quinta-feira, 9 de julho de 2026

Pescaroa

 


A mulher é uma ganza.

A ganza é uma mulher.

Uma pescaria boa até mais não.

sábado, 4 de julho de 2026

Injectável

 


Na realidade,

o injectável era aplicado no músculo da nádega

e não no braço,

também não era na farmácia,

era comprado na farmácia e aplicado no hospital

todos os quinze dias.


depois disse à doutora que não podia faltar uma manhã todos os quinze dias ao trabalho

e ela passou a medicação para comprimidos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A magia do circo

 Parece que o meu avô, ele sim, era um palhaço como deve ser. O Voltan até costuma dizer que, para voltar a ser uma coisa a sério, o Grande Circo Romani precisava de um palhaço como o velho Bufo, o inimitável Bufo, que fazia um número «meio acriançado», mas que era um sucesso tremendo.

O Grande Bufo fazia de conta que era um palhaço órfão e, a dada altura, apontava para o público, indicava uma pessoa qualquer e gritava: Papá! Depois, sem parar de apontar, avançava para o escolhido com uma felicidade exagerada e os passos largos dos enormes sapatões (acho que eram os mesmos que o Lima ainda usa, amarelos e com a sola a separar-se do resto), e as pessoas já não paravam mais de se rir, sobretudo quando ele se sentava em cima do colo de alguma das pessoas da assistência, normalmente um homem baixinho e careca e com o ar mais inocente e atrapalhado do mundo.

Depois daquilo de encontrar o pai, o número do meu avô tinha ainda um segundo «momento alto», que era quando ele levantava a perna como se fosse dar um traque e atirava um esguicho de pó-de-talco para cima das pessoas.

«Punha toda a gente a rir, o diabo do homem. As senhoras ainda punham aquele ar meio enojado, mas riam a bom rir, até lhes doer a barriga ou fazerem nas calcinhas. Era um pândego.»

Parece que o truque do meu avô consistia num depósito onde o pó ficava guardado, numa espécie de pequeno fole que levava na barriga, e num tubo que ficava preso aos fundilhos das calças. Ele voltava as costas para o público, dobrava-se, alçava a perna, apertava o fole e saía-lhe uma nuvem branca pelo traseiro.

O Voltan também diz que já não há palhaços como o Grande Bufo e que, se ele não era o melhor palhaço do mundo, era, quase de certeza, o melhor palhaço cigano do mundo, já que «tinha muita expressividade» e «transformava qualquer gesto que fizesse numa coisa muito hilariante».





Manuel Jorge Marmelo em

«Somos todos um bocado ciganos»

página 122

edição Quetzal, 2012


quinta-feira, 25 de junho de 2026

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Os índios do tarrafal


Filme de Luis Costa com as crianças do projeto Cinema no Bairro de S. João de Deus, Porto 2005.
Produção FadaFilmes - Associação Artística, com o apoio da Fundação FILOS.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A place to be with us


Last two songs from the lp «A place to be with us»
by Gunter Hampel & his Galaxie Dream Band
edited by Birth Records
Birth oo32
1981

5. (No 437) A place to be with us, 14m16s vibes, flute, voice, drums 6. (No 461) Awakening, 2m33s voice, altosax, baritonsax and drums Gunter Hampel vibraphone, bassclarinet, baritonsaxophone Jeanne Lee voice Thomas Keyserling altosaxophone, flute
Martin Bues drums



terça-feira, 16 de junho de 2026

Racismo no almoço de família

Não há um almoço de família em que não ouça uma infâmia:
Na tv passa um sósia do jogador brasileiro Vinicius Junior. O meu cunhado vira-se para o meu outro cunhado e diz: -- Então, a este já se pode chamar mono?
Ao que o outro se ri e diz: -- Acho que sim.
É por isso que me apetece mandar foder esta gente, que infelizmente é a minha gente e esse é o problema, já que os meus pais estão a entrar nos seus 80 e vão precisar de ajuda, a minha mãe é a que menos culpa tem. 
Apetece mas não os posso abandonar.
Esta casa põe-me doente.
Ter de aturar isto porque sou o elefante na sala, o único que se revolta silenciosamente, é a minha cruz.
O mal do mundo começa em casa.
Se eu me tivesse conseguido safar neste mundo, não aturaria isto, teria a minha casa e inventaria desculpas educadas e hipócritas para não vir comer a esta mesa e só voltaria para receber a herança.
Assim, pouco posso fazer a não ser escrever para aliviar o sofrimento, um sofrimento ainda assim pequeno, reconheço, menor do que o daqueles que não tem alojamento ou viram as suas casas bombardeadas ou menor do que o daqueles que não comem pelo menos duas refeições por dia. Sou mais um que sofre, não tanto mas que sofre.
Que me importa que lhe chamem pânico do silêncio? Tenho de sofer e calar? Só porque digo o que não devia ser dito?