Quando trabalhava como empregado de armazém numa fábrica de cartonagem e impressão gráfica e após uma breve experiência marital falhada em Valongo, eu, em vez de voltar destroçado para casa dos meus pais, decidi ir morar para o Porto.
Telefonei a um amigo e ele levou-me as minhas coisas para uma casa comunitária no Marquês, onde elas ficaram alojadas cerca de três semanas. Eu neste intervalo fiquei a dormir numa pensão em Cedofeita tendo pago por este período cerca de cento e cinquenta euros.
Corria o ano de 2011 no mês de Setembro. Arranjei um quarto com acesso a cozinha num apartamento partilhado por 230 euros mensais. O meu salário na altura era o salário mínimo mais subsídio de alimentação, trazia 500 euros, 510 para casa. A taxa de esforço era à volta dos 50%.
Depois, a economia como se sabe contraíu e houve redução de encomendas na fábrica e houve necessidade de despedir trabalhadores. A minha colega tampógrafa foi a primeira a sair e ainda recebeu tudo a que tinha direito. Em Janeiro de 2012 chegou a minha vez. E além de não ter recebido o último salário, ainda fui obrigado a recorrer a justiça laboral para tentar receber os meus direitos laborais. O processo terminou já eu estava no Rendimento Mínimo e a viver num cubículo de 6 metros quadrados pelo qual pagava 100 euros sem recibos mas me dava acesso a uma cozinha, dois anos mais tarde sem nunca ter recebido a indemnização laboral. Corria o ano de 2014. Reformei-me. O meu primeiro valor de reforma foi 249 euros.
Vivi até 2021 no Porto em alojamentos precários e nunca tive um contrato de arrendamento.
Porque o preço dos quartos começou a disparar e já nem posso falar em poder auferir uma casa em vez de um quarto, fui obrigado a voltar de vez para casa dos meus pais. Tenho hoje 53 anos.
Apoio por isso as manifestações pelo direito e acesso à habitação, que por este dias decorrem no Porto e já se estendem a Lisboa e outras cidades.
Vejo nestes jovens que lutam por um futuro, o futuro que eu tentei construir durante dez anos no Porto. Eu não consegui ficar a morar no Porto. Mas se calhar não lutei o suficiente.
Que estes jovens o consigam com a sua luta.
O direito a uma habitação digna está na Constituição. A Constituição tem de se cumprir,






