terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Duo Maravilha


'Duo Maravilha'
óleo sobre tela
40cm por 40cm
2019
ZMB a partir de Jean-Michel Bertoyas

Este trabalho é uma versão de uma ilustração de Jean-Michel Bertoyas
que está incluída no livro Vampyr publicado pela Timeless em França



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O nosso corpo amassado com terra é a luz dos céus.
Os anjos têm ciúmes da nossa penetração.
Tão depressa a nossa pureza torna ciumentos os espíritos celestes,
Como os demónios fogem, longe da nossa impureza.
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Jalal -Al -Din Rumi

em 'Rubaiyat, Odes à Embriaguez Divina'
versões e prefácio de Zetho Cunha Gonçalves
edição Maldoror

domingo, 2 de fevereiro de 2020

A propósito de qualquer coisa…

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A propósito de qualquer coisa…
Qualquer coisa como a dama de negro que acabo de ver entrar no Café PassaTempo, hoje reabilitado, remodelado e tornado num café fino de arquitectura barroca e café a duzentos escudos. Longe vão os dias da má clientela e das rusgas policiais. Antes de toda a gente ser intimada e ir arrotar os costados para a pildra, antes do imóvel ficar devoluto, o café era conhecido na gíria dos índios por passa em pó. O T do letreiro tinha sido apagado com o tempo mas era um sítio excelente para concertos de música subterrânea. Nos seus primeiros dias de universidade, C lembra-se de passar pelas paredes em ruína do PassaTempo e ainda ver os cartazes anunciando o herético triple joint: um concerto de Lucrécia Divina seguido de Pop dell’arte e, para terminar, os Mão Morta, na cave. Isto no tempo em que estes se cortavam com lâminas em palco e os Pop beijavam dragquínes. Eram estas as notícias musicais que começavam a chegar pelos jornais à consciência de C e a ele parecia que tinha nascido dez anos atrasado. Agora, o Café PassaTempo era um estabelecimento para executivos no rés-do-chão onde os caloiros podiam ir cheirar a arte do negócio e sentir que o futuro, esse seria deles. A cave era um dancíngue privado onde antes havia pipas de vinho e almas em formol e, no primeiro andar, ficavam os alojamentos da dama de negro, os primeiros que ela habitou. C conhecê-la-ia no futuro como a Joana que moraria na Vitória mas, agora e por enquanto, ela era a dama de negro que entrava no café. A dama de negro era o mistério que todos gabavam e que ninguém tinha.
C está ao balcão e repara, olha para ela e ela olha para ele e vai-se sentar nas mesas ao fundo. C volta a prestar a sua atenção a Maria e começa a dizer: falávamos de fiéis, Maria? Digo-te isto, sinto a necessidade não totalmente abstracta de desequilibrar a balança da minha vida socioemocional. Percebes? Uma balança. Este conceito de balança não balança permanece ainda estático para mim, eu não balanço, a minha mente não oscila entre dois pólos, eu sou polar quando queria ser circular, oscilar, pendular, bipolar... e não, eu só tenho um pólo, um eu e só tenho o eu do espelho com quem dialogar. E o eu do espelho não serve de segundo pólo nem de segundo prato na balança, não gosto de me sentir um urso e pentear apaixonado a barba ao espelho, preciso de outras fontes de inspiração, outros estímulos, outros eus que não eu, outras consciências, personagens com quem dialogar, com quem discutir ideias. 
Conta-me uma história, diz-me ela sonhando e desviando o assunto. Quando nos conhecemos, tu prometeste contar uma história diferente todos os dias... C?, ouve... conta-me uma história... 
C ignora Maria e continua: sabes qual é a verdade? Sinto-me uma criança por detrás desta aparência. Isto por nunca tive pontos de referência, na juventude não havia pessoas, só havia imagens válidas e sustentáveis na televisão, algumas na rádio, na vida real só havia imagens perdurando com um significado obscuro, esotérico à laia de Bruno... e depois hoje há este B estúpido que nos persegue... é, aquele gajo tira-me do sério, aparece na foto da audiência de todos concertos... foda-se!, eu explico melhor, por exemplo, quando entras no teu talho preferencial, olhas para a arca congeladora, perguntas a como está a carne hoje e pedes uma meia dúzia de bifes de porco, diz lá se não gostavas que ele te cobrasse menos?, e isso é tão fácil de conseguir, nem tem nada a ver com ética ou a falta dela, tem tudo a ver com querer perder ou gastar menos.
Não percebi patavina do que contaste. É essa a tua história?
Err... conheço um gajo que quando lhe chamam de egocentrista, ele considera o dito como um elogio e não um insulto, mas isso é porque o J é alienado ou tornou-se um alienado, ele nem sabe o verdadeiro significado de egocentrista, ele diz que é egocentrista mas não egoísta, mas é ele que não pesca nada, ele de tanto se humilhar perante os outros na sua tentativa de arranjar cada vez mais trocos para comprar cavalo, ele que nunca roubou, ele que nunca foi paneleiro como ele diz, ele que nunca foi prostituto para obter dinheiro para a janada dose de j, ele que vai comer a sopa dos pobres e no caminho pede a todos os que passam com olhos vermelhos e lágrimas e obrigados e deus-o-abençoe, ele J já perdeu o eu, está sem consciência, ele não vê ninguém ao espelho nem vê já o próprio espelho, e por isso se não tem eu e é alienado não pode entender o eu de outras pessoas, entra em choque com elas, quer que o seu sem-eu se torne eu pelo simples facto de ele o dizer e de o dizer maior que o eu dos outros. o seu egocentrismo é uma tentativa de existir, porque ele de facto não existe, ele é um nabo, e depois é talhante, é um carniceiro. 
Mas todos somos assim ou não?, essa é muito curta para mim, explica-te.
Imagino-o a caminhar com uma faca na mão e na outra os teus bifes tenros. Ele tenta avaliar, comparar o bife e o seu preço de modo a vender-to no acto e tu ficares satisfeita ao ponto de voltares lá outra vez. Ele corta do lombo de porco, pousa a facão e coloca os bifes no prato esquerdo da balança, ele é uma balança, ou melhor, é o fiel de uma balança, no prato direito coloca um peso enferrujado. Repara que não é uma balança electrónica, ainda não é dessas que vimos anunciadas na tevê como as novas maravilhas da técnica de pesagem, o J é antigo, não está a par das notícias e muito menos tem dinheiro para reinvestir o talho com equipamentos topo de gama. Por isso, o J é o fiel de uma balança antiga do tempo dos sixtís na aldeia, uma balança com pratos enferrujados e pesos enferrujados. Por isso, suponhamos que a balança se desequilibra para o lado dos pesos, não gostarias nada pois não?, que farias?, eheh e então, ele retiraria esse peso e a balança tenderia para o teu lado e tu?, ficarias um tanto mais contente?, não, talvez soasse forjado, então ele colocaria um peso maior mas igualmente enferrujado e andaria nisto em movimento harmónico igualmente enferrujado até toda a ferrugem ser retirada e o preço ser justo... mas quanto é, qual o preço justo?, quais as verdades fundamentais e quais os equilíbrios, quais os valores que estão neste jogo do balança não balança?
Sim... e dai? Élou... tásme a dar seca!
C continua, eu continuo o meu discurso, tento perceber-me ouvindo a minha voz e tentando explicá-la o melhor possível à minha namorada Maria. Continuo o raciocínio: penso que para encontrar as verdades fundamentais, devo procurar mudanças radicais mas... o que eu não sei é onde as encontrar, aqui no PassaTempo vem muita gente mas é tudo pessoal com o qual nada se aprende, sinto-me aprisionado neste sistema... 
Tu devias era mudar de vida, largar essa literatura mal cheirosa que andas a ler e dedicar-te às aulas e aos laboratórios, em vez de estares aqui a parlar de bifes de porco cortados por um desgraçado que não tem onde cair morto.
Minha querida!, vamos lá ver se me faço entender: não existe verdade no equilíbrio quando se sabe que se atinge sempre o objectivo sem pagar nada. A verdade para mim está no oscilar entre os dois pólos do circuito electrónico, andar de um lado para o outro com descargas de frequência nos condensadores. Para te dizer isto é porque hoje fui de manhã às aulas, revemos a lei da impedância, falámos em bobines e naquilo que, nas traduções brasileiras que me chegaram às mãos, se chama de capacitores. A balança é magnética e, de um lado, estão os teus bifes de porco a minha felicidade e, do outro lado o preço correcto, o meu preço.
Mas que dizes?! Tentas assim comprar a felicidade?!, pergunta ela oscilando entre desilusão e raiva. As tuas palavras, C, são ambíguas, não as percebo, têm algo de gongórico. Ouve-me, a felicidade não se compra, ela existe por aí à espera que a agarrem, chama-se a isso oportunidade, não custa nada, é só esperar e ir fazendo pela vida. Acima de tudo, não desesperar.
E então, Maria vê C a trilhar os mesmos caminhos de seu pai, lembra-se que o pai tentou comprar aquilo que podia ser para ele a felicidade, ou como ele próprio admitiu um dia, a ilusão de felicidade, porque não? Maria recorda as consequências, as conclusões foram o que foram, o seu preço justo foi o seu internamento compulsivo no Centro de ReEducacao Alimentar de Derza. Maria ficou sem pai em casa. 
Maria transtorna-se com este reviver do passado e grita de súbito: fica-te pelo que tens e não entres em promessas!
Está bem, digo eu, a felicidade não se compra, atinge-se, mas a felicidade tem de existir como um processo, durante esse processo é necessário oscilar deveras entre quase tudo, como chegar ao cimo da escada, ao último degrau. O problema é que não sou budista e estou farto de esperar!
Ela, triste, pede que ele lhe conte outra história, em parte por querer mudar de assunto, pois, ultimamente, tem ouvido tantas histórias meditativas e depressivas que tou que nem posso...
E eu sabes?, nem sequer oscilo ainda. Como posso atingir o equilíbrio?
Contas-me uma história?
Não, hoje não.
Porquê?
Lembro-me do artista de circo que está em cima da corda sempre a analisar porque não cai, sempre a tentar chegar ao fim da corda, ao preço justo. Então, digo a Maria: hoje, não tenho uma história. Estou aborrecido e, às vezes, a história é o meio de explicar um acto. O problema é que talvez se ligue mais à história que ao acto, não sei bem o que achar desse tipo de reacção, não será certamente positiva. Porquê contar a história então?
Estás aborrecido comigo, é isso?
Não, contigo não, com nada, é isso, estou aborrecido com nada.

É apenas natural que esteja aborrecido com nada. É quase fundamental que se esteja aborrecido, mas sempre com o espírito aberto para fazer coisas e merda, muita merda, a maior parte do tempo faz-se merda e, uma vez, somos apanhados pela bófia a tentar desaparafusar uma sinalética nas traseiras de um banco. De registar o espectáculo: dois mânfios imberbes e anarquistas na rua junto ao rio de Derza, noite cerrada, faróis que se acendem e motor que acelera, em cinco segundos temos a bófia em cima de nós configurando um assalto a um banco, e nós com um canivete suíço apenas, tudo por causa de uma pequena e branca placa de plástico dizendo qualquer coisa como Fechado. 
Deixam-nos ir embora sem precisarmos de ir à esquadra, tão infantil tentar roubar uma placa, sem dúvida, apenas para rivalizar com o sinal de trânsito retirado dos acessos à auto-estrada, que dão um bom instrumento de percussão, e com os crucifixos roubados do cemitério, que estão na minha parede pregados e invertidos, acto que excruciará um militante da jota cds que mais tarde me negará um emprego na sua empresa dizendo: tu és sobrequalificado, só te posso pagar cento e vinte. Quando eu digo por mim tudo bem, ele diz vou pensar, vou dormir sobre o assunto.
Sim, é natural estar aborrecido com nada como os melancólicos e a eslava compaixão mas sempre com a caneta e o guardanapo de papel, ainda o pastel de carne e o café, a pastelaria e os fetiches alheios pelas belas e jovens empregadas, eu começo a desenvolver os meus próprios fetiches por damas que trabalham em tabacarias oferecendo ao público um verdadeiro serviço nacional de fumo... mas sim, sempre a angústia de que estamos contra o mundo e o mundo todo contra nós, um dia... quem sabe, faremos algo grande, seremos vistos em toda a cúpula do alfa beto, em toda a cidade do senhor do colarinho branco, as noites do fecho dos alfabetos por todo país do colarinho branco por causa das propinas serão pequenas quando comparadas com o que nos está destinado, sim!... nos viremos nas revistas de arte e literatura, ser-nos-ão feitas entrevistas e nos responderemos coçando a mosca um pouco, plagiando a pose cool do Eduardo Prado Coelho. 
Nessa altura, eu apresentarei a súmula dos loucos anos vinte, é mais ou menos assim: a atitude individual é como o Kill Yr. Idols dos Sonic Youth, não quero saber dos grandes, não quero saber se o Saramago e o Eugénio de Andrade vem conferenciar no auditório da universidade, a gente ignora, eu nunca sequer li Saramago e, outros também não mas talvez por razões ideológicas, não quero saber a polémica das cartas de amor do Manuel Alegre, quero lá saber dos amores de um político, pff!, alguns colegas dizem: não!, estás errado, é historicamente importante.
Sei quem o público considera grande mas não quero saber deles, não são sequer ídolos, são apenas estátuas e já não pessoas, nem sequer se põe a hipótese de se pensar se se gostará de com eles trocar palavras, isso não é comigo digo-te, uma vez o Michael Gira veio dar uma sessão de prosa ao Carlos Alberto, eu fui ver, gostei, havia uma banca com livros e cedês dele, e eu comprei um livro de prosa dele, disseram-me que se quisesse esperar pelo autógrafo ele estava quase a chegar. Mas eu não esperei eu quase fugi, não quis saber. Esta é a minha atitude. 
Ou era naquele tempo. O Saramago não me interessava, até que um dia li O homem duplicado e As intermitências da morte. E fiquei pasmado, surpreso, como foi possível eu ter ignorado o Saramago?!
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Claudio Mur

Rosebud

Não conheço pessoalmente a alexandra g. Apenas troquei em tempos comentários e posts no seu blog e alguns emails pessoais. Tal como não conheço a flor que escreveu o blog O mundo da G.
Mas G é a letra do primeiro nome de uma mulher que foi minha namorada há quase 25 anos. Esse namoro durou apenas três meses mas, após a ruptura, ela ficou durante muitos anos na minha memória. Foi o meu maior amor. Foi um amor tão grande que me achei culpado do resultado final. E me achei culpado de querer escrever um livro que lhe pudesse explicar o que, para mim correu mal entre nós. Quis que ela percebesse o quanto ela foi fundamental para mim, para que eu deixasse de ser um ser fálico-agressivo e tentasse vir a ser uma pessoa boa no futuro, uma pessoa que ajudasse o seu semelhante. Esse livro começou a ser escrito em 1997 antes de terminar o meu curso superior, o ficheiro foi deixado num computador sem password a que mais gente tinha acesso, e quando voltei da minha primeira experiência profissional na Irlanda, comecei a intuir frases na boca de conhecidos que me diziam ter lido este ficheiro. Esta semi-real violação de palavras que não estavam fnalizadas, originou sentimentos de paranóia e revolta, é como se nos tivessem lido o diário íntimo. De modo que em 1999, já noutra experiência de trabalho voltei ao texto e escrevi e revisionei a base já escrita, dei-lhe mais umas quantas voltas, começando a ficcionar, a distorcer a cronologia, os factos, a tornar tudo mentira. De modo que perdi a noção da realidade e a minha mente estilhaçou-se e fui internado em 2000.
Acontece que a minha ex-namorada G nunca aceitou o meu livro, nunca o quis receber ou sequer ler, lembro-me que o último email que me enviou dizia para eu a considerar apenas uma personagem. Eu senti que todo o esforço era em vão e que ela me condenava ao silêncio, eu nunca mais ouviria a sua voz. De modo que decidi doar o livro à internet, arranjei uma lista de emails e durante dois meses fui enviando emails com os capítulos em português e em inglês em 2000, e mais tarde em 2002 imprimi 30 cópias do ficheiro em papel a4 e ofereci-as às pessoas do bar que frequentava na altura.
Com tudo isto passaram-se anos e três internamentos mas o ficheiro não me satisfazia, ia revendo, acrescentando palavras e frases, corrigindo pontuações e ortografia, ainda hoje o ficheiro está cheio de erros. Arranjei um site online e coloquei o ficheiro em pdf em 2008, os capítulos foram sendo lidos ou descarregados. Em 2013, coloquei-os no archive dot org.
Verdadeiramente G só deixou de me ocupar a cabeça quando conheci a São em 2008 num hospital psiquiátrico. Finalmente tinha encontrado uma mulher maluca para eu, um homem maluco. E com ela, tornei-me homem, deixei de ser a criança criogenada apenas por volta dos meus 35 anos de idade.

Foi quando descobri que a letra G é uma referência para muita gente. Jonh Berger tem um romance de nome G (embora este G seja um homem), os Ornatos Violeta têm um vídeo onde uma frase de amor aparece grafitada e dedicada a G, é como se a letra G seja ela própria uma personagem, uma poligénese literária segundo a definição de Eco no livro A passo de caranguejo, uma sincronicidade de Jung, uma paranóia, uma semelhança propagada acausalmente.

Por isso, repito, a G dos meus livros, que não estão publicados oficialmente em papel, não é nem nunca foi a alexandra g nem a flor nem mesmo a redonda (cujo nome também começa por G) que tem o blog A Outra.
A minha G é um segredo, um mistério do qual sentir inveja. É tudo.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A tarde cairá...

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Não tive coragem suficiente para contornar a mansão e chegar ao outro lado. Certamente seria visto por alguém. Porque tenho então a impressão de já ter estado lá há muito tempo? Será que, no fundo, não conhecemos de antemão todas as paisagens que encontramos na nossa vida? Será que, de facto, ainda pode acontecer algo totalmente novo, que não seja pressentido com muita antecedência, no fundo dos nossos reservatórios? Sei que um dia, numa hora tardia, estarei lá, na entrada dos jardins, ombro a ombro com Bianka. Entraremos nesses recantos esquecidos, onde entre muros antigos estão enclausurados parques envenenados, os paraísos artificiais de Poe [*], cheios de cicutas, papoilas e convolvuláceas entorpecentes, ardentes sob o céu cinzento de frescos muito velhos. Vamos despertar o mármore branco da estátua de olhos vazios adormecida nesse mundo marginal, além dos limites da tarde murcha. Espantaremos o seu único amante, um vampiro vermelho que dorme com as asas pousadas no seu seio. Ele voará silenciosamente, macio, fluido, ondulando com os seus restos exânimes, imateriais, sem esqueleto e sem substância e, girando e batendo as asas, há-de dissolver-se no ar entorpecido. Entraremos por uma pequena porta numa clareira deserta. A vegetação estará queimada como fumo, como as pradarias no fim do Verão índio. Isso será talvez em Nova Orleães, no Louisiana -- afinal os países são apenas pretextos. Sentar-nos-emos na borda de pedra de um açude quadrado. Bianka molhará os seus dedos brancos na água morna, cheia de folhas amarelas, sem erguer os olhos. Do outro lado do açude sentar-se-á uma figura negra, delgada, toda coberta. Perguntarei sobre ela murmurando, e Bianka, acenando com a cabeça, responderá silenciosamente: -- Não tenhas medo, ela não ouve, é a minha mãe morta que mora aqui. -- Depois ela dir-me-á as coisas mais doces, as mais silenciosas e mais tristes. Não haverá nenhum consolo. A tarde cairá...
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[*] O autor de Paraísos Artificiais, livro sobre as sensações provocadas pelos narcóticos, é Charles Baudelaire (1821-1867). Baudelaire foi tradutor de Edgar Allan Poe (1809-1849), conhecido sobretudo pelos seus contos fantásticos.

, páginas 83-84

'Sanatório sob o signo da clepsidra'
Bruno Schulz

tradução de Henryk Siewierski
adaptação da tradução Patrícia Guerreiro Nunes
edição Edições do Tédio


terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Quando ao romper da manhã se fazia ouvir a sineta do seminário

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Quando ao romper da manhã se fazia ouvir a sineta do seminário, suspensa à entrada do Convento da velha cidade, começavam a acorrer ao seu chamamento sonoro grupos de estudantes -- gramáticos, retóricos, filosóficos, teólogos -- vindos de todos os lados. Os gramáticos, ainda de tenra idade, empurravam-se uns aos outros e insultavam-se em voz de falsete. Normalmente tinham os fatos sujos e rotos, com as algibeiras transbordando de inúmeros e variados objectos: ganizes, apitos, côdeas de pão e até mesmo pardais, cujo piar indiscreto, quebrando por vezes o silêncio sagrado da aula, atraía sobre os seus possuidores uma chuva de palmatoadas e de vergastadas. Os retóricos, é claro, tinham um ar mais grave. Se, por um lado, o seu vestuário estava virgem de manchas, os rostos não o estavam: olhos negros, lábios pisados, orelhas derribadas. Os filósofos, por sua vez, falavam um oitava abaixo, e nas algibeiras apenas guardavam restos de tabaco. Nunca faziam reservas de alimentos, preferindo devorar imediatamente tudo o que o acaso lançava sob as suas mãos ávidas. Exalavam um tal cheiro a tabaco e aguardente que as pessoas, ao cruzarem-se com eles na rua, se detinham a cheirar o ar, como o cão de caça que fareja a presa.
A esta hora matinal o mercado começara há pouco e as vendedoras de biscoitos, de pão, de pevides, de bolos, agarravam-se às abas dos casacos dos estudantes mais bem vestidos.
-- Venha cá, meu senhor, venha cá! -- gritavam todas à uma. -- Olhe os bons biscoitos torradinhos, os pãezinhos finos bem cozidos, as frituras frescas.
-- Comprem-me os caramelos, senhores -- gritava uma, brandindo uma espécie de trança comprida, feita de alteia.
-- Não lhe comprem nada a ela -- clamava a vizinha. -- Não vêem como ela é feia? Tem um nariz que mete medo! Pfff!
Contudo, todas elas tinham o cuidado de não incomodar os filósofos e os teólogos, pois sabiam que estes descarados, sem nunca comprarem nada, procuravam sempre provar de tudo com abundância.
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página 99-100

'A cidade do sossego' e 'O capote'
Nicolau Gogol

tradução de Ana Féria e A. Nogueira Santos
edição livros de bolso europa-américa

The rose



https://www.discogs.com/Towering-Inferno-Kaddish/master/175114


Towering Inferno's Kaddish has slowly gathered acclaim as one of the most interesting rock-influenced experimental recordings of the mid-'90s; Brian Eno, for instance, has referred to it as the most frightening record he's ever heard. Towering Inferno are the British duo of Richard Wolfson and Andy Saunders, who are principally responsible for the composition of Kaddish (with some additional material from other sources), and also for much of the programming, keyboards, and guitars. British prog-rock vets Elton Dean and John Marshall (ex-Soft Machine) and Chris Cutler, as well as Hungarian folk singer Marta Sebestyen, also add important contributions to this 75-minute concept album of sorts, inspired by the horrors of the Holocaust. Rabbinical chants, hard rock/heavy metal guitar, ambient synthesizer, and Eastern European folk singing are all elements of an ambitious palette which gets its disturbing message across without sounding pedantic. Wolfson and Saunders have presented Kaddish as a mixed-media performance as well; originally released in 1994, it was picked up by Island for larger distribution, and issued in the U.S. in 1996. Wolfson and Saunders have something quite different in mind for their next project, which they described in the British magazine Record Collector as "a light-hearted, fun, post-rave kind of B-movie affair. The ostensible subject matter of "Kaddish" -- the Holocaust -- is in fact just the building material with which this collage was constructed. It is not so much ABOUT the Holocaust as it is an auditory artwork which stands alone. It helps of course to appreciate the gravity of some of the source material, but I don't agree with Amazon's contention that a libretto would be advantageous. Quite the opposite, I think it would limit the listeners' interpretations. Wolfson (R.I.P.) and Saunders utilize several styles of music (rock, jazz, liturgical, folk, deep space electronics) as well as recordings of Nazi and Jewish speakers, crowd noises and various other sounds. The term "collage" isn't really appropriate I guess, because "Kaddish" is arranged into a series of musical vignettes, many with no sound effects over the top at all. It is this wide-ranging, unclassifiable character which makes "Kaddish" so difficult to pigeonhole, or summarize, or remember clearly. It is also what makes it endlessly fascinating. East-German composer Georg Katzer made a collage in 1983 entitled "Aide Memoire" which contrasted Hitler's speeches and Reichstag rhetoric with Jewish folk music and popular music of the 1930s. "Kaddish" can be seen as the more-musical


Acetaminophen



https://www.discogs.com/The-Astonishing-Urbana-Fall-Acetaminophen/release/2211431

Eram de Vila do Conde. Agoram gravam em Barcelos e são aclamados com o nome de
Sensible Soccers, o seu último álbum de nome Aurora tem sido falado. Procurem.