quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Notas do subterrâneo

 

-- Estou um bocado maçado, doutor, estive à espera mais de uma hora.

-- Desculpe, sr Manuel, tive que resolver uma situação.

O sr Manuel estava impaciente porque, além de ter esperado a sua chamada para a consulta tempo demais, quando no visor da sala de espera surgiu o número da sua senha, levantou-se e dirigiu-se para o gabinete e encontrou a porta aberta e, lá dentro, o médico conversava com uma colega sobre um caso agudo.

Dizia ela «Ainda não sei se o delírio dele é causado pela cocaína mas de qualquer modo aumentei 5mg».

Os minutos a passar e o Manu a portar-se bem sem fumar um cigarro e a ouvir falar dos problemas dos outros. O Manu a pensar «Psiquiatras padres e polícias, a mesma luta, gramas e miligramas para reprimir as gramas, já ninguém liga à miséria existencial, hoje só pensam na droga como a causa do mal, não pensam no mal que é a causa da droga e o mal que leva a consumir. Quando há trinta anos eu falei na droga, ninguém quis saber e rotularam-me de esquizofrénico, encheram-me de comprimidos e disseram-me que podia não os tomar se uma noite, por exemplo, fosse jantar com uma amiga. Encheram-me de comprimidos e admitiram que eles iam fazer-me mal. E hoje não passo sem eles. Trataram-me como maluco e não como drogado. Como as coisas mudaram. Deixa-me andar caladinho, porque se a solução são mais químicos não quero ir lá.»

-- Então, tem dormido bem?, pergunta o doutor.

-- Sim sim.

-- E como está a sua mãe?

-- A minha mãe vai bem, na medida do possível. Teve um avc e outros que não foram notificados e todos eles lhe afectaram o cérebro, em especial, a mobilidade. Já não pode andar sozinha na rua desde que caiu duas vezes numa semana e era ela que sempre saía para abastecer a casa. Agora, sou eu ou o meu pai que saímos com ela. Eu ajudo. Sou eu que vou fazer as compras muitas vezes.

Engraçado os psiquiatras terem deixado de falar do meu pai, também já sou grandinho. Também, é verdade, já tive muitos médicos. Sei lá se eles lêem o processo?! Trinta anos dum rolo de papel higiénico on the divan. Nã. Quando muito, o médico que sai escreve um relatório para o médico que entra. Detalhado na generalidade, lol.

Mas, também, agora eu e a minha opinião já devemos contar. A nossa opinião já deve valer para alguma coisa. Eles olham para mim e vêem um senhor e não um jovem adulto inadaptado. Vêem um filho que ajuda os pais e não um filho que preocupa e faz mal aos pais. E seria isto que eu deveria dizer ao médico ou que, se calhar, digo sem o proferir. Porque ele não me pergunta por meu pai. Faz muito poucas perguntas, passa logo para a passagem da medicação:

-- Quer que lhe envie também para o telemóvel?

-- Sim. Doutor, a médica anterior mandava-me fazer exames ao sangue...

-- Sim, posso marcar também.

-- Ver o fígado, é importante.

-- Aqui está, a marcação da colheita e a marcação da próxima consulta e a receita.

-- Bom dia, doutor.

Venho-me embora a pensar num filme que vi há muitos anos no segundo canal, acho que se chamava Macacos para Charley, sobre uma comunidade hospitalar de malucos, um deles dizia que dos médicos só queria as pastilhas. Outro dizia que antes de lhe fazerem a lobotomia era louco e agora era só maníaco depressivo e estava muito contente em habitar ali periodicamente, pelo menos comia e dormia numa cama.

Falei pouco, pensa Manu com os seus botões, mas ele também pouco pergunta, e um dia ainda haverei de lhe dizer que a minha mãe era a minha melhor amiga e que a perdi. Em casa e durante as refeições era a única que prestava atenção ao que eu dizia, quando dis-ursava a minha revolta perante o mundo. Quanto ao meu pai, ele só apontava para a medicação e dizia «Toma o comprimido.»

Perdi a minha mãe para a neurologia, os avc mexeram-lhe com o cérebro, ele tem zonas mortas. O avc não lhe causou apenas perda de mobilidade, provocou-lhe perda de entendimento. Ela já não percebe o que eu digo. E também ouve mal mesmo com os aparelhos auditivos. Se eu lhe disser A igual a B e B igual a C, ela tem de fazer um esforço para perceber que A é também igual a C. E depois, às vezes não dá para perceber se ela ouviu mal ou se não percebeu e tem muita dificuldade em se expressar e dizer o que lhe dói. Vai fazendo sem pensar na dor que sente, diz que é a vontade de deus, vai fazendo o que pode e só na última se queixa. É preciso carinho e um tom de voz especial que eu não tenho por natureza e o meu pai ainda menos. Pelo menos tento.

É triste porque já não tenho ninguém que me ouça. Mas ela não tem culpa. Os diabetes mataram os meus avós, e a minha mãe lá no fundo já pensou que se vai morrer ao menos quer morrer satisfeita com o almoço.

Esta casa não vale nada sem a minha mãe. Eu agora já não tenho vida independente nem posso ter projectos, vivo uma nova fase, uma nova cadeia de nascimento e morte. Vivo para ajudar a minha mãe e o meu pai. E vivo no meio dos seus desentendimentos. O meu pai a reclamar da minha mãe comer três dióspiros e a minha mãe a responder-lhe torto ao ponto de ele dizer «Fala para mim como falas para o Manu!»

O meu pai tem a melhor das intenções: preocupar-se com a saúde da minha mãe e tentar que ela não abuse da comida que lhe faz mal. Mas o modo como se preocupa está errado, exalta-se, quer reprimir à força os desejos da minha mãe. E perde toda a razão porque a minha mãe lhe responde com desprezo, com desprezo até da sua própria saúde.

E eu olho para eles e digo «sou bem filho do meu pai e da minha mãe, tenho os seus traços psicológicos e por menos fui internado sem saber ler nem escrever. E agora que estou minimamente são, sou filhinho da mamã e filho do pai. Vivo para que eles durem muitos anos porque não sei o que será de mim quando eles se forem.

Mas ser filho da mamã não me traz vantagens nenhumas.

Ser filho da mãe significa viver em casa dos pais e não ter vida própria. Significa não ter a liberdade de poder trazer quem eu quiser à hora que quiser a minha casa, significa não ter privacidade nas pessoas e nas conversas, significa ter de levar nos almoços de Domingo com a família completa e ouvi-los cada um à sua vez:

Um gozar o colega de ter levado pancada do mestre no ginásio e não perceber que amanhã pode ser a vez dele enquanto a única coisa que o orgulha é ter batido bem na colega do ginásio; o outro dizer que não é racista mas não gosta de ciganos nem de pretos, dizer que os indianos cheiram mal... e dizê-lo com orgulho e desprezo, o que é ainda pior; a outra andar a ser menina de companhia de namoradas de jogador de futebol, esperando que haja lá um futuro marido que a levará às Arábias pela via do casamento esquecida a aspiração a Hollywood pela via do teatro, uma paixão de adolescente sem borbulhas.

Significa acordar nos outros dias e tomar o pequeno-almoço e esperar que os pais acordem para dar a lista das compras a fazer, significa trazer igualmente o pão e esperar pelo almoço à hora que eles o fizerem, a minha mãe já não o faz na verdade, vem da fisioterapia matinal e deita-se, já nem se lembra ou então pensa que o meu pai o faz.

E o meu pai que não admite que a minha mãe se deite cansada e nem sequer admite que a minha mãe tem uma dor aguda desde a ciática até ao pé. Não admite porque ele próprio vive com a própria dor e diz que ninguém acredita nele nem na sua dor, e depois acusa aqueles de virem falar da dor que sofreram há cinquenta, sessenta anos, é como se dissesse «se eu sofri e ninguém se importou e eu me calei, também tu e todos têm de calar.»

E nestas alturas, o meu pai revolta-se e não faz o almoço, fica sentado a remoer na marquise a ver os pássaros e a ressentir-se com os imigrantes que fizeram obras e se instalaram em casa do Avelino. Mas o Avelino morreu carbonizado quando a botija explodiu e o irmão vendeu o casarão. (Aliás, tudo neste país está a venda, os lusos não se importam com a cor do dinheiro que recebem mas gostariam que fosse um branquinho de bem a pagar-lhes.) É nestas alturas que se eu quero almoçar, tenho de ser eu a vir fazer o almoço, mesmo que não tenha escolha naquilo que vou cozinhar e comer.

Também o almoço em si com a televisão nas notícias a reinar. Se nós fôssemos uma família comunicadora não haveria necessidade de ocultar o silêncio com o ruído informativo do écran. De qualquer modo, é uma luta constante. Já apanhei o meu pai a espetar o dedo colado ao televisor e a dizer «Mentira. Jornalistas mentirosos. Tu estás aí a ganhar dinheiro a dizer mentiras!» E depois como foi ele que pagou o televisor e, portanto, o televisor é dele e o programa de televisão que podemos a cada momento ver é ele que decide. Qualquer princípio de notícia que belisque o Primeiro, às vezes o Sumo Primeiro também, ele muda de canal e nós deixamos de ver a notícia e, se na concorrência estiver a dar igual notícia, ficamos a ver os bonecos no segundo canal até que eu ou a minha mãe proteste.

É aí que ele diz «São dois contra mim.»

E eu respondo «Pai, tenho vindo a dizer-te isto há anos. O tempo em que eu queria guerra acabou. Eu sou pela paz. Quero paz contigo e com a mãe. Não quero estar acima de ti, quero apenas falar contigo, em paz. Não precisamos de concordar sempre. Mas também, tu aí zangado com o jornalista como se ele te ouvisse, como eu fazia quando vieram os bombeiros que vocês chamaram na altura para me levar. E depois, zangas-te connosco. Paz, pai. Não precisamos de andar zangados um com o outro.»

E ele desabafa e diz de coração: «Vou lá fazer a paz com o Bloco de Esquerda...»

E Manu termina o café, levanta-se da mesa, põe a mão no ombro da mãe e digo «Vou para baixo, até logo.» E vai para o anexo a pensar: «É inacreditável a sanha que estes direitolas dos extremos têm a um único deputado. Isto é mesmo uma casa de malucos. Eu aqui morro, nem em paz posso morrer. É esta a miséria e a cruz que valeria contar ao psiquiatra. E ele faria o quê? Ainda aumentaria a dose.»

Miséria existencial, eyes to the blind.

Por isso, mal almoço e tomo o café desço para o anexo ao fundo do quintal. Tem uma porta e uma janela, é frio no Inverno e abafado no Verão. Tem uma cama onde durmo e secretárias para a aparelhagem e para o portátil, tem prateleiras para livros e cds e os discos estão em filas no chão, tem uma cadeira almofadada em frente a um cavalete no lado escuro do anexo e é onde pinto. Não tem muita luz natural para auxiliar a pintura mas não tenho melhores condições. As rendas em Timbuktu estão pelo preço da platina e estar neste anexo, onde posso pintar, ler e ouvir música, é de graça. Só não tem casa de banho. Tenho de usar a da casa, fechar o anexo e subir as escadas e entrar em casa.

É chato quando tenho visitas. Se elas precisarem de ir à casa de banho, tenho de entrar com ela na casa principal, o que implica fazer a apresentação mútua. E às vezes não é preciso as visitas subirem e ser apresentadas, não é preciso muito para eu ficar desgostado do meu pai: uma tarde, um colega meu veio ver uns quadros ao meu anexo com intuito de talvez comprar e quis observar um à luz do sol, viemos para o meu pátio, o que o tornou visível a meu pai que estava na marquise, quando se foi embora o meu pai perguntou-me quem era o estrangeiro e eu respondi «É filho de um advogado e não é por se vestir diferente e ser barbudo que é um terrorista, é por isso, pai, por isso que eu não gosto da tua discriminação!»

O pior é quando uma amiga me visitava. Ficávamos a ouvir música e a conversar no anexo, diz Manu. Como comecei a gostar de ar puro e quero continuar a fumar dentro do anexo, só posso fazê-lo de porta aberta. Por isto, a música e tudo o que se diz no anexo é ouvido no exterior e nas casas vizinhas e até na sala onde o meu pai se senta à tarde.

Uma vez, a conversa com esta amiga virou picante e desnorteada e até eu pensei que era demais para ouvidos estranhos. O meu pai nessa noite adjectivou a conversa de conversa ‘de malucos’. Depois outro dia, veio nas notícias a lei de deportar os imigrantes e ele perguntou: «A tua amiga está aqui legal?» E disse-o com o tom «É que se não estiver acho muito bem que...»

E eu explodi: «Queres deportá-la! Mas ela é portuguesa por casamento, esteve casada com um português mais de dez anos, ao fim de seis tornou-se portuguesa, bolas!»

Merda!, quero eu dizer mas à frente do meu pai tento não dizer palavrões. Mas contei à minha amiga e disse-lhe para não voltar cá por uns tempos, agora estou mais sozinho. A minha mãe, que me pergunta porque ela não vem mais, já se esqueceu do sucedido. O meu pai abana a cabeça e diz que não é por ele que ela não vem mais, diz que não disse que não a queria mais. A minha mãe esqueceu, o meu pai vive em negação e eu vivo em solidão e tento não cair no ressabiamento mesmo que este seja quase compreensível..

Um colega que me conhece de antes e de agora que voltei para casa dos meus pai, diz-me para não passar muito tempo em casa, diz-me para pegar no cavalete e ir para o parque de cidade.

Eu sorrio agradecido pela sua preocupação e digo-lhe: «Depois, tinha que pagar o almoço...»

E ele responde «Então, agora há o pingodoce e o frango assado!»

«Os meus pais precisam de mim...» digo e em pensamento completo a resposta: «... por perto.»
A verdade´é que a minha mãe fez um teste cognitivo e não está tão mal como isso além da velhice, perdeu inteligência mas não está mais burra, não se prevê que evolua para demência nem tem componentes depressivas. E acima de tudo, quer viver, aceita a dor mas não quer falar dela, a sua dor é sua cruz mas perante os outros ignora-a. Até se esquece do que tem, a médica de neurologia prescreveu fisioterapia, conversa social e caminhadas.

Comecei a levar a minha mãe a passear e agora depois do jantar começamos a jogar os três à bisca, o que a ajuda no exercício mental de contar os pontos e as interacções no diálogo entre nós durante o jogo.

É engraçado ver como ela faz batota sem perceber, se o meu pai jogar um às ela às vezes não assiste e corta, a minha batoteira inocente ao fim de décadas de amor católico muitas vezes levado à frustração vinga-se como pode do marido, mas é tudo um jogo, o meu pai acaba até por gostar de também jogar e se rir um pouco.

Nesta terra pouco mais há, morre-se ou foge-se para bem longe esquecendo tudo e todos para trás. Mas e quem regressa anos depois, sem mulher e sem filhos além da colecção de quadros, de discos e de livros? Que fazer nesta terra, como interagir com os vizinhos? Cara alegre e bomdia boatarde e pouco mais, ainda hoje tentei oferecer uma cassete de música cigana e o amigo disse «não ligo bola.» No outro dia, mostrei um zine de desenhos e eles pegaram nele como se fosse ultrapesado e nem que fosse de graça eles achariam vontade de ficar com ele. Há umas semanas, com a antologia do Joaquim Castro Caldas pousada em cima do balcão enquanto pedia um café, um vizinho cigano olhou para o livro, um volume grosso de lombada preta, e perguntou se era a bíblia, eu compreendi que para os ciganos desta terra o único livro é a Bíblia mas respondi que não, que o livro era de poesia. Ele olhou estranhado para mim e sem lhe fazer sentido nenhum.

Quanto às coisas de amor (porque é sempre isso que se quer saber), há, ou houve porque parece que já é passado, uma vizinha que me pareceu bonita e que eu conheci por intermédio da minha mãe e que devido aos seus baixos rendimentos era ajudada pela minha mãe com dinheiro e alimentos. Comecei por dizer à minha mãe, continua Manu, que no meu trabalho da época precisavam de uma empregada e que ela podia concorrer, ela disse que não e até começou a fugir de mim porque, eu quando passava por ela na rua, em vez de lhe falar abria a boca para falar mas o meu sorriso bloqueava a minha voz e acabava a fazer má cara para ela. Depois reparei que ela tem namorado e passei a guardar distância respeitosa e a ver que ela percebeu e, quando por algum motivo deixou de receber a ajuda mensal, passou a nem cumprimentar. Ultimamente, bebe cerveja escondida num canto do balcão do café e deve ter medo que eu vá contar à minha mãe, porque a minha mãe tem um lema retrógado: Fumar e tomar o pequeno-almoço nos cafés são sinais de riqueza.

«Nesta terra não sou mais do que o filho da mãezinha. Quem me dera poder beber uma cerveja com ela e ter uma conversa de comparsa para comparsa.» E quando não há alternativas o Manu volta atrás e comunica-se novamente com a última mulher que o fez feliz e fica a saber que ela foi de férias, que voltou noiva e cheia de jóias, e que voltou atrás porque se tinha de converter à religião dele, e que ele virou maluco e tatuou a cara dela em toda a largura das costas.

Perante tal realidade como esperar que a ficção ultrapasse a realidade?

Já dizia o Cohen que estava à espera que as mulheres tomassem o poder e a verdade é mesmo essa: uma mulher poderosa consegue tudo de graça, a mulher cativa, a mulher escolhe, e há que aceitar a realidade.

 

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Imagine to live a life with no telly


 

«Imagine to live a life with no telly»

óleo sobre papel tamanho A2

2025 ZMB

Ganhei inspiração para este óleo num diálogo-canção do álbum Spore by Scanner.

I say thanks to Robin Rimbaud


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Drogados e nota profiláctica sobre a hepatite c



 Drogados



Drogados

Eu bem os vejo

Com caras de lobo

E almas de cordeiro ...

Qual deles para arranjar a droga

O mais trapaceiro.


Filhos da Vida

Da neve e do frio

Da noite sem cama

E do calor do Rock and Roll.

Eles são drogados

Por não encontrarem

Um Ambiente de Paz e de Amor.


Drogados ...

Não são os Mordomos do Universo inteiro

São os primeiros a despir a camisola

Para ajudar um companheiro.

São Aqueles que mais sensíveis

Querem um Mundo mais verdadeiro.


Drogados são seres iluminados.

Mas o Mundo sem Amor

É traiçoeiro


2004


poema de Júlio Alberto Allen Vidal

lido por um amigo

ontem Sábado dia 7 de Fevereiro na Casa de Cultura de Paranhos

na apresentação do Volume II da sua Antologia Póstuma

editado pela Apuro em 2026

e com biografia e selecção de Bernardo Guerra Machado


Queria deixar uma nota profiláctica sobre a Hepatite C.

Na tentativa de cura da hepatite C, antigamente, havia um tratamento quer era difícil e invasivo para o doente e portanto de cura difícil, era o Interferon.

Lembram-se do tempo da Troika em que no parlamento português se discutiu se o Estado devia pagar um milhão à farmacêutica para patrocinar um novo tratamento que prometia a quase cura? O Passos  Coelho não queria pagar, mas na altura no debate um doente irrompeu pelas galerias a dizer «Não me deixe morrer!!» O Passos acabou por aceitar negociar o medicamento com a farmacêutica e chegou a um acordo e o novo tratamento foi introduzido no Serviço Nacional de Saúde.

Eu, em 2014 ou 2015, quando almoçava na caridade da Ordem de São Francisco na Ribeira onde morava, costumava sentar-me muita vezes à frente de um senhor de cinquenta e poucos anos, português africano que chegou a jogar futebol num clube regional. Como nem todos ficam Ronaldos esse meu amigo, senhor que quase todos os dias almoçava à minha frente, ficou pobre quando terminou a carreira de futebolista e agarrado ao alcóol e às drogas e contraíu hepatite C

Ele falou-me que entrara neste novo tratamento em que lhe prometiam a cura em três meses, e só tinha de ficar abstinente: não beber não fumar nem tomar drogas.

Eu depois deixei de lá ir almoçar porque mudei de residência mas ele parecia-me mais gordo e contente, e parecia estar a recuperar.

Falo tudo isto porque em 2021 o Julião morreu de cancro hepático e eu acho que a sua hepatite C evoluiu para cancro porque ele embora tendo aderido ao novo tratamento, voltou a consumir crack que é a cocaína que se fuma pelo cachimbo, vulgo «caneco», ele não conseguiu resistir à tentação de consumir. Foi uma época em que o crack estava mais barato que o haxixe e os maus amigos apareceram-lhe novamente com o crack.

O Júlio tinha muitos defeitos mas tinha o coração puro, ficava sem comer às vezes para dar de comer a um amigo, fosse ele bom fosse ele mau.





domingo, 1 de fevereiro de 2026

Filho da Mãezinha

 



This is a collage of sounds including twisted versions from two songs by Alan Vega and a portuguese folk song by Mãe Linda

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Resumo de uma pintura

Quando vêm com historinhas para a minha amiga
Ela desce do salto e roda a baiana.
Eu sou menos poeta e mais boçal
Meto a cabeça e o corpo todo num buraco como um papa-formigas e mando foder toda a gente.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026