segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Acredita em mim que também não creio

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Noite de Fevereiro

Juro, acredita em mim -- a sala de visitas estava escura -- mas a música chamou para o centro da sala -- a sala se escureceu toda dentro da escuridão -- eu estava nas trevas -- senti que por mais escura a sala era clara -- agasalhei-me no medo -- como já me agasalhei de ti em ti mesmo -- que foi que encontrei? -- nada senão que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinhava no mais escuro -- e que eu tremia no centro dessa difícil luz -- acredita em mim embora eu não possa explicar -- houve alguma coisa perfeita e graciosa -- como se eu nunca tivesse visto uma flor -- ou como se eu fosse a flor -- e houvesse uma abelha -- uma abelha gelada de pavor -- diante da irrespirável graça dessa luz das trevas que é uma flor -- e a flor estava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce -- acredita em mim que também não creio -- que também não sei o que poderia uma abelha viva de pavor querer na escura vida de uma flor -- mas crê em mim -- a sala estava cheia de um sorriso penetrante -- um rito fatal se cumpria -- e o que se chama de pavor não é pavor -- é a brancura subindo das trevas -- não ficou nenhuma prova -- nada te posso garantir -- eu sou a única prova de mim.

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Clarice Lispector

em «A legião estrangeira», página 142

edição Companhia das Letras


sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

O colonialismo nunca morreu

Pois muito bem: A imprensa, as instituições nacionais, europeias e ocidentais disseram na altura das últimas eleições na Venezuela que Edmundo Gutierrez ganhou. E que era o presidente legítimo da Venezuela. 
Mas agora que Maduro foi deposto, não vejo nem ouço ninguém a falar dele. Não deveria ser Edmundo Gutierrez, e não a Corina Machado, a ser falado para assumir o cargo? Ou o ele ter ganho as eleições foi apenas uma mentira conveniente?
De referir que muita da pobreza na Venezuela e em Cuba é derivada das sanções económicas ocidentais que não se importam de matar um povo à fome só porque ele não se submete à sua doutrina. 
O colonialismo nunca morreu.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Oito

 Havia um filho da mãe de um português, criador de gado na zona, que tinha um miúdo negro como pastor. E o homem no café contava como o gajo, para castigo, lhe tinha marcado a testa com um ferro em brasa, o mesmo com que feria o gado. Fui ter com o Calane da Silva, camarada de redacção, pusemos gasolina no carro e metemo-nos à estrada. Andámos dois dias à procura na tal zona de Changalane, até que há um cantineiro que nos diz conhecer 'o Oito'. E foi o miúdo quem nos contou. Perdera uma cabeça de gado e, receoso das represálias, andara fugido durante três dias no mato. Mas é caçado e espera do patrão uma carga de porrada. Nada disso! O patrão agarra no miúdo e manda outro preto marcar-lhe a testa. Kah! Em brasa! Desde aí ficou 'o Oito'. A marca do criador era um oito deitado, assim como o símbolo do infinito. Tinha quinze anos. (Relato do repórter fotográico Ricardo Rangel, citado por Luís Carlos Patraquim no Público Magazzine de 30 de Junho de 1991)


em «Ministros da noite -- livro negro da expansão portuguesa»

Selecção, organização e prefácio de Ana Barradas

edição Antígona


terça-feira, 6 de janeiro de 2026