sábado, 4 de julho de 2026

Injectável

 


Na realidade,

o injectável era aplicado no músculo da nádega

e não no braço,

também não era na farmácia,

era comprado na farmácia e aplicado no hospital

todos os quinze dias.


depois disse à doutora que não podia faltar uma manhã todos os quinze dias ao trabalho

e ela passou a medicação para comprimidos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A magia do circo

 Parece que o meu avô, ele sim, era um palhaço como deve ser. O Voltan até costuma dizer que, para voltar a ser uma coisa a sério, o Grande Circo Romani precisava de um palhaço como o velho Bufo, o inimitável Bufo, que fazia um número «meio acriançado», mas que era um sucesso tremendo.

O Grande Bufo fazia de conta que era um palhaço órfão e, a dada altura, apontava para o público, indicava uma pessoa qualquer e gritava: Papá! Depois, sem parar de apontar, avançava para o escolhido com uma felicidade exagerada e os passos largos dos enormes sapatões (acho que eram os mesmos que o Lima ainda usa, amarelos e com a sola a separar-se do resto), e as pessoas já não paravam mais de se rir, sobretudo quando ele se sentava em cima do colo de alguma das pessoas da assistência, normalmente um homem baixinho e careca e com o ar mais inocente e atrapalhado do mundo.

Depois daquilo de encontrar o pai, o número do meu avô tinha ainda um segundo «momento alto», que era quando ele levantava a perna como se fosse dar um traque e atirava um esguicho de pó-de-talco para cima das pessoas.

«Punha toda a gente a rir, o diabo do homem. As senhoras ainda punham aquele ar meio enojado, mas riam a bom rir, até lhes doer a barriga ou fazerem nas calcinhas. Era um pândego.»

Parece que o truque do meu avô consistia num depósito onde o pó ficava guardado, numa espécie de pequeno fole que levava na barriga, e num tubo que ficava preso aos fundilhos das calças. Ele voltava as costas para o público, dobrava-se, alçava a perna, apertava o fole e saía-lhe uma nuvem branca pelo traseiro.

O Voltan também diz que já não há palhaços como o Grande Bufo e que, se ele não era o melhor palhaço do mundo, era, quase de certeza, o melhor palhaço cigano do mundo, já que «tinha muita expressividade» e «transformava qualquer gesto que fizesse numa coisa muito hilariante».





Manuel Jorge Marmelo em

«Somos todos um bocado ciganos»

página 122

edição Quetzal, 2012


quinta-feira, 25 de junho de 2026

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Os índios do tarrafal


Filme de Luis Costa com as crianças do projeto Cinema no Bairro de S. João de Deus, Porto 2005.
Produção FadaFilmes - Associação Artística, com o apoio da Fundação FILOS.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A place to be with us


Last two songs from the lp «A place to be with us»
by Gunter Hampel & his Galaxie Dream Band
edited by Birth Records
Birth oo32
1981

5. (No 437) A place to be with us, 14m16s vibes, flute, voice, drums 6. (No 461) Awakening, 2m33s voice, altosax, baritonsax and drums Gunter Hampel vibraphone, bassclarinet, baritonsaxophone Jeanne Lee voice Thomas Keyserling altosaxophone, flute
Martin Bues drums



terça-feira, 16 de junho de 2026

Racismo no almoço de família

Não há um almoço de família em que não ouça uma infâmia:
Na tv passa um sósia do jogador brasileiro Vinicius Junior. O meu cunhado vira-se para o meu outro cunhado e diz: -- Então, a este já se pode chamar mono?
Ao que o outro se ri e diz: -- Acho que sim.
É por isso que me apetece mandar foder esta gente, que infelizmente é a minha gente e esse é o problema, já que os meus pais estão a entrar nos seus 80 e vão precisar de ajuda, a minha mãe é a que menos culpa tem. 
Apetece mas não os posso abandonar.
Esta casa põe-me doente.
Ter de aturar isto porque sou o elefante na sala, o único que se revolta silenciosamente, é a minha cruz.
O mal do mundo começa em casa.
Se eu me tivesse conseguido safar neste mundo, não aturaria isto, teria a minha casa e inventaria desculpas educadas e hipócritas para não vir comer a esta mesa e só voltaria para receber a herança.
Assim, pouco posso fazer a não ser escrever para aliviar o sofrimento, um sofrimento ainda assim pequeno, reconheço, menor do que o daqueles que não tem alojamento ou viram as suas casas bombardeadas ou menor do que o daqueles que não comem pelo menos duas refeições por dia. Sou mais um que sofre, não tanto mas que sofre.
Que me importa que lhe chamem pânico do silêncio? Tenho de sofer e calar? Só porque digo o que não devia ser dito?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Restos mortais

 

Desespero dos sobrinhos -- que no entanto deviam gostar muito dele, visto que depois de se ter despojado de tudo o que lhe pertencia para lho dar a eles, ainda tinham muita paciência com ele -- o senhor Federico Biobin (o tio Fifo) levantava-se ainda de noite e, muito calado, baixinho de estatura, com a cabeça pequenina em forma de pêra lustrosa, calvo até à nuca, com meia dúzia de pêlos ásperos, metade para cada lado, espetados na carinha de rato, punha-se logo a rebuscar a casa, a fazer caretas, a fungar, a soprar, como que para manter o nariz pontiagudo permanentemente treinado na exploração, com os lábios armados daquela meia dúzia de picos; até que a casa inteira acordava sobressaltada, ou por causa do estrondo da queda das panelas na prateleira da cozinha, ou dos caixotes que desabavam desordenadamente no quarto de arrumações. Acorriam todos, uns em camisa, outros em pijama, outros em saia de baixo.

-- Tio, que fizeste? Que aconteceu?

Dava as respostas mais inesperadas:

-- Nada: sinto um fedor a móveis velhos.

Dizia isto como se todo aquele estrondo não tivesse sido provocado por ele, como se nem o tivesse ouvido, como se, plácido e ligeiramente maçado, estivesse a falar do silêncio que reinava anteriormente na casa.

Não deixava passar um dia sem fazer das suas. E o melhor era que aos aborrecimentos que causava, às maçadas que dava, e que punham em franja os nervos dos sobrinhos e das criadas, chamava ele prestar um serviço. Era capaz de passar dias inteiros na cozinha a recortar e tentar colar fitas de papel num vidro partido da porta envidraçada que dava para uma espécie de passadiço, onde uma retrete fedia que tresandava. A cozinheira ficava furiosa.

-- Mas o senhor, que é tão sensível ao mau cheiro dos móveis velhos, não sente o da retrete?

Não, não, aquele não sentia; e continuava a fungar, a soprar, a fazer caretas, na tentativa de colar aquelas fitinhas de papel.

E ei-lo agora lá em baixo no jardim, furioso contra um dos batentes da cancela que, cravada na terra, não queria andar para diante nem para trás. Lívido e com as veias do crânio a rebentar, dava tais puxões que os braços, mal a cancela cedia um pouco, pareciam querer-se despegar do tronco. Os sobrinhos gritavam-lhe das janelas:

-- Acaba lá com isso, tio! Não vês que não se abre?

-- Acabar com isto? Ou a abro ou acabo eu!

Não a abria, nem acabava ele; voltava para cima, todo desconjuntado, num banho de suor, estendendo as pequeninas mãos, reduzidas a mísero estado, para que lhas untassem com azeite e lhes pusessem uma ligadura.

Depois, quando se sentia maçado de cansar a família, saía e ia maçar os que passavam na rua: por exemplo, certos dias em que chovia a potes, gostava de se meter, protegido por um guarda-chuva, debaixo das goteiras, com um ar tão evidente de fazer aquilo para arreliar os outros que eles sentiam a tentação de o arrancar por um braço do encosto da parede. O prazer malévolo que muito lá no fundo experimentava fazia-lhe arreganhar ligeiramente os cantos dos lábios num rechinar quase imperceptível de cãozinho mimoso.

A última foi aquela do guarda-pó cinzento de alpaca, comprado para roupão, quando os sobrinhos, rindo da compra, lhe fizeram notar que era um guarda-pó de viagem.

-- De viagem? Então parto!

-- Partes? Onde vais?

-- A Bérgamo, a casa do Ernesto, despedir-me dele antes que vá para Génova embarcar para a América.

Não houve maneira de o demover daquele capricho de partir sem mais nem menos. Nem a objecção de que a sua visita ao pobre do Ernesto seria mais um gravíssimo estorvo do que um prazer no meio da barafunda em que certamente se encontrava, em vésperas de partir para a América: maior razão. Nem a de que o médico lhe ordenara que se mantivesse tranquilo e não se afadigasse por causa da esclerose cardíaca de que sofria. Queria morrer! O quê? Em Bérgamo? Morrer em Bérgamo enquanto o Ernesto desfazia a casa? Sim senhor, morrer em Bérgamo na casa desfeita.

Partiu com aquele guarda-pó cinzento; e por azar a ameaça daquele perigo, que os sobrinhos de Roma, sem acreditar muito nela, lhe tinham posto na frente dos olhos para o segurar, realizou-se. A notícia fulminante da morte do tio Fifo no mesmo dia em que chegara a Bérgamo quase ia matando também os sobrinhos de Roma pelo facto de, embora sem acreditarem nela, a terem previsto; e por, tendo-a previsto, não acreditaram nela, e terem deixado partir o tio.

Desta última partida pregada aos sobrinhos ausentes e daquela mais dura ainda pregada ao sobrinho de Bérgamo, o tio Fifo, no meio da confusão da casa, toda de pernas para o ar devido à mudança, morto, em cima da cama de ferro com o seu belo guarda-pó cinzento de sob o qual despontavam os dois pequenos pés juntos, mais do que satisfeito, parecia felicíssimo.



...

início do conto «Restos mortais» de Luigi Pirandello

com tradução de Carmen Gonzalez

edição Livros RTP no volume «Contos escolhidos», páginas 45 - 47