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sexta-feira, 26 de outubro de 2018
Corolário meu sobre a utopia
Para quando uma utopia em que todas as pessoas, independentemente da sua religião, cor, sexo ou género, tenham uma função que gostem de praticar, sintam prazer em trabalhar nessa função e possam ser artistas no seu esforço, numa sociedade onde não haja hierarquia e as classes sejam horizontais e em que as pessoas não precisem de ser reclusas ou violentas para poder criar e viver o melhor possível entre os seus concidadãos com o pleno direito ao respeito pelas diferenças entre cada ser humano?
História das Utopias, de Lewis Mumford: duas transcrições
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Não devemos, no entanto, deixar de dar atenção a dois trechos significativos [na Cidade do Sol de Campanella]: um deles é sobre o reconhecimento do papel que a invenção pode desempenhar na commonwealth ideal. O povo da Cidade do Sol possui veículos movidos pela força do vento e barcos «que navegam sobre as águas sem remos e sem a força do vento, mas antes por meio de um engenho maravilhoso». Existe uma antecipação muito clara dos avanços da mecânica tão visíveis no século XVIII. Na parte final da narrativa do capitão, o Grão-Mestre exclama: «Ah, soubésseis o que os nossos astrólogos contam sobre a era que se avizinha, que terá mais história em cem anos do que o mundo inteiro viveu nos quatro mil anos já volvidos! O que nos dizem sobre a maravilhosa invenção da imprensa e sobre as armas e o uso do íman [...].» Estando as artes mecânicas muito desenvolvidas, o trabalho alcançou um estatuto de dignidade na Cidade do Sol: não há escravatura. Todos desempenham a sua quota-parte do trabalho comum, pelo que não são necessárias mais do que quatro horas de trabalho por dia. «São ricos porque não lhes falta nada, pobres porque nada possuem; e consequentemente, não são escravos das circunstâncias, as circunstâncias servem-nos a eles.»
O outro ponto sobre o qual a observação de Campanella se revela extremamente perspicaz é a sua análise da propriedade privada e do domicílio privado com a commonwealth. Ei-lo:
Dizem que toda a propriedade privada tem origem e se desenvolve porque cada um de nós possui casa, esposa e filhos. Isto leva ao amor-próprio, pois todos queremos deixar riquezas e honras aos nossos herdeiros. Então, ou somos tentados a deitar mão à propriedade pública -- quando somos poderosos e temidos; ou tornamo-nos avarentos, astuciosos e hipócritas -- quando somos débeis, de poucos recursos e origem humilde. Mas removido o amor-próprio, resta apenas amor pela comunidade.
Como evitar que a utopia comunitária seja neglicenciada devido ao investimento de cada indivíduo na sua pequena utopia privada?
Este é o problema crucial que todos os nossos utopistas têm de enfrentar, e Campanella segue os passos de Platão na solução proposta. Será talvez inevitável que a experiência de vida de cada um dos utopistas se reflicta na solução que apresenta, dando-lhe muito da sua cor. É aqui que as limitações dos nossos utopistas se tornam claras. More e Andreae, homens casados, defendem a família individual. Platão e Campanella, solteiros, propuseram que os homens vivessem a vida do monge ou do soldado. Talvez estes dois campos não estejam tão afastados como poderia parecer. Se adoptarmos a teoria de Edward Westermarrck, esse excelente antropólogo, facilmente aceitaremos que o casamento é uma instituição biológica, sendo a promiscuidade, no mínimo, uma forma pouco usual de acasalamento. Platão ter-se-á apercebido disto, deixando-nos em dúvida sobre se os seus artífices e lavradores paticavam de facto a comunidade de esposas -- porventura abrindo, assim, o caminho para uma solução segundo a qual a vida normal, para a maioria dos homens, seria o casamento, com os seus interesses e lealdades de natureza individual, enquanto os elementos mais activos da comunidade praticariam uma forma menos exclusiva de acasalamento. O pintor Van Gogh fornece uma pista ao afirmar que a vida sexual do artista terá que ser a do monge ou a do soldado, pois de outra forma perturba o trabalho criativo.
Podemos deixar esta questão em aberto, desde que compreendamos que todas as utopias dependem da nossa capacidade de chegar a uma solução.
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, página 92-93
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Se Coketown, a Casa Senhorial e a utopia nacional tivessem permanecido no papel, seriam indiscutivelmente contribuições agradáveis e edificantes para a nossa literatura. Infelizmente, estes mitos sociais são muito poderosos. Moldaram as nossas vidas e deram origem a muitos males que, como ervas daninhas e malcheirosos, ameaçam sufocar a vida boa nas nossas comunidades. Não é por serem utopias que tenho vindo a criticar tão afincadamente estes mitos, mas por continuarem a provocar tantos danos. Pareceu-me, por isso, que valia a pena realçar que eles são tão reais como a República ou Christianopolis. Poderemos talvez abordar as nossas instituições nacionais com um pouco mais de ânimo se nos apercebermos até que ponto são criação nossa; e com plena consciência de que, sem o nosso eterno «desejo de acreditar», elas desapareceriam como fumo levado pelo vento.
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, página 195
'História das utopias'
Lewis Mumford
edição Antígona
tradução de Isabel Donas Botto
Não devemos, no entanto, deixar de dar atenção a dois trechos significativos [na Cidade do Sol de Campanella]: um deles é sobre o reconhecimento do papel que a invenção pode desempenhar na commonwealth ideal. O povo da Cidade do Sol possui veículos movidos pela força do vento e barcos «que navegam sobre as águas sem remos e sem a força do vento, mas antes por meio de um engenho maravilhoso». Existe uma antecipação muito clara dos avanços da mecânica tão visíveis no século XVIII. Na parte final da narrativa do capitão, o Grão-Mestre exclama: «Ah, soubésseis o que os nossos astrólogos contam sobre a era que se avizinha, que terá mais história em cem anos do que o mundo inteiro viveu nos quatro mil anos já volvidos! O que nos dizem sobre a maravilhosa invenção da imprensa e sobre as armas e o uso do íman [...].» Estando as artes mecânicas muito desenvolvidas, o trabalho alcançou um estatuto de dignidade na Cidade do Sol: não há escravatura. Todos desempenham a sua quota-parte do trabalho comum, pelo que não são necessárias mais do que quatro horas de trabalho por dia. «São ricos porque não lhes falta nada, pobres porque nada possuem; e consequentemente, não são escravos das circunstâncias, as circunstâncias servem-nos a eles.»
O outro ponto sobre o qual a observação de Campanella se revela extremamente perspicaz é a sua análise da propriedade privada e do domicílio privado com a commonwealth. Ei-lo:
Dizem que toda a propriedade privada tem origem e se desenvolve porque cada um de nós possui casa, esposa e filhos. Isto leva ao amor-próprio, pois todos queremos deixar riquezas e honras aos nossos herdeiros. Então, ou somos tentados a deitar mão à propriedade pública -- quando somos poderosos e temidos; ou tornamo-nos avarentos, astuciosos e hipócritas -- quando somos débeis, de poucos recursos e origem humilde. Mas removido o amor-próprio, resta apenas amor pela comunidade.
Como evitar que a utopia comunitária seja neglicenciada devido ao investimento de cada indivíduo na sua pequena utopia privada?
Este é o problema crucial que todos os nossos utopistas têm de enfrentar, e Campanella segue os passos de Platão na solução proposta. Será talvez inevitável que a experiência de vida de cada um dos utopistas se reflicta na solução que apresenta, dando-lhe muito da sua cor. É aqui que as limitações dos nossos utopistas se tornam claras. More e Andreae, homens casados, defendem a família individual. Platão e Campanella, solteiros, propuseram que os homens vivessem a vida do monge ou do soldado. Talvez estes dois campos não estejam tão afastados como poderia parecer. Se adoptarmos a teoria de Edward Westermarrck, esse excelente antropólogo, facilmente aceitaremos que o casamento é uma instituição biológica, sendo a promiscuidade, no mínimo, uma forma pouco usual de acasalamento. Platão ter-se-á apercebido disto, deixando-nos em dúvida sobre se os seus artífices e lavradores paticavam de facto a comunidade de esposas -- porventura abrindo, assim, o caminho para uma solução segundo a qual a vida normal, para a maioria dos homens, seria o casamento, com os seus interesses e lealdades de natureza individual, enquanto os elementos mais activos da comunidade praticariam uma forma menos exclusiva de acasalamento. O pintor Van Gogh fornece uma pista ao afirmar que a vida sexual do artista terá que ser a do monge ou a do soldado, pois de outra forma perturba o trabalho criativo.
Podemos deixar esta questão em aberto, desde que compreendamos que todas as utopias dependem da nossa capacidade de chegar a uma solução.
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, página 92-93
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Se Coketown, a Casa Senhorial e a utopia nacional tivessem permanecido no papel, seriam indiscutivelmente contribuições agradáveis e edificantes para a nossa literatura. Infelizmente, estes mitos sociais são muito poderosos. Moldaram as nossas vidas e deram origem a muitos males que, como ervas daninhas e malcheirosos, ameaçam sufocar a vida boa nas nossas comunidades. Não é por serem utopias que tenho vindo a criticar tão afincadamente estes mitos, mas por continuarem a provocar tantos danos. Pareceu-me, por isso, que valia a pena realçar que eles são tão reais como a República ou Christianopolis. Poderemos talvez abordar as nossas instituições nacionais com um pouco mais de ânimo se nos apercebermos até que ponto são criação nossa; e com plena consciência de que, sem o nosso eterno «desejo de acreditar», elas desapareceriam como fumo levado pelo vento.
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, página 195
'História das utopias'
Lewis Mumford
edição Antígona
tradução de Isabel Donas Botto
quinta-feira, 25 de outubro de 2018
Sobre a utopia
No livro ‘História das Utopias’ de Lewis Mumford, escrito em 1922 e publicado pela Antígona em 2007, é dada a definição de utopia como um escape à má realidade vivida num momento presente ou como uma tentativa de criar ou reconstruir um local (geralmente uma cidade ou Estado) onde se pode viver aquilo que se chama de ‘a vida boa’.
Mumford parte da análise do livro ‘A república’ de Platão, passa por ‘Utopia’ de Thomas More, por Christianopolis de Andrea e A cidade do sol de Campanella, entre outras utopias mais recentes como as utopias de Fourier, Proudhon, Marx e alguns utópicos americanos do século XIX e também H.G.Wells com A máquina do tempo. Mumford analisa as diferentes classes sociais da sociedade utópica, o seu modo de vida, de trabalho e lazer. Esclarece que elas tentam criar uma ordem social nova, com pessoas inseridas numa comunidade ideal -- em que todos trabalham para o bem comum, tem direitos e regalias e lazeres comuns. Descreve como as utopias clássicas levaram à criação de dois conceitos como A casa senhorial (ou seja, a classe dirigente que manda e seu domicílio), Coketown (ou seja, a classe que trabalha e a cidade que os acolhe) e O Estado (sociedade império ultra-nacionalista que deve administrar o território).
Mumford faz a crítica que cada utopia foi imaginada, idealizada e escrita por um único homem, que foram utilizadas posteriormente ao longo dos tempos por grupos de pessoas que as tentaram aplicar, mas que na realidade não se conseguiram realizar por não terem em conta muitos factores: um deles é o ego de quem escreve a utopia (este tenta impor a sua ideia aos demais sem pensar que é exequível eles a aceitarem ou pensarem do mesmo modo), outro factor é o atrito entre pessoas humanas que podem não se dar bem uns com os outros e portanto dinamitar a sociedade comum, a burocracia de todos viverem regulados pelas leis da sociedade utópica, e também o papel dado a quem não adere ao ideal comum.
Assim, por exemplo, em Thomas More há escravatura, em H.G.Wells há os seres brutos que trabalham no subsolo para proporcionar a vida boa dos ‘seres escolhidos’, em Platão não há artistas.
Ou seja, eu pergunto-me o que acontece a quem não encaixa nos preceitos da sociedade utópica, quem não tem o trabalho comum ou o lazer comum, quem pensa que pode ter interesses ou gostos ou pensares diferentes do bem comum? As utopias nada falam destes tipo de pessoas mas assumo que não têm lugar na sociedade utópica, estão condenados à prisão ou a ser escravos.
No mundo real, sabendo que muito foi aproveitado de todas estas utopias para a sociedade em que vivemos, sabemos todos que quem não está encaixado em alguma nomenclatura ou classe de interesses ou associação é considerado um fora-da-lei. Uma pessoa assim por fugir à regra, à norma é considerada perigosa para a sociedade, alguém com quem deve ser dificultada a comunicação e votada se possível à indiferença e solidão.
Para quando uma utopia em que o artista não precise de ser um recluso para poder criar e viver o melhor possível entre os seus concidadãos com o pleno direito ao respeito pelas diferenças entre cada ser humano?
segunda-feira, 8 de outubro de 2018
Wilhelm Reich alone
Transcript by Mikhail Bakhtunin: It is April 3rd, 1952, at Orgonon, Rangeley, Maine. I, Wilhelm Reich, am sitting alone in the large room in the lower house. All people are gone. In the morning and the whole day yesterday, a meeting took place of the members of the board of trustees of the foundation which carries my name. Everybody is gone now and I would like to add a few words to the recording we made yesterday and today of the disaster which struck Orgonon. There's nobody here to listen to what I am saying. The recording apparatus is the only witness. I hope that someone will at some time in the future listen to this recording with great respect, respect for the courage that was necessary to sustain the research work in orgone energy and life energy all through these years. I shall not go into the great strain, into the details, into the worries, the sleepless nights, the tears, the expenditures of money and effort, the patience which I had to have with all my workers and with all my students. I would like only to mention the fact that there is nobody around, there is not a single soul either here at Orgonon or down in New York who would fully and really from the bottom of his existence understand what I'm doing, and be with me in what I'm doing. They are all very good people. They are decent, honest hard working. I trust them. They are very good friends. All of them - or most of them. But, this does not alter the fact that they all, without any exception, are against, I say, are against what I am doing. Every single one of them spites me, interferes with my effort, crosses it out, blunts out, flattens out, this one thing or another thing, whatever it may be, to diminish my effort - no, to diminish the effects of my effort. To block out the sharpness and acuity of my thoughts. To reduce to rubble and nothing - or nothingness what I have elaborated and about now thirty - thirty three or thirty four years of systematic thinking and in about forty years of human suffering, since about 1912, or rather 1910 when my mother died. There is not a single soul around who would fully understand or would not say "no" to it all. This "no" is identical with: I don't want it, I don't like it, I loathe it, why is it here?, why does he have to exist?, why does he - why doesn't he sit down and take it easy?, why did he have to start this ORANUR (nuclear radiation) experiment which gives us so much trouble? They see only the trouble. They don't see or they don't want to realize what it means for medicine, biology and science in general, as well as philosophy, to have this ORANUR going. To them it is mostly a bother, an inducer of sickness, suffering and at times I have the distinct feeling that they believe or they do not quite dare to admit their own thoughts, that I may have gone hayward. This reaction of my closest friends and coworkers to the situation here is exactly the same that has harassed the human race for as much as we can say, 8.000 or 10.000 years, since patriarchy has ruled its destinies and since natural love was extinguished in the newborn infants. I shall not go into that. It is all written up in my publications. Whoever knows these publications also knows what that means. The discovery of the life energy would have been accomplished long ago, had this "I don't want it, I fear it, I loathe it, I'll kill it, I'll flatten it out, I won't let it exis- live, or exist". If that had not been in their structures, not in their desires, not in their positive conscious wishes. They're all descent and good people. No it is in the structure. It is somehow in their tissues, in their blood. They cannot tolerate anything that has to do with orgone energy, or life energy, or what they call God, or what is their deepest longing for love fulfillment. They cannot tolerate it and they fear it. They fear it by way of structure. Their tissues, their blood cannot stretch out, cannot take it, evades it - avoids it and loathes it. I do not say all this to depreciate their efforts, their honour, their loves, their lives. I say it because it is true, because it turns up in every single move, in every single word, in every single opinion, in every single paper, in every single thing they did to a- to whatever ever had to do with discovery - the discovery of genitality, life, love, such people as Laurence/Lawrence, or such philosophies as Giordano Bruno's or such great lives as Jesus Christ, ensoforth, ensoforth. It is a sad, lonely chapter of the human race. I don't feel that I am obligated to solve this riddle, to do anything about it. I happened to discover the life energy. I happened to induce the ORANUR experiment. I know what it means for the future development of medicine and biology, philosophy and natural science and in this awareness I am completely alone. There is no soul far and wide to talk to, to give one's feelings - to let one's feelings go freely, to speak like - as friends speak to each other. This is all.
Sou dissidente
Poucas pessoas poderão falar com conhecimento de causa do estado actual do meu carácter moral e ético. Estas poucas pessoas serão o dono da galeria com a qual tenho algum contacto, a minha amiga brasileira que me conhece há dois anos, os meus actuais vizinhos. Estas mais até que a minha própria família, que sabem só o que lhes conto e, claro, sabem tudo sobre o meu passado. Família não é só a que gera mas também aquela que cuida, aquela que acompanha o nosso dia-a-dia. Outra pessoa que poderá ter um conhecimento sobre mim, mas mais técnico, será a minha psiquiatra.
Sobre o meu passado, além da minha família que sabe tudo, saberão factos aquelas pessoas que comigo se cruzaram e falaram ou conheceram, falo de amigos e colegas, amigas e mais-que-amigas, ou até inimigos ou inimigas saberão pormenores. O certo é que estas possíveis pessoas estão algures no mundo, a maior parte delas não quer saber de mim ou simplesmente perdeu o interesse. O meu contacto com elas é nulo há anos, quase décadas em alguns casos.
Além de todas estas pessoas, poderá qualquer pessoa «saber coisas» sobre mim lendo o que publico aqui neste blogue e já me aconteceu ouvir na minha presença terceiros a comentar modos-de-ser, comentários baseados em impressões recebidas por conversa directa misturada com ideia lida. Por isso, penso que isso poderá acontecer com qualquer pessoa que me leia, ou seja, essa pessoa adquire uma impressão do meu ser, do meu carácter, dos meus actos à medida que me lê. Posso dar um exemplo: começaram a passar a ideia de que eu pensava que andava na rua e ninguém me via, que eu me afirmava como zombie e invisível. ora eu deixei esta ideia correr várias alturas quanto mais não fosse para ver o seu efeito no ouvinte. Mas houve um dia em que disse «não, essa é uma ideia escrita, é ficção, é literatura, e na realidade é o contrário e o reflexo, um sintoma da minha doença, algo que agora acontece pouco: eu ando na rua e parece que toda a gente sabe quem eu sou, portanto não sou invisível sou quase figura pública!, é o que se chama de paranóia, de mania da perseguição». A verdade é que a pessoa ouviu o que lhe disse e compreendeu o meu ser.
Escrevo tudo isto porque sei que, embora não querendo ser polémico, escrevo sobre assuntos polémicos e que dão uma luz a situações, às vezes, alegremente loucas, outras vezes, quase criminosas ou vergonhosas.
Ninguém me pede e ninguém me obriga a escrever esta e outras prosas, eu escrevo-a como um espaço de liberdade pessoal, escrevo porque tenho uma finalidade no que escrevo que é a de organizar o meu ser, reunir as várias partes, os pequenos fragmentos mentais, as lembranças que me surgem do passado quando no dia-a-dia uma notícia mediática rebenta e eu, ao ouví-la e ao reflectir sobre ela, faço aquela pergunta a mim próprio «e então tu, se fosses tu? como seria?, que tens tu de moralmente superior, não tens tu próprio coisas a dizer sobre um qualquer caso?»,
É por isso que escrevo, para libertar a minha consciência id, o ser animal e bruto que leva porrada do super-ego que com ele cohabita. Eu sou o meu próprio crítico, eu destruo-me a mim próprio, eu faço colapsar o edifício da minha mente para que das ruínas do caos algo de bom surja, isto não é só poesia musical, é também psicologia aplicada, eu aplico a mim próprio os ensinamentos que ganhei da leitura de Character Analysis de Reich, comparei-me com todos esses tipos de carácter, descobri-me algum dia fálico-agressivo, outros dias passivo-feminino, outras vezes masoquista, descobri-me um ser profundamente não-saudável e descobri que Reich conseguiu através do orgone tornar uma esquizofrénica numa neurótica, ele Reich que tinha apenas respeito pelo desconhecido da esquizofrenia conseguiu de algum modo «tratar» esta patologia, aliás bem ao contrário de Freud que tem ódio puro e duro. Deleuze parece-me paternalista de mais embora seja fundamental lê-lo. E eu pergunto-me, porque reprimiram Wilhelm Reich e o seu trabalho e o deixaram morrer na prisão?, porque é que devido ao Macarthismo e à caça-às-bruxas o transformaram num ser destruído?
Tudo isto para dizer simplesmente uma coisa, que embora o que eu escreva tenha sempre um fundo de verdade, é sempre uma ficção, boa ou má ficção. Não a escrevo para levantar polémicas até porque o alcance é diminuto e pouca gente comigo interage, escrevo para que eu possa estruturar-me, sentir que expressei uma ideia, uma opinião com validade útil: Dizer às vezes onde errámos e ao repetí-lo no papel, essas palavras entrarem dentro da minha consciência e tornarem-se fé e esperança de no futuro tal não se repetir, o mal não se voltar a repetir.
É preciso dizer também que não posso garantir que ninguém se vai ofender com as minhas palavras, eu assumo a minha incapacidade para ser universal, eu posso querer ser gostado por muita gente mas não o gostaria que o fosse por todos, não sou candidato a líder de Coisa Nenhuma, quero apenas que me compreendam, que comuniquem comigo, que entendam que o passado só se repete em nuances se não houver responsabilidade de parte a parte, os espelhos servem para todas aquelas pessoas que queiram avaliar a sua beleza, este texto como outros é um espelho do que sinto agora que o escrevo, mais verdadeiro quanto a minha memória pode ser, tento ser não-paternalista comigo próprio, digo a merda que tenho a dizer, a confissão que for, não me escondo nem escondo a realidade, não tenho medo.
Não ter medo não significa ser inimputável e ser irresponsável. Fui quatro vezes internado e duas vezes julgado em tribunal mental, estive sujeito a medidas repressivas como uma injecção intra-muscular na nádega, hoje estou só com um comprimido de olanzapina 5mg e outro de risperidona 3mg por dia, a minha psiquiatra ausculta-me o máximo três vezes por ano, até ela se calhar duvida que eu seja agora um doente, eu sei que sou doente e quando admiti comecei a melhorar, mas uma médica não muda o diagnóstico mental elaborado por outro médico, o primeiro médico. O que a minha psiquiatra diz é que eu estou estabilizado, devidamente compensado.
Agora integrado na sociedade talvez não esteja, porque há mulheres bonitas que eu conheço e que fogem de mim no supermercado. Talvez não seja bonito, talvez lhes tenha feito mal por palavras e talvez estas não inspirem confiança, talvez tenham medo de mim. «Olha, é o karma!», poderão afirmar os paladinos sentindo que se vai fazendo justiça. E eu aceito a opinião, não estou contra ela, preferia ser reconhecido pelas minhas zonas de claridade mas não posso ignorar que tenho zonas de sombra.
Reich transformou uma esquizofrénica numa neurótica, transformou um ser extra-terrestre numa pessoa adaptada ao mundo, o nosso mundo é neurótico ou louco de qualquer modo, a começar pelas chefias e pelo povo que as elege. Eu sigo o meu caminho, estou marcado pelo mundo, quis estar fora dele e ser fora-da-lei, assumi-o como bandeira e fui tudo isso, foi o id montar a barricada e o super-psiquiatra amansou-o, o grande irmão só nunca conseguirá que eu o ame ou que volte a comprar uma televisão e serviço de tv cabo, sou dissidente a todas as leis e foras-da-lei.
Adenda: Se fosse brasileiro votaria Haddad, se fosse americano votaria Sanders, em Portugal voto numa geringonça reavaliada, não confundam alguma ideia radical minha e a associem a acções de extrema-direita, não voto em pessoas que reprimem a cor, o sexo e o género, a idade (apesar de recriminar a pedofilia), sou contra toda a violência, sou até contra certos aspectos da minha própria personalidade, tento não ser mais o que fui alguns dias. Tento apenas ser alguém melhor todos os dias, alguém que tem direito a expressar a sua voz.
sábado, 6 de outubro de 2018
A barbárie em primeira mão
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Aconteceu há mais de vinte anos. Eu devia ter vinte e dois anos. Andava nesse microcosmos chamado universidade e que nos meus textos eu chamo de prisão. Estava a meio dos cinco anos de curso. Estava só, tentando ultrapassar o final da relação que mantivera. Estava aberto e disponível para conhecer novas mulheres. Mas como geralmente acontece quando uma relação longa temina, eu começava a sentir-me não integrado. Quando eu me chateio com uma mulher, chateio-me ou passo a ignorar os seus amigos e amigas, porque sei que eles ou elas a apoiam. Assim, a minha vida não só amorosa como social sofreu nessa altura um revés. Os amigos tornaram-se poucos, as amigas nem vê-las. Eu quando estou com uma namorada fico quase imune à beleza de outras mulheres que ficam candidatas a serem apenas irmãs por afinidade, como se nos adoptássemos mutuamente. Essas mulheres são apenas amigas da namorada, se eu ficar sem esta fico assim sem mulheres na minha vida. Foi o que aconteceu, fiquei sem companhia uns meses até encontrar alguém interessante.
Ela tinha cabelo preto e liso, era da minha idade e altura, era muito calma e nunca se zangava, parecia ouvir todos, a sua cara era bonita, tinha toques de diva. Eu era um gajo que tinha ideias que chocavam com as suas no que toca a música e outras coisas. Foi alguns anos antes do meu colapso mental mas penso que muito do que depois experienciei, já nesta altura estava a germinar dentro de mim: o falar muito alto as minhas ideias, indignar-me com opiniões contrárias, sentir-me ignorado pensando eu ser um aprendiz de rei. E o certo é que ela me deu guarida, hoje não sei bem o que foi mas eu devia ter algo dentro de mim que a atraía e começámos a conversar, a ir tomar café e a ir ao cinema com o seu grupo de amigos, comecei a frequentar a sua casa, um t2 transformado em casa com três quartos, um para cada rapariga. O quarto dela era parte da sala antiga, tinha uma estante a fazer de divisória com o espaço onde o social se reunia, ou seja, a televisão, o leitor de cd e o sofá para todos nos sentarmos. Nesta altura, eu fumava haxixe apenas ocasionalmente e neste grupo ninguém o fazia, pelo que éramos todos um grupo de meninos e meninas «de bem» que estudam numa cidade longe da casa dos pais, que têm mesada para gerir, que têm ainda todo o futuro à sua frente, que vão conhecer as suas futuras mulheres ou maridos.
A verdade é que eu me apaixonei por ela, ou pelo menos tive um forte desejo de estar sempre junto dela e arranjar motivos para com ela falar, não era tímido nessa altura, sentia-me viril e dizia-lho, «quero beijar-te estar contigo», sei lá as palavras que lhe disse, quiz fazer amor com ela, dizia-lho todas as vezes que com ela estava. Ela recusava mas não me mandava embora, calava-se e ficávamos calados até que eu percebesse que estava a fazer figura de parvo e me decidir a ir embora. Parecia que os dias passavam e o meu amor ou a minha fixação por ela aumentavam. Foi assim muitas vezes até que um dia, estando nós os dois sós, ela acedeu a fazer amor comigo.
Fomos para o seu quarto, seriam umas sete da tarde, já noite, a luz acesa. não nos beijámos, não nos despimos, encostei-me à cama, e ela começa a desapertar-me as calças, mete o membro flácido na boca, não muito tempo é certo, eu não lho tinha pedido, o membro endurece e continuando nós friamente sem nos beijarmos, eu decido tomar a iniciativa de lhe tirar as calças e a penetrar na vagina, talvez devido à minha inexperiência eu a estar a magoar ou ela não querer já ser penetrada ou não querer de todo, lembro-me hoje que ela disse não, e disse-o alto de tal modo que um nosso amigo, que estava na sala com outras pessoas sem nós nos termos apercebido, entrou e terminou com a minha investida sobre ela.
Na altura senti-me fodido com esse nosso amigo e também nunca cheguei a perceber se ela quiz ou não fazer amor comigo, se fui eu que estava a ser bruto e sem-jeito para o amor, hoje talvez fosse acusado de abuso sexual na forma tentada. Ela calou-se, eu acabei por vir para casa nessa noite confuso com tudo, com a minha atitude, com a dela e com a do nosso amigo. O certo é que não fui renegado, continuei a frequentar a casa dela, toda a gente podia ver que eu gostava dela, uma amiga que vivia com ela começou a ter afinidade musical comigo e sempre que ela me dizia que não outra vez eu vinha até ao quarto da sua amiga ouvir música.
Foi assim durante anos, durante anos ganhei uma fixação mórbida por uma mulher que me disse sempre não, foi preciso que ela tivesse a coragem de me expulsar de sua casa pela primeira vez e a última que nos vimos: aí eu ganhei vergonha na cara e disse «ela nunca gostou de mim».
Foi uma relação frustrada que me ensinou a desistir perante um «não» e a dizer que no fundo tem de ser só quando a mulher quer. Por muito que custe à virilidade do homem, é assim que deve ser, desistir da barbárie e regenerarmo-nos do erro e da pena.
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Claudio Mur
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
Citação
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Viver é a coisa mais rara do mundo.
A maioria das pessoas apenas existe.
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Oscar Wilde
e depois há aqueles como eu
que escreveram querer apenas Ser ou Existir,
um sinal de que não vivem verdadeiramente
e tentam, isso sim, sobreviver ao tédio e ás conveniências.
Quando o meu fusível queimou fui relegado para a condição de sub-humano,
mas escapei da periódica injecção anti-psicótica, escapei de cair na rua e na fome,
isso faz de mim um sobrevivente.
Também eu estou cansado mas não darei mais nenhum passo para apressar a morte
-- ela virá um dia -- mas terá de trabalhar para isso.
Sobrevivo ao burn-out rijo como um corno e mole ou moldável o suficiente
para virar costas, sigo livre e só.
Não tenho paciência para novidades e coisas ás quais já sei o epílogo,
prefiro passar o tempo a ler as atrocidades do Capitão Ahab:
quem nunca sentiu ressentimento que atire a primeira pedra
e quem disser que nunca chamou «puta» ou «paneleiro» a alguém, estará a mentir.
Goebbels dizia para acusar o outro de atrocidades que nós mesmo queremos cometer.
Há muita gente a imitar os actos daqueles que odeiam, dizem:
se ele fez eu também posso
se ele conseguiu eu também hei-de ser mais bonito do que ele..
Não há santos, não há santas. há interesses,
há a vontade de bajular para que nos bajulem e nos mandem
um bj para que possamos dormir sentindo que temos a propriedade a salvo:
é nessa altura que vamos ao museu comparar a nossa pila com as pilas do Mapplethorpe
e mostrar que somos condescendentes, paternalistas, poderosos e influentes,
queremos ser todos presidentes, assistentes nunca, queremos o topo e nunca o vão de escada
queremos todos ser dirigentes máximos do nosso lóbi: eu cá preferia ver uma exposição de conas
mas isso sou eu que gosto do órgão que não possuo,
não tenho espelho para vos dar a ver a nossa miopia, justa ou injusta
boçal ou trendy a morte há-de chegar,
é a única condição verdadeiramente democrática e não-hipócrita:
levar-nos-á a todos,
bons, maus, loucos, puras e santos, conselhos de administração e de condomínio.
ignorem tudo isto, são apenas frases avulsas umas atrás das outras,
Viver é a coisa mais rara do mundo.
A maioria das pessoas apenas existe.
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Oscar Wilde
e depois há aqueles como eu
que escreveram querer apenas Ser ou Existir,
um sinal de que não vivem verdadeiramente
e tentam, isso sim, sobreviver ao tédio e ás conveniências.
Quando o meu fusível queimou fui relegado para a condição de sub-humano,
mas escapei da periódica injecção anti-psicótica, escapei de cair na rua e na fome,
isso faz de mim um sobrevivente.
Também eu estou cansado mas não darei mais nenhum passo para apressar a morte
-- ela virá um dia -- mas terá de trabalhar para isso.
Sobrevivo ao burn-out rijo como um corno e mole ou moldável o suficiente
para virar costas, sigo livre e só.
Não tenho paciência para novidades e coisas ás quais já sei o epílogo,
prefiro passar o tempo a ler as atrocidades do Capitão Ahab:
quem nunca sentiu ressentimento que atire a primeira pedra
e quem disser que nunca chamou «puta» ou «paneleiro» a alguém, estará a mentir.
Goebbels dizia para acusar o outro de atrocidades que nós mesmo queremos cometer.
Há muita gente a imitar os actos daqueles que odeiam, dizem:
se ele fez eu também posso
se ele conseguiu eu também hei-de ser mais bonito do que ele..
Não há santos, não há santas. há interesses,
há a vontade de bajular para que nos bajulem e nos mandem
um bj para que possamos dormir sentindo que temos a propriedade a salvo:
é nessa altura que vamos ao museu comparar a nossa pila com as pilas do Mapplethorpe
e mostrar que somos condescendentes, paternalistas, poderosos e influentes,
queremos ser todos presidentes, assistentes nunca, queremos o topo e nunca o vão de escada
queremos todos ser dirigentes máximos do nosso lóbi: eu cá preferia ver uma exposição de conas
mas isso sou eu que gosto do órgão que não possuo,
não tenho espelho para vos dar a ver a nossa miopia, justa ou injusta
boçal ou trendy a morte há-de chegar,
é a única condição verdadeiramente democrática e não-hipócrita:
levar-nos-á a todos,
bons, maus, loucos, puras e santos, conselhos de administração e de condomínio.
ignorem tudo isto, são apenas frases avulsas umas atrás das outras,
segunda-feira, 24 de setembro de 2018
O diabo na mão
'
'
Chamaram-me um dia Cigano e maltês Menino, não és boa rés Abri uma cova Na terra mais funda Fiz dela A minha sepultura Entrei numa gruta Matei um tritão Mas tive O diabo na mão Havia um comboio Já pronto a largar E vi O diabo a tentar Pedi-lhe um cruzado Fiquei logo ali Num leito De penas dormi Puseram-me a ferros Soltaram o cão Mas tive o diabo na mão Voltei da charola De cilha e arnês Amigo, vem cá Outra vez Subi uma escada Ganhei dinheirama Senhor D. Fulano Marquês Perdi na roleta Ganhei ao gamão Mas tive O diabo na mão Ao dar uma volta Caí no lancil E veio O diabo a ganir Nadavam piranhas Na lagoa escura Tamanhas Que nunca tal vi Limpei a viseira Peguei no arpão Mas tive O diabo na mão
Pinto uma tela a pensar
na filósofa que conheci.
Entitulo: a beleza está a dormir para
manter a tinta limpa.
De tão narcísico tinha antes dislexiado:
uma beldade está a pintar para
manter o sono limpo.
Escuto Zeca Afonso. Tenho o diabo na mão.
Vou cair das nuvens para ir ao futebol.
É verdade: não me apetece incorporar
a couve do quintal no quadro.
Saio para a galeria.
A inauguração correu ontem.
Leio os comentários no livrinho.
Gostaram do Old woman de 1998.
Coloco o preçário.
Saio para beber um galão dragão.
Chego a casa. Spino Nirvana unplugged.
Fico a saber: os meus dois bosses
também fumam ganza.
É tarde. Preciso de dormir.
Apetece-me escreve mas...
'estou tão bem debaixo dos lençóis.'
Apago a luz.
Claudio Mur
Chamaram-me um dia Cigano e maltês Menino, não és boa rés Abri uma cova Na terra mais funda Fiz dela A minha sepultura Entrei numa gruta Matei um tritão Mas tive O diabo na mão Havia um comboio Já pronto a largar E vi O diabo a tentar Pedi-lhe um cruzado Fiquei logo ali Num leito De penas dormi Puseram-me a ferros Soltaram o cão Mas tive o diabo na mão Voltei da charola De cilha e arnês Amigo, vem cá Outra vez Subi uma escada Ganhei dinheirama Senhor D. Fulano Marquês Perdi na roleta Ganhei ao gamão Mas tive O diabo na mão Ao dar uma volta Caí no lancil E veio O diabo a ganir Nadavam piranhas Na lagoa escura Tamanhas Que nunca tal vi Limpei a viseira Peguei no arpão Mas tive O diabo na mão
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Rasa and me
'
Rasa é como se chama a minha amiga especial. Agora que sei um pouco da sua história, contada por ela no decorrer de alguns bons momentos de partilha ao longo dos últimos anos, penso que poderei dizer sem cair em grave exagero ser ela uma pirata de longo curso, uma raínha, mas uma raínha caminhando actualmente no limbo, ou para ser mais urbano e menos metafísico, Rasa vive sentada em cima do muro. A seu lado tem o portátil com câmera web, cigarros de bico amarelo ou camelos electrónicos, cerveja, pipocas, de vez em quando sonha em comprar um porco-espinho.
Rasa é uma pirata com largas provas dadas. O seu objectivo sempre foram homens mais velhos, os naturais substitutos do seu pai, e quantos aos mais novos ou da sua idade, bem na verdade chegou a ter sete namorados ao mesmo tempo, cada um tinha hora marcada de entrada e hora de saída, achava-os muito sem-atitude, não eram homens que lhe pudessem proporcionar o que ela bem mais queria, o que igualmente tanta pessoa quer: aliar o melhor conforto de um ombro ou de um membro de uma pessoa à bolsa exuberante que paga todas as contas. Os sem-atitude tinham pêlo na venta e muita explosão prometida, ela ria-se com todos eles, passava um bom bocado de letra jogada fora, mas... havia sempre um mas, não passavam de aspirantes. Rasa queria um homem feito, teve vários até hoje estar com o actual em cima de um muro. Acabaram mortos e enterrados como pessoa-não-identificada num qualquer pinhal em Para-lá-dos-montes, mortos pelos amantes das suas amantes. Rasa queria conforto e teve-o de vários homens, casou com eles, teve filhos, uma casa, até mesmo uma família. Só não se sentia bem quando o marido passava a semana toda fora e voltava bêbado. Qaundo se fartou pô-lo fora de casa. Três meses mais tarde, soube pela rádio local: «Crime numa casa de alterne. Uma mulher desfigurada e um homem morto. Assassino a monte. Desconhece-se a identidade dos protagonistas além da mulher atingida à facada nem as reais causas, notícia em desenvolvimento.»
Rasa chorou duas lágrimas mas não reclamou o corpo. O seu filho não conheceria o pai. Passaram tempos difíceis, mas a família não a abandonou, tomou conta do neto enquanto ela procurava emprego. Rasa ouviu muitos nãos. Chegou a ir a entrevistas marcadas pelo centro de emprego, sentou-se em frente a directores de recursos humanos e psicólogas, e uma destas disse-lhe que mesmo para cuidar de idosos era preciso ter perfil, ao que ela com dignidade respondeu que a sua principal preocupação era o bem-estar da pessoa idosa, tantas vezes carente, sózinha, a necessitar de assistência. Nesta entrevista em particular, saíu de lá derrotada, elas disseram-lhe que lhe ligavam mas ela não acreditou, decidiu que não gostavam dela, que talvez não tivesse o perfil, apanhou uma bebedeira nessa mesma noite, andou desaparecida durante três dias, roubaram-lhe o telemóvel e o cartão multibanco e cortaram-lhe a luz.
Quando voltou à tona e me contactou pela videochamada, disse que estava em casa de uns amigos, e que tinha ido a mais um escritório para outra entrevista, desta vez uma cunha dos seus actuais senhorios: um casal jovem que até já lhe faz promessas de ela poder no futuro ser babysitter da sua filha de sete anos. Eu fiquei aliviado, ela estava bem, mais um filme realizado em tempo recorde por ela, eu que me deslumbrei com os meus próprios filmes tenho agora uma amiga na profissão!
O certo é que ela chegou a ir fazer um dia de experiência, e logo num Domingo às oito horas da manhã, no mesmo lar de idosos onde a psicóloga lhe tinha dito que talvez Rasa não tivesse perfil. Pois bem, Rasa alimentou as pessoas acamadas, deu banho às pessoas idosas, limpou e lavou os quartos de repouso e as casas de banho, houve até uma senhora que lhe perguntou onde ela tinha estado que já não a via há muito tempo, e ela, rindo-se afectuosamente, disse que tinha estado de férias. Ou seja, correu tudo bem. O problema segundo Rasa era que, ficou a saber depois, o trabalho era a recibos-verdes, três euros à hora. Ela não aceitou. Eu fiquei a pensar: então uma pessoa não tem perfil para trabalhar e ter um contrato de trabalho digno mesmo que a termo certo, mas já serve para trabalhar a recibos-verdes?? Há muita hipocrisia no mercado laboral, depois os patrões queixam-se que as pessoas não querem trabalhar.
Era nisso que estava a pensar há pouco, quando ela me liga:
«Atão Mur, tá tudo?»
«Sim, novidades?»
«Hoje só tenho desgraças para contar...»
«Conta na mesma.»
«Sabes aquela minha amiga que mora em Ninde e que tem aquelas duas crianças que eu digo que são minhas filhas?»
«Sim... aquela que se acha muito bonita?»
«Ela é ainda um mulher bonita, não sejas assim...»
«Está bem, que se passa com ela?»
«Levou porrada do namorado, ele bateu nela e nos filhos...»
«A sério!?, porquê?»
«Não sei, o que eu acho estranho é o pai não ter feito nada... que pai é esse que não vai atrás do namorado da ex-mulher? Bem, eu vi a foto da nova mulher dele, parece que tem problemas de cabeça, ele andava sempre a dizer que queria uma mulher rica...»
«Eu acho que ele não bate bem da mona, ora essa!»
«Também é o que penso mas há mais...»
«Mais? Conta.»
«Lembras-te do Frederico e da Isabel?, aqueles com quem estive uma semana e brinquei com a menina deles?»
«Ah sim, aquele que te disse que quando o gajo que te roubou o telemóvel aparecer no Nandos lhe parte os dedos?»
«Sim, eles os dois, pois olha, andaram ao estalo e estão em processo de separação, estão a viver em quartos separados, só falam o estritamente necessário, ele até anda a dizer que se vai mudar para casa da mãe dele, acabou de me convidar para ir lá amanhã, a Isabel tem o seu dia de folga, convidou-me para almoçar com eles, o que achas?»
(Eu, que fui uma ou duas vezes íntimo de cama com Rasa e que actualmente sublimo o meu amor por ela sendo apenas seu amigo de conversa e cerveja, tenho às vezes de passar por cima de algum ressentimento provocado por algum ciúme que as suas palavras me provocam. As suas palavras são reveladoras das suas acções e são palavras sinceras. Ora eu pefiro a sinceridade à mentira, mesmo que não goste da verdade, o tempo em que eu pedia mentiras já lá vai. Ela já não me vê como parceiro sexual, nem nunca me viu como um futuro marido. Lá está, eu sou um ou dois anos mais novo, e portanto sou apenas uma criança, isto claro está segundo o modo como ela vê e classifica os homens. A verdade é que ela anda sempre a arranjar-me sucedâneos, cria-os de todos as cores e idades, uns mais novos outros mais velhos, uns pernetas outros carecas outros com turbante e com alguns fala recorrendo ao tradutor do google, alguns já estiveram no aeroporto chegados do Egipto prontos a levá-la a conhecer as pirâmides, outros ofereceram-lhe casacos de pele outros pagaram-lhe a internet, a luz e a água e a nova cor do cabelo, eu até lhe disse que aquele azul-prussiano lhe fica muito bem... «... especialmente agora que desfrizaste o cabelo.» A verdade é que ela me dá paz de espírito, é a primeira mulher que se torna minha amiga depois de ter sido minha íntima, é uma evolução benéfica para mim, antigamente eu tinha namoradas, amava e era amado, zangava-me e nunca mais conseguia ter uma relação de amizade com elas, ou elas me passavam a desprezar ou era eu que as passava a ignorar. Com Rasa as coisas são diferentes, somos iguais na diferença, eu sou pintor e ela é pirata, temos em comum o prazer de ouvir música, beber e fumar, conversar, contar e pedir conselhos um ao outro, quando um precisa o outro está o mais perto possível dando a ajuda possível. Isso é bom e para o momento vai-me chegando, os seus filmes contagiam a minha imaginação e eu ponho aquele disco especial só para ela.)
«Bem Rasa, nesse segundo caso de violência doméstica há várias coisas mal explicadas, e não acho bem que tu vás para casa deles enquanto eles estão zangados um com o outro, a Isabel pode ficar furiosa contigo e podes perder outra amiga...»
«Eu quero que ela se lixe...»
«Mas conta lá, eles andaram ao estalo? Quem começou, quem teve a culpa?»
«O Frederico estava a brincar com a filha e deu-lhe uma lambada de brincadeira na testa, e a Isabel deu um murro a Frederico e o Frederico respondeu por tabela, tudo isto à frente dos cunhados.»
«Parece-me que a Isabel não devia ter feito o que fez mas não sei porque o fez, talvez as coisas já não andassem bem, acho ainda assim que deves recusar o convite dele, deixa-os fazer as pazes.»
«É, acho que estás certo, é melhor deixar os abutres pousar e a poeira assentar, e tu que fazes hoje?»
«Estou à tua espera minha querida, estou a convidar-te para um copo e uma cachimbada de erva, que dizes?»
«Vou já praí!»
E agora desculpem-me mas tenho assuntos urgentes à minha espera como deverão calcular, é só rever o texto e clicar «Publicar».
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Claudio Mur
terça-feira, 21 de agosto de 2018
É como andar escondido à vista de todos. Passar despercebido, anónimo.
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42.
Burro, anjo rafeiro, resvalado, besta doce de beira de estrada. Híbrido e estéril, macho mesmo se fêmea. Deslembrado, trôpego, uma tal bebedeira nos ossos, dir-se-ia que nem ossos tem. Sombra de sombra de outra sombra, numa linhagem perdida que se sucede medindo os caminhos que servem a errância da terra.
Um odor penetrante de laranjas... Humidade e silêncio na azinhaga das Bruxas... Migrante sedentário. Eco vagabundo e de origem desconhecida. Eco que não se abate, como um assobio que fosse passando de lábios. Jogo de cartas para chamar o azar; apostada a vida, foge lento, como se na garupa levasse um cavaleiro arruinado, tristíssimo da vida, desfalecido, moribundo. Solto, o burro serve de túmulo. Um que ande, vá sobre a terra, acariciando levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas...
Coze-me lento no calor que resta das coisas que se lembram, quando o burro era a sombra que um homem fazia quando suava. Faz-me da cor mais sem espanto, a luz perdida no pêlo, sou um resto que já não sobra. Carga de quê? Lembro altezas de relance, mas olhado de frente há algo em mim da baixa condição mais nobre.
Pobre montada, sombra feita de carne, ossos um tanto confusos quanto à nossa espécie: mansa, distraída... Vamos, assembleia em fila, eu e eu e eu de novo. Um cortejo de nada.
(...)
Vale todo um reino, o burro. É como andar escondido à vista de todos. Passar despercebido, anónimo. Quando nele passo é sempre domingo, e o mundo desinteressa-se do futuro. A cidade dobra-se sobre si, encolhe passando por aldeia. Descemos a avenida que nos mira com o pasmo de qualquer ruela. E os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param e os olhos deitam-se no chão, para que a gente passe.
'
,página 86 - 88
'Ultimato'
Diogo Vaz Pinto
Edição Maldoror 2018
42.
Burro, anjo rafeiro, resvalado, besta doce de beira de estrada. Híbrido e estéril, macho mesmo se fêmea. Deslembrado, trôpego, uma tal bebedeira nos ossos, dir-se-ia que nem ossos tem. Sombra de sombra de outra sombra, numa linhagem perdida que se sucede medindo os caminhos que servem a errância da terra.
Um odor penetrante de laranjas... Humidade e silêncio na azinhaga das Bruxas... Migrante sedentário. Eco vagabundo e de origem desconhecida. Eco que não se abate, como um assobio que fosse passando de lábios. Jogo de cartas para chamar o azar; apostada a vida, foge lento, como se na garupa levasse um cavaleiro arruinado, tristíssimo da vida, desfalecido, moribundo. Solto, o burro serve de túmulo. Um que ande, vá sobre a terra, acariciando levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas...
Coze-me lento no calor que resta das coisas que se lembram, quando o burro era a sombra que um homem fazia quando suava. Faz-me da cor mais sem espanto, a luz perdida no pêlo, sou um resto que já não sobra. Carga de quê? Lembro altezas de relance, mas olhado de frente há algo em mim da baixa condição mais nobre.
Pobre montada, sombra feita de carne, ossos um tanto confusos quanto à nossa espécie: mansa, distraída... Vamos, assembleia em fila, eu e eu e eu de novo. Um cortejo de nada.
(...)
Vale todo um reino, o burro. É como andar escondido à vista de todos. Passar despercebido, anónimo. Quando nele passo é sempre domingo, e o mundo desinteressa-se do futuro. A cidade dobra-se sobre si, encolhe passando por aldeia. Descemos a avenida que nos mira com o pasmo de qualquer ruela. E os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param e os olhos deitam-se no chão, para que a gente passe.
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,página 86 - 88
'Ultimato'
Diogo Vaz Pinto
Edição Maldoror 2018
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Que poder mágico?
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6.
Mulher -- como pode um só reflexo, bem falso e ordinário, levantar uma onda no sangue, que vem morrer no peito e desfazer o coração em espuma --, que poder mágico é esse que o teu silêncio guarda na memória de um homem?
'
, página 17
'Ultimato'
Dîogo Vaz Pinto
edição Maldoror, Janeiro 2018
6.
Mulher -- como pode um só reflexo, bem falso e ordinário, levantar uma onda no sangue, que vem morrer no peito e desfazer o coração em espuma --, que poder mágico é esse que o teu silêncio guarda na memória de um homem?
'
, página 17
'Ultimato'
Dîogo Vaz Pinto
edição Maldoror, Janeiro 2018
terça-feira, 31 de julho de 2018
Tragédia e comédia
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Notas da ilha,
onde se prova que a realidade é superior à melhor ficção, neste caso uma realidade trágico-cómica.
1. Giu, o nosso poeta, foi convidado para uma noite ir ao albergue jantar. Não que não tivesse esse direito mas porque o Presidente ia lá estar. Giu começou a pensar na honra que era poder cumprimentar o Presidente, e começou a perguntar aos amigos se deveria lhe entregar as suas obras auto-editadas. O objectivo de Giu era que o Presidente lhe editasse as obras e o fizesse Nobel. Eu e muitos outros lhe dissemos para não entregar as obras, aqueles seus exemplares eram os últimos exemplares, Giu agradeceu-me e disse que ia fazer de acordo com o nosso conselho. A tal noite chegou, as televisões estiveram lá, houve quem visse Giu a abraçar-se ao Presidente e a entregar-lhe os livros. Segundo Giu, o Presidente disse: «Você entrega-me estes e receberá muitos mais!» Giu ficou contente dois dias e andou a contar o evento a todos e eu ainda procurei na net se havia registo filmado e encontrei o Presidente a jantar com os sem-abrigo no albergue, a ir visitar o local de dormida de outro e entregar-lhe um cartão do cidadão, a distribuir refeições na rua, enfim, um trabalho de mérito e o primeiro Presidente que abraça a causa dos mais desprotegidos.
Mas eu desconfio do Presidente e depois de brincar um pouco ironicamente ccom o futuro camião de livros que viria numa manhã próxima estacionar à porta da ilha, disse a Giu: «Fizeste mal, ele é de direita e afilhado do antigo ditador com o mesmo nome, tu tens um verso, antes de 74, em que critícas o 'Deus Marcelo', e ele pode não gostar, não te pode prender porque temos já liberdade de opinião mas pode abafar-te, fazer-te esquecer, deixar os teus livros na estante junto a tantos outros que ele recebe e nunca deles nada fazer...»
O certo é que passaram três meses e Giu ainda não viu o camião de livros e já escreve versos no seu 'Diário do Quotidiano' a queixar-se do Presidente, rebaixando-se ao dizer que, naquela noite, quis-lhe dizer que o Presidente era o pai que ele nunca teve, mas não conseguiu, vieram~lhe as lágrimas aos olhos e chorou no seu peito. É triste.
Andamos todos a começar a mudar a opnião sobre o Presidente, muito blablablá nas televisões e nada de concreto.
2. Para aumentar a desgraça de Giu, foi-lhe proposto receber a prestação de inclusão, um novo apoio social dado por este governo. Giu assinou os papéis todo contente, iria receber mais algumas dezenas de euros e este mês já com retroactivos, mas o que aconteceu é que acabou a perder o subsídio de férias da sua reforma por invalidez este mês de Julho e a tal prestação ainda não chegou. A gente fez as contas e alguém também lhe disse que o corte seria permanente e igualmente no subsídio de Natal: «Dão por um lado e tiram pelo outro, cabrões!» O resultado foi que o Giu não pode pagar o fiado no café e noutros lados e andou a chorar pelos cantos, a resmungar, a dizer que já não iria ter forças para ver a sua obra editada em vida, coitado do Giu.
O caricato foi ouvir a Bidente contar que o senhor do café veio à ilha uma tarde perguntar pelo calote do Giu e encontrou o mastodonte Luis a pintar as unhas dos pés da Bidente em cor lilás: «Vês Mur, eu também sou pintor!», eu bati palmas e disse «Sim Luís, tu aplicas a técnica à melhor prática eheheh, a cor é fixe!» Ao olhar para o contraste entre o alabastro da pele e o lilás das unhas, imaginei-me Rembrandt mostrando aqueles pés numa bandeja ao imperador Nero.
3. Estava eu a fazer um charro na casa três quando olho pela cortina da porta e vejo um capacete branco e um uniforme. Demoro uns momentos a reconhecer que é uma polícia motociclista que fala ao telemóvel. Desmarco o charro e toda a gente repara que a polícia chama pelo Luís. «Então Luís, pensas que eu tenho tempo para estas merdas, vá lá... porque faltaste à injecção?, tenho ordens para te levar, da próxima vez vais algemado, prepara-te rápido que o carro-patrulha está a chegar!» «Mas senhora guarda, eu faltei porque estava a trabalhar no Parque da Cidade, sou técnico de som!». «Vá lá, veste umas calças quaisquer, anda que eu ainda tenho de ir a outro lado!», O Giu mete-se na conversa e diz «eu também tomo a injecção, sou poeta, olhe este livro que eu tenho à venda, deixe-me recitar um poema...», «Não», diz a polícia «faça um dedicado a mim, chamo-me Rosa.» e o Giu recitou-lhe o poema 'Vácuo' enquanto ela esperava pelo Luís folheando o livro e os agentes do carro-patrulha já perguntavam em que concerto trabalhara o Luís: «Foi primeiro Xutos e depois Toni.» «Bem, estás pronto? anda daí, isso é que é, nós somos um belo táxi!», «Ó senhora agente, vai-me levar o livro sem pagar, ó senhora agente!»
E eles lá foram ao hospital, o Giu fodido foi comprar a receita à mercearia e eu fiquei-me a rir com a Bidente e o Dário, e a tresvariar a canção dos Mão Morta, Giu como o Adolfo cantando: «a polícia roubou-me, roubou-me o livro, rai's partam a polícia!»
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Claudio Mur
Claudio Mur
segunda-feira, 23 de julho de 2018
-- O rei de espadas quere-me matar!
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Pouco antes das visitas chegarem, Peredonov passou revista à casa de jantar, à sala e aos quartos... Tudo se encontrava a seu gosto. Nada havia que pudesse provocar suspeitas. A maior parte dos livros estava escondida na chaminé; nas paredes viam-se quadros patrióticos e o retrato do czar. Diante das imagens ardiam lamparinas de azeite.
-- Muito bem; nem os mais desconfiados...
Depois, a sua atenção fixou-se nas cartas, postas sobre a mesa para a habitual partida. Então apanhou-as e pôs-se a examiná-las uma a uma. Os rostos das figuras contariaram-no; pareceu-lhe que o olhavam com maldade, que o escarneciam, como se estivessem no segredo de não sabia o quê. Um dos valetes sorria com a mesma insolência de Várvara.
Peredonov disse para si: «Já lhe ensinarei a meter-se onde não é chamado!»
E com uma tesoura perfurou-lhe os olhos. Depois fez o mesmo às demais figuras, ao mesmo tempo que pensava:
«Ao menos assim não poderão espiar!»
Entretanto, os convidados iam chegando. O espectro deslizava, veloz, por entre as suas pernas.
(...)
-- Quando os senhores quiserem, começaremos a partida -- disse Peredonov.
E o jogo começou imediatamente.
-- Que é isto? -- perguntou Gruchina ao reparar nas suas cartas. -- Tirarram os olhos ao meu rei!
-- E ao meu valete! -- exclamou a senhora Prepokovenskaya.
Todos os convidados celebraram com grandes risadas -- ao repararem nas suas damas, nos seus reis, nos seus valetes -- o que supunham ser uma brincadeira. Mas Peredonov permaneceu sisudo e severo.
-- Ardalion Borisovich -- comentou Várvara, sorrindo -- faz de vez em quando as suas travessuras.
-- Como te ocorreu cegar toda esta gente? -- perguntou Rutilov.
O professor respondeu:
-- As cartas não precisam de olhos. Não têm que ver...
O jogo prosseguiu.
(...)
Quando Várvara e Peredonov ficaram sós e se dispunham a deitar-se, ele imaginou que a amante o olhava de uma forma suspeita.
(...)
Seu sono foi muito agitado. Sonhou que os reis e os valetes o rodeavam, brandindo as suas espadas. Segredaram ao ouvido uns dos outros e começavam a deslizar debaixo da cama. A princípio, a sua acção não foi excessivamente atrevida; pouco a pouco, porém, tornaram-se mais insolentes, chegando a subir ao leito. Troçavam dele, piscavam-lhe os olhos, mostravam-lhe a língua.
Possuído de terror e de angústia, ele tentava afugentá-los, mascando salmos sagrados que sabia eficazes contra as forças diabólicas, agitando as mãos, ameaçando-os com gritos.
-- Que estás a falar? Porque gritas? -- perguntou Várvara encolerizada. -- Não me deixas dormir!
Ele gemeu:
-- O rei de espadas quere-me matar!
'
, páginas 101-104
'A loucura de Peredonov'
Fedor Sologub
tradução de Artur Fernandes
Edição Editorial Inquérito, 1940
Pouco antes das visitas chegarem, Peredonov passou revista à casa de jantar, à sala e aos quartos... Tudo se encontrava a seu gosto. Nada havia que pudesse provocar suspeitas. A maior parte dos livros estava escondida na chaminé; nas paredes viam-se quadros patrióticos e o retrato do czar. Diante das imagens ardiam lamparinas de azeite.
-- Muito bem; nem os mais desconfiados...
Depois, a sua atenção fixou-se nas cartas, postas sobre a mesa para a habitual partida. Então apanhou-as e pôs-se a examiná-las uma a uma. Os rostos das figuras contariaram-no; pareceu-lhe que o olhavam com maldade, que o escarneciam, como se estivessem no segredo de não sabia o quê. Um dos valetes sorria com a mesma insolência de Várvara.
Peredonov disse para si: «Já lhe ensinarei a meter-se onde não é chamado!»
E com uma tesoura perfurou-lhe os olhos. Depois fez o mesmo às demais figuras, ao mesmo tempo que pensava:
«Ao menos assim não poderão espiar!»
Entretanto, os convidados iam chegando. O espectro deslizava, veloz, por entre as suas pernas.
(...)
-- Quando os senhores quiserem, começaremos a partida -- disse Peredonov.
E o jogo começou imediatamente.
-- Que é isto? -- perguntou Gruchina ao reparar nas suas cartas. -- Tirarram os olhos ao meu rei!
-- E ao meu valete! -- exclamou a senhora Prepokovenskaya.
Todos os convidados celebraram com grandes risadas -- ao repararem nas suas damas, nos seus reis, nos seus valetes -- o que supunham ser uma brincadeira. Mas Peredonov permaneceu sisudo e severo.
-- Ardalion Borisovich -- comentou Várvara, sorrindo -- faz de vez em quando as suas travessuras.
-- Como te ocorreu cegar toda esta gente? -- perguntou Rutilov.
O professor respondeu:
-- As cartas não precisam de olhos. Não têm que ver...
O jogo prosseguiu.
(...)
Quando Várvara e Peredonov ficaram sós e se dispunham a deitar-se, ele imaginou que a amante o olhava de uma forma suspeita.
(...)
Seu sono foi muito agitado. Sonhou que os reis e os valetes o rodeavam, brandindo as suas espadas. Segredaram ao ouvido uns dos outros e começavam a deslizar debaixo da cama. A princípio, a sua acção não foi excessivamente atrevida; pouco a pouco, porém, tornaram-se mais insolentes, chegando a subir ao leito. Troçavam dele, piscavam-lhe os olhos, mostravam-lhe a língua.
Possuído de terror e de angústia, ele tentava afugentá-los, mascando salmos sagrados que sabia eficazes contra as forças diabólicas, agitando as mãos, ameaçando-os com gritos.
-- Que estás a falar? Porque gritas? -- perguntou Várvara encolerizada. -- Não me deixas dormir!
Ele gemeu:
-- O rei de espadas quere-me matar!
'
, páginas 101-104
'A loucura de Peredonov'
Fedor Sologub
tradução de Artur Fernandes
Edição Editorial Inquérito, 1940
sábado, 21 de julho de 2018
Comunidade
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Eu não escrevo mais porque não sei fazer ficção, não sei inventar uma história longa, não lhe sei dar pormenor, eu escrevo sempre a partir da minha realidade, ultimamente envolvo a comunidade, a ilha em Derza onde moro. Escrevi no passado a minha história com uma ou outra imaginação, nunca uma invenção, imaginei cenários a partir de uma ou outra música que talvez estivesse a ouvir no momento, apropriei-me de versos musicais e um ou outro pormenor alheio, concatenei-os, incorporei, distorci, adicionei o meu ser a tudo, dei-lhe um toque, escrevi três livros de contos, o terceiro concatena a realidade do dia-a-dia visto pelo meu prisma, com alguns textos escritos em estado de descompensação psíquica, com textos narrados para um microfone, com palavras de apelo ou ameaça rasurados em guardanapos ou guardados em cadernos ao longo dos anos, tornei-me um autor epistolar, escrevo cartas, comentários, tenho um livro de versos sem rima num blogue e dedicado à minha última companheira em que tentei escrever o que ela me fez sentir, o bom e o mau, o antes e o durante, tenho um quinto livro já encadernado e em fase de revisão pessoal e que antologia textos escritos em zines, com epístolas em conto sobre os meus últimos dez anos, desde o último internamento, com os restos que sobraram da auto-censuura à psicose e que me levavam a escrevinhar cartas-bomba, eu tento hoje não esconder a minha realidade, apenas lhe dou um toque porque há verdades que não são fáceis de escrever nem de emcontrar as melhores palavras para definir a situação, as realidades não são muitas vezes bonitas, não se anda por aí a atingir epifanias bonitas todos os dias para que se possam escrever coisas bonitas e simples, a realidade é complicada e relativa, está cheio de perspectivas e cheio de pessoas que se julgam absolutas, às vezes, é preciso um espelho não para admirarmos o nosso poder mas sim para reparar na nossa fealdade.
E eu não escrevo mais porque compreendi que eu, enquanto louco, agia como um absolutista, um fascista, queria para mim todo o poder, não será exactamente assim mas imaginem um trampas a ameaçar os parceiros de negócios, a insultar, a urrar... eu era assim como o trampas, eu era um ressabiado sem causa, era um ressabiado, que se vitimizou, porque a mulher que me mudou a vida se recusa a comunicar comigo, ressabiado porque não tinha qualificações para um emprego, ressabiado porque dependia da proteção económica da família, ressabiado porque a família não gosta de nada do que eu faço e apenas me dá a assistência económica e se amor me têm é por eu ser filho deles e não filho-de-deus e se não fosse filho deles seria um filho-da-mãe, apenas porque eles são muito correctos e nunca os ouvi dizer um palavrão, eles são mais de dizer «sopeira, cigano, preto, monhé, terrorista» quando descrevem os migantes na tv ou os moradores do bairro mais próximo e eu, que sou branco como eles, fico envergonhado por ter de me dar com eles, ressabiado também porque não tinha mais amigos que me achassem uma boa companhia, não havia mais um sentimento de pertença. estava em fora-de-jogo.
Foi nesse estado de espírito ressabiado e permeável às influências boas e más que escrevi três livros para a gaveta, o quarto enterrei-o num blog e o quinto comecei-o a alinhavar já nestes últimos anos em que tenho um blog oficial. agora já não escrevo para a gaveta e as diferenças notam-se, os textos são mais directos e curtos, escritos num fôlego entre dois ou três cigarros enrolados com aroma eheheh, são textos em que eu tento dar um ar bonito à minha vida, tento contar algo de positivo, continuo a ser epistolar mas acontece que me auto-censuro, quando escrevia no escuro era mais livre, talvez mais honesto no momento de expressar a minha agonia em viver neste mundo.
Acontece que o mundo mudou desde que uma noite às cinco da manhã na rua a olhar para as estrelas senti medo de elas serem olhos acusadores e espias de mim, esses cogumelos que tomei mostraram-me quem eu na realidade era: camadas e camadas de referências e heróis, peles e mais peles, máscara em cima de máscara, nessa noite tive medo que não houvesse nada em mim, que eu fosse só o vazio que já me tinham dito várias vezes, que eu não tinha personalidade, que era nada. É só natural que isso ajudasse a colapsar, mas talvez fosse necessário que eu colapsasse, encaro-o hoje como uma revolução necessária contra mim próprio..
Colapsei também porque eu, depois do medo, não me escondi mais e se andava a fingir e a fazer alguma ficção, comecei a revelar, a descascar tudo o que via em mim, até encontrar o resíduo, até conseguir Ser, não mais um «Sou forte como um touro», isso que escrevi quando agia como um estrumfe trampas, mas um ser que tenta viver o dia-a-dia o mais simplesmente possível, na companhia de ou tendo ao alcance de uma videochamada as pessoas que hoje conseguem gostar da minha companhia.
Se sou hoje ainda um ressabiado serei telvez um ressabiado arrependido, arrependido de não ter sido capaz de no passado agir da melhor maneira, decidi muitas vezes errado mas no final das contas o principal prejudicado fui eu, não falo só dos internamentos, falo também das pessoas que perdi, da perda de confiança da família em mim, tudo o que eu sei deles é o que apanho das conversas que mantêm durante o almoço dominical, nada me dizem directamente e sou apenas um 'conhecido' do face e se quero saber de alguma coisa tenho de perguntar, tenho de sentir empatia com o seu novo-riquismo, falo também do dinheiro que podia ter ganho se me tivesse de facto dedicado a um emprego onde me sentisse preparado. eu agia como um trampas sem saber que o era, no fundo eu era um nihilista que achava que obteria tudo facilmente sem esforço, compromisso ou luta. hoje talvez seja um nihilista a quem cairam as ilusões, se há anos escrevia que não me queria sentir um objecto sexual, e escrevia-o quando já não tinha ninguém, hoje sei perfeitamente que já não sou atraente ao olhar, tem de ser o meu interior a ser bonito.
Foi isso que aprendi a fazer: a tornar o meu interior bonito tentando ajudar o meu mais próximo com a narração da minha experiência, aprendendo a ser um amigo quando o amigo precisa de mim.
Lembro-me agora que, uma vez, o meu melhor amigo da altura e quando eu lhe perguntei o que ele queria da vida, ele me respondeu: acordar, foder a mulher, ir trabalhar, voltar a casa, foder a mulher, jantar, foder a mulher outra vez, dormir e repetir a dose no dia seguinte. Eu achei que sim, que era um bom projecto de vida, igualmente para mim. Mas foi um projecto que eu nunca concretizei: primeiro, nunca tive um emprego estável ou não tive simplesmente emprego; segundo, nunca tive uma casa que chamasse minha, sempre vivi em quartos alugados ou com os meus pais; depois, desde a universidade e quando voltei a casa dos meus pais nunca mais tive namoradas com quem tivesse pontos em comum e afinidades, simplesmente a infância não me deu amigas para as quais voltar, tive uma ou outra relação momentânea e geralmente catastrófica, eu não cansei de ser sexy, eu simplesmente deixei de o ser. Se estou igualmente arrependido de não ter casado? e de não ter construído uma família minha?, tive uma companheira com quem vivi e que, no fundo, me tirou essas ilusões, não, não estou arrependido, se tivesse casado e com alguma delas... o mais certo era estar hoje divorciado e com os filhos a detestarem-me do mesmo modo que eu, às vezes, não compreendo o meu pai, estaria com dívidas de empréstimo bancário para casa, carro, provavelmente continuaria sem emprego e desgraçado ainda mais do que, às vezes, me sinto hoje.
E eu hoje sinto-me o melhor possível e não deixei muitos efeitos colaterais, pessoas há que me detestam e pessoas há que eu deixei de procurar, tenho no fundo que deixá-las ir, eu sou ou fui ressabiado porque no fundo se fiquei sozinho foi porque errei, é certo, mas também porque essas pessoas erraram igualmente e me desprezaram para sempre, talvez não fossem as pessoas mais correctas comigo, fazem parte de um passado e de um passado que eu não quero esquecer para não voltar a errar no mesmo local, o passado é o meu arquivo de memória onde eu procuro as raízes de um presente e penso no futuro, o passado é um livro, o presente é os vizinhos da ilha e as duas únicas amigas que são verdadeiramente minhas amigas, que me respeitam, que impulsionam e dão-me força para eu pintar, que me dão uma palavra bonita e um carinho, que não exigem aquilo que eu não tenho posses de dar, que gostam de estar comigo e falar comigo, as horas passam e a conversa é terna, os vizinhos igualmente aumentam esta comunidade, tenho igualmente um carinho pelas minhas primas que estão longe, é bom sentir uma pertença, quando vivia com os meus pais não sentia as minhas raízes lá, hoje a ansiedade é minima, a partilha é máxima. é isso a comunidade, o meu pequeno mundo.
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Claudio Mur
domingo, 10 de junho de 2018
«Ser é uma acto de vontade, no escuro.» Podia ser absurdo existir, sem explicação. Mas havia sempre um caminho, uma salvação: os outros.
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Mas a tristeza persistia. Ernesto recolhia-a no ar, no rastro das frases, no marulho indecifrável das ondas. Escondido o sol, eram, de novo, à solta, os hábitos do vento que arranhavam o azul-pardo daquela imensidão líquida e sonora, entre a areia ainda escaldante, cujo calor lhe dava, a ele, a mais próxima e tranquilizadora consciência de si próprio, até às nuvens cada vez mais escuras no céu. Aquele sorriso breve das espumas, sem luz, rolava, fazia-se e desfazia-se, na sua viagem do nada para o nada, começo e recomeço, tensão e explosão, surdina, queixume e solidão. Onde as raízes do som? Uma roda a girar fora dele, que era só um corpo prostrado na areia. O Lício falava em niilismo, e ele próprio se sentia naquele momento «nada»: um vazio interior inconfessável, como se todos os sonhos que o haviam habitado lhe fossem estranhos, embora neles tivesse acreditado com tanto fervor, e todo o seu passado apenas uma série de imagens mortas, de múltiplas faces, que não lhe pertenciam profundamente, mero encadeamento de gestos determinados por circunstâncias externas. E chamava ele pomposamente «suas» todas as palavras e atitudes e buscava a todo o transe uma coerência, que agora lhe parecia a mais absurda e impossível das ambições. «A menos», pensou, «que eu abandone a pretensão de ser coerente comigo, e aceite sê-lo tão-só com o que os outros esperam de mim. Sim: esse é que é o caminho certo, o que, apesar de tudo, permite continuar.» Porque cada um dos companheiros tinha dele uma ideia: em cada um deles ele existia, de facto, imaginariamente real; e, se o produto dessas aparência dava um homem, a silhueta que ele desenhara na vida, silhueta bastante forte para merecer confiança, como quer que tal prodígio se tivesse operado, cumpria agora conformar-se com essa imagem, mais verdadeira, mais segura, do que ele próprio, e agir tão perto dela, quanto possível. «Ser é uma acto de vontade, no escuro.» Podia ser absurdo existir, sem explicação. Mas havia sempre um caminho, uma salvação: os outros. Até porque só nos outros ele se encontrava; sem eles era pouco mais de nada: apenas aquela chaga do sol nas costas, a saliva na boca, o sexo erecto contra a areia quente. Os outros, sim: as mãos de Ivelise nos seus ombros: o amor que ele quisera, a sua imagem nela, a que não devia mentir, mesmo porque só assim um fulgor vago de harmonia seria possível; e os companheiros: o seu destino!
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, páginas 197-198
'Os insubmissos'
Urbano Tavares Rodrigues
Edição Unibolso
Mas a tristeza persistia. Ernesto recolhia-a no ar, no rastro das frases, no marulho indecifrável das ondas. Escondido o sol, eram, de novo, à solta, os hábitos do vento que arranhavam o azul-pardo daquela imensidão líquida e sonora, entre a areia ainda escaldante, cujo calor lhe dava, a ele, a mais próxima e tranquilizadora consciência de si próprio, até às nuvens cada vez mais escuras no céu. Aquele sorriso breve das espumas, sem luz, rolava, fazia-se e desfazia-se, na sua viagem do nada para o nada, começo e recomeço, tensão e explosão, surdina, queixume e solidão. Onde as raízes do som? Uma roda a girar fora dele, que era só um corpo prostrado na areia. O Lício falava em niilismo, e ele próprio se sentia naquele momento «nada»: um vazio interior inconfessável, como se todos os sonhos que o haviam habitado lhe fossem estranhos, embora neles tivesse acreditado com tanto fervor, e todo o seu passado apenas uma série de imagens mortas, de múltiplas faces, que não lhe pertenciam profundamente, mero encadeamento de gestos determinados por circunstâncias externas. E chamava ele pomposamente «suas» todas as palavras e atitudes e buscava a todo o transe uma coerência, que agora lhe parecia a mais absurda e impossível das ambições. «A menos», pensou, «que eu abandone a pretensão de ser coerente comigo, e aceite sê-lo tão-só com o que os outros esperam de mim. Sim: esse é que é o caminho certo, o que, apesar de tudo, permite continuar.» Porque cada um dos companheiros tinha dele uma ideia: em cada um deles ele existia, de facto, imaginariamente real; e, se o produto dessas aparência dava um homem, a silhueta que ele desenhara na vida, silhueta bastante forte para merecer confiança, como quer que tal prodígio se tivesse operado, cumpria agora conformar-se com essa imagem, mais verdadeira, mais segura, do que ele próprio, e agir tão perto dela, quanto possível. «Ser é uma acto de vontade, no escuro.» Podia ser absurdo existir, sem explicação. Mas havia sempre um caminho, uma salvação: os outros. Até porque só nos outros ele se encontrava; sem eles era pouco mais de nada: apenas aquela chaga do sol nas costas, a saliva na boca, o sexo erecto contra a areia quente. Os outros, sim: as mãos de Ivelise nos seus ombros: o amor que ele quisera, a sua imagem nela, a que não devia mentir, mesmo porque só assim um fulgor vago de harmonia seria possível; e os companheiros: o seu destino!
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, páginas 197-198
'Os insubmissos'
Urbano Tavares Rodrigues
Edição Unibolso
domingo, 27 de maio de 2018
O pária escreve sobre mãe e mulher
Sabes, Ana, que às vezes não é fácil compreender o ponto de vista de quem escreve um pequeno apontamento e o publica na rede, nem sempre as situações são claras, pontas soltas são deixadas no ar e deixam a dúvida a bailar na mente de quem sente interesse em ler os diários que são a rede. às vezes, o leitor não está, no momento em que lê, com a moldura mental adequada, acordou mal disposto, tem ou não tabaco, doi-lhe ou não a cabeça, a amiga especial aparece poucas vezes e quando vem leva o autor deste texto a uma viagem de ida e volta entre céu e inferno, tudo isto para dizer que o misantropo é uma pessoa de consciência variável que avaria de vez em quando nas suas interacções sociais recebendo a sua contribuição social mais ou menos justa, o misantropo para falar verdade não tem grandes razões de queixa, mas tem um impulso dentro de si no qual só repara no pós-acto que o leva o insurgir-se contra o mal no mundo, pelo menos, o seu mal, a injustiça, a dificuldade que os párias têm em se defender, os párias são armas de arremesso e os párias não têm género, são muitas vezes culpados de não saberem cuidar de si, um pária não cuida de pensar no dia de amahã, vive o presente e o passado, apesar da desgraça, é sempre festa. um pária reconhece quem lhe faz bem e lhe dá energia para acordar e não sentir a agonia da realidade que é viver num mundo que os despreza. mas um pária pode ser digno, se conseguir moderar a sua falta-de-educação e conseguir estabelecer um diálogo com o mundo, não com toda a gente porque há classes de pessoas que não se sentem bem na nossa companhia, mas com algumas pérolas que se podem encontar no meio dos porcos, é possível que um pária se torne digno aos seus olhos e aos olhos da sociedade e se isso um dia o ser digno acontecer há-de haver alguém que diga «quem diria?! quem o viu e quem o vê», quando se tem por perto, mesmo que poucos sempre poucos momentos, alguém que reconhece o valor de um pária e consegue gostar da sua companhia e mesmo, da sua maneira gostar dele, amá-lo mesmo e este pária sabe que é correspondido... não pode senão indignar-se num momento de má-disposição e treslendo um texto teu, onde não compreendeu o ponto de vista que às vezes mistura o ponto de vista da mãe com o da mulher.
É por isso, que queria recordar o ponto de vista da mãe e da minha própria mãe: eu deixei o ninho aos dezoito anos para estudar longe nem cem quilómetros, a minha mãe foi comigo arranjar quarto e aconselhou-me juizinho, algo que nem sempre tive, mas um jovem tem que viver em novo para poder recordar em velho, e então eu vivi, ou nasci verdadeiramente aos dezoito anos, nem tudo são rosas há muito tojo, mas o importante é que se me tornei pária, inverti a curva social descendente, e agora até a minha mãe começa além de amor a ter orgulho do filho, mas lembro-me que a verdadeira separação foi quando fui de avião para a Irlanda na minha primeira experiência de trabalho oficial após os meus estudos. no aeroporto às seis da manhã eu e os meus pais dando e ouvindo conselhos, e no momento do embarque a minha mãe teve um ataque de choro, eu senti que ela pensava que eu não voltava, mas voltei, não voltei rei, mas voltei com a ilusão de que só por ter estado no estrangeiro era rei para alguns, foi o descalabro e ainda hoje recupero do desfasamento entre o que sou e o que as pessoas vêem em mim, é só natural que uma pessoa queira ser independente e aprender por si, às vezes é necessário errar e ignorar os conselhos, mesmo da mãe, para que possamos seguir em frente, encontrar um rumo, um sentido, o que eu queria dizer é que um filho nunca esquece a mãe e volta sempre a ela para a amparar nem que seja só na velhice, mesmo que a competição entre noras e sogras seja cruel para todas as partes, já pensaste que o filho pária pode andar em algum momento da sua vido cego e dividido entre o amor de mãe e o amor de mulher e nem sempre decidir independentemente da vontade de terceiras e pode nem sempre ter o juízo correcto para agir. aí surge o descalabro, o descalabro não é só a mulher, a mãe mas é também a família em geral e a sociedade e as ligações que se ganham ou perdem, não há nunca um motivo único para um descalabro quando este acontece. mas o pária sabe quem a longo termo lhe quer bem e volta regularmente a casa da mãe para comer a sua comida deliciosa e lhe dar alegria e sabe dizer que no fundo é como o vizinho Amadeus diz «o amor, as mulheres, é como os autocarros, estão sempre a passar!»
A este final foleiro eu poderia acrescentar que às vezes entrámos no autocarro errado e ainda assim obtemos uma boa experiência. Já o único autocarro que nunca esquecemos é aquele que nos leva a casa da mãe.
Fica bem, Ana, bom domingo :)
sábado, 26 de maio de 2018
E afinal um caso tão simples e tão vulgar.
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A criada passou apressada e fez de conta que não ouvira o Barão perguntar-lhe o que tinha sido. Então voltámos ao quarto para vermos. Já não havia fumo. No meio do chão estavam a colcha da cama e os restos do travesseiro de palha. Tinha sido com o cigarro.
-- Ias morrendo assado -- comentou o Barão, e começou a rir, a rir, com um grande exagero.
Pegou-me no braço. Eu também ria. Ele parecia doido, às gargalhadas; queria falar, começava a frase, mas tinha outro ataque de riso:
-- Quando saíste...
E o riso sacudia-o numa explosão irresistível. Daí a momentos podia dizer mais umas palavras:
-- ... parecia que vinhas do Inferno!...
Fomos dar outra vez à sala de jantar e o Barão quis festejar o meu regresso do Inferno com mais champanhe. Aquele sussto despertou-me uma alegria muito expansiva. Na verdade tinha escapado de morrer queimado, graças ao barulho que ele fizera a bater na porta. Devia-lhe talvez a vida.
-- Deves-me a vida!
E o champanhe continuava a transbordar das taças e a erguer-se em brindes a tudo o que nos lembrou, e a todos os nossos desejos, sonhos, ambições, a todas as nossas saudades, desilusões, a todos os nossos amigos, a tudo quanto nos ocorreu naquele momento de sinceridade. Esses brrindes foram verdadeiras confissões, como o abrir das nossas almas. E, na verdade, a quem podemos falar com mais franqueza do que a um desconhecido que nunca mais veremos? Além de que estes momentos de espontânea revelação em que abrimos quanto podemos todas as portas e alçapões de nós próprios, estes momentos são tão difíceis de atingir, por cobardia e por orgulho e pela incompreensão que nos rodeia, que, quando se consegue assim uma hora dessas, não devemos perdê-la, embora se fique, no fim, arrependido e triste como quem fez uma traição a si próprio. Mas, ao mesmo tempo, dá o alívio de quem abre uma válvula de escape quando a pressão por dentro é já demais. Entre outras coisas, contei-lhe uma melancólica história de amor, que era a minha. Foi a primeira pessoa a quem confessei, dez anos depois de ela ter passado e aniquilado a minha vida. E nunca mais, a ninguém. Creio que, naquele momento, principalmente, a recordava a mim próprio. Revivi essa história triste como se fossem os melhores dias da minha vida, que eu não quisesse deixar esquecer, recordando-a em voz alta, ouvindo-me a mim próprio, como se outro ma contasse. O Barão, imóvel, olhava-me com o olhar muito fixo. No fim vi-lhe os olhos cheios de lágrimas, Também os meus estavam rasos de água. E afinal um caso tão simples e tão vulgar.
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páginas 58-61
'O Barão'
Branquinho da Fonseca
edição Livros de Bolso Europa-América
A criada passou apressada e fez de conta que não ouvira o Barão perguntar-lhe o que tinha sido. Então voltámos ao quarto para vermos. Já não havia fumo. No meio do chão estavam a colcha da cama e os restos do travesseiro de palha. Tinha sido com o cigarro.
-- Ias morrendo assado -- comentou o Barão, e começou a rir, a rir, com um grande exagero.
Pegou-me no braço. Eu também ria. Ele parecia doido, às gargalhadas; queria falar, começava a frase, mas tinha outro ataque de riso:
-- Quando saíste...
E o riso sacudia-o numa explosão irresistível. Daí a momentos podia dizer mais umas palavras:
-- ... parecia que vinhas do Inferno!...
Fomos dar outra vez à sala de jantar e o Barão quis festejar o meu regresso do Inferno com mais champanhe. Aquele sussto despertou-me uma alegria muito expansiva. Na verdade tinha escapado de morrer queimado, graças ao barulho que ele fizera a bater na porta. Devia-lhe talvez a vida.
-- Deves-me a vida!
E o champanhe continuava a transbordar das taças e a erguer-se em brindes a tudo o que nos lembrou, e a todos os nossos desejos, sonhos, ambições, a todas as nossas saudades, desilusões, a todos os nossos amigos, a tudo quanto nos ocorreu naquele momento de sinceridade. Esses brrindes foram verdadeiras confissões, como o abrir das nossas almas. E, na verdade, a quem podemos falar com mais franqueza do que a um desconhecido que nunca mais veremos? Além de que estes momentos de espontânea revelação em que abrimos quanto podemos todas as portas e alçapões de nós próprios, estes momentos são tão difíceis de atingir, por cobardia e por orgulho e pela incompreensão que nos rodeia, que, quando se consegue assim uma hora dessas, não devemos perdê-la, embora se fique, no fim, arrependido e triste como quem fez uma traição a si próprio. Mas, ao mesmo tempo, dá o alívio de quem abre uma válvula de escape quando a pressão por dentro é já demais. Entre outras coisas, contei-lhe uma melancólica história de amor, que era a minha. Foi a primeira pessoa a quem confessei, dez anos depois de ela ter passado e aniquilado a minha vida. E nunca mais, a ninguém. Creio que, naquele momento, principalmente, a recordava a mim próprio. Revivi essa história triste como se fossem os melhores dias da minha vida, que eu não quisesse deixar esquecer, recordando-a em voz alta, ouvindo-me a mim próprio, como se outro ma contasse. O Barão, imóvel, olhava-me com o olhar muito fixo. No fim vi-lhe os olhos cheios de lágrimas, Também os meus estavam rasos de água. E afinal um caso tão simples e tão vulgar.
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páginas 58-61
'O Barão'
Branquinho da Fonseca
edição Livros de Bolso Europa-América
quinta-feira, 24 de maio de 2018
O misantropo escreve sobre a hipocrisia de quem lhe insulta o amor
1. Acho um piadão às mulheres que insultam outras mulheres descrevendo-as com as piores qualidades.
Conheci algumas assim na minha vida social. As que me falavam assim eram geralmente mulheres que pensavam que eram raínhas só por se lhe mostrar um pouco de mundo, tinham ciúmes das namoradas passadas e até da minha própria irmã e mãe, roubavam cartas e fotografias, queriam um escravo que fosse cego e pagasse as contas. hoje, algumas nos seus ciúmes dizem que nada de mim conhecem e atiram-se à lógica de que um homem se atira abaixo de um comboio em andamento numa noite escura só porque a namorada o deixou. Querem reescrever a história e fixam a mulher anterior como causa de todos os males e relegam o homem para a posição de burrinho, palhacinho, um menino de mão ao seu dispor implorando um cunilingus. no fundo, o que criticam às outras mulheres é o que elas próprias não têm, queriam ter ou deixaram de ter: são geralmente mulheres feias que nunca souberam nem conservar em casa nem amar o homem com quem casaram ou de quem foram apenas a amante ocasional de acordo com a bolsa disponível dele. Há muitas bloggers que sofrem deste problema: pensam que escrevem bem.
2. Quanto aos homens ou àqueles que foram amigos, um deles passou uma conversa a gozar as minhas namoradas, a dizer que eram apenas fogo de vista e imaturas e depois de me criticarem o que chamavam a minha animalidade, passaram a fazer o que eu deixara de fazer: a comer imaturas, jovens tenrinhas com necessidade de protecção. mais recentemente foi vê-los com olhos de abutre a querer-me roubar a companheira e a passar os pequenos-almoços a contar a história dos 90 euros que custa mudar a caixa de ossos da mãezinha no cemitério, pensam: ele se sustenta uma fogo de vista é porque é visconde e tem dinheiro. como a cena não resulta, o pequeno almoço da manhã seguinte é passado a pedir desta vez só trinta euros para a botija do gás da irmã que, coitadinha, não tem culpa de estar grávida e o marido parece que também não. Há muitos otários a quererem ser chulos.
Conheci algumas assim na minha vida social. As que me falavam assim eram geralmente mulheres que pensavam que eram raínhas só por se lhe mostrar um pouco de mundo, tinham ciúmes das namoradas passadas e até da minha própria irmã e mãe, roubavam cartas e fotografias, queriam um escravo que fosse cego e pagasse as contas. hoje, algumas nos seus ciúmes dizem que nada de mim conhecem e atiram-se à lógica de que um homem se atira abaixo de um comboio em andamento numa noite escura só porque a namorada o deixou. Querem reescrever a história e fixam a mulher anterior como causa de todos os males e relegam o homem para a posição de burrinho, palhacinho, um menino de mão ao seu dispor implorando um cunilingus. no fundo, o que criticam às outras mulheres é o que elas próprias não têm, queriam ter ou deixaram de ter: são geralmente mulheres feias que nunca souberam nem conservar em casa nem amar o homem com quem casaram ou de quem foram apenas a amante ocasional de acordo com a bolsa disponível dele. Há muitas bloggers que sofrem deste problema: pensam que escrevem bem.
2. Quanto aos homens ou àqueles que foram amigos, um deles passou uma conversa a gozar as minhas namoradas, a dizer que eram apenas fogo de vista e imaturas e depois de me criticarem o que chamavam a minha animalidade, passaram a fazer o que eu deixara de fazer: a comer imaturas, jovens tenrinhas com necessidade de protecção. mais recentemente foi vê-los com olhos de abutre a querer-me roubar a companheira e a passar os pequenos-almoços a contar a história dos 90 euros que custa mudar a caixa de ossos da mãezinha no cemitério, pensam: ele se sustenta uma fogo de vista é porque é visconde e tem dinheiro. como a cena não resulta, o pequeno almoço da manhã seguinte é passado a pedir desta vez só trinta euros para a botija do gás da irmã que, coitadinha, não tem culpa de estar grávida e o marido parece que também não. Há muitos otários a quererem ser chulos.
domingo, 13 de maio de 2018
A dialéctica materialista aplicada às argolas de livros impressos
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«Pois é, Giuliani» dizia-lhe eu «tu preferes dar o dinheiro a ganhar ao dono da loja de fotocópias em vez de a quem te ajudou a fazer o livro. Foi por isso que quando tu te queixaste à frente dele que precisavas de mim para imprimir o livro, eu disse que agora o ficheiro estava nas mãos do Paulo e já não precisavas mais de mim nem da pen...»
«Sim, o que vês de mal nisso? Não me queixei, eu disse a verdade, porque estás a falar assim?», diz Giuliani.
«Sim de facto disseste uma verdade, não é mentira nenhuma, mas agora já não precisas de mim, vais à loja, falas com ele e ele imprime-te os livros, mas olha que ele é ladrão...»
E expliquei ao Giuliani que da primeira vez que ele me deu os trinta euros para eu imprimir dez livros dizendo-me para ficar com o troco e eu fui lá negociar o preço ele levou vinte e seis euros por doze livros, «vou-vos fazer um preço de amigo para vos ajudar a ganhar dinheiro e a ter dinheiro nos bolsos», disse-me ele, «da segunda vez levei-te lá e ele levou vinte e nove pelos doze mas baixou para vinte e oito porque era o dinheiro que tu tinhas, e agora desta vez que lá fui e tu me disseste para lhe dar os trinta euros por doze exemplares como agradecimento pelo seu trabalho e disseste para eu ficar com dois para mim...», continuei eu a dizer « eu pensei: imprimo dez, prescindo das duas cópias que não consigo vender e fico com os trocos, ou seja, três ou quatro euros.
«Mas sabes, Giuliani, quanto ele me ia fazer pelos dez exemplares?, ele ia-me levar vinte oito euros por dez livros! É de ladrão: da primeira vez leva vinte e seis por doze, da segunda leva vinte e nove por doze mas faz o desconto para vinte e oito e da terceira vez porque tu lhe prometeste trinta por doze e eu só queria fazer dez... ele ia-me levar vinte e oito por dez, diz lá se ele não é ladrão, além disso ele é hipócrita, diz que nos está a ajudar e cada vez leva mais dinheiro, pelo que eu lhe disse que afinal de contas o preço de custo unitário de doze livros a trinta euros compensava em relação aos dez por vinte e oito, e prescindi de ganhar dois euros e dei-lhe os trinta euros, percebes Giuliani?, eu não me borro por dois euros, repara que acabei por só te ficar com um dos dois exemplares, eu nem os meus livros de desenhos consigo vender facilmente, quanto mais o teu livro de poemas... Por isso te digo, não era melhor estares dependente de mim do que do Paulo? Quem te garante que ele não tem um amigo que vende livros e tos imprime e os vende sem tu saberes e sem alguma vez receberes qualquer cêntimo, eu nunca faria isso, eu não ando na vida para explorar os meus amigos...»
«Oh, eu disse tudo isto porque tu disseste que ele era boa pessoa...», defende-se o Giuliani.
«Sim, ele ao início era fixe, enquanto ele imprimia e encadernava nós estávamos a conversar, e cada um falou da vida passada de cada um e falei de ti, que és um poeta um pouco nas margens mas já não um marginal semântico, que vivias com dificuldades económicas mas que tens muito valor, que começaste a escrever poesia de intervenção ainda antes do Vinte e Cinco de Abril, e também que não te soubeste cuidar. Mas isto foi ao início, olha mais um pormenor: ele ao início estava a levar um euro e vinte e cinco pelas argolas e agora já as fazia por um euro e cinquenta e cinco, ora em dez argolas, já são três euros a mais. E não é só isso, ele não gosta das pessoas como nós...»
«Sim eu sei, ele é um pouco matarruano»
«É, ele ainda há dias estava a falar mal dos ciganos, a dizer que recebem o rendimento mínimo e não querem trabalhar, ele se soubesse que aqui todos nós nenhum de nós trabalha para um patrão, e portanto, no sentido cigano, também não trabalhamos e ainda recebemos prestações sociais de invalidez ou erre-esse-is... ah outra coisa, nunca lhe digas que fumas ganza, ele disse um dia que não dava dinheiro para a droga, eu por mim nunca mais lá vou, vou começar a ir a outra papelaria pagar as minhas contas.»
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Claudio Mur
terça-feira, 20 de março de 2018
O diário não era apenas o jornal da minha vida, mas até o espelho secreto da minha alma
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Baba não veio almoçar a casa, provavelmente acompanharia Cora, ou saíra com Santoro. Comi só, depois meti-me no quarto, instalei-me à secretária e comecei a folhear o diário.
Reli a página, no começo, onde previno reservar-me o direito de acrescentar aos factos realmente havidos outros factos, estes últimos inventados, atinentes a servir como materiais para o romance que pretendia escrever mais tarde; e caí numa profunda meditação.
Afinal a que vinha uma tal advertência? Realmente por querer reservar-me, desde escrever o diário, o direito de preparar o romance? Ou não antes porque queria poder dizer certas coisas que na vida real não existem? E para esconder de mim mesmo outras que pelo contrário existem?
Na verdade, se um dia realmente me dispusesse a escrever o romance, então deveria não apenas aceitar tudo quanto juntara no diário com a finalidade de completar e, por assim dizer, tornar mais real a realidade, mas igualmente alijar quanto lhe sobrepusera, qual máscara no rosto da mesma realidade, de cada vez que ela me parecera inconfessável mesmo num diário. Ora este trabalho de desbaste anunciava-se-me como nada fácil, sejam os acrescentos que serviam para aprofundar e integrar a realidade, sejam aqueles que pelo contrário a dissimulavam, não estavam ali por razões meramente literárias, de engrenagem romanesca, mas por motivos extraliterários que, como sentia, me era difícil, para não dizer impossível, esclarecer até de mim para comigo. Em suma, o diário não era apenas o jornal da minha vida, mas até o espelho secreto da minha alma. E de facto eu tinha relatado ali, além de alguns sonhos reais e verdadeiros que me tinham parecido mais significativos eventos e personagens que sabia inventados mas que, como os sonhos nocturnos, haviam servido, no momento de os inventar, para esconder ou desafogar certas paixões.
O homem comum tem apenas os sonhos, os que sonha dormindo tanto como os sonhados de olhos abertos; mas o romancista, a mais dos sonhos, dispõe das invenções dos seus romances. Como os sonhos, tais invenções não são o que parecem; e significam mais do que quanto pretendem significar. Ora, há duas espécies de romancistas: os que crêem nas suas invenções e os que não crêem nelas. Aos primeiros admite-se que escrevam romances que se assemelham a enigmas figurados, dos quais, porém, eles próprios ignoram a resolução; os segundos, pelo contrário, detêm a chave do que escrevem e por isso estão aptos a manifestar o que está escondido. Eu pertenço evidentemente à segunda categoria.
Tudo isto parecerá porventura misterioso. Mas pense-se: um diário não é a verdade porque, no próprio momento em que o diarista relata um acontecimento de que foi protagonista, já não é quem o viveu mas quem o escreve; quem o viveu é, pois, uma personagem bem distinta, com a qual o diarista tem uma relação de juízo ou, preferindo-se, de representação. E sendo verdade que entre o diarista e o protagonista dos acontecimentos do diário há completa identificação, também é verdade que essa identificação está na origem de quaisquer truques ou mentiras ou reticências que modifiquem, amputem ou dissimulem os acontecimentos referidos no mesmo diário. Na realidade, o diário é sempre sincero, sempre verdadeiro; somente será necessário buscar a sinceridade e a verdade além dos eventos.
Esta é a razão porque diários, jornais, autobiografias, confissões e memórias são, todos, pouco mais ou menos, mentirosos no sentido factual e verdadeiros psicologicamente. Tal como um espelho no qual quem se vê pode fazê-lo tomando esta ou aquela atitude. A verdade não está tanto na imagem quanto no carácter da personagem que, no momento exacto em que o espelho lhe reflecte a imagem, por assim dizer se vai criando como por encanto. Mas esta personagem não pode ser aceite tal como é: deve ser interpretada, submetida a uma operação crítica. Então saltará à vista que é o resultado de quase automáticas mentiras, reticências, disfarces.
No meu caso, a operação crítica que revelava? Revelava que a personagem do diário tinha sido obtida mediante a supressão de toda uma parte da realidade, e que o seu verdadeiro carácter se definia precisamente não só através da realidade suprimida, mas também do facto em si desta supressão.
Decerto: a personagem do diário era um romancista que decide, na mira de posteriormente arquitectar um romance, manter o diário de um período da sua vida. Ora o curioso era isto: uma vez atingido o termo do diário, o projecto do romance jogava fora a personagem do romancista. Se na verdade quisesse escrever um dia o romance, devia admitir que não fora apenas o projecto do romance que me levara a manter o diário, isto é, a fazer-me passar da desatenção à atenção e, em consequência, bater à porta de Baba, mas até, concomitantemente, qualquer coisa mais de muito menos elevado e de toda a maneira não literária. Essa qualquer coisa mais eu suprimira-a para construir a figura do romancista, mas agora o projecto do romance constrangia-me a admitir-lhe a existência, mais, a alicerçar sobre ela toda aquela vivência.
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páginas 253-255
'A atenção'
Alberto Moravia
tradução de Pedro da Silveira
edição Livros Unibolso
Baba não veio almoçar a casa, provavelmente acompanharia Cora, ou saíra com Santoro. Comi só, depois meti-me no quarto, instalei-me à secretária e comecei a folhear o diário.
Reli a página, no começo, onde previno reservar-me o direito de acrescentar aos factos realmente havidos outros factos, estes últimos inventados, atinentes a servir como materiais para o romance que pretendia escrever mais tarde; e caí numa profunda meditação.
Afinal a que vinha uma tal advertência? Realmente por querer reservar-me, desde escrever o diário, o direito de preparar o romance? Ou não antes porque queria poder dizer certas coisas que na vida real não existem? E para esconder de mim mesmo outras que pelo contrário existem?
Na verdade, se um dia realmente me dispusesse a escrever o romance, então deveria não apenas aceitar tudo quanto juntara no diário com a finalidade de completar e, por assim dizer, tornar mais real a realidade, mas igualmente alijar quanto lhe sobrepusera, qual máscara no rosto da mesma realidade, de cada vez que ela me parecera inconfessável mesmo num diário. Ora este trabalho de desbaste anunciava-se-me como nada fácil, sejam os acrescentos que serviam para aprofundar e integrar a realidade, sejam aqueles que pelo contrário a dissimulavam, não estavam ali por razões meramente literárias, de engrenagem romanesca, mas por motivos extraliterários que, como sentia, me era difícil, para não dizer impossível, esclarecer até de mim para comigo. Em suma, o diário não era apenas o jornal da minha vida, mas até o espelho secreto da minha alma. E de facto eu tinha relatado ali, além de alguns sonhos reais e verdadeiros que me tinham parecido mais significativos eventos e personagens que sabia inventados mas que, como os sonhos nocturnos, haviam servido, no momento de os inventar, para esconder ou desafogar certas paixões.
O homem comum tem apenas os sonhos, os que sonha dormindo tanto como os sonhados de olhos abertos; mas o romancista, a mais dos sonhos, dispõe das invenções dos seus romances. Como os sonhos, tais invenções não são o que parecem; e significam mais do que quanto pretendem significar. Ora, há duas espécies de romancistas: os que crêem nas suas invenções e os que não crêem nelas. Aos primeiros admite-se que escrevam romances que se assemelham a enigmas figurados, dos quais, porém, eles próprios ignoram a resolução; os segundos, pelo contrário, detêm a chave do que escrevem e por isso estão aptos a manifestar o que está escondido. Eu pertenço evidentemente à segunda categoria.
Tudo isto parecerá porventura misterioso. Mas pense-se: um diário não é a verdade porque, no próprio momento em que o diarista relata um acontecimento de que foi protagonista, já não é quem o viveu mas quem o escreve; quem o viveu é, pois, uma personagem bem distinta, com a qual o diarista tem uma relação de juízo ou, preferindo-se, de representação. E sendo verdade que entre o diarista e o protagonista dos acontecimentos do diário há completa identificação, também é verdade que essa identificação está na origem de quaisquer truques ou mentiras ou reticências que modifiquem, amputem ou dissimulem os acontecimentos referidos no mesmo diário. Na realidade, o diário é sempre sincero, sempre verdadeiro; somente será necessário buscar a sinceridade e a verdade além dos eventos.
Esta é a razão porque diários, jornais, autobiografias, confissões e memórias são, todos, pouco mais ou menos, mentirosos no sentido factual e verdadeiros psicologicamente. Tal como um espelho no qual quem se vê pode fazê-lo tomando esta ou aquela atitude. A verdade não está tanto na imagem quanto no carácter da personagem que, no momento exacto em que o espelho lhe reflecte a imagem, por assim dizer se vai criando como por encanto. Mas esta personagem não pode ser aceite tal como é: deve ser interpretada, submetida a uma operação crítica. Então saltará à vista que é o resultado de quase automáticas mentiras, reticências, disfarces.
No meu caso, a operação crítica que revelava? Revelava que a personagem do diário tinha sido obtida mediante a supressão de toda uma parte da realidade, e que o seu verdadeiro carácter se definia precisamente não só através da realidade suprimida, mas também do facto em si desta supressão.
Decerto: a personagem do diário era um romancista que decide, na mira de posteriormente arquitectar um romance, manter o diário de um período da sua vida. Ora o curioso era isto: uma vez atingido o termo do diário, o projecto do romance jogava fora a personagem do romancista. Se na verdade quisesse escrever um dia o romance, devia admitir que não fora apenas o projecto do romance que me levara a manter o diário, isto é, a fazer-me passar da desatenção à atenção e, em consequência, bater à porta de Baba, mas até, concomitantemente, qualquer coisa mais de muito menos elevado e de toda a maneira não literária. Essa qualquer coisa mais eu suprimira-a para construir a figura do romancista, mas agora o projecto do romance constrangia-me a admitir-lhe a existência, mais, a alicerçar sobre ela toda aquela vivência.
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páginas 253-255
'A atenção'
Alberto Moravia
tradução de Pedro da Silveira
edição Livros Unibolso
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