sexta-feira, 18 de setembro de 2026

This is the illusion record

 https://archive.org/details/irabcdjol18



IRABCDJOL 18

01: A bird told me
02: Agora na verdade não já não
03: Sobre mim os galos
04: Restos mortais
05: A lavadeira e o construtor
06: Corpos esquisitos
07: Blues para acordar bem
08: Em boa voz igual a vós


Track 01 is an old field recording from 2002 that I overdubbed with harmonica.

Track 02 is a sound experience where I overlap two tracks which where slowed down in pitch, in order to create a eerie sense. The name of the track is taken from a line in a Mark Fisher’s book.

Track 03 is a mix of concrete sounds with bird sounds to which a flute responds.

Track 04 is a beat playing along flute, harmonica and a field recording. The title refers to the name of short tale by Luigi Pirandello.

Track 05 was improvised and recorded to a cell phone and sent in 2021 to Rádio Paralelo online to meet a Casa da Achada’s challenge.

This is the illusion record

ZMB 2026





domingo, 6 de setembro de 2026

Cigarros triplos

 

Daniël só fumava três, no máximo quatro dias por semana, mas nesses dias fumava desalmadamente de manhã à noite, a bem dizer um cigarro atrás do outro, e eram os cigarros mais compridos que já vi.

Na primeira semana de cada mês, encomendava sem falta no economato sete maços de cigarros Louis Doize extra légères, sans filtre e três livrinhos de mortalhas Riz-la-Croix automatique, gommé.

Tinha por hábito usar as mortalhas para enrolar cigarros triplos, que guardava cuidadosamente numa caixa achatada de pincéis, lacada a vermelho e com um dragão chinês desenhado a dourado, que levava para todo o lado como um precioso presente.

Fumava esses cigarros incrivelmente compridos sem a menor ostentação. Sentava-se calma e discretamente no seu cantinho habitual à mesa e bafejava, com dedicação, quase recolhimento, cadenciadas nuvenz azuis de fumo à sua frente, como um impertubável árabe junto ao seu cachimbo de água a meditar em silêncio sobre a insondável sabedoria de Alá.

Nada no rosto ascético de Daniël revelava a menor emoção ou satisfação ao fumar. Apenas os seus olhos adquiriam um brilho oleoso, como o olhar estático de um epiléptico no início de uma crise.

Punha-me muitas vezes a observá-lo à distância, mas ele parecia não notar qualquer presença na sala superlotada. Às vezes, os seus gestos comedidos e ritualísticos faziam lembrar o vagaroso cerimonial de um sumo sacerdote, de brocado e dedos carregados de anéis, a balançar o incensário, e cujos pensamentos se elevam com as lufadas de fumo para regiões mais celestes.

Depois do pequeno-almoço, um guarda dava a Daniël lume para o seu primeiro cigarro, sem que este precisasse de o pedir. O guarda era um iniciado no ritual. Na sua farda branca, ficava plantado à saída do refeitório como um menino de coro e sacava automaticamente a caixa de fósforos do bolso.

A partir desse momento, Daniël iniciava a sua maratona mensal de fumo de três dias, por vezes quatro. Colocava a caixa de pincéis com a reserva preparada como um pequeno tabernáculo na mesa à sua frente e fumava sem inalar os seus cigarros de triplo comprimento. Com o dedo amarelado, sacudia cuidadosamente a cinza para uma saboneteira de lata ao lado da caixa de pincéis e usava sempre a beata para acender cada novo cigarro extralongo. Nunca vi uma demonstração mais completa de fumar em cadeia. Era um perpetuum mobile, interrompido apenas pelas refeições e pelo descanso nocturno. Após cada inevitável interrupção, o guarda dava-lhe silenciosamente de novo lume e Daniël prosseguia silenciosamente a sua maratona.


Roger Van de Velde em

«Crânios crepitantes», páginas 33 - 34

tradução de Judite Berkemeier

edição VS