O ritual envolve escrever no fundamental café por alturas de novembro de dois mil duzentos e vinte e três um poema psicótico a um poeta da revolução que justifica alguma solidariedade embora tão diferente seja dele. Ele é, acredita ser, escreve como irmão dos deuses, como abençoado por zaratustra, escreve que despreza o rebanho, o que toda a gente chama o povinho e a vidinha mas no fundo ele quer ser o profeta de um rebanho, «alguém que me siga». Mesmo que goste do romantismo desta poesia porque o hei-de seguir?, ele que se acha acima dos outros, e eu caio sempre na realidade de ser um carneiro pois nunca pertencerei a uma elite da revolução, nunca quererei ser poeta, digo: nem ditadura do poeta nem ditadura do burocrata nem ditadura do proletariado nem mesmo ditadura do louco, eu na verdade imagino-me pintor operário subindo as ravinas fluviais de derza, nunca pertencerei à elite porque não me sujeito à instrumentalização da palmadinha nas costas nem tenho habilitações, digo-te antónio pedro ribeiro que se me elevam aos píncaros, se me tratam como um mestre na fase de negociação deixo de ser amigo ou ter currículo a partir do momento em que assino um contrato, botam defeito em tudo, querem que eu roube modelos na internet porque não confiam no meu valor, digo-te que eles atiram dez euros para cima da mesa e dizem no seu capitalismo de esquerda, de imobiliária maçónica com vistas de um milhão de euros e recitando o livro dos morons ou a bíblia sagradíssima: pensas que te ando a sustentar?, não sabes trabalhar, baza! A verdade meu amigo ribeiro é que os dogmas se ajustam à cor do dinheiro ou à falta dele, ora… salvamo-nos os dois porque cada um à sua maneira sente as prostitutas. A daniela trata-me bem, nunca ninguém me trata com tanta honestidade, explica-me porque não beija na boca, dá-me aliás dicas que revelam muito do que também ela vê em mim, diz-me que devia fazer ioga.
Antes ou depois do crash, escrevo sem roaming uma mensagem a uma prima por afinidade e, quando lhe estrago a performance, ela expulsa-me com a ajuda do agente de autoridade de serviço e diz: paneleiro de merda. Lógico! Um insulto de boca não fica registado e, se no futuro levar uma facada, perante um juiz ela dirá: eu não sei porque ele me fez isso, parecia simpático, até gostava dele, só mesmo um doente, um maluco… senhor juiz. Existe uma diferença entre ser puta e prostituta, ela poderia dizer.
Como o outro numa palestra: o homem não descende do macaco mas há homens mais macacos que o próprio macaco. Mas digo eu: também há putas que não se acham putas só porque pertencem à elites opositoras que se tornarão secular instituição, outras há que querem os direitos do século vinte e três mas o sustento do marido do século dezanove. E quando conseguem garantir o sustento sem o homem, começam a não precisar dele para nada e as mais abastadas já nem para gerar um bebé precisam e o homem vê tudo isto e já não compreende nem ninguém lhe ensinou nem ele quis aprender. Vira-se para a pornografia online ou recorre à boneca vinda da china, é a saída mais fácil, é fácil virar fascista, é só não querer admitir o erro de acção e achar-se vítima das circunstâncias, é pensar que se é superior às circunstâncias e que tem de haver «uma lei para mim e uma lei para o outro», esse inimigo que lhe diz «ao menos que ficasses com a piroca entalada, hemos pena».
Noutras eras antes de se definir a palavra, o fascismo chamava-se desejo de poder absoluto, hoje ele é um transformista mistificado de social mas só há almoços grátis para os amigos, e eu amigos só tive aqueles que bateram à porta por necessidade pessoal, pareço ter cara de endinheirado. Amigas? Perdi oportunidades de continuar a ser um objecto, elas adoram o diabo, têm mesmo medo dele, elas odeiam o diabo, sujeitam-no à indiferença porque ele não quer ser adorado e foge como um bicho-do-mato da adoração de quem sistematicamente diz: «você é o futuro mas não gosto do seu casaco. A sua imagem… você deve, olhe, eu conheço quem possa…»
Dedico-me apenas a reprimir o meu pensamento porque ele acaba sempre por acontecer com nuances, dedico-me a decifrar a explosão de gatafunhos e a transcrever estilhaços de bala dizendo que a medicina não compreende, a religião is evol love, o que eu preciso mesmo agora é de exercitar a função do orgasmo. A seguir, assusto-me com o cabide dos casacos, vejo nele uma bruxa de negro mas logo a confiança erótica chega, executo movimentos de cavalgadura numa égua imaginária et voila mijo-me na camarata. Satisfeito o desejo durmo como um anjinho, no dia seguinte ponho um boné e vou ver as notícias da guerra, quirossá roubô cambiô hodjê, porque quem nunca te roubou um beijo que atire a primeira pedra, não nasci em croatan mas croatan nasceu em mim, faço kuduro pru mundo.
Psicoticamente tudo o que às vezes penso e nem sempre escrevo, tudo o que às vezes escrevo e esqueço durante anos, psicoticamente tudo é passível de implicitamente ser imediatamente interpretado ou até indirectamente comentado, julgado e, após detalhada análise, atentamente jogado para aquela secção da base de dados intitulada «sem imagem comercial», ou seja, eu não deixo conscientemente que a instituição me explore, é preciso que eu tenha vontade de me deixar ser escravo e vestir a camisola que me ofereçam, no entanto preciso de trabalho, sou ganzómano e por isso não posso apenas descrever, tenho de algum modo reinterpretar e, com as especiarias a que tenho acesso, tenho de à minha maneira cozinhar a paz que me vai ordenando o caos, o meu estômago. A substância, que me conforta há muito tempo, deixou de ser uma grande diversão para ser um substituto de um modo de vida normal, uma sentença de futura incapacidade mas eu luto… luto por trabalho todos os dias para me bastar, para não ser comentado como um cancro social, uma metáfora que se fosse verdadeira oferecer-me-ia todos os dias por volta das quatro da tarde na sala de visitas do hospital qualquer extravagância como presente e desejos de boa recuperação mas… o meu modo de vida, a minha dádiva, o meu diagnóstico, a minha sentença: drogado mental sem sentimentos e sem pessoas verdadeiras à sua volta, posso esquecer os charutos havanos de chocolate «mon chérie para as tuas melhoras meu darling e para deixares de fumar faz-te tanto mal à saúde»… eu queria tanto ser auto-suficiente e não necessitar de emprego, de caridade miséria falsas oportunidades, trabalho eu luto por todos os dias, a toda hora e consumo o meu ser fumando o pensamento de um novo e futuro falhanço ao qual concorro enviando o meu currículo profissional. Adormeço pensando que fiz a minha tarefa de lutar. Ao acordar, a repetição volta, o sol inicia de novo a luta, eu fumo mais um porque continuo sem rendimento ao fim do dia e o dia só agora começou e já estou a pagar imposto…
Ao passar na damrak vejo num armazém um anúncio pedindo empregados, fico interessado e entro, dirijo-me ao balcão, apresento-me e dizem-me para voltar daí a um mês. Ok, agradeço e volto à rua sabendo que talvez não voltarei lá e, olhando a sujidade nas minhas calças, penso no que a minha mãe uma vez me disse, ela uma voz anónima do povo em ditadura: nunca descures tua imagem. Às vezes dizia-me isso e eu ficava a pensar: mas quem é pobre pode andar asseado, arranjado?, ao que ela respondia: podes ser pobre mas fazer por não parecer. Ao que parece a higiene pagará todas as promessas mas… entre mim e a higiene há toda uma luta de classes e eu tenho algumas dúvidas de que queira ser manager ou até formar um partido lóbi. Sou assim: às vezes on às vezes off eu prefiro o estado de ov, um germe eternamente gerado e sempre pronto a renascer para um novo mundo numa nova ponte, quantas vezes já não mudei de vida?, tentar pelo menos. O cínico poderia dizer «às vezes ainda me ofereceram camisolas» mas o hobo diz «nunca tive estabilidade nem ilusões, apenas sonhos, tenho de me adaptar ao mundo mas o mundo quer que eu deixe de ser eu», para ser ele — o mundo que rende juros ao gestor de activos; para ser com ela — a munda, a mãe levando o pequeno-almoço à cama ou a mulher «faca e alguidar» com jantar romântico no dia de anos.
No fundo, minha mãe leva-me a deduzir a simulação futura, a intoxicação com um copo de água e talvez, agora é capaz de ser já um pouco tarde… um louco é-o muitas vezes por repressão ou impossibilidade de descarga sexual, farto de não ter alguma toura como parceira sexual, simula o amplexo na sua imaginação e usa as suas duas mãos em si próprio, sente-se senhor anarca monarca absoluto pondo e dispondo de si próprio, dizendo até que não precisa de gadja, que se basta a si mesmo. Porque não acredito em desequilíbrios químicos genéticos e tão só em espíritos que incubam no futuro em crianças da lua, às vezes o louco ou o joker joga contra si próprio, chega mesmo a escrever coisas reaccionárias, frases como: já não acredito na anarquia, na guerrilha criativa, eu nem sequer encontro uma gaja interessante, quanto mais mudar o mundo, a guerrilha significa spam, noise informativo, gosto de informação estruturada, organizada, não gosto do noise quântico da web.
Dito isto, nego tudo o que escrevi desde o último dois pontos. Há sempre alguém a processar a informação que me chega. A verdade é que ainda não cheguei ao nível necessário de conhecimento para eu próprio poder organizar o meu dia-a-dia, o excesso de informação que ainda não consigo processar convenientemente, sou um hobo ficando sem dinheiro a cada pacote de bolachas que compro, a cada grama de thc que compro e, claro, eu… dizem para eu voltar daqui a um mês porque vêem o modo como estou vestido, vêem que estou de passagem, um turista momentâneo, suado e com as calças manchadas, alguém que não estará aqui por muito mais tempo.
