunca vi um homem que entrasse no cesto.
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páginas 232-233

'60 histórias'
Donald Barthelme
tradução de Paulo Faria
edição Antígona