segunda-feira, 8 de junho de 2026

Às vezes on às vezes off eu prefiro o estado de ov

 

O ritual envolve escrever no fundamental café por alturas de novembro de dois mil duzentos e vinte e três um poema psicótico a um poeta da revolução que justifica alguma solidariedade embora tão diferente seja dele. Ele é, acredita ser, escreve como irmão dos deuses, como abençoado por zaratustra, escreve que despreza o rebanho, o que toda a gente chama o povinho e a vidinha mas no fundo ele quer ser o profeta de um rebanho, «alguém que me siga». Mesmo que goste do romantismo desta poesia porque o hei-de seguir?, ele que se acha acima dos outros, e eu caio sempre na realidade de ser um carneiro pois nunca pertencerei a uma elite da revolução, nunca quererei ser poeta, digo: nem ditadura do poeta nem ditadura do burocrata nem ditadura do proletariado nem mesmo ditadura do louco, eu na verdade imagino-me pintor operário subindo as ravinas fluviais de derza, nunca pertencerei à elite porque não me sujeito à instrumentalização da palmadinha nas costas nem tenho habilitações, digo-te antónio pedro ribeiro que se me elevam aos píncaros, se me tratam como um mestre na fase de negociação deixo de ser amigo ou ter currículo a partir do momento em que assino um contrato, botam defeito em tudo, querem que eu roube modelos na internet porque não confiam no meu valor, digo-te que eles atiram dez euros para cima da mesa e dizem no seu capitalismo de esquerda, de imobiliária maçónica com vistas de um milhão de euros e recitando o livro dos morons ou a bíblia sagradíssima: pensas que te ando a sustentar?, não sabes trabalhar, baza! A verdade meu amigo ribeiro é que os dogmas se ajustam à cor do dinheiro ou à falta dele, ora… salvamo-nos os dois porque cada um à sua maneira sente as prostitutas. A daniela trata-me bem, nunca ninguém me trata com tanta honestidade, explica-me porque não beija na boca, dá-me aliás dicas que revelam muito do que também ela vê em mim, diz-me que devia fazer ioga.

Antes ou depois do crash, escrevo sem roaming uma mensagem a uma prima por afinidade e, quando lhe estrago a performance, ela expulsa-me com a ajuda do agente de autoridade de serviço e diz: paneleiro de merda. Lógico! Um insulto de boca não fica registado e, se no futuro levar uma facada, perante um juiz ela dirá: eu não sei porque ele me fez isso, parecia simpático, até gostava dele, só mesmo um doente, um maluco… senhor juiz. Existe uma diferença entre ser puta e prostituta, ela poderia dizer.

Como o outro numa palestra: o homem não descende do macaco mas há homens mais macacos que o próprio macaco. Mas digo eu: também há putas que não se acham putas só porque pertencem à elites opositoras que se tornarão secular instituição, outras há que querem os direitos do século vinte e três mas o sustento do marido do século dezanove. E quando conseguem garantir o sustento sem o homem, começam a não precisar dele para nada e as mais abastadas já nem para gerar um bebé precisam e o homem vê tudo isto e já não compreende nem ninguém lhe ensinou nem ele quis aprender. Vira-se para a pornografia online ou recorre à boneca vinda da china, é a saída mais fácil, é fácil virar fascista, é só não querer admitir o erro de acção e achar-se vítima das circunstâncias, é pensar que se é superior às circunstâncias e que tem de haver «uma lei para mim e uma lei para o outro», esse inimigo que lhe diz «ao menos que ficasses com a piroca entalada, hemos pena».

Noutras eras antes de se definir a palavra, o fascismo chamava-se desejo de poder absoluto, hoje ele é um transformista mistificado de social mas só há almoços grátis para os amigos, e eu amigos só tive aqueles que bateram à porta por necessidade pessoal, pareço ter cara de endinheirado. Amigas? Perdi oportunidades de continuar a ser um objecto, elas adoram o diabo, têm mesmo medo dele, elas odeiam o diabo, sujeitam-no à indiferença porque ele não quer ser adorado e foge como um bicho-do-mato da adoração de quem sistematicamente diz: «você é o futuro mas não gosto do seu casaco. A sua imagem… você deve, olhe, eu conheço quem possa…»

Dedico-me apenas a reprimir o meu pensamento porque ele acaba sempre por acontecer com nuances, dedico-me a decifrar a explosão de gatafunhos e a transcrever estilhaços de bala dizendo que a medicina não compreende, a religião is evol love, o que eu preciso mesmo agora é de exercitar a função do orgasmo. A seguir, assusto-me com o cabide dos casacos, vejo nele uma bruxa de negro mas logo a confiança erótica chega, executo movimentos de cavalgadura numa égua imaginária et voila mijo-me na camarata. Satisfeito o desejo durmo como um anjinho, no dia seguinte ponho um boné e vou ver as notícias da guerra, quirossá roubô cambiô hodjê, porque quem nunca te roubou um beijo que atire a primeira pedra, não nasci em croatan mas croatan nasceu em mim, faço kuduro pru mundo.

Psicoticamente tudo o que às vezes penso e nem sempre escrevo, tudo o que às vezes escrevo e esqueço durante anos, psicoticamente tudo é passível de implicitamente ser imediatamente interpretado ou até indirectamente comentado, julgado e, após detalhada análise, atentamente jogado para aquela secção da base de dados intitulada «sem imagem comercial», ou seja, eu não deixo conscientemente que a instituição me explore, é preciso que eu tenha vontade de me deixar ser escravo e vestir a camisola que me ofereçam, no entanto preciso de trabalho, sou ganzómano e por isso não posso apenas descrever, tenho de algum modo reinterpretar e, com as especiarias a que tenho acesso, tenho de à minha maneira cozinhar a paz que me vai ordenando o caos, o meu estômago. A substância, que me conforta há muito tempo, deixou de ser uma grande diversão para ser um substituto de um modo de vida normal, uma sentença de futura incapacidade mas eu luto… luto por trabalho todos os dias para me bastar, para não ser comentado como um cancro social, uma metáfora que se fosse verdadeira oferecer-me-ia todos os dias por volta das quatro da tarde na sala de visitas do hospital qualquer extravagância como presente e desejos de boa recuperação mas… o meu modo de vida, a minha dádiva, o meu diagnóstico, a minha sentença: drogado mental sem sentimentos e sem pessoas verdadeiras à sua volta, posso esquecer os charutos havanos de chocolate «mon chérie para as tuas melhoras meu darling e para deixares de fumar faz-te tanto mal à saúde»… eu queria tanto ser auto-suficiente e não necessitar de emprego, de caridade miséria falsas oportunidades, trabalho eu luto por todos os dias, a toda hora e consumo o meu ser fumando o pensamento de um novo e futuro falhanço ao qual concorro enviando o meu currículo profissional. Adormeço pensando que fiz a minha tarefa de lutar. Ao acordar, a repetição volta, o sol inicia de novo a luta, eu fumo mais um porque continuo sem rendimento ao fim do dia e o dia só agora começou e já estou a pagar imposto…

Ao passar na damrak vejo num armazém um anúncio pedindo empregados, fico interessado e entro, dirijo-me ao balcão, apresento-me e dizem-me para voltar daí a um mês. Ok, agradeço e volto à rua sabendo que talvez não voltarei lá e, olhando a sujidade nas minhas calças, penso no que a minha mãe uma vez me disse, ela uma voz anónima do povo em ditadura: nunca descures tua imagem. Às vezes dizia-me isso e eu ficava a pensar: mas quem é pobre pode andar asseado, arranjado?, ao que ela respondia: podes ser pobre mas fazer por não parecer. Ao que parece a higiene pagará todas as promessas mas… entre mim e a higiene há toda uma luta de classes e eu tenho algumas dúvidas de que queira ser manager ou até formar um partido lóbi. Sou assim: às vezes on às vezes off eu prefiro o estado de ov, um germe eternamente gerado e sempre pronto a renascer para um novo mundo numa nova ponte, quantas vezes já não mudei de vida?, tentar pelo menos. O cínico poderia dizer «às vezes ainda me ofereceram camisolas» mas o hobo diz «nunca tive estabilidade nem ilusões, apenas sonhos, tenho de me adaptar ao mundo mas o mundo quer que eu deixe de ser eu», para ser ele — o mundo que rende juros ao gestor de activos; para ser com ela — a munda, a mãe levando o pequeno-almoço à cama ou a mulher «faca e alguidar» com jantar romântico no dia de anos.

No fundo, minha mãe leva-me a deduzir a simulação futura, a intoxicação com um copo de água e talvez, agora é capaz de ser já um pouco tarde… um louco é-o muitas vezes por repressão ou impossibilidade de descarga sexual, farto de não ter alguma toura como parceira sexual, simula o amplexo na sua imaginação e usa as suas duas mãos em si próprio, sente-se senhor anarca monarca absoluto pondo e dispondo de si próprio, dizendo até que não precisa de gadja, que se basta a si mesmo. Porque não acredito em desequilíbrios químicos genéticos e tão só em espíritos que incubam no futuro em crianças da lua, às vezes o louco ou o joker joga contra si próprio, chega mesmo a escrever coisas reaccionárias, frases como: já não acredito na anarquia, na guerrilha criativa, eu nem sequer encontro uma gaja interessante, quanto mais mudar o mundo, a guerrilha significa spam, noise informativo, gosto de informação estruturada, organizada, não gosto do noise quântico da web.

Dito isto, nego tudo o que escrevi desde o último dois pontos. Há sempre alguém a processar a informação que me chega. A verdade é que ainda não cheguei ao nível necessário de conhecimento para eu próprio poder organizar o meu dia-a-dia, o excesso de informação que ainda não consigo processar convenientemente, sou um hobo ficando sem dinheiro a cada pacote de bolachas que compro, a cada grama de thc que compro e, claro, eu… dizem para eu voltar daqui a um mês porque vêem o modo como estou vestido, vêem que estou de passagem, um turista momentâneo, suado e com as calças manchadas, alguém que não estará aqui por muito mais tempo.



domingo, 7 de junho de 2026

Porto Amsterdão

 

 

Saio do Porto directo a Amesterdão no dia 18. Partimos às nove horas da praça da galiza. Paramos em lourosa, são joão da madeira, viseu, mangualde, celorico da beira, vilar formoso. Demoramos cinco horas a chegar à fronteira. Terreno acidentado a subir desde o porto a vilar formoso. Já em território espanhol tudo é diferente. Sempre em frente. Vamos descendo suavemente o planalto sempre em linha recta. Passamos ciudad rodrigo, salamanca, valladolid e, três horas depois, paramos num centro de camionagem com restaurante a cinquenta quilómetros de burgos. Café solo a um euro e vinte cêntimos e mudança de camioneta. E então começa o temporal.

Quando voltamos ao asfalto, recordo como se fosse hoje que desta cidade sobrevive meio desfeito um cinzeiro verde surripiado de um bar com papagaios, no retorno de uma excursão ao país do badminton, onde ouço discos pedidos numa jukebox, onde se come picanha às três da manhã, onde a mulher que me fascina no momento olha para mim, enquanto dedos femininos lhe acariciam o cabelo negro e procuram com indiferença o elemento que parece faltar para um ménage. Vejo que contribuo para que a foda deles não se concretize, ele não consegue porque ela «se apaixona» por mim e eu inocente ou burrinho não quero trair a maria cá do meu bairro.

Ah!, que emigrante prefere esgalhar o pessegueiro em vez da real narsa apanhar… como vingança ele puxa-me pelos cabelos na camioneta e eu, embriagado com a vitória desportiva e guardando o vinho rasca, predigo que no futuro te espetarei com uma prisca nos olhos tendo a promessa de levar no couro e cambalear mas não cair e vencer o combate por exaustão do adversário. Às vezes. ganho apenas porque o oponente desiste de bater e de ganhar sustento e alegria com isso.

Quanto a ela, se já não me recordo do seu nome, recordo que lhe tirei uma foto porque ela, de cabelos encaracolados negros e de óculos redondos, parecia o slash dos guns n roses, parecia uma rock star e por isso levanto-me para celebrar, vou até à jukebox e procuro «estranged« para me lembrar da ilusão quando às vezes falo para os meus botões e ninguém responde, é fácil enganar-me e pensar que apareci no mundo sozinho. Ninguém me ensinou o beabá ou não gostei dos modos de quem mo tentou ensinar, decidirei terminar a minha conta bancária, a primeira desde pequenino.

Preciso de deduzir todas as outras razões para continuar a ter de dar o salto de modo a descobrir o meu caminho. Sei que és a minha sombra, sei que nunca encontrarei ninguém que te substitua. Também não o quero, reservo o que resta do meu coração para uma nova amora, alguém diferente. Dar o salto e repeti-lo até que encontre o meu verdadeiro lar. Talvez seja este o modo de quebrar o medo para que não haja um ponto de retorno. No meio do silvado, na borda da linha não se vê uma sapatilha a dizer o meu nome de estrela, apenas o silêncio dos grilos e a aparência de uma fé perdida, a minha estrela no céu enlameado. Mas fumando a lenda podia eu com muita fantasia dizer como axl noutra canção: I used to love her but I had to kill her. Uma morte dentro do meu coração. Se e quando as autoridades acharem necessário, os ficheiros em papel aparecerão.

São dezanove horas e estamos a duzentos quilómetros de madrid e a uns cem de território basco. À meia-noite, por aí não me recordo bem, chegamos a bilbau. É pena ser noite. Só se vêem luzes a recortar a baía, a nuvem está algures, a auto-estrada mais elevada que certos andares de cinco pisos, vamos descendo em curvas com saídas para a direita e sinais de trânsito ao centro até à estação de camionetas. Novos passageiros agora e ainda bem porque me canso de ouvir falar mal do país. Mas voltam sempre, agosto é deles. Gostaria de ver bilbau de dia. Talvez no regresso. Tempestade até território francês.

Às duas e meia da manhã, paramos numa auto-route e aproveito a oportunidade para comprar por três euros e noventa uma sandes de atum, ovo e delícias. Não consigo dormir ou durmo por alguns minutos nos solavancos da cadeira. Tento diversas posições. Às cinco, paramos pela segunda vez em território francês, é o início da alvorada. Vejo um mapa da michelin por dez euros, sempre gostei de cartografia, sei também que o mapa não define o território e penso que seria uma boa compra para oferecer mais tarde. Mas como recordo que há prendas que não chegam com recepção comprovada ao destino e às vezes são devolvidas, para já não quero gastar dinheiro desnecessariamente. Do mal o menor, compro lâminas de barbear para toda a estação.

Se portugal é acidentado, espanha uma linha recta até às montanhas que iniciam o território basco com túneis atrás de túneis e depois nova linha recta até à fronteira, a frança de manhãzinha até às nove, nove e meia é a alvorada graciosa. Paramos e eu peço um express double que me custa dois euros e quarenta, vejo os jornais e mais uma vez me contenho de riso com um periódico com caricaturas onde se podem ver os primeiros-ministros europeus, os ditos de rebeldes do hezbollah e hamas e onde não se pode ler muito sobre as atrocidades de israel. Tusso ao fumar o primeiro cigarro amber leaf às nove, nove e meia da manhã, os motoristas dizem qualquer coisa em espanhol mas o meu espanhol não é bom e no comprendo. Atravessamos paris em direcção a norte e aqui chega a desgraça, uma avaria deixa-nos parados ao sol na berma até às duas e meia da tarde em saint quentin a cem quilómetros de lille. Paramos por meia hora para almoçar e arrancamos às três e meia da tarde na direcção de lille, bruxelas e tendo a holanda como destino final de trabalho numa qualquer estufa de flores ou tomates.

Entramos em gent e seguimos em direcção ao ring de antuérpia. Outra cidade a visitar. Às cinco e meia entramos em antuérpia. Avançamos e entramos finalmente em território holandês. Paramos para descarregar um passageiro em breda quase às sete da tarde. Como a paisagem se alterou. Breda tem canais de água, tem pistas de bicicleta, tem árvores, tem casas de tijolo burro. É bonito. Roterdão é fantástica. Falta-me a máquina fotográfica. Sete e quarenta e cinco. Praias com belas mulheres no meio da cidade, o jardim como praia e o tgv correndo em paralelo, o fim de tarde a ouvir os sucessos da pop numa rádio holandesa.

Chegamos a amesterdão às oito e meia, menos cinco mais cinco e o meu contacto não aparece. Ele falara-me numa carrinha mitsubishi mas como chegamos com atraso… eu até vejo um furgão branco mas do homem só lhe conheço o telemóvel. Estou pendurado com um saco que pesa dez quilos e um calor abafado, mais abafado que em portugal. Tento o número e sinaliza inválido por falta de roaming, a cabine pública só funciona a cartão pré-comprado. Nove horas em amstel, estação de camionetas, autocarros, comboios e quem sabe o que mais em ligações ao aeroporto, eu acho que passamos num túnel bem por debaixo da pista de descolagem. Uso o meu melhor inglês aflito, peço a um jovem e ele tira-me um bilhete para central station onde chego às nove e um quarto.



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Propaganda e realidade

 Descobri mais um chegano nesta terra de filhos de puta.

Acção: Bloquear.

Até não haver mais sítio onde ir e nos dissolvermos na nossa insignificância por não sermos capazes de vislumbrar uma alternativa social.

Voltar a Tintus Rios foi em certa medida um erro,

mas ninguém me disponibilizou habitação que eu pudesse pagar em Timbuktu,

por isso não tive qualquer hipótese. Isso ou ir morar debaixo da ponte quando o dia do despejo chegasse.

Claro que podias chamar O correio da manha, apareciam logo muitas almas com propostas para te ajudar...

Mas, como diz aquele que não quer revelar as suas mágoas a quem lhe pergunta: -- Nunca pior.

Ou como diz o Mintonegro O país está melhor.

Porém, acontece ouvir: -- O governo prometeu em Março um apoio para a gasolina e estamos em Junho e o apoio ainda não chegou, nem sequer foi promulgado, foi apenas apresentado em conferência de imprensa como propaganda em Março. 

É na propaganda que o governo-sombra do primeiro-ministro Benturra mais trabalha.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Tuíte Ironia da biografia

Há semanas li a biografia de um amigo poeta que faleceu e, agora, ao pensar em certas coisas lembrei-me: a irmã do poeta a dizer A nossa mãe deu-lhe uma casa e ele até as cortinas que eu lhe dei ele vendeu [para a droga].

Mas a irmã esqueceu-se dizer que a casa que a mãe lhe deu não era igual à dela, não tinha casa de banho. Mas o problema foi as cortinas vendidas.

Dá que pensar nos que nos sobrevivem.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Marion Brown vezes dois,

 

  para afastar o orgulho sorrateiro de quem ri e diz que o país está melhor e quer que se acredite nisso como uma fé, mas uma fé que não paga as contas nem tão pouco alivia e isso o Mintonegro não diz, apenas ilude.


domingo, 24 de maio de 2026

-- Se tens desejos e necessidades tens de trabalhar. Se não trabalhares, ou seja, se não te faltar nada, tornas-te preguiçoso.

 boa tarde, amig@

lembrei-me de escrever porque vi hoje no JN uma notícia sobre abusos sexuais, amputações e violência em reality shows transmitidos na tv por essa europa fora.
Tu disseste-me na última conversa que eu te tinha dito que eu via o mundo como um reality show.
Eu não sei se disse isso mesmo ou se tu deduziste das minhas palavras. mas estás cert@! eu escrevi em algum lado o termo freak show, para sublinhar a realidade do mundo e das notícias na comunicação e redes sociais, onde qualquer conteúdo, qualquer ideia, qualquer facto é amplificado, distorcido e enviesado e posto como propaganda ao serviço de qualquer destino que nunca é bem explicado, muitas vezes é ruído e caos outras vezes é ideológico.

O capitalismo apropriou-se da ideia do livro 1984 do Orwell e criou o reality show big brother, foi aí que a loucura entrou, e tudo foi apropriado e tornado público e visto por milhões, e quanto mais obsceno melhor para que choque que indigne que faça as pessoas saírem da sua privacidade e se manifestarem e gerarem cliques em anúncios publicitários e audiências cada vez maiores, e chegámos ao ponto de tudo, mesmo o mais nojento, ser passível de ser vendido ou descartado pelo povo que agora é o público que vota segundo a propaganda que escuta.
Esta é a loucura actual do mundo, as pessoas parecem baratas tontas à procura da aprovação do vizinho e da sociedade e do patrão. As pessoas estão a enlouquecer e a ficar paranóicas.

Quando uma pessoa quebra a unidade da sua mente, e o mundo lhe parece um espectáculo de televisão, onde há vários eus confinados a interagir, a ser confessados e avaliados pela audiência, que são as pessoas que connosco se cruzam na rua.

Eu recordo que quando senti que o mundo estava contra mim e a infligir-me terrorismo psicológico e a espiar-me, eu sentava-me ao computador e escrevia no ficheiro de texto qualquer frase ambígua, obscena, brutal para confundir quem lesse, porque eu pensava que o meu ficheiro Word estava a ser lido em tempo real. Ria-me no fim e saía à rua para observar a reacção das pessoas. Vi caras sérias que me diziam telepáticamente És um fdp. Outros riam apenas e eu ria também.
E nestes loops andava eu, a ansiedade a crescer, a alienação a rugir até à completa despersonalização que é a expulsão do mundo para entrar num novo reality show chamado Hospital.

Cada vez há mais pessoas a ficarem doentes, dois milhões de portugueses consomem antidepressivos, anti psicóticos e ansiolíticos. 
Tem de haver uma saída para fora deste mundo que nos diz: -- Se tens desejos e necessidades tens de trabalhar. Se não trabalhares, ou seja, se não te faltar nada, tornas-te preguiçoso.