quinta-feira, 23 de maio de 2019

Eu sou santinha mas não obro milagre, a santa é de barro, eh pá, deixa de ser mal-educado

-- Então, vamos lá falar das nossas amigas... 
-- Que nossas amigas? 
-- Das nossas amigas do bar. 
-- Que bar? 
-- ihihih sabes que a própria empregada estava a fazer-te olhinhos! 
-- Quem? 
-- Esta nova empregada... 
-- Ãaaa... 
-- Também te perguntou «que música quer ouvir?» 
-- Eh pá, tu és do piorio... 
-- E depois à saída saudou-te tchau beijinhos... 
-- Eu não vi nada... 
-- E eu também saudei e disse tchau para ela mas ela fez uma cara... 
-- Ahahah! Mas pronto, tás curtindo com minha cara, é?, tu estás inventando coisas... 
-- Ora, eu estou a dizer a verdade... 
-- A verdade é que ela me veio perguntar qual era a música que eu queria e eu disse «por mim tá tudo bem», depois eu podia querer uma música que ela não tinha... 
-- Ela iria procurar. 
-- É verdade eu gosto daquela música «eu só quero é ser feliz», põe essa música, anda lá, «morar tranquilamente na favela onde eu nasci», bom, eu não nasci em favela mas gosto do povo que mora lá, morro do dendé. Parece que naquele dia eu estava muito concorrida. 
-- É, estavas. 
-- Eu imagino se ele me visse lá ihihih eu ia cagar de tanto rir. 
-- É, se fosse um homem saltava-lhe a tampa mas se visse que era uma mulher saltavam-lhe duas tampas. 
-- Ihihih... 
-- Vamos lá contar a história outra vez, conta lá do teu ponto de vista, faz o filme, o resumo. 
-- Eu faço o filme verdadeiro. 
-- É isso, conta os pormenores à tua maneira, conta a verdade. 
-- Bom, nós estávamos no bar, eu «santinha muito sossegadinha no meu canto né», estou ali com a minha cerveja... portanto, o meu colega aqui do lado, que se chama Rui, estava todo empolgado, parecia que tinha visto passarinho verde, todo risonho prá gaja, foi assim que eu vi o filme, todo risonho todo empolgadão, de repentemente ela tem assim um pití no cérebro e me diz que eu sou muito bonita e me chama pra dançar... 
-- Eheheh... 
-- Tem uma piada não tem? 
-- Eu achei piada porque ela entrou no bar e dirigiu-se à casa-de-banho, passou por mim, olhou para nós, olhou para mim e riu-se, eu pensei, eu liguei logo as antenas, disse logo «vai haver festa». 
-- Ah pois! 
-- Depois ela voltou, saiu, voltou outra vez, comprou duas cervejas, pegou nas cervejas a olhar para nós e a rir-se, para mim e para ti, ainda dançou um bocadinho a olhar para nós, a sambar pelos vistos muito mal... 
-- Realmente aquilo em termos de samba é como diz o outro: «jesuí!» 
-- Pegou nas cervejas, sambou um bocadinho, foi lá para fora, depois voltou para dentro já sem as cervejas e foi aí que fez aquela brincadeira, eu estava meio parvo a rir-me porque estava todo contente... 
-- Ahahah 
-- Estava a ser um espectáculo interessante, estava a divertir-me com a dança dela... 
-- Ah tá! Aquela palhaçada... 
-- Ela a olhar para mim e ela a olhar para ti, depois é que disse «você é muito bonita, não quer dançar comigo?», tu disseste «não sei dançar não». 
-- É verdade, realmente com mulher não sei dançar. 
-- E o que ela disse, ficou assim meio parada, acho que fez uma cara meio esquisita, e depois perguntou-se «mas eu vim aqui procurar qualquer coisa», deu meia volta, dirigiu-se para fora, na soleira sambou mais um bocado, olhou para trás, ela tinha um puxinho na cabeça loura, corpo lindo, devia ser mais nova que nós... 
-- Eu só sei de uma coisa, você todo empolgadão e o tiro saiu pela culatra, ihih que vergonha ihihih. 
-- Oh que vergonha não, não estava à espera que ela gostasse mais de mulheres que de homens. 
-- Ó pá, e eu estava à espera? Eu estava achando engraçado é que tu estava todo empolgado... 
-- Estava pois estava... 
-- E de repente levaste um tiro pela culatra, que vergonha... 
-- Mas eu, na altura, nunca duvidei, nunca duvidei de ti, quando ela te fez a pergunta eu nunca duvidei de ti, não olhei para ti a ver o que respondias. 
-- Tu acha que eu sou parva. Com certeza que tu disse «caralho, eu pensando que a rapariga me tava dando bola». 
-- Iá... 
-- E eu santinha no meu canto tenho de levar com isso. 
-- É, a gente no nosso canto, a curtir a nossa música, a ver os vídeos da Anitta, a beber a nossa cerveja... 
-- Ó meu filho, a concorrência é grande, tu perde... 
-- É o que eu sempre digo, eu perco sempre, mas... quero dizer, no fim tu voltas sempre para mim eheheh. 
-- Ó pá, eu não tenho outro amigo. 
-- Pronto, mas eu naquela noite cheguei a casa e pensei «nós somos mesmo o duo maravilha, ou é cerveja de graça ou é alguém que torna a noite divertida». Até falei ao Ximenes e disse «a minha amiga e eu somos o duo maravilha, divertimo-nos sempre quando vamos ao centro, ela é carismática, as pessoas ficam como que enfeitiçadas, metem-se connosco, com ela, ela agrada tanto a homem como a mulher, ela gosta de estar no meio da multidão, no meio do fumo, observar, curtir a música, o ambiente, agora a gaja, que se chegou à frente, olhou para mim a ver se eu dava autorização»... 
-- Tu estás bem, desde quando tu é meu pai? 
-- Eu pensei que quando ela entrou no bar e olhou para mim ela me conhecia de algum lado... 
-- Você conhece ela de algum lado? 
-- Não, mas como eu pus aquela foto minha com o cromo na testa... sei lá se ela não viu a minha cara em algum lado, eu pus também já fotos tuas... 
-- Ah deixa eu ver! 
-- E então ela podia nos conhecer ou conhecer um de nós. Então, quando ela começou a dançar e olhou para mim, como eu não me manifestei e estava ali meio parvo a rir-me, ela viu «este gajo não diz nada, é lelé da cuca, eu quero me’mo é ela, vou mas é fazer-me ao bife, porque é ela que eu quero», mas depois tu deste-lhe o corte e ela sentiu-se fodida, dançou mais um bocadinho para disfarçar e foi ter com um grupo que estava na esplanada, deu beijinho a todos e sentou-se com eles. 
-- E fez muito bem. 
-- Prontos, mas para que as pessoas que nos ouçam não se fiquem só a rir de ti e dela, também tenho de dizer que eu também tenho, às vezes, algumas ideias malucas, em que nem sei bem se sou homem ou mulher, lembras-te dos beijinhos que mandei ao senhor da galeria? 
-- Ihihih foi mesmo engraçado. 
-- Eu estava contigo nessa tarde e ele telefonou e perguntou se eu estava bem, eu disse que estava no paraíso e ele perguntou «como assim?», eu disse que estava com a minha amiga, então ele compreendeu, falámos dos nossos assuntos e no final eu, ao despedir-me, mandei-lhe beijjinhos, perdi a noção de que estava a falar com ele, pensei que estava a falar contigo mas tu estavas ao meu lado eheheh isso é que tem piada... 
-- É engraçado que o teu tiro sai sempre pela culatra, tu não sabe que não pode comigo? Eu sou uma deusa! 
-- É, para mim tu és uma musa. 
-- Sabes o que eu acho? É que só há dois animais fiéis: o cão e o cavalo marinho, ele é fiel à companheira e vocês... aparece sempre uma gaiata no navio, estavas ali, os teu olhos brilhavam, um sorriso de orelha a orelha e depois... que decepção, os seus olhos murcharam... 
-- Ó sabes o que eu pensei quando cheguei a casa, é que há sempre alguém que me quer roubar a amiga, já não é a primeira vez, já uma vez eu tinha uma amiga galega de vinte e poucos anos, nós fomos um dia prá noite de Derza divertirmo-nos, e olha... pagaram-nos cerveja, charros, panikes de chocolate e ovo, chegaram até a meter conversa para ver se eu me perdia dela, mas olha, no fim quem a acompanhou ao metro às seis da manhã fui eu! E contigo é igual: tu voltas sempre para mim. 
-- Tenho de ir para casa, gosto daquela música «me dê motivos para ir embora», põe em ecrã grande. 
-- Ah sim o Tim Maia. 
-- É a última, depois vou. 



, anónim@s do século XXIII 

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Maria João Potiguá

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É o que eu digo: dá para fazer um livro. Esse, pelo menos, teve outro tipo de pensamento, não quis se matar, não quis se suicidar, olha, entrou para a polícia, «para fusilar os bandidos», ah olha, prender os bandidos, «é não é?», pois... hoje ele é tenente... não, ele é capitão, pelo menos teve um bom pensamento, tocou a vida dele para a frente, mas tem um problema: ele não casou, ainda não casou, «eheh vai casar contigo quando voltares à tua terra». Não, não quero, não dá certo, ele é da polícia e eu sou da turma dos vagaba: «ele é o eterno apaixonado». Depois ainda há outro, o pai da minha filha, esse é que foi uma guerra para me livrar dele, chamava-se... é engraçado que tive um casal de filhos e os pais se chamavam pelo mesmo nome: Zé Tó, sim, casei com duas pessoas com o mesmo nome, sim, para me livrar do pai da minha filha foi problemático, eu com seis meses de gravidez parecia que tinha duas crianças dentro da barriga, poim!, uma senhora barriga, não foi à toa que a minha filha pesou três kilos e trezentas gramas, e ele mesmo, eu grávida, puxou uma faca para mim, eu disse que não queria mais ele e botei a roupa dele no meio da rua, eu quando era mais nova era ruim, não suportava ninguém, eu era como minha mãe dizia «tu não tem coração» ah pois não, pois o meu caminho eu faço sempre, não sei porquê, ele ameaçou-me com uma faca, eu grávida, pôs uma faca na minha barriga, eu disse «olha empurra, se és homem enterra, agora ficar contigo eu não fico», e não fiquei, tive minha filha e não fiquei com ele nem lhe dei o direito de olhar para a minha filha, eu não deixei ele se aproximar da minha filha, só o via bêbado caindo pelos cantos, bêbado mesmo, não comia, bebia para dormir e dormia para beber, ia chegar perto da minha filha bêbado por que propósito?, não, não deixei. Aí uma rapariga se interessou por ele, também era cachaceira como ele, juntaram tomé com bebé, e os dois andavam pela rua bêbados, uma caía para o lado o outro caía para o outro, olha que figuras lindas!, mas mesmo depois que o mandei embora ele me pastoreava na rua como se eu fosse a ovelha e ele o flautista que puxa de faca, ele me seguia. Na altura, a minha mãe estava separada de meu pai, viviam em casa separadas e era minha tarefa levar o jantar a casa de meu pai, ele sabia cozinhar como ninguém, ele era cozinheiro de restaurante e tudo mais, e não tirou curso, nunca foi a uma escola, é analfabeto, só sabe escrever o nome mas cozinha como ninguém, mas eu tinha de levar a comida de meu pai: na altura em que ele se separou da minha mãe, ele passou um período difícil de doença, e era eu que estava ali segurando o barco, ia lá levar-lhe o almoço, ele não obedecia a ninguém, mas eu tinha maneira de falar com ele, primeiro porque ele era meu pai e não lhe ia faltar ao respeito, muita calma, dava as voltinhas, brincava com ele, fazia como com os bébés «olha o aviãozinho» e ele abria a boca, começava a dar-lhe a volta, o meu pai era jovem na altura, e foi aí que quando eu deixei o pai da minha filha ele me começou a seguir quando eu ia levar o almoço a meu pai, e me pastoreava, como eu não levava desaforo para casa, eu era daquelas «a faca entrava, o sangue descia, dizia ‘empurra anda lá isso é pouco’», não levava desaforo para casa, senão ficava com remorsos, tinha de chegar perto da pessoa e conversar e concerteza eu ia dormir no xelindró, eu era assim, dormia um dia e o outro dia também, todo o dia eu arranjava uma zaragata, uma bagunça, na minha terra eu chegava num café, começava a beber cerveja e ia logo para o balcão, sentava-me em cima do balcão, parecia a patroa quando não era, eu era uma cliente, já estava chapada «agora vou-me sentar em cima do balcão e se quiser chama a polícia», e eles chamavam, lá vou eu, os rapazes já estavam tão acostumados que acabavam por dizer «dorme aí em cima do balcão e amanhã vais para casa», era assim que eles diziam para mim, era um dia sim outro dia também, o que eles não me aturaram, e olha que na minha terra eu tenho um primo que é cabo da polícia, e por causa de eu estar sempre a ir de saco ao fim da noite, ele hoje não fala comigo, quando ele passa na rua ele muda de passeio, todo fardado todo autoritário nariz empinado ele é a lei mas quando está à paisano como eu e tu: ele quando me vê muda de passeio, e um dia eu estava fodida com esta merda e lhe disse «vem cá, eu tenho alguma lepra?, porque quando me vês mudas de passeio? não te esqueças que és do meu sangue, muda o sangue que eu quero ver, tu és meu primo!, não te esqueças disso», olha, engoliu minhas palavras, nem disse bem nem mal, abaixou os olhos e foi-se embora para casa. No outro dia, mandou-me chamar para eu ir conversar com ele na sua casa, ele disse que ele estava fazendo o seu trabalho e que eu pisava a linha, eu disse que meu pai não me ensinou a ser frouxa, sou quase uma maria joão da terra dos Potiguá, uma mulher no meio dos homens pronta para tudo, ele disse «vai-te embora» e eu disse só para o arreliar «mais logo à noite estarei no posto de polícia para a gente apertar dois dedos de prosa.» «Tu consegues irritar o próprio satanás!, ai meu deus, onde fui amarrar meu bode...»
'

anónim@s do séc. xxiii

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Na exposição D'Après com a minha mãe e a minha irmã

A maior preocupação da minha mãe sempre foi que eu estudasse e arranjasse um emprego.
Foi assim que aos 13 anos, ela me arranjou trabalho nas férias grandes numa farmácia,
onde fui «moço» e sujeitei-me a ser asfixiado com amoníaco pelo filho do patrão e o empregado.
A sua maior preocupação ainda hoje é que nunca me falte nada, que eu ande arranjado e não pareça mal e que tenha dinheiro para comer e que não estoure o dinheiro todo e o poupe, porque ela sabe que quando ela falecer, a minha vida vai piorar.
Ainda assim, eu acho que ela sente orgulho por este meu sucesso temporário com esta exposição.
Já agradar ao meu pai é mais difícil, não resisto em transformar em anedota as suas palavras, ao saber que um quadro meu foi vendido para a Colômbia:
«Deve ter sido um terrorista das farc.»
Mas lá no fundo, eu quero acreditar que ele se sente feliz pelo filho.






sábado, 18 de maio de 2019

Lama

'
-- Eu jantei ainda agora...
-- O que é que jantaste?
-- Macarrão com salsicha!
-- Ainda tens?
-- Sim, não vês que eu voltei para casa dele.
-- Mas eu só te dei um pacote e duas latas, um pacote só dá para duas refeições.
-- Mas aí eu tomei água.
-- Iá...
-- Quando eu olho para a minha casa e ela está de cabeça para baixo, chega a dar-me uma tristeza, no máximo em dois dias eu ponho ela em ordem. Tem que ser. Tu já jantaste?
-- Já. Já são quase nove horas. Eu daqui a pouco até me vou deitar, mais uma hora ou quê e...
-- Ora eu me acordo e você vai dormir? Danou!
-- Ihihih, sabes como é o meu sistema, deito-me sempre cedo.
-- Eu vou dormir aí estilo meia-noite praí, vou assistir ao filme, vou dormir, amanhã tenho de acordar cedo para ir resolver os meus problemas, dependendo da hora que eu acordar eu vou lá buscar as minhas coisas... e entregar a chave dele.
-- É o que fazes melhor, ele mandou-te embora.
-- Eu fiquei revoltada com ele é porque... foi a maneira como ele falou «saia de dentro da minha casa», e me humilhou.
-- O que é que ele disse mesmo?
-- Saia de dentro da minha casa!
-- E a que horas é que ele disse isso?
-- Quando eu cheguei?
-- A que horas é que chegaste?
-- Sei lá, umas cinco, seis horas da manhã.
-- Ele queria que tu saísses de casa às cinco da manhã?
-- Pois. Mas eu estava com sono e fui dormir.
-- Claro, foste dormir, e onde é que ele dormiu?
-- Ã!, ele dormiu no canto dele... mas ele dormiu e quando eu cheguei ele acordou... e depois não dormiu mais, ele saíu, uma coisa assim, eu peguei no sono e acordei na hora do jogo, olha o meu Boavista ganhou de três!
-- O Boavista ganhou três?
-- Quando eu saí estava três a zero e não sei quanto ficou no final.
-- Espera aí que eu vou ver, deixa ver se eu consigo ler o resultado do Boavista... ah, o Boavista ficou três a um...
-- Eu não estava reparando muito no jogo, depois de terminar o jogo eu estava sentada numa mesa e ele estava sentado noutra, mas eu nem falei com ele nem nada, não quis conversa, portanto... eu ia falar com ele para ele me tratar mal? Não!, e à frente dos outros? Aí é que eu me ia passar dos carretos.
-- Iá...
-- Eu fiquei num canto e ele ficou noutro e quando terminou o jogo ele ficou mais um pedaço ali, depois foi embora para casa dele, depois... ele voltou, só para ver se eu estava lá, ele voltou, sentou numa mesa, e nem passados cinco minutos levantou-se e foi-se embora. Foi quando eu me vim embora, terminei a minha cerveja, vi um pedaço do Boavista e vim embora, se ele voltou lá novamente eu não sei, também não me interessa, quero lá saber, para mim ele morreu, está morto e enterrado, agora não tem volta, quero a minha liberdade, estou na minha casinha estou no meu canto, não me chateio não digo nem escuto. Não é?
-- É, acho que sim.
-- O homem sempre a duvidar... como é que eu sabia se era homem ou mulher?
-- Diz...
-- Eu disse: ninguém podia ligar-me para o telemóvel que ele queria saber quem era, e eu sou obrigada a dizer quem me liga?!, ele queria saber se era homem ou mulher... havia dias em que chegou às duas horas da manhã, duas!, quer dizer... ele pode sair e eu não posso?, a hora que eu quiser ora que caralho!, desde quando ele é meu dono?
-- Claro!
-- E apeteceu-me ir tomar uma cerveja e fui, o bar estava fechado, então fui ao da porta ao lado, bebi paguei e olha, e fui-me embora, quando eu chego depois ele acorda e diz «saia de minha casa!», ele tratou-me como se eu fosse uma cadela, ele que fique com a riqueza dele, eu fico aqui na minha pobreza...
-- Tratou-te mal.
-- Mas ele não é meu dono, ninguém é meu dono, eu sou dona de mim própria.
(Silêncio na chamada pela câmera web, ouvimos um vinil de música andalusa marroquina.)
-- Gostas mais desta música?
-- Não. Música indiana é muito mais bonita.
-- Não gostas? O que queres ouvir? Queres ouvir Nubinha?
-- Pode ser.
-- Eheh eu já tinha saudades destes momentos. Vais ouvir Nubinha. Nunca ouviste Nubinha pelo computador!
-- Pode ser.
( Então eu ponho um lp de Núbia LaFayette a tocar no giradiscos, a primeira música chama-se Lama, fala de humilhações conjugais.)
-- Estou sem net no telmóvel. Não posso falar com a minha mãe.
-- Tens que te ligar à rede do computador pelo wifi.
-- Ah mas eu não sei como isso se faz.
-- É facil, é ir ao router e ver por trás o nome da rede e a palavra passe e depois meter no telemóvel.
-- Ah mas eu vejo isso amanhã, deixei lá os meus óculos...
-- Tens a lupa!
-- É! Com um olho fechado e outro aberto?
-- Escreves num papel.
-- Quando eu criar coragem que eu daqui não saio agora.
-- Tábem, não precisa de ser agora.
-- Também agora não vou falar com a minha mãe, mas nem consigo jogar, não tenho os óculos... diz?
(Ouve-se Núbia a cantar devolvi e eu começo a cantar o refrão.)
-- Ah mas eu não devolvi nada, que ele não me deu nada, quero dizer, para não dizer que ele não me deu nada ele deu-me umas botas e eu gosto muito delas.
-- Já trouxeste?
-- Não, estão lá. Vou lá amanhã.
'


Anónim@s do século xxiii



terça-feira, 14 de maio de 2019

Auto-retrato fumando


'Auto-retrato fumando'
óleo sobre tela
30cm de diâmetro
2019
ZMB

Inspirado por Parmigianino:



Time is money, bastard


'Time is money, bastard'
óleo sobre madeira
20cm por 25cm
2019
ZMB

Inspirado na fase Greed / Holy Money dos Swans, época 1985


sexta-feira, 10 de maio de 2019

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Declaração pessoal de voto

O meu vizinho Giuliani chega com Ximenes, vêm para conversar, ofereçer a pedra. Eu Zulmiro, mal disposto e com a azia de o meu Braga ter sido expoliado pelo árbitro e pelo var, nem sequer lhes ofereci café, obriguei o Giuliani a ir buscar das suas mortalhas, depois eu disse: 
«Uma mortalha e agora que mais?» 
Giu já me conhece, sabe dos meu súbitos humores e apresenta finalmente o material, começa a falar que o Pessoa naquele verso, o poeta é um fingidor, está errado e fala de si, diz que o poeta não finge, diz que escreve sempre a verdade, «eu não minto», diz ele, Giu é o nosso poeta, o poeta da comunidade do além, ainda há quinze dias na casa de cultura nos entretemos com a sua poesia, no final do sarau foi uma corrida aos livros de autor, Giu é o nosso poeta mas hoje eu Zulmiro estou mal disposto, o Ximenes que também é benfiquista como o Giuliani está caladinho que nem um rato e um pouco sonolento. Eu, que sou do Braga desde pequenino, estou irado e descarrego no Giu, digo: «Giu, não te esqueças que nestes meses já li muitos dos teus poemas, já sei as tuas ideias e as tuas contradições, e sim, tu finges, todos os poetas fingem, toda a gente finge, somos todos fingidores, fingimos todos a dor que deveras sentimos, ou não é assim o verso do poema?» 
Ximenes que acha que eu tenho uma concepção vil do mundo, sorri quando vê o Giuliani fazer uma voz de sofrimento e dizer «não, eu não finjo a dor, eu sinto a dor... eu não escrevo mentiras, eu escrevo o que sei.» Mas eu continuo: «Giu, não não é assim, claro que escreves o que sabes, o que sentes, escreves a tua verdade, mas a questão não é essa, eu próprio já escrevi muito, e escrevi a minha verdade, o que sentia e também não poupei nas palavras, escrevi a verdade do que sentia. Mas a verdade é que às vezes aquilo que a gente escreve não é a verdade, a verdade com letra grande, muito do que sentímos não é verdade, às vezes até demos um jeito ao texto para o tornar mais sentido, mais verdadeiro, mais do jeito do que queremos dizer, tás a perceber?»
«Eu acho que os Sonetos vão ser um livro fixe, não é o que gostas mais, Zul?»
Pergunta-me Giuliani, e eu começo a dar a primeira passa do cacete e a tossir, porque não deveria de facto fumar e só fumo porque gosto de fumar (tenho este vício). Neste misto de tosse e ranho, lenço de pano, papel de arroz e filtros de cartão, a minha má-disposição começa a desvanecer-se, continuo fodido com o facto de provavelmente o Benfica ir ganhar mais um campeonato, recordo mesmo ontem no café um senhor idoso dizer para o amigo: «olha, parece como nos tempos do Botas.», continuo fodido mas não preciso de estar fodido com os meus vizinhos, eles não tem culpa de ser benfiquistas nem precisam de se sentir culpados por estarem contentes com o clube do seu coração, eu que sou do Braga desde pequenino e me fiz dragão estou mal disposto mas o poeta Giuliani ofereceu um charro, o meu primo Ximenes elogiou a música andaluza marroquina e eu estou a sentir no cérebro a vibração de jah, as ondas cerebrais intensas junto às orelhas, as pequenas quebras de tensão quando se prende a respiração depois de inspirar o charro, estou agora mais de acordo com a comunidade de iguais e digo ao Giu:
«Giu, já o disse ao Xis, eu não gosto muito dos teus poemas mas respeito-os, respeito a tua ideia de poesia, a tua luta, às vezes um gajo desiste aos vinte e não faz mais nada depois, e tu não, tu já lutas há cinquenta anos, é isso que eu respeito em ti, a poesia é a tua alma, uma pessoa sem alma não vive, se tu não tivesses a poesia não estarias já vivo...»
«Sim, tens razão, mas eu tenho poemas bonitos não achas?, eu acho que quando morrer as pessoas vão sentir a minha falta...»
«Sim Giu» E aqui a gargalhada torpe e irracional vem-me à boca, eu, digo:
«Sim, quando tu morreres muita gente vai sentir a tua falta, vamos todos sentir a falta daquele em quem bater, daquele de quem dizer, daquele que nos oferece charros e nos vai buscar mortalhas, daquele que nos dá uma seca àcerca de um qualquer poeta que nunca ouvímos falar, daquele que nos dá um livro, sim vamos sentir a tua falta eheheh, eu sei Giu que as minhas palavras são deficientes e até irónicas mas eu até acho que te estou a dar um elogio, tu fazes falta a muita gente, quaisquer que sejam as razões há muita gente que gosta de ti, vê só o teu sucesso no sarau!»
«Sim, aquela senhora no outro dia cumprimentou-me e deu-me os parabéns... não queres fazer outro?Apetece-te fumar outro?»
«Porque não?» Mudo o vinil e ponho Bass Culture de Linton Kwesi Johnson, mostro a capa ao Ximenes. «Está um bocado suja, mas o vinil está em bom estado.»
«Sim, era desta colecção, os reggae refreshers, que eu comprava os álbuns em cd, já te falei, foi quando não fiz o checkout que o gajo da pensão me ficou com os cds, não dormi lá nessa noite, não tive vinte euros para fazer o checkout...»
«Outra coisa que me chateia...» interrompe o poeta «...é o presidente vir falar mal dos populismos, vem falar mal do povo, eu escrevi os estatutos do partido popular português e nunca falei mal do povo...»
«Não, Giu, tu não compreendes, as palavras mudaram de significado, elas já não significam o que queriam dizer quando as estudaste, hoje em dia querem dizer outra coisa, tens que compreender: populismo não é falar mal do povo, populismo é os políticos fazerem promessas ao povo para obterem o voto e depois não cumprirem, hoje em dias os partidos populistas são os de extrema-direita, são aqueles que querem acabar com a cultura e a educação universal, querem expulsar os imigrantes, querem mais segurança e prender toda a gente...»
«Em Espanha? Aqui em Portugal?»
«Sim, estão a concorrer às eleições, é o chega, o basta, o caramba, agora imagina que um pobre cabo-verdiano, por exemplo, explorado por qualquer patrão numa obra ilegal, ou então, um casal de idosos a quem expulsam de casa para construir um alojamento local ou qualquer outro caso, imagina que eles também dizem basta, vão votar e sem saberem vêem um partido com esse nome, é lógico que vão votar nesse partido, há uma grande probabilidade, a palavra induz à acção e sem saberem vão votar num partido que a primeira medida que tomaria era expulsar todos os caboverdianos! é assim o populismo, é assim que eles obtêm os votos, é pelo engano, agora Giu, vê lá, não é por tu seres popular que vais votar nele, pois não?»
«Não te preocupes, chega de chegas, basta de bastas, caramba de carambas!»
«Olha, eu vou-te dizer em quem vou votar. Ontem, enquanto não vos chamei chulos a todos aquando do penalti roubado, eu estava a ler uma entrevista no jornal entre o Nuno Melo e o Rui Tavares, e depois em casa li na net que o Nuno Melo diz que o Vox em Espanha não é de extrema-direita, pois é mentira, eles são de facto fascistas e há fascistas em Portugal, tudo o que seja à direita está a tornar-se perigoso, eles mentem, gozam com a ignorância da população, do povo, olha o Bolsonaro no Brasil, ele quer acabar com o estudo de filosofia, quer acabar com a educação gratuita, há muito partido de direita, mesmo esses novos que surgiram agora em Portugal, que querem a mesma coisa, tornar tudo privado e só acessível a quem tiver dinheiro para o pagar, o mesmo na saúde, eles usam a ignorância dos mal-informados, pois eu vou votar no Livre, gosto das ideias do Rui Tavares.»

sábado, 27 de abril de 2019

A casa de Júlio Poeta


'A casa de Júlio Poeta'
óleo sobre tela
54cm por 65cm
2018
ZMB


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225€ (European Union and UK); 250€ (rest of the world)
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***

Este trabalho foi feito reciclando uma tela já pintada que o Julião encontrou no lixo.
A única coisa que mantive do original foi a textura em tons de verde na parede por cima do Julião.

Daqui a um ou dois anos farão cinquenta anos que J. Alberto Allen Vidal escreve poemas.
Tem dezenas de livros inéditos.
É possivel que uma editora do Porto lhe publique um livro nos próximos meses.
Brevemente, uma associação cultural vai passar no seu écran o filme 'Silencio' de Christophe Bisson 
onde Julião participa juntamente com outros sem-abrigo do Porto. 
Igualmente, na mesma noite poderá igualmente ver-se o filme de Luis Costa chamado 'Júlio Poeta'
Para o próximo ano, é possível que uma Casa da Cultura da freguesia lhe produza um 
sarau cultural onde Julião lerá poemas e, com roupas oferecidas pela junta,
poderá mostrar aos bem-pensantes que no dia-a-dia o desprezam na rua,
que ele é um ser válido apesar de pobre e que merece algumas grandes palmas por escrever poemas
desde antes da queda  da ditadura salazarista.

Cenas do Covil nº4


'Cenas do Covil nº4'
óleo sobre pano cru
55,5cm por 113cm (com grade)
1999 - 2018
ZMB

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L'homme et son chien


'L'homme et son chien'
óleo sobre tela
60cm por 90cm
2017
ZMB

http://zmb-mur.blogspot.com/2017/11/lhomme-et-son-chien-le-video.html

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sexta-feira, 26 de abril de 2019

«Bandjido!:)»

Eu cheguei lá
Eu cheguei lá
mas me esqueci do que ia dizer
do que ia falar
Eu cheguei lá
Eu cheguei lá
Maria Amélia, eu passei toda a noite sonhando
Maria Amélia, eu passei toda a noite pensando
lindas palavras que eu preparei para lhe dizer
Mas me esqueci
Mas me esqueci
Eu cheguei lá


Reggae é a liberdade dos jovens

O meu primo Ximenes Laurindo Ameixa, hoje confortavelmente sentado no cadeirão a receber a renda pelo seu trabalho de nenhum, mandou-me enviar prà gente de todo o mundo estas duas músicas reggae em baixo.
Acreditamos plenamente que a música consegue curar uma doença depressiva. a música reggae fala de liberdade, de amor por si e pelo semelhante, é uma música um pouco utópica e fora da norma da sociedade em que vivemos.
Um ganzado geralmente é inofensivo e não faz mal a ninguém, é pacífico. Um alcoólico pode tornar-se violento e ofensivo, um heroínamo só pensa em arranjar dinheiro para evitar as dores da ressaca física e pode tornar-se um gatuno, um janado em comprimidos prescritos torna-se irresponsável quando os toma com álcool, diz que está apenas a seguir os conselhos do médico. O dinheiro é ainda a pior droga, a televisão aliena, vivemos rodeados de droga e até precisamos dela para viver o dia a dia.
Quem não tem um guilty pleasure viciante?
Digam-me uma pessoa que não tenha vícios ou paixões escondidas e tantas vezes recalcadas, que falam mal dos vícios do outro mas quanto aos seus preferem ignorar e dizer que não é vício, nem sequer problema?






quinta-feira, 25 de abril de 2019

Tias e beatas de tribunal

Há que ter cuidado com certas mulheres das quais as poucas coisas que sabemos é trabalharem em tribunais, nem que seja a servir café, e que se dizem do lado das «mulheres honestas» que os seus superiores, como aquele juiz que se tornou mediático, pretendem defender por oposição às «mulheres adúlteras» que acabam a castigar em acórdãos. Há que ter cuidado porque podem arranjar expedientes para nos preudicar a vida. Não havendo nada de criminoso a imputar-nos, apenas o fumar de vez em quando um charro, dedicam-se enquanto se imaginam a trabalhar num processo a escrever textos cor-de-rosa onde os personagens masculinos são todos uns escroques em relação às mulheres ou às antigas namoradas. Venho-me apercebendo disso ao longo dos meses. O que me incomoda um pouco, é ver um outro pormenor que eu ficcionei a partir da minha vida ser trucidado, distorcido e adaptado. Eu tenho um pouco a mania da perseguição mas não há texto que ela escreva que não tenha um pormenor que eu não veja como uma espécie de facada literária. É certo que não é plágio mas incomoda-me ver que esta mulher, que também é blogger, insiste em mostrar ao mundo, o que me parece ser, o seu ressabiamento perante os homens. Não tem ela uma vida feliz?, o grande amor da sua vida deixou-a por uma «desavergonhada» e não conseguiu ainda encontrar um marido para quem cozinhar?, porque não ficciona ela histórias bonitas acerca dos seus homens, os seus homens fizeram-lhes todos mal, teve ela alguma vez um homem na vida?
São perguntas que não lhe quis fazer quando tomei café com ela uma única vez, incomodou-me o seu olhar inquisidor quando quis, tal como se fosse polícia ou psiquiatra, saber se eu fumava. Mas não se importou quando eu lhe disse que Prozac ou comprimidos para dormir também são droga e até admitiu que a eles recorreu para curar uma depressão. Tenho eu de dar link e audiência a esta mulher, para quem os meus hábitos e modo de vida são censuráveis, além de na tal nossa conversa não ter surgido nenhuma faísca? Já há alguns meses que a eliminei do facebook.
Tenham cuidado com as mulheres despeitadas, algumas ficarão para tias ou mesmo beatas.
Que nas suas histórias haja ao menos sal, alho ou pimenta será pedir em demasia.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Eek-a-Mouse oié

O Zulmiro é tão insolente que chega a ser fino, um mano gentil para todas as lojas de discos. Quando lhe chegam as notas azuis à mão, o Zulmiro que também é Maria faz a festa, começa por acordar sem despertador precisamente antes de se inciar a transmissão do programa Palavras de Bolso na rádio clássica e felizmente pública (para qual o Zulmiro Maria, que é Belo de apelido, paga uma taxa na factura da luz àquelas três gargantas chinesas e ao Ameixa, Ximenes Laurindo, seu primo que também beneficia por ser o homem do cadeirão). Depois de ouvir as vozes do programa, levanta a pressiana, oscula o ar, verifica se o sol está presente. Dirige-se à cozinha, prepara café, toma uma chuveirada rápida no polivã, recolhe a chávena de café, volta para o quarto e, enquanto os jornalistas culturais da rádio falam e apresentam as novidades do dia, ele começa a pensar em listas. Ele não sabe o que nasceu primeiro: se as notas azuis, se as listas de discos a obter, aquela reimpressão daquele álbum lendário que acaba de chegar à loja da taune, o Zulmiro pensa «Ora, disco é cultura, cultura é droga fixe, a droga mata a fome, com esta nota azul vou comprar o Gonçalo F. Cardoso e as suas Impressões de uma Ilha, vou ouvir o disco e vou ser feliz ao imaginar-me em Zanzíbar a viver da pintura de cocos», diz Zulmiro que também é Maria que também é Belo, que se vestiu de fato branco do melhor tecido e com um gorro branco a dizer Hamster D, para ir à loja.
Como habitual em todas as lojas que frequenta, em que é um habitual, de cada vez que lá vai é bem tratado, gostam dele em todas as lojas, gostam também quando ele compra aquele disco que mais ninguém compra. Zulmiro sente-se extasiado quando sente que chegou ao disco primeiro que outro vagabundo qualquer e tão insolente quanto ele, gostam tanto dele que a Maria chega a ter ciúmes de tanto sorriso e apertos de mão e promessas que transpiram, porque o mundo vive de promessas, eu cá acho que eles pensam que ele é rico, porque gasta tantas notas azuis em discos como o vizinho em tabaco Regina, os padrinhos em jantares a dois com licor Beirão. O que eles não sabem é o que eu vou contar a seguir, eu que sou o espelho do Zulmiro que também é Maria e também é Belo, fui eu que lhe dei o nome, uma homenagem orgulhosa à tia, e ao maior surrealista António Maria e também ao Ruy, o saudado e saudoso Belo. Tenho a dizer-lhes o seguinte: «O Zulmiro é um drógado!», é um viciado em música em suporte físico, também faz dauneloudes mas se gostar quer ter aquele disco, aquele capa em cartão, «ah!» como ele gosta de observar aquela serigrafia em cartão e capa do segundo disco dos Cassiber à luz do sol, como ele gosta de desmaiar quando ouve o sax do Albert Ayler a chorar em Vibrations... só visto!, eu sei do que falo, estou presente como espelho de canto de quarto nesta sua nova casa, vejo a moca que ele apanha quando pôe o cd gravado da k7 ''Super'' dos Nihil Aut Mors, enfim que dizer... eu quase que aceito o modo de vida dele, ele é feliz assim sendo um drogado musical. Mas para muita gente põe-se um problema: donde vêm as notas azuis? As lojas não se importam, querem é que ele consuma, mas os vizinhos já o acusaram de ser contrabandista e traficante, chegaram a dizer que a droga entrava à noite em casa pela calada, palhaços!, grandes estrumpfas do calhau mais longe do sol!, nem sequer imaginam que a droga vem via postal e entregue pelo carteiro, ainda hoje chegou uma edição de 180 gramas em vinil preto da banda sonora do filme do Gainsbourg, sim o Jetaime!, mas aí o Zulmiro até que ficou desiludido, achou que a música era como droga marada, daquela rena que sabe a petróleo ou acetona (quando não é mesmo madeira, chegou a acontecer), tanta versão do jetaime e nem uma única cantada pela Jane e pelo Serge. Mas o Zulmiro arranjou solução, sabe de um dealer nos Baixos Países que tem para venda uma reimpressão do single, vejam lá!, sete polegadas de droga com a voz da Jane e do Serge por apenas um conto de kenga mais portes... o Zulmiro espera ansiosamente o próximo dia oito, o dia em que chegam as notas azuis, entretanto ele mandou-me enviar, a uma irmã que ele conheceu recentemente numa caixa de comentários, um video de um jamaicano chamado eek-a-mouse:






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sábado, 20 de abril de 2019

Pó de Anjo



Reading of 'Pó de anjo',
a poem written by Paulo da Costa Domingos and inside a 2019 book by the poet called 'Carmes'.
On the background we can hear sounds by the band No Noise Reduction and they are taken from a compilation CD of way out Portuguese music edited by the Ananana label

(um bem-haja ao poeta)

domingo, 14 de abril de 2019

Sara, a rainha cantando coisas bunitas

(Não diga a ninguém)
(Eu não digo a ninguém) Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Diz-me Que a minha carapinha te faz lembrar Uma coroa de rainha Diz-me ainda Que nunca viste Um sorriso igual ao meu, só meu Quero ouvir Tanta coisa que só podes falar baixinho Por isso fala comigo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Inspira-te, perde a vergonha Diz-me que queres casar comigo E então deixa-te de coisas Perde dessa mania De fingir que nada sentes Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo (Arco-íres, lua-cheia, paz) (Riso de bebê) Entra por baixo da pele Acende a luz no meu peito Embala-me o coração Encontra-me a pulsação Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas



https://www.discogs.com/Sara-Tavares-Fitxadu/release/11508276

sábado, 6 de abril de 2019

Mixtape for a kiss

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(Madredeus no youtube)
-- Geralmente eu penso que falo muito mas não faço nada... mas eu já tenho a minha cruz...
(’’a barca da fantasia / o meu sonho acaba tarde / deixa a alma de vigia’’)
-- ... eu não quero cometer os mesmos erros...
(’’acordar é que eu não queria’’)
-- ... estou tentando ser diferente...
-- Vá, escolhe uma música.
-- Eu sou meia míope, eu sem óculos não enxergo!
-- Olha, esta também é fixe!
-- Num gosto.
-- Dá uma oportunidade!
-- Não simpatizei.
-- Ó...
-- Pá, quando gosto gosto, quando não gosto não sou obrigada a...
-- Escolhe aí uma música!
-- Ã... aquela música... a...
-- Amor Electro, a máquina, a nossa música?
-- Isso!
-- Ei já não ouço isto há muito tempo.
-- Quero essa música no meu telemóvel.
-- Tá bem.
(’’não ter o que fazer/ tudo a acontecer’’)
-- Já viste como eu sou uma mulher sortuda?
-- É! És muito prendada!
-- Ihiihihii... na verdade eu sou uma mulher sortuda, toda a gente gosta de mim...
-- Pois...
-- Bom, pelo menos a maior parte dos homens... eu acho que sim...
-- Sim, mas não só, as mulheres também, nem todas te querem foder, por exemplo a Vanda do bar... ela gosta de ti, ela compreende a tua natureza, ela gosta de pessoas como tu... vê-se que é uma pessoa fixe, que encara...
-- Não sei porquê, mas eu acho que tu estás interessado na menina...
-- A Vanda é muito bonita... é bonita, achei interessante, é um regalo para os olhos.
-- Estás interessado nela...
-- Não estou nada, é bonita, mas não vai acontecer nada, não vou fazer nada, não vou...
-- Mas estás interessado...
-- É bonita, é interessante, gostei muito dela hoje, do vestido, das tatuagens...
-- Anda lá, diz a verdade para mim!
-- Não estou nada interessado não... mas gostei.
-- Anda lá, somos amigos pô... quer dizer... eu posso falar das minhas merdas... e tu não falas das tuas porquê?
-- Não... é... é uma mulher e não uma menina, é uma mulher de vinte e cinco anos... deve ser a idade que ela deve ter... tava muito bem vestida... muito bem apresentada para uma empregada de bar... o corpo é fabuloso... as tatuagens são bonitas...
-- humhumm...
-- É atraente... mas agora... não me vou meter com ela, ela está a trabalhar, não vou estragar o trabalho dela... só por causa dum... fetiche... ela é bonita de ver, é fixe para toda a gente, enche o bar, ganha clientes...
-- Ela é carismática...
-- É, ela é um pouco como tu, ela atrai as pessoas aos bares, tal como tu só por estares num bar as pessoas acabam por entrar no bar... ela é igual...
-- Ã, eu fiz quem entrar no bar?
-- Tou a dizer... a tua presença, a tua cara é tão carismática... as pessoas sentem curiosidade...
-- Ah, estás falando do Araújo!
-- Qual Araújo?
-- O negro...
-- Ah aquele... tu disseste que o conhecias do...
-- Sim, mas ele estava ali acompanhado de muitas mulheres...
-- Mas ele quando veio falar contigo, ele estava sózinho...
-- Mas naquele dia que a gente foi lá à esplanada, ele estava com muitas mulheres...
-- Mas estás a falar de quem? Aquele que falou contigo agora neste bar?
-- Sim, o negro.
-- Quando é que eu o vi antes?
-- Eu vi ele quando nós fomos lá na primeira vez...
-- Ah, na Terça-Feira ele estava lá? Não reparei...
-- Eu fui contigo fumar um cigarro, ele olhou para mim, eu olhei, ele sorriu e eu fiz assim...
-- Ã... Não reparei, só reparei hoje pela primeira vez, não tinha reparado nele... olha tens o isqueiro?
-- Eu não, não tenho o teu isqueiro. Ou eu tenho? Deixa eu ver.
-- Ora vê.
-- Não, não tenho, tenho o meu, é... se quiser me revistar?
-- Não...
-- Ah, está aí no teu rabo, estavas sentado nele, olha... já ia levar por tabela!
-- Não... eu estava a perguntar porque assim ajudaste a encontrá-lo.
-- Eu sou tudo menos ladrona! Vê lá, presta atenção, já estás farto de me conhecer.
-- Claro, não estou a dizer nada disso, não entres em filmes, não estou a duvidar de ti, perguntei porque podias tê-lo visto, não é? Para ajudar a encontrar... E agora qual é que queres? Olha, esta é fixe!
-- Não quero, não sei quem é.
-- Pronto, esta agora é fixe!
-- Num gosto, não gosto dessa música!
(The Gift: ’’Talvez por eu não saber falar de cor/ Imaginei’’)
-- Ah gosto!
-- É, é bonita...
-- É, eu só não gosto do princípio da música...
-- Mas tens que dar uma oportunidade...
-- É mesmo uma voz do caralho...
(’’O teu virar de costas/ Um último adeus’’)
-- Sabes que ela é casada com um cantor de heavy-metal? É assim uma junção de mundos diferentes...
-- É mas cada um vive à... ele tem a ideia dele que é cantar o que gosta, aquilo em que acredita... e ela também...
-- Sim, e às vezes colaboram os dois, cantam juntos...
-- E?
-- É fixe, é bonito até.
-- Quer dizer que?
-- Gostam um do outro, gostam de fazer coisas em conjunto, isso é bom...
-- É vero!
-- Olha, esta tem o Rui Veloso, gosta desta?
(Perfume: ’’câmera lenta/ oito ou oitenta)
-- Veríssimo, é o meu amigo, já estive com ele pessoalmente, eu sou uma pobre mas sou uma pobre vip foodasse ihihih
-- Sim já me tinhas falado...
(’’o livro que não li, o filme que não vi’’)
-- Dá-me um beijinho...
-- Tu gosta muito de mim, não gosta?
-- Um bocadinho! Dá-me um beijinho...
-- Au au, olha que eu mordo! Bom, já dei!
-- Só mais um...
-- Never!
-- Jamais?
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anonim@s do século XXIII

terça-feira, 2 de abril de 2019

Diz que não e dar-te-ei um dólar

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Melindrava-o a minha independência, aquilo a que chamava a minha indiferença. Se me via obrigado a pedir-lhe umas massas, ficava encantado, pois isso proporcionava-lhe ensejo para me pregar um sermão acerca da amizade: «Então também precisas de ter dinheiro?», perguntava, com um grande sorriso de satisfação a alastrar-lhe pela cara toda. «Então o poeta também tem de comer? Bem, bem... É uma sorte poderes recorreres a mim, Henry, meu rapaz, pois eu sou brando contigo, conheço-te, meu filho da mãe sem coração. De quanto precisas? Não tenho muito, mas reparto o que tenho contigo. É justo, não é? Ou achas, meu sacana, que te devo dar tudo quanto tenho e ir pedir emprestado a outro para mim? Suponho que te está a apetecer uma boa refeição, hem? Presunto com ovos não seria suficientemente bom, pois não? E se calhar também gostavas que te levasse de automóvel ao restaurante, hem? Olha, meu menino, levanta-te um bocadinho dessa cadeira, para te meter uma almofada debaixo do cu. Sim, senhor, estás falido! Jesus, falido está tu sempre. Não me lembro de te ter visto, nunca, com dinheiro na algibeira. Ouve cá, alguma vez sentes vergonha de ti mesmo? Falas desses vadios com quem ando... Pois fica sabendo que esses vadios nunca me vêm pedinchar dinheiro como tu. Têm mais orgulho do que tu, prefiririam roubá-lo a vir pedinchar-mo. Mas tu, merda, tu estás cheio de ideias bombásticas, tu queres modificar o mundo e toda essa conversa... não queres trabalhar por dinheiro, oh, não, isso não é para ti! Mas esperas que alguém to dê numa bandeja de prata. Felizmento há tipos como eu, que te compreendem. Precisas de te compreender a ti mesmo, Henry. Andas a sonhar. Toda a gente precisa de comer, ou não sabias? A maioria das pessoas está disposta a trabalhar para se sustentar, não fica na cama todo o dia como tu, que de repente enfias as calças e corres a pedir auxílio ao primeiro amigo que encontras. Supõe que não me encontravas. Que farias? Não respondas... sei o que vais dizer. Mas, escuta, não podes continuar toda a vida assim. Claro que falas bem e é um prazer ouvir-te. És o único tipo que conheço com quem gosto realmente de falar. Mas aonde te conduzirá isso? Um destes dias filam-te por vadiagem. Sabes que não passas de um vadio, não sabes? Nem sequer chegas aos calcanhares dos outros vadios contra os quais pregas. Onde estás quando eu estou em apuros? Ninguém te encontra. Não respondes às minhas cartas, não atendes os telefones e às vezes até te escondes quando te vou visitar. Escuta, eu sei... não precisas de me explicar. Sei que não estás interessado em ouvir as minhas histórias a toda a hora. Mas, merda, às vezes preciso realmente de falar contigo. Tu bem te importas, porém. Desde que estejas protegido da chuva e a meter outra refeição no papo, sentes-te feliz. Não pensas nos teus amigos, a não ser quando estás desesperado, isso não é maneira de um gajo proceder, pois não? Diz que não e dar-te-ei um dólar. Chiça, Henry, és o único verdadeiro amigo que tenho, mas também és um grandessíssimo interesseiro. És um filho da puta de um não-presta-para-nada nato. Preferes morrer de fome a deitar a mão a qualquer coisa de útil...»
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, páginas 255 - 256

'O Trópico de Capricórnio'
Henry Miller
Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues
Edição Livros do Brasil

domingo, 31 de março de 2019

Uma tradução com nota prévia


Este texto foi originalmente escrito em inglês antes de Fevereiro de 2000, revela as paranóias que me levaram ao hospital pela primeira vez, foi por causa de textos destes que eu também enlouqueci, traduzi-o há dois anos apenas, hoje estas pessoas vivem vidas totalmente desconhecidas e não as reconheço, fizeram com que eu as esquecesse, tornaram-se prosa, é por causa da minha prosa ser tão degradada que me tornei um degradado, mas, tal como leio em 'O trópico de Capricórnio', também Henry Miller foi rebaptizado e renasceu, sou hoje diferente do que escrevi em 2000 e já não subscrevo tudo o que reproduzo em baixo, de qualquer modo se ousei... o sistema no fim ganhou, afinal sou humano tal como tu mas gosto de ler sobre a inumanidade nos outros, Mur é o Outro que eu fui.

Adenda 2 de Abril de 2019: há neste texto três apropriações:
1)«nem mais uma lágrima para as criaturas da noite» é inspirada na música «no tears» dos Tuxedomoon
2) «nada verdade, tudo é permitido» é uma versão do que WSBurrougs escreveu atribuindo o dito ao «velho da montanha» Hassan-I-Sabbah
3) «avanti marinaio» é o nome de uma música de Pop Dell'arte

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Então declaro: nem mais uma lágrima para as criaturas da noite!
Podes-nos contar, perguntam as vozes inquisitoriais, pode-nos contar porquê?
Eu… eu… eu pensei que era um maricas…
?! Porquê?!
Porque… porque…
Talvez por causa dos livros que li e da música que ouvi ou talvez não claro que não!, talvez por causa do absurdo na minha vida ou por causa do mundo segundo a visão do ocidente ou porque eu lhe disse que haveria de experimentar tudo excepto levar no cu e porque ela me disse que gostaria de me ver numa experiência homossexual e porque uma pequena mulher com cabelo amarelo me enviou duas cartas numa semana dizendo que eu podia ter sida porque ela tinha e porque três semanas mais tarde ela riu-se e perguntou porque fiquei eu assustado e porque eu acredito que ela abortou sem me dizer ou então era apenas o filho do outro dado que eles foderam juntos talvez na minha cama e porque o meu melhor amigo confundiu amizade com homossexualidade e convidou-me a foder e eu me ri com repugnância (pergunto-me porquê) e porque o meu chefe era um bissexual divorciado com três crianças que não gostou que eu fosse capaz de descobrir a sua atracção por mim e deu as notícias aos seus amigos para me destruírem com mentiras (foi mesmo assim?) e tu devias saber irmãozinho que eu li alguns livros e neles aprendi que se tu és incapaz de possuir a beleza tu sentes a necessidade de a destruir e porque eu gostei do caso Mishima e porque eu estava a escrever um livro e porque a Claudia era na verdade uma mulher-polícia sobre disfarce com longo cabelo preto com um tira cigana a prender-lhe o cabelo e um rosto pintado à chinesa calçada com botas Doc Martens e calças de ganga apertadas de azul brilhante e porque eu lhe ofereci um poema e ela disse que não lhe era dedicado porque agregava todas as minhas mulheres num só pronome: ela e porque no momento a televisão foi abaixo com um relâmpago vermelho no ecrã e porque depois apareceu dentro de casa uma tia com um carrinho de bebé com um bebé lá dentro e uma irmã saiu de casa assustada e perguntando se estava tudo bem e porque uma criada africana estava-se a rir de todo o acontecimento falso e porque talvez ela era apenas um homem disfarçado apenas para encher o meu filme Borboleta e ó irmãozinho então eu beijei esse homem ó que horrífico que desnatural e eu gostei porque pensei que era uma mulher e porque depois fui revelar algumas fotografias e lhes chamei a todos maricas e paneleiros com todas as letras e algumas inventadas nas escadas de madeira da sala de aula num qualquer alfabeto e eles deram a entender que eu estava cego e porque o filme O império do sentidos sim! Aquela final e imagem real sim real porque aconteceu nas suas vidas que eu vi escondido na cozinha realmente estourou com a minha mente e tu irmãozinho és tu capaz de compreender a insanidade do amor, és tu capaz? e porque adorei ler o Querelle e adorei ver o Querelle sentado no sofá ao lado dela e porque depois de todas estas merdas eu perguntei pela milésima vez ao meu pai se havia microfones a gravar as conversas dentro de casa e ele finalmente confirmou esta merda só para me fazer a vontade e porque eu olhei para o fraco e agonizante espelho e perguntei se ele amava a minha mãe e ele tremeu disse que sim mas perguntou porque lhe perguntei e porque não falar de um bissexual chamado Miguel 'Rosas' que tentou arrastar-me para a sua causa e que quando descobriu a minha causa ser outra começou a falar de esmagar cabeças talvez porque a minha irmã querida gosta de Smashing Pumpkins, o senhor não é o meu pastor e eu deverei feri-los e deverei ser fiel ao meu deus Genet ao denunciar que ele tem o cabelo louro e é o namorado de uma querida e subterrânea actriz de teatro e deverei dizer que as iniciais do chefe eram fm trabalhando na ph, irão eles tentar matar-me? Não tenho medo, irão eles assumir-se? Não acredito … pessoas estúpidas não assumem pessoas estúpidas deviam ser varridas e todos os irmãozinhos estúpidos e chupistas incluindo o Estado venham chupar-me o caralho, dizer que me amam e matarem-se a seguir porque para mim tu és nada e ela foi tudo sim! ela verdadeiramente penetrou no meu interior e que essa imagem do meu ser actuando em duas imagens homoeróticas de cinco segundos seja santificada!, que todos vós estúpidos se venham com a imagem da beleza e se perguntem se realmente aconteceu e querem vocês pôr-me na prisão ou matar-me? Não tenho medo e ah irmãozinho parece-me ser tão fácil descobrir as tuas estranhas preferências sexuais ó irmãozinho é só enviar-te uma pista ou comunicar algo ao telefone como «apaga a sequência do filme» não me tenhas medo rapaz, não me tenhas medo, eu não te odeio … apenas não gosto de pessoas estúpidas sabes … eu sei que sou a alma de um Bórgia sem cérebro falando aos peixes.
Nada é real, nada é verdade, tudo é permitido.
Estou fora e assim eu sou
Procuro sempre a honra como Mishima
Querelle arriba avanti marinaio Querelle para sempre
Adeus mundo real.
Vejo-te no inferno e nem mais uma lágrima para as criaturas da noite.
Quando sonhas sonhas a cores?
E tu, minha irmã gémea e violeta, alguma vez me perdoarás?
E quem roubou o meu cd dos Lucretia Divina devia ser queimado vivo
ZMB o maluco governa.
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Claudio Mur