«Hide the spell behind a tree»
óleo sobre papel tamanho A2
2025 ZMB
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Noite de Fevereiro
Juro, acredita em mim -- a sala de visitas estava escura -- mas a música chamou para o centro da sala -- a sala se escureceu toda dentro da escuridão -- eu estava nas trevas -- senti que por mais escura a sala era clara -- agasalhei-me no medo -- como já me agasalhei de ti em ti mesmo -- que foi que encontrei? -- nada senão que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinhava no mais escuro -- e que eu tremia no centro dessa difícil luz -- acredita em mim embora eu não possa explicar -- houve alguma coisa perfeita e graciosa -- como se eu nunca tivesse visto uma flor -- ou como se eu fosse a flor -- e houvesse uma abelha -- uma abelha gelada de pavor -- diante da irrespirável graça dessa luz das trevas que é uma flor -- e a flor estava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce -- acredita em mim que também não creio -- que também não sei o que poderia uma abelha viva de pavor querer na escura vida de uma flor -- mas crê em mim -- a sala estava cheia de um sorriso penetrante -- um rito fatal se cumpria -- e o que se chama de pavor não é pavor -- é a brancura subindo das trevas -- não ficou nenhuma prova -- nada te posso garantir -- eu sou a única prova de mim.
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Clarice Lispector
em «A legião estrangeira», página 142
edição Companhia das Letras
Havia um filho da mãe de um português, criador de gado na zona, que tinha um miúdo negro como pastor. E o homem no café contava como o gajo, para castigo, lhe tinha marcado a testa com um ferro em brasa, o mesmo com que feria o gado. Fui ter com o Calane da Silva, camarada de redacção, pusemos gasolina no carro e metemo-nos à estrada. Andámos dois dias à procura na tal zona de Changalane, até que há um cantineiro que nos diz conhecer 'o Oito'. E foi o miúdo quem nos contou. Perdera uma cabeça de gado e, receoso das represálias, andara fugido durante três dias no mato. Mas é caçado e espera do patrão uma carga de porrada. Nada disso! O patrão agarra no miúdo e manda outro preto marcar-lhe a testa. Kah! Em brasa! Desde aí ficou 'o Oito'. A marca do criador era um oito deitado, assim como o símbolo do infinito. Tinha quinze anos. (Relato do repórter fotográico Ricardo Rangel, citado por Luís Carlos Patraquim no Público Magazzine de 30 de Junho de 1991)
em «Ministros da noite -- livro negro da expansão portuguesa»
Selecção, organização e prefácio de Ana Barradas
edição Antígona