domingo, 6 de setembro de 2026

Cigarros triplos

 

Daniël só fumava três, no máximo quatro dias por semana, mas nesses dias fumava desalmadamente de manhã à noite, a bem dizer um cigarro atrás do outro, e eram os cigarros mais compridos que já vi.

Na primeira semana de cada mês, encomendava sem falta no economato sete maços de cigarros Louis Doize extra légères, sans filtre e três livrinhos de mortalhas Riz-la-Croix automatique, gommé.

Tinha por hábito usar as mortalhas para enrolar cigarros triplos, que guardava cuidadosamente numa caixa achatada de pincéis, lacada a vermelho e com um dragão chinês desenhado a dourado, que levava para todo o lado como um precioso presente.

Fumava esses cigarros incrivelmente compridos sem a menor ostentação. Sentava-se calma e discretamente no seu cantinho habitual à mesa e bafejava, com dedicação, quase recolhimento, cadenciadas nuvenz azuis de fumo à sua frente, como um impertubável árabe junto ao seu cachimbo de água a meditar em silêncio sobre a insondável sabedoria de Alá.

Nada no rosto ascético de Daniël revelava a menor emoção ou satisfação ao fumar. Apenas os seus olhos adquiriam um brilho oleoso, como o olhar estático de um epiléptico no início de uma crise.

Punha-me muitas vezes a observá-lo à distância, mas ele parecia não notar qualquer presença na sala superlotada. Às vezes, os seus gestos comedidos e ritualísticos faziam lembrar o vagaroso cerimonial de um sumo sacerdote, de brocado e dedos carregados de anéis, a balançar o incensário, e cujos pensamentos se elevam com as lufadas de fumo para regiões mais celestes.

Depois do pequeno-almoço, um guarda dava a Daniël lume para o seu primeiro cigarro, sem que este precisasse de o pedir. O guarda era um iniciado no ritual. Na sua farda branca, ficava plantado à saída do refeitório como um menino de coro e sacava automaticamente a caixa de fósforos do bolso.

A partir desse momento, Daniël iniciava a sua maratona mensal de fumo de três dias, por vezes quatro. Colocava a caixa de pincéis com a reserva preparada como um pequeno tabernáculo na mesa à sua frente e fumava sem inalar os seus cigarros de triplo comprimento. Com o dedo amarelado, sacudia cuidadosamente a cinza para uma saboneteira de lata ao lado da caixa de pincéis e usava sempre a beata para acender cada novo cigarro extralongo. Nunca vi uma demonstração mais completa de fumar em cadeia. Era um perpetuum mobile, interrompido apenas pelas refeições e pelo descanso nocturno. Após cada inevitável interrupção, o guarda dava-lhe silenciosamente de novo lume e Daniël prosseguia silenciosamente a sua maratona.


Roger Van de Velde em

«Crânios crepitantes», páginas 33 - 34

tradução de Judite Berkemeier

edição VS

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

«Coisas» dos Ornatos Violeta


Leva qualquer eu a meu dia Dá-me paz eu só quero estar bem Foi só mais um quarto uma cama No meu sonho era tudo o que eu queria Quando alguém deixar de viver aqui Espera que ao voltar seja para ti Nada vai ser fácil Nunca foi Quando alguém deixar de te dar amor Pensa que há quem viva do teu calor Hoje é só um dia e vai voltar Amanhã E não foi assim que o tempo nos fez E fez assim com todos nós E não foi assim que a razão nos amou E fez assim com todos nós São coisas São coisas São só coisas São coisas Se uma voz nos diz que é viver em vão P'ra que raio fiz eu esta canção E se o fim é certo Eu quero estar cá Amanhã E não foi assim que o tempo nos fez E fez assim com todos nós E não foi assim que a razão nos amou E fez assim com todos nós São coisas São coisas São só coisas São coisas Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver 
Eu estou quase a viver 


sábado, 29 de agosto de 2026

Crónica de um retirado

 


é quase verdade: beber e fazer barcos de papel
nada mau
e logo num mundo onde há quem não coma duas refeições num dia,
onde há quem tenha sido despejado de casa ou visto a sua casa ser bombardeada,
onde uma mãe chora o filho assassinado na prisão,
onde um pai descobriu que a sua filha foi violada...
comparar os meus problemas com os problemas das pessoas comuns é verificar que 
tive mais sorte do que muitos.
Ah, o meu pai tem ideias que eu não gosto!, diz o id.
O superego diz: E aqueles que nunca souberam o que era um pai?
A minha mãe flutua e tudo esquece...
Sim, mas ainda é presidente de uma associação de caridade. Ajuda-a!
O que me custa a aceitar é que ela me faz lembrar o salazar que caiu da cadeira, ele pensava que governava e eram os ajudantes que faziam tudo.
O superego contrapõe: mas fazer guerra com os próprios pais? Se não fossem eles hoje eras sem-abrigo.
O que eu queria é impossível: mudar o meu pai, atrasar a degenerescência do cérebro da minha mãe. Preferiria ir antes deles.



sábado, 15 de agosto de 2026

Ahmed Abdul Malik - Don't Blame Me

 


Ahmed Abdul-Malik - bass, oud Tommy Turrentine - trumpet Eric Dixon - tenor saxophone Bilal Abdurrahman - clarinet, percussion, Korean reed instrument Andrew Cyrille - drums Calo Scott - Cello, violin Recorded May 23, 1961