Tornei-me imediatamente parte da loucura diária. Evelyn deslocava-se diariamente com o carro à cidade, pois trabalhava como secretária numa companhia de seguros. À tarde, as gémeas voltavam do liceu em Fox Chapel e, por norma, com amigas da escola. Mas, muito antes disso, às oito da manhã, a avó começava a tentar acordar o Billy, que costumava tocar num bar até às três da manhã. De meia em meia hora, ela, com a bíblia na mão e citando-lhe passagens, batia repetidamente à porta trancada numa tentativa de o afastar do seu caminho pecaminoso. O cão, que tinha uma espécie de relação simbiótica e emocional com Billy, esperava pacientemente à porta. Só à tarde é que ele aparecia, espreguiçando-se com prazer, todo nu. A avó fugia e o Billy batia no peito enquanto, no tom do velho testamento, lamentava a sua vida de pecado. O Benjamim, ainda lá parado, ladrava em acompanhamento, mas, sabendo aquilo que o ritual pedia, levantava também o traseiro. Era nessa altura que o Billy mudava para uma qualquer língua canina imaginária e encaminhava o Benjamim pelas escadas abaixo, segurando-lhe nas duas patas traseiras, tal como o Christopher Robin faz ao Winnie the Pooh. Ele ia parando em cada degrau carpetado para continuar a lamentar, na língua canina, as suas aventuras pecaminosas. Lá em baixo, na sala, as gémeas e as amigas guinchantes fugia do jovem nu que agora iniciava a sua perseguição da avó já em fuga. Billy começava então a proclamar a sua jeremiada numa mistura de profeta do velho testamento e cocker spaniel.
página 143 - 144
Werner Herzog em «Cada um por si e Deus contra todos»
Tradução de Mário Prado Coelho
Edição Zigurate