quarta-feira, 22 de julho de 2026

A borboleta preta

 No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha da Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

-- Também por que diabo não era ela azul?, disse comigo.

E esta relexão, -- uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, -- me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas». A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, ensinou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse mais verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restitui-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.


Machado de Assis

em «Memórias póstumas de Brás Cubas», página 67 - 68

edição Dinalivro


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Blue lake




Don Cherry - pocket trumpet, piano, flute, vocals Johnny Dyani - bass 
Okay Temiz - drums, percussion 



sábado, 4 de julho de 2026

Injectável

 


Na realidade,

o injectável era aplicado no músculo da nádega

e não no braço,

também não era na farmácia,

era comprado na farmácia e aplicado no hospital

todos os quinze dias.


depois disse à doutora que não podia faltar uma manhã todos os quinze dias ao trabalho

e ela passou a medicação para comprimidos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A magia do circo

 Parece que o meu avô, ele sim, era um palhaço como deve ser. O Voltan até costuma dizer que, para voltar a ser uma coisa a sério, o Grande Circo Romani precisava de um palhaço como o velho Bufo, o inimitável Bufo, que fazia um número «meio acriançado», mas que era um sucesso tremendo.

O Grande Bufo fazia de conta que era um palhaço órfão e, a dada altura, apontava para o público, indicava uma pessoa qualquer e gritava: Papá! Depois, sem parar de apontar, avançava para o escolhido com uma felicidade exagerada e os passos largos dos enormes sapatões (acho que eram os mesmos que o Lima ainda usa, amarelos e com a sola a separar-se do resto), e as pessoas já não paravam mais de se rir, sobretudo quando ele se sentava em cima do colo de alguma das pessoas da assistência, normalmente um homem baixinho e careca e com o ar mais inocente e atrapalhado do mundo.

Depois daquilo de encontrar o pai, o número do meu avô tinha ainda um segundo «momento alto», que era quando ele levantava a perna como se fosse dar um traque e atirava um esguicho de pó-de-talco para cima das pessoas.

«Punha toda a gente a rir, o diabo do homem. As senhoras ainda punham aquele ar meio enojado, mas riam a bom rir, até lhes doer a barriga ou fazerem nas calcinhas. Era um pândego.»

Parece que o truque do meu avô consistia num depósito onde o pó ficava guardado, numa espécie de pequeno fole que levava na barriga, e num tubo que ficava preso aos fundilhos das calças. Ele voltava as costas para o público, dobrava-se, alçava a perna, apertava o fole e saía-lhe uma nuvem branca pelo traseiro.

O Voltan também diz que já não há palhaços como o Grande Bufo e que, se ele não era o melhor palhaço do mundo, era, quase de certeza, o melhor palhaço cigano do mundo, já que «tinha muita expressividade» e «transformava qualquer gesto que fizesse numa coisa muito hilariante».





Manuel Jorge Marmelo em

«Somos todos um bocado ciganos»

página 122

edição Quetzal, 2012