segunda-feira, 22 de junho de 2026

Os índios do tarrafal


Filme de Luis Costa com as crianças do projeto Cinema no Bairro de S. João de Deus, Porto 2005.
Produção FadaFilmes - Associação Artística, com o apoio da Fundação FILOS.

 

sexta-feira, 19 de junho de 2026

A place to be with us


Last two songs from the lp «A place to be with us»
by Gunter Hampel & his Galaxie Dream Band
edited by Birth Records
Birth oo32
1981

5. (No 437) A place to be with us, 14m16s vibes, flute, voice, drums 6. (No 461) Awakening, 2m33s voice, altosax, baritonsax and drums Gunter Hampel vibraphone, bassclarinet, baritonsaxophone Jeanne Lee voice Thomas Keyserling altosaxophone, flute
Martin Bues drums



terça-feira, 16 de junho de 2026

Racismo no almoço de família

Não há um almoço de família em que não ouça uma infâmia:
Na tv passa um sósia do jogador brasileiro Vinicius Junior. O meu cunhado vira-se para o meu outro cunhado e diz: -- Então, a este já se pode chamar mono?
Ao que o outro se ri e diz: -- Acho que sim.
É por isso que me apetece mandar foder esta gente, que infelizmente é a minha gente e esse é o problema, já que os meus pais estão a entrar nos seus 80 e vão precisar de ajuda, a minha mãe é a que menos culpa tem. 
Apetece mas não os posso abandonar.
Esta casa põe-me doente.
Ter de aturar isto porque sou o elefante na sala, o único que se revolta silenciosamente, é a minha cruz.
O mal do mundo começa em casa.
Se eu me tivesse conseguido safar neste mundo, não aturaria isto, teria a minha casa e inventaria desculpas educadas e hipócritas para não vir comer a esta mesa e só voltaria para receber a herança.
Assim, pouco posso fazer a não ser escrever para aliviar o sofrimento, um sofrimento ainda assim pequeno, reconheço, menor do que o daqueles que não tem alojamento ou viram as suas casas bombardeadas ou menor do que o daqueles que não comem pelo menos duas refeições por dia. Sou mais um que sofre, não tanto mas que sofre.
Que me importa que lhe chamem pânico do silêncio? Tenho de sofer e calar? Só porque digo o que não devia ser dito?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Restos mortais

 

Desespero dos sobrinhos -- que no entanto deviam gostar muito dele, visto que depois de se ter despojado de tudo o que lhe pertencia para lho dar a eles, ainda tinham muita paciência com ele -- o senhor Federico Biobin (o tio Fifo) levantava-se ainda de noite e, muito calado, baixinho de estatura, com a cabeça pequenina em forma de pêra lustrosa, calvo até à nuca, com meia dúzia de pêlos ásperos, metade para cada lado, espetados na carinha de rato, punha-se logo a rebuscar a casa, a fazer caretas, a fungar, a soprar, como que para manter o nariz pontiagudo permanentemente treinado na exploração, com os lábios armados daquela meia dúzia de picos; até que a casa inteira acordava sobressaltada, ou por causa do estrondo da queda das panelas na prateleira da cozinha, ou dos caixotes que desabavam desordenadamente no quarto de arrumações. Acorriam todos, uns em camisa, outros em pijama, outros em saia de baixo.

-- Tio, que fizeste? Que aconteceu?

Dava as respostas mais inesperadas:

-- Nada: sinto um fedor a móveis velhos.

Dizia isto como se todo aquele estrondo não tivesse sido provocado por ele, como se nem o tivesse ouvido, como se, plácido e ligeiramente maçado, estivesse a falar do silêncio que reinava anteriormente na casa.

Não deixava passar um dia sem fazer das suas. E o melhor era que aos aborrecimentos que causava, às maçadas que dava, e que punham em franja os nervos dos sobrinhos e das criadas, chamava ele prestar um serviço. Era capaz de passar dias inteiros na cozinha a recortar e tentar colar fitas de papel num vidro partido da porta envidraçada que dava para uma espécie de passadiço, onde uma retrete fedia que tresandava. A cozinheira ficava furiosa.

-- Mas o senhor, que é tão sensível ao mau cheiro dos móveis velhos, não sente o da retrete?

Não, não, aquele não sentia; e continuava a fungar, a soprar, a fazer caretas, na tentativa de colar aquelas fitinhas de papel.

E ei-lo agora lá em baixo no jardim, furioso contra um dos batentes da cancela que, cravada na terra, não queria andar para diante nem para trás. Lívido e com as veias do crânio a rebentar, dava tais puxões que os braços, mal a cancela cedia um pouco, pareciam querer-se despegar do tronco. Os sobrinhos gritavam-lhe das janelas:

-- Acaba lá com isso, tio! Não vês que não se abre?

-- Acabar com isto? Ou a abro ou acabo eu!

Não a abria, nem acabava ele; voltava para cima, todo desconjuntado, num banho de suor, estendendo as pequeninas mãos, reduzidas a mísero estado, para que lhas untassem com azeite e lhes pusessem uma ligadura.

Depois, quando se sentia maçado de cansar a família, saía e ia maçar os que passavam na rua: por exemplo, certos dias em que chovia a potes, gostava de se meter, protegido por um guarda-chuva, debaixo das goteiras, com um ar tão evidente de fazer aquilo para arreliar os outros que eles sentiam a tentação de o arrancar por um braço do encosto da parede. O prazer malévolo que muito lá no fundo experimentava fazia-lhe arreganhar ligeiramente os cantos dos lábios num rechinar quase imperceptível de cãozinho mimoso.

A última foi aquela do guarda-pó cinzento de alpaca, comprado para roupão, quando os sobrinhos, rindo da compra, lhe fizeram notar que era um guarda-pó de viagem.

-- De viagem? Então parto!

-- Partes? Onde vais?

-- A Bérgamo, a casa do Ernesto, despedir-me dele antes que vá para Génova embarcar para a América.

Não houve maneira de o demover daquele capricho de partir sem mais nem menos. Nem a objecção de que a sua visita ao pobre do Ernesto seria mais um gravíssimo estorvo do que um prazer no meio da barafunda em que certamente se encontrava, em vésperas de partir para a América: maior razão. Nem a de que o médico lhe ordenara que se mantivesse tranquilo e não se afadigasse por causa da esclerose cardíaca de que sofria. Queria morrer! O quê? Em Bérgamo? Morrer em Bérgamo enquanto o Ernesto desfazia a casa? Sim senhor, morrer em Bérgamo na casa desfeita.

Partiu com aquele guarda-pó cinzento; e por azar a ameaça daquele perigo, que os sobrinhos de Roma, sem acreditar muito nela, lhe tinham posto na frente dos olhos para o segurar, realizou-se. A notícia fulminante da morte do tio Fifo no mesmo dia em que chegara a Bérgamo quase ia matando também os sobrinhos de Roma pelo facto de, embora sem acreditarem nela, a terem previsto; e por, tendo-a previsto, não acreditaram nela, e terem deixado partir o tio.

Desta última partida pregada aos sobrinhos ausentes e daquela mais dura ainda pregada ao sobrinho de Bérgamo, o tio Fifo, no meio da confusão da casa, toda de pernas para o ar devido à mudança, morto, em cima da cama de ferro com o seu belo guarda-pó cinzento de sob o qual despontavam os dois pequenos pés juntos, mais do que satisfeito, parecia felicíssimo.



...

início do conto «Restos mortais» de Luigi Pirandello

com tradução de Carmen Gonzalez

edição Livros RTP no volume «Contos escolhidos», páginas 45 - 47



segunda-feira, 8 de junho de 2026

Às vezes on às vezes off eu prefiro o estado de ov

 O texto em baixo foi escrito no tempo da troika, do passos coelho como pm e do rui rio como presidente da cmp, é um pequeno excerpto de um livro que concatena diversos textos escritos até 2012. A sua primeira versão foi traduzido para inglês e igualmente colocada online como pdf.

Em 2020, fiz algumas revisões e acrescentos para ser integrado numa edição de autor em papel em 2021.

Em 2026 voltei a ler o texto e fiz mais alterações.

A minha mente evoluiu e já não concordo com a totalidade do que então escrevi, mas o que escrevi é de certo modo a maneira como me vi e vi o mundo e a maneira como o mundo me viu. Ao republicar o texto preservo a minha voz.





O ritual envolve escrever no fundamental café por alturas de novembro de dois mil duzentos e vinte e três um poema psicótico a um poeta da revolução que justifica alguma solidariedade embora tão diferente seja dele. Ele é, acredita ser, escreve como irmão dos deuses, como abençoado por zaratustra, escreve que despreza o rebanho, o que toda a gente chama o povinho e a vidinha mas no fundo ele quer ser o profeta de um rebanho, «alguém que me siga». Mesmo que goste do romantismo desta poesia porque o hei-de seguir?, ele que se acha acima dos outros, e eu caio sempre na realidade de ser um carneiro pois nunca pertencerei a uma elite da revolução, nunca quererei ser poeta, digo: nem ditadura do poeta nem ditadura do burocrata nem ditadura do proletariado nem mesmo ditadura do louco, eu na verdade imagino-me pintor operário subindo as ravinas fluviais de derza, nunca pertencerei à elite porque não me sujeito à instrumentalização da palmadinha nas costas nem tenho habilitações, digo-te antónio pedro ribeiro que se me elevam aos píncaros, se me tratam como um mestre na fase de negociação deixo de ser amigo ou ter currículo a partir do momento em que assino um contrato, botam defeito em tudo, querem que eu roube modelos na internet porque não confiam no meu valor, digo-te que eles atiram dez euros para cima da mesa e dizem no seu capitalismo de esquerda, de imobiliária maçónica com vistas de um milhão de euros e recitando o livro dos morons ou a bíblia sagradíssima: pensas que te ando a sustentar?, não sabes trabalhar, baza! A verdade meu amigo ribeiro é que os dogmas se ajustam à cor do dinheiro ou à falta dele, ora… salvamo-nos os dois porque cada um à sua maneira sente as prostitutas. A daniela trata-me bem, nunca ninguém me trata com tanta honestidade, explica-me porque não beija na boca, dá-me aliás dicas que revelam muito do que também ela vê em mim, diz-me que devia fazer ioga.

Antes ou depois do crash, escrevo sem roaming uma mensagem a uma prima por afinidade e, quando lhe estrago a performance, ela expulsa-me com a ajuda do agente de autoridade de serviço e diz: paneleiro de merda. Lógico! Um insulto de boca não fica registado e, se no futuro levar uma facada, perante um juiz ela dirá: eu não sei porque ele me fez isso, parecia simpático, até gostava dele, só mesmo um doente, um maluco… senhor juiz. Existe uma diferença entre ser puta e prostituta, ela poderia dizer.

Como o outro numa palestra: o homem não descende do macaco mas há homens mais macacos que o próprio macaco. Mas digo eu: também há putas que não se acham putas só porque pertencem à elites opositoras que se tornarão secular instituição, outras há que querem os direitos do século vinte e três mas o sustento do marido do século dezanove. E quando conseguem garantir o sustento sem o homem, começam a não precisar dele para nada e as mais abastadas já nem para gerar um bebé precisam e o homem vê tudo isto e já não compreende nem ninguém lhe ensinou nem ele quis aprender. Vira-se para a pornografia online ou recorre à boneca vinda da china, é a saída mais fácil, é fácil virar fascista, é só não querer admitir o erro de acção e achar-se vítima das circunstâncias, é pensar que se é superior às circunstâncias e que tem de haver «uma lei para mim e uma lei para o outro», esse inimigo que lhe diz «ao menos que ficasses com a piroca entalada, hemos pena».

Noutras eras antes de se definir a palavra, o fascismo chamava-se desejo de poder absoluto, hoje ele é um transformista mistificado de social mas só há almoços grátis para os amigos, e eu amigos só tive aqueles que bateram à porta por necessidade pessoal, pareço ter cara de endinheirado. Amigas? Perdi oportunidades de continuar a ser um objecto, elas adoram o diabo, têm mesmo medo dele, elas odeiam o diabo, sujeitam-no à indiferença porque ele não quer ser adorado e foge como um bicho-do-mato da adoração de quem sistematicamente diz: «você é o futuro mas não gosto do seu casaco. A sua imagem… você deve, olhe, eu conheço quem possa…»

Dedico-me apenas a reprimir o meu pensamento porque ele acaba sempre por acontecer com nuances, dedico-me a decifrar a explosão de gatafunhos e a transcrever estilhaços de bala dizendo que a medicina não compreende, a religião is evol love, o que eu preciso mesmo agora é de exercitar a função do orgasmo. A seguir, assusto-me com o cabide dos casacos, vejo nele uma bruxa de negro mas logo a confiança erótica chega, executo movimentos de cavalgadura numa égua imaginária et voila mijo-me na camarata. Satisfeito o desejo durmo como um anjinho, no dia seguinte ponho um boné e vou ver as notícias da guerra, quirossá roubô cambiô hodjê, porque quem nunca te roubou um beijo que atire a primeira pedra, não nasci em croatan mas croatan nasceu em mim, faço kuduro pru mundo.

Psicoticamente tudo o que às vezes penso e nem sempre escrevo, tudo o que às vezes escrevo e esqueço durante anos, psicoticamente tudo é passível de implicitamente ser imediatamente interpretado ou até indirectamente comentado, julgado e, após detalhada análise, atentamente jogado para aquela secção da base de dados intitulada «sem imagem comercial», ou seja, eu não deixo conscientemente que a instituição me explore, é preciso que eu tenha vontade de me deixar ser escravo e vestir a camisola que me ofereçam, no entanto preciso de trabalho, sou ganzómano e por isso não posso apenas descrever, tenho de algum modo reinterpretar e, com as especiarias a que tenho acesso, tenho de à minha maneira cozinhar a paz que me vai ordenando o caos, o meu estômago. A substância, que me conforta há muito tempo, deixou de ser uma grande diversão para ser um substituto de um modo de vida normal, uma sentença de futura incapacidade mas eu luto… luto por trabalho todos os dias para me bastar, para não ser comentado como um cancro social, uma metáfora que se fosse verdadeira oferecer-me-ia todos os dias por volta das quatro da tarde na sala de visitas do hospital qualquer extravagância como presente e desejos de boa recuperação mas… o meu modo de vida, a minha dádiva, o meu diagnóstico, a minha sentença: drogado mental sem sentimentos e sem pessoas verdadeiras à sua volta, posso esquecer os charutos havanos de chocolate «mon chérie para as tuas melhoras meu darling e para deixares de fumar faz-te tanto mal à saúde»… eu queria tanto ser auto-suficiente e não necessitar de emprego, de caridade miséria falsas oportunidades, trabalho eu luto por todos os dias, a toda hora e consumo o meu ser fumando o pensamento de um novo e futuro falhanço ao qual concorro enviando o meu currículo profissional. Adormeço pensando que fiz a minha tarefa de lutar. Ao acordar, a repetição volta, o sol inicia de novo a luta, eu fumo mais um porque continuo sem rendimento ao fim do dia e o dia só agora começou e já estou a pagar imposto…

Ao passar na damrak vejo num armazém um anúncio pedindo empregados, fico interessado e entro, dirijo-me ao balcão, apresento-me e dizem-me para voltar daí a um mês. Ok, agradeço e volto à rua sabendo que talvez não voltarei lá e, olhando a sujidade nas minhas calças, penso no que a minha mãe uma vez me disse, ela uma voz anónima do povo em ditadura: nunca descures tua imagem. Às vezes dizia-me isso e eu ficava a pensar: mas quem é pobre pode andar asseado, arranjado?, ao que ela respondia: podes ser pobre mas fazer por não parecer. Ao que parece a higiene pagará todas as promessas mas… entre mim e a higiene há toda uma luta de classes e eu tenho algumas dúvidas de que queira ser manager ou até formar um partido lóbi. Sou assim: às vezes on às vezes off eu prefiro o estado de ov, um germe eternamente gerado e sempre pronto a renascer para um novo mundo numa nova ponte, quantas vezes já não mudei de vida?, tentar pelo menos. O cínico poderia dizer «às vezes ainda me ofereceram camisolas» mas o hobo diz «nunca tive estabilidade nem ilusões, apenas sonhos, tenho de me adaptar ao mundo mas o mundo quer que eu deixe de ser eu», para ser ele — o mundo que rende juros ao gestor de activos; para ser com ela — a munda, a mãe levando o pequeno-almoço à cama ou a mulher «faca e alguidar» com jantar romântico no dia de anos.

No fundo, minha mãe leva-me a deduzir a simulação futura, a intoxicação com um copo de água e talvez, agora é capaz de ser já um pouco tarde… um louco é-o muitas vezes por repressão ou impossibilidade de descarga sexual, farto de não ter alguma toura como parceira sexual, simula o amplexo na sua imaginação e usa as suas duas mãos em si próprio, sente-se senhor anarca monarca absoluto pondo e dispondo de si próprio, dizendo até que não precisa de gadja, que se basta a si mesmo. Porque não acredito em desequilíbrios químicos genéticos e tão só em espíritos que incubam no futuro em crianças da lua, às vezes o louco ou o joker joga contra si próprio, chega mesmo a escrever coisas reaccionárias, frases como: já não acredito na anarquia, na guerrilha criativa, eu nem sequer encontro uma gaja interessante, quanto mais mudar o mundo, a guerrilha significa spam, noise informativo, gosto de informação estruturada, organizada, não gosto do noise quântico da web.

Dito isto, nego tudo o que escrevi desde o último dois pontos. Há sempre alguém a processar a informação que me chega. A verdade é que ainda não cheguei ao nível necessário de conhecimento para eu próprio poder organizar o meu dia-a-dia, o excesso de informação que ainda não consigo processar convenientemente, sou um hobo ficando sem dinheiro a cada pacote de bolachas que compro, a cada grama de thc que compro e, claro, eu… dizem para eu voltar daqui a um mês porque vêem o modo como estou vestido, vêem que estou de passagem, um turista momentâneo, suado e com as calças manchadas, alguém que não estará aqui por muito mais tempo.



domingo, 7 de junho de 2026

Porto Amsterdão

 

 

Saio do Porto directo a Amesterdão no dia 18. Partimos às nove horas da praça da galiza. Paramos em lourosa, são joão da madeira, viseu, mangualde, celorico da beira, vilar formoso. Demoramos cinco horas a chegar à fronteira. Terreno acidentado a subir desde o porto a vilar formoso. Já em território espanhol tudo é diferente. Sempre em frente. Vamos descendo suavemente o planalto sempre em linha recta. Passamos ciudad rodrigo, salamanca, valladolid e, três horas depois, paramos num centro de camionagem com restaurante a cinquenta quilómetros de burgos. Café solo a um euro e vinte cêntimos e mudança de camioneta. E então começa o temporal.

Quando voltamos ao asfalto, recordo como se fosse hoje que desta cidade sobrevive meio desfeito um cinzeiro verde surripiado de um bar com papagaios, no retorno de uma excursão ao país do badminton, onde ouço discos pedidos numa jukebox, onde se come picanha às três da manhã, onde a mulher que me fascina no momento olha para mim, enquanto dedos femininos lhe acariciam o cabelo negro e procuram com indiferença o elemento que parece faltar para um ménage. Vejo que contribuo para que a foda deles não se concretize, ele não consegue porque ela «se apaixona» por mim e eu inocente ou burrinho não quero trair a maria cá do meu bairro.

Ah!, que emigrante prefere esgalhar o pessegueiro em vez da real narsa apanhar… como vingança ele puxa-me pelos cabelos na camioneta e eu, embriagado com a vitória desportiva e guardando o vinho rasca, predigo que no futuro te espetarei com uma prisca nos olhos tendo a promessa de levar no couro e cambalear mas não cair e vencer o combate por exaustão do adversário. Às vezes. ganho apenas porque o oponente desiste de bater e de ganhar sustento e alegria com isso.

Quanto a ela, se já não me recordo do seu nome, recordo que lhe tirei uma foto porque ela, de cabelos encaracolados negros e de óculos redondos, parecia o slash dos guns n roses, parecia uma rock star e por isso levanto-me para celebrar, vou até à jukebox e procuro «estranged« para me lembrar da ilusão quando às vezes falo para os meus botões e ninguém responde, é fácil enganar-me e pensar que apareci no mundo sozinho. Ninguém me ensinou o beabá ou não gostei dos modos de quem mo tentou ensinar, decidirei terminar a minha conta bancária, a primeira desde pequenino.

Preciso de deduzir todas as outras razões para continuar a ter de dar o salto de modo a descobrir o meu caminho. Sei que és a minha sombra, sei que nunca encontrarei ninguém que te substitua. Também não o quero, reservo o que resta do meu coração para uma nova amora, alguém diferente. Dar o salto e repeti-lo até que encontre o meu verdadeiro lar. Talvez seja este o modo de quebrar o medo para que não haja um ponto de retorno. No meio do silvado, na borda da linha não se vê uma sapatilha a dizer o meu nome de estrela, apenas o silêncio dos grilos e a aparência de uma fé perdida, a minha estrela no céu enlameado. Mas fumando a lenda podia eu com muita fantasia dizer como axl noutra canção: I used to love her but I had to kill her. Uma morte dentro do meu coração. Se e quando as autoridades acharem necessário, os ficheiros em papel aparecerão.

São dezanove horas e estamos a duzentos quilómetros de madrid e a uns cem de território basco. À meia-noite, por aí não me recordo bem, chegamos a bilbau. É pena ser noite. Só se vêem luzes a recortar a baía, a nuvem está algures, a auto-estrada mais elevada que certos andares de cinco pisos, vamos descendo em curvas com saídas para a direita e sinais de trânsito ao centro até à estação de camionetas. Novos passageiros agora e ainda bem porque me canso de ouvir falar mal do país. Mas voltam sempre, agosto é deles. Gostaria de ver bilbau de dia. Talvez no regresso. Tempestade até território francês.

Às duas e meia da manhã, paramos numa auto-route e aproveito a oportunidade para comprar por três euros e noventa uma sandes de atum, ovo e delícias. Não consigo dormir ou durmo por alguns minutos nos solavancos da cadeira. Tento diversas posições. Às cinco, paramos pela segunda vez em território francês, é o início da alvorada. Vejo um mapa da michelin por dez euros, sempre gostei de cartografia, sei também que o mapa não define o território e penso que seria uma boa compra para oferecer mais tarde. Mas como recordo que há prendas que não chegam com recepção comprovada ao destino e às vezes são devolvidas, para já não quero gastar dinheiro desnecessariamente. Do mal o menor, compro lâminas de barbear para toda a estação.

Se portugal é acidentado, espanha uma linha recta até às montanhas que iniciam o território basco com túneis atrás de túneis e depois nova linha recta até à fronteira, a frança de manhãzinha até às nove, nove e meia é a alvorada graciosa. Paramos e eu peço um express double que me custa dois euros e quarenta, vejo os jornais e mais uma vez me contenho de riso com um periódico com caricaturas onde se podem ver os primeiros-ministros europeus, os ditos de rebeldes do hezbollah e hamas e onde não se pode ler muito sobre as atrocidades de israel. Tusso ao fumar o primeiro cigarro amber leaf às nove, nove e meia da manhã, os motoristas dizem qualquer coisa em espanhol mas o meu espanhol não é bom e no comprendo. Atravessamos paris em direcção a norte e aqui chega a desgraça, uma avaria deixa-nos parados ao sol na berma até às duas e meia da tarde em saint quentin a cem quilómetros de lille. Paramos por meia hora para almoçar e arrancamos às três e meia da tarde na direcção de lille, bruxelas e tendo a holanda como destino final de trabalho numa qualquer estufa de flores ou tomates.

Entramos em gent e seguimos em direcção ao ring de antuérpia. Outra cidade a visitar. Às cinco e meia entramos em antuérpia. Avançamos e entramos finalmente em território holandês. Paramos para descarregar um passageiro em breda quase às sete da tarde. Como a paisagem se alterou. Breda tem canais de água, tem pistas de bicicleta, tem árvores, tem casas de tijolo burro. É bonito. Roterdão é fantástica. Falta-me a máquina fotográfica. Sete e quarenta e cinco. Praias com belas mulheres no meio da cidade, o jardim como praia e o tgv correndo em paralelo, o fim de tarde a ouvir os sucessos da pop numa rádio holandesa.

Chegamos a amesterdão às oito e meia, menos cinco mais cinco e o meu contacto não aparece. Ele falara-me numa carrinha mitsubishi mas como chegamos com atraso… eu até vejo um furgão branco mas do homem só lhe conheço o telemóvel. Estou pendurado com um saco que pesa dez quilos e um calor abafado, mais abafado que em portugal. Tento o número e sinaliza inválido por falta de roaming, a cabine pública só funciona a cartão pré-comprado. Nove horas em amstel, estação de camionetas, autocarros, comboios e quem sabe o que mais em ligações ao aeroporto, eu acho que passamos num túnel bem por debaixo da pista de descolagem. Uso o meu melhor inglês aflito, peço a um jovem e ele tira-me um bilhete para central station onde chego às nove e um quarto.



quinta-feira, 4 de junho de 2026

Propaganda e realidade

 Descobri mais um chegano nesta terra de filhos de puta.

Acção: Bloquear.

Até não haver mais sítio onde ir e nos dissolvermos na nossa insignificância por não sermos capazes de vislumbrar uma alternativa social.

Voltar a Tintus Rios foi em certa medida um erro,

mas ninguém me disponibilizou habitação que eu pudesse pagar em Timbuktu,

por isso não tive qualquer hipótese. Isso ou ir morar debaixo da ponte quando o dia do despejo chegasse.

Claro que podias chamar O correio da manha, apareciam logo muitas almas com propostas para te ajudar...

Mas, como diz aquele que não quer revelar as suas mágoas a quem lhe pergunta: -- Nunca pior.

Ou como diz o Mintonegro O país está melhor.

Porém, acontece ouvir: -- O governo prometeu em Março um apoio para a gasolina e estamos em Junho e o apoio ainda não chegou, nem sequer foi promulgado, foi apenas apresentado em conferência de imprensa como propaganda em Março. 

É na propaganda que o governo-sombra do primeiro-ministro Benturra mais trabalha.


terça-feira, 2 de junho de 2026

Tuíte Ironia da biografia

Há semanas li a biografia de um amigo poeta que faleceu e, agora, ao pensar em certas coisas lembrei-me: a irmã do poeta a dizer A nossa mãe deu-lhe uma casa e ele até as cortinas que eu lhe dei ele vendeu [para a droga].

Mas a irmã esqueceu-se dizer que a casa que a mãe lhe deu não era igual à dela, não tinha casa de banho. Mas o problema foi as cortinas vendidas.

Dá que pensar nos que nos sobrevivem.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Marion Brown vezes dois,

 

  para afastar o orgulho sorrateiro de quem ri e diz que o país está melhor e quer que se acredite nisso como uma fé, mas uma fé que não paga as contas nem tão pouco alivia e isso o Mintonegro não diz, apenas ilude.


domingo, 24 de maio de 2026

-- Se tens desejos e necessidades tens de trabalhar. Se não trabalhares, ou seja, se não te faltar nada, tornas-te preguiçoso.

 boa tarde, amig@

lembrei-me de escrever porque vi hoje no JN uma notícia sobre abusos sexuais, amputações e violência em reality shows transmitidos na tv por essa europa fora.
Tu disseste-me na última conversa que eu te tinha dito que eu via o mundo como um reality show.
Eu não sei se disse isso mesmo ou se tu deduziste das minhas palavras. mas estás cert@! eu escrevi em algum lado o termo freak show, para sublinhar a realidade do mundo e das notícias na comunicação e redes sociais, onde qualquer conteúdo, qualquer ideia, qualquer facto é amplificado, distorcido e enviesado e posto como propaganda ao serviço de qualquer destino que nunca é bem explicado, muitas vezes é ruído e caos outras vezes é ideológico.

O capitalismo apropriou-se da ideia do livro 1984 do Orwell e criou o reality show big brother, foi aí que a loucura entrou, e tudo foi apropriado e tornado público e visto por milhões, e quanto mais obsceno melhor para que choque que indigne que faça as pessoas saírem da sua privacidade e se manifestarem e gerarem cliques em anúncios publicitários e audiências cada vez maiores, e chegámos ao ponto de tudo, mesmo o mais nojento, ser passível de ser vendido ou descartado pelo povo que agora é o público que vota segundo a propaganda que escuta.
Esta é a loucura actual do mundo, as pessoas parecem baratas tontas à procura da aprovação do vizinho e da sociedade e do patrão. As pessoas estão a enlouquecer e a ficar paranóicas.

Quando uma pessoa quebra a unidade da sua mente, e o mundo lhe parece um espectáculo de televisão, onde há vários eus confinados a interagir, a ser confessados e avaliados pela audiência, que são as pessoas que connosco se cruzam na rua.

Eu recordo que quando senti que o mundo estava contra mim e a infligir-me terrorismo psicológico e a espiar-me, eu sentava-me ao computador e escrevia no ficheiro de texto qualquer frase ambígua, obscena, brutal para confundir quem lesse, porque eu pensava que o meu ficheiro Word estava a ser lido em tempo real. Ria-me no fim e saía à rua para observar a reacção das pessoas. Vi caras sérias que me diziam telepáticamente És um fdp. Outros riam apenas e eu ria também.
E nestes loops andava eu, a ansiedade a crescer, a alienação a rugir até à completa despersonalização que é a expulsão do mundo para entrar num novo reality show chamado Hospital.

Cada vez há mais pessoas a ficarem doentes, dois milhões de portugueses consomem antidepressivos, anti psicóticos e ansiolíticos. 
Tem de haver uma saída para fora deste mundo que nos diz: -- Se tens desejos e necessidades tens de trabalhar. Se não trabalhares, ou seja, se não te faltar nada, tornas-te preguiçoso.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Tuíte De mal a pior

Mintonegro diz que o país está melhor.
E mesmo nós, quando nos perguntam como vamos, a maior parte diz com orgulho sorrateiro parecido com o sorriso do Mintonegro: -- Nunca pior!
Mas o que eu vejo é que nos últimos tempos fecharam 2 minimercados e 3 cafés na minha zona e o quarto tem uma placa Vende-se.
Parece que não estamos melhor, estamos a empobrecer.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

A lavadeira e o construtor

 


Este texto foi dito de improviso para um gravador de telemóvel e enviado para a Rádio Paralelo online em 2020 ou 2021 para responder a um desafio da Casa da Achada de escrever um texto com três palavras prédeterminadas. 

Já não me recordo de quais eram essas três palavras. Em 2026, adicionei algum ruído sonoro à voz.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

I Believe


 

«I Believe»

óleo sobre cartão tamanho A2

2026 ZMB


«I Believe that rock and roll music is sent to us straight from the devil himself»

é uma frase dita no álbum «I Ching shuffle» dos De Fabriek


quarta-feira, 6 de maio de 2026

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Agora na verdade não já não

 

 
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Diz-se que o extraordinário romance Red Shift (1973), de Alan Garner, foi inspirado no momento em que o autor viu um grafiti numa estação de comboios onde se podia ler: «agora na verdade não já não». Existe algo tão inquietante, tão críptico e tão sugestivo nesta frase, especialmente quando é grafitada por um anónimo. Que é que o autor desconhecido deste poema vagabundo queria dizer com isto, e que significava isto para ele? Que evento o levou a escrevê-lo -- foi uma crise pessoal, um evento cultural, uma qualquer revelação mística? E será que alguém além de Garner alguma vez viu a frase grafitada na parede da estação de comboios? Ou foi apenas Garner que a viu? Não que esteja a insinuar que a imaginou -- mas a frase captura de forma tão perfeita os vórtices temporais da obra de Garner que é quase como se pudesse ser uma mensagem que só lhe era destinada a ele. Talvez fosse mesmo, independentemente das «intenções» do grafiteiro.
Se quisermos acreditar na fonte anónima mais famosa do mundo, as palavras «agora na verdade não já não» foram escrevinhadas em batom, por baixo dos nomes de dois amantes que haviam sido escritos a giz na parede. Em qualquer dos casos, a explicação para a frase parece ser -- à primeira vista -- algo prosaica. Alguém -- um dos amantes, ou algum dos seus amigos, inimigos, rivais, ou mesmo um estranho -- tecia um comentário -- sarcático, melancólico, irado? -- sobre o estado da relação. Uma frase que não é bem banal, mas que é certamente transparente, conversacional -- «agora na verdade não já não» -- adquire uma opacidade poética em virtude da omissão de uma vírgula. No entanto, mesmo aquela explicação aparentemente deflacionária não consegue evitar a inquietação da frase: «agora na verdade não já não». Dizer que havia algo predestinado sobre o encontro de Garner com o grafiti é duplicar a inquietação intrínseca e indelével provocada por esta frase. Porque assim, para onde é que a frase nos aponta senão para uma temporalidade fatal? Agora não, já não, na verdade não. Quero isto dizer que o presente se erodiu, desapareceu -- agora não já não? Estamos nós no tempo de um já perpétuo onde o futuro já foi escrito; em cujo caso não é o futuro, na verdade não?
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Mark Fisher, página 117 - 118

«O esquisito e o inquietante»

tradução de Leonor Castro Nunes
edição VS


sábado, 11 de abril de 2026

This is the family record

 



IRABCDJOL 17

01: Filho da mãezinha
02: I am the baker (long)
03: O protocolo do rubor
04: Insane again?
05: A visão de um louco

Track 01 is a collage of sounds including two twisted versions of Alan Vega songs and a traditional portuguese song by Mãe Linda.
Track 02 is the long version that includes a metronome and field recordings.
Track 03 is inspired in a rythm by Manitas de Plata performed here on flute and includes a poem by Roger Wolfe which is the title of this track.
Track 04 is a live improv using the sound of a tv, assorted percussion and flute and voice on tape.
Track 05 is an attempt to sing like Meredith Monk on the Book of Days record.

This is the family record




quinta-feira, 2 de abril de 2026

Só (Solidão) por Tom Zé

 


Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefo...
E no meu descompasso
O riso dela
Na vida quem perdeu o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de SOluço em SOluço esperar
O SOl que SObe na cama
E acende o lenÇOl
SÓ lhe chamando
SOlicitando
SOlidão
Que poeira leve...
Se ela nascesse rainha
Se o mundo pudesse agüentar
Os pobres ela pisaria
E os ricos iria humilhar
Milhares de guerras faria
Pra se deleitar
Por isto eu prefiro
Chorar sozinho
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone tocou, foi engano
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
passo
O riso dela

quarta-feira, 25 de março de 2026

Fala do Montemuro

Ó papão, vai-te embora
Sai de cima do telhado
Deixa dormir minha filha
Um soninho descansado

De cima do meu telhado
O papão vai já fugir
Um soninho descansado
Minha filha vai dormir



Celeste Almeida
Página 29 de 'Entre chás e benzeduras'
Edição Edições Vieira da Silva, 2026


quarta-feira, 18 de março de 2026

Throbbing Gristle Something came over me Live At Oundle School 1980

 


something came over me

and i don't know what it was

i don't know what it was

something white and sticky 

like a tomahawk trump who killed 200 little girls like me

https://www.youtube.com/watch?v=THfKY9xqY6I




quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O país azul

 Encheu-se o pequeno fogão de ferro fundido e acendeu-se. Havia um pouco de madeira de uma obra demolida, ainda manchada de cimento. As castanhas assavam sobre a tampa: Maïe tinha-as mordido para lhes dar ar. Por vezes estalavam e Maïe resmungava: «Castanhas más, fazem favor de não saltar?» Entretanto cosia o forro da beatilha de um corpete. A agulha passava com um rangido doce. A luz do fogão caía sobre as suas mãos ágeis, e fazia brilhar o tecido. Michel, acocorado, fechava os olhos com o calor.

-- Eu coso, coso -- disse Maïe. -- Vou ganhar cinco moedas. Não é bem pago? Dá-me um pouco de vinho doce, monstro. Bebe o fundo: não quero nem casar nem ser enforcada.

Na sua linguagem infantil, contou-me a sua vida. Ela não conhecia nem o bem, nem o mal. Tinha vagueado pelos campos, com horríveis rapazes, para fazer comédias. Aos nove anos, era princesa no fundo de uma granja, com os pés nus na palha e uma coroa de papel dourado na cabeça. Sabia ainda as tiradas dos seus papéis, e recitou-mas. «Oh! havia uma linda peça, disse ela. Chamava-se, parece-me, o País Azul. Não se via que era azul, mas nós imaginávamos, compreendes? As montanhas eram azuis, as árvores azuis, a relva azul, e os animais azuis. E eu dizia: «Príncipe, eis o palácio do rei meu pai; é de aço forte e a porta de ferro vermelho, guardada por um dragão com três cabeças. Se quiseres conseguir a minha mão...» Hou -- foi uma castanha que saltou. Michel, descasca as castanhas em vez de dormires. É verdade que há um país azul? Tenho a certeza que eu ia para lá; mas meteram na prisão todos os amigos que representavam comigo. Diziam que eles roubavam casas. Um dia veio um guarda, e disse-lhes, e disse-lhes ... não interessa, já não me lembro -- mas não os voltei a ver. E desde então moro na cidade; mas é triste. Está sempre a chover. Só se vêem telhados e lojinhas escuras.»

Assim tagarelava; depois irritou-se: «Michel, já te proibi de sujares o chão com as cascas. Apanha-as. Patife! Toma!» Tirou uma bota e atirou-lha à cabeça. Tinha a cara vermelha e os olhos brilhantes.

-- Nem calculas como ele é mau. Faz-me perder a paciência!

Entretanto tive de deixar a pequena Maïe; mas prometi voltar. Eu via-a todos os dias, e ela estava sempre a coser diante do fogão. Agora fazia lindos vestidos com lenços coloridos. A sua pele retomava vida; Maïe finalmente comia. Mas tornava-se triste à medida que a miséria desaparecia. Ela via cair a chuva. «Monstro, monstro mau», dizia ela, de olhos vazios e lábios moles. Uma vez, entreabrindo a porta, via-a diante do espelho quebrado, com os cabelos de oiro sobre os seios ainda mal formados, uma coroa de papel recortado com uma tesoura na cabeça. Quando me ouviu, escondeu-a. «O Michel é mau, disse ela: dava um bom dragão.»

O Inverno chegava ao fim. O céu era ainda sombrio, mas alguns raios faziam luzir os bordos dos telhados. A chuva caía menos espessa.

Uma noite, encontrei o quarto vazio. Já não havia mesa, nem cadeira, nem fogão, nem bilha. Olhando pela janela, pareceu-me que o contorno de uns ombros desaparecia ao fundo do pátio. E, à luz do rolo de pavio que me servia para subir a escada, vi um letreiro pregado na parede, com estas palavras escritas em letras grandes:

BOA NOITE, MINHA CASA. MAÏE E MICHEL PARTIRAM PARA O PAÍS AZUL


página 123 - 125

de O País Azul

escrito por Marcel Schwob em «O rei da máscara de ouro»

tradução de F. Paiva Boléo

Edição Livros B, editorial Estampa 1976


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Notas do subterrâneo

 

-- Estou um bocado maçado, doutor, estive à espera mais de uma hora.

-- Desculpe, sr Manuel, tive que resolver uma situação.

O sr Manuel estava impaciente porque, além de ter esperado a sua chamada para a consulta tempo demais, quando no visor da sala de espera surgiu o número da sua senha, levantou-se e dirigiu-se para o gabinete e encontrou a porta aberta e, lá dentro, o médico conversava com uma colega sobre um caso agudo.

Dizia ela «Ainda não sei se o delírio dele é causado pela cocaína mas de qualquer modo aumentei 5mg».

Os minutos a passar e o Manu a portar-se bem sem fumar um cigarro e a ouvir falar dos problemas dos outros. O Manu a pensar «Psiquiatras padres e polícias, a mesma luta, gramas e miligramas para reprimir as gramas, já ninguém liga à miséria existencial, hoje só pensam na droga como a causa do mal, não pensam no mal que é a causa da droga e o mal que leva a consumir. Quando há trinta anos eu falei na droga, ninguém quis saber e rotularam-me de esquizofrénico, encheram-me de comprimidos e disseram-me que podia não os tomar se uma noite, por exemplo, fosse jantar com uma amiga. Encheram-me de comprimidos e admitiram que eles iam fazer-me mal. E hoje não passo sem eles. Trataram-me como maluco e não como drogado. Como as coisas mudaram. Deixa-me andar caladinho, porque se a solução são mais químicos não quero ir lá.»

-- Então, tem dormido bem?, pergunta o doutor.

-- Sim sim.

-- E como está a sua mãe?

-- A minha mãe vai bem, na medida do possível. Teve um avc e outros que não foram notificados e todos eles lhe afectaram o cérebro, em especial, a mobilidade. Já não pode andar sozinha na rua desde que caiu duas vezes numa semana e era ela que sempre saía para abastecer a casa. Agora, sou eu ou o meu pai que saímos com ela. Eu ajudo. Sou eu que vou fazer as compras muitas vezes.

Engraçado os psiquiatras terem deixado de falar do meu pai, também já sou grandinho. Também, é verdade, já tive muitos médicos. Sei lá se eles lêem o processo?! Trinta anos dum rolo de papel higiénico on the divan. Nã. Quando muito, o médico que sai escreve um relatório para o médico que entra. Detalhado na generalidade, lol.

Mas, também, agora eu e a minha opinião já devemos contar. A nossa opinião já deve valer para alguma coisa. Eles olham para mim e vêem um senhor e não um jovem adulto inadaptado. Vêem um filho que ajuda os pais e não um filho que preocupa e faz mal aos pais. E seria isto que eu deveria dizer ao médico ou que, se calhar, digo sem o proferir. Porque ele não me pergunta por meu pai. Faz muito poucas perguntas, passa logo para a passagem da medicação:

-- Quer que lhe envie também para o telemóvel?

-- Sim. Doutor, a médica anterior mandava-me fazer exames ao sangue...

-- Sim, posso marcar também.

-- Ver o fígado, é importante.

-- Aqui está, a marcação da colheita e a marcação da próxima consulta e a receita.

-- Bom dia, doutor.

Venho-me embora a pensar num filme que vi há muitos anos no segundo canal, acho que se chamava Macacos para Charley, sobre uma comunidade hospitalar de malucos, um deles dizia que dos médicos só queria as pastilhas. Outro dizia que antes de lhe fazerem a lobotomia era louco e agora era só maníaco depressivo e estava muito contente em habitar ali periodicamente, pelo menos comia e dormia numa cama.

Falei pouco, pensa Manu com os seus botões, mas ele também pouco pergunta, e um dia ainda haverei de lhe dizer que a minha mãe era a minha melhor amiga e que a perdi. Em casa e durante as refeições era a única que prestava atenção ao que eu dizia, quando dis-ursava a minha revolta perante o mundo. Quanto ao meu pai, ele só apontava para a medicação e dizia «Toma o comprimido.»

Perdi a minha mãe para a neurologia, os avc mexeram-lhe com o cérebro, ele tem zonas mortas. O avc não lhe causou apenas perda de mobilidade, provocou-lhe perda de entendimento. Ela já não percebe o que eu digo. E também ouve mal mesmo com os aparelhos auditivos. Se eu lhe disser A igual a B e B igual a C, ela tem de fazer um esforço para perceber que A é também igual a C. E depois, às vezes não dá para perceber se ela ouviu mal ou se não percebeu e tem muita dificuldade em se expressar e dizer o que lhe dói. Vai fazendo sem pensar na dor que sente, diz que é a vontade de deus, vai fazendo o que pode e só na última se queixa. É preciso carinho e um tom de voz especial que eu não tenho por natureza e o meu pai ainda menos. Pelo menos tento.

É triste porque já não tenho ninguém que me ouça. Mas ela não tem culpa. Os diabetes mataram os meus avós, e a minha mãe lá no fundo já pensou que se vai morrer ao menos quer morrer satisfeita com o almoço.

Esta casa não vale nada sem a minha mãe. Eu agora já não tenho vida independente nem posso ter projectos, vivo uma nova fase, uma nova cadeia de nascimento e morte. Vivo para ajudar a minha mãe e o meu pai. E vivo no meio dos seus desentendimentos. O meu pai a reclamar da minha mãe comer três dióspiros e a minha mãe a responder-lhe torto ao ponto de ele dizer «Fala para mim como falas para o Manu!»

O meu pai tem a melhor das intenções: preocupar-se com a saúde da minha mãe e tentar que ela não abuse da comida que lhe faz mal. Mas o modo como se preocupa está errado, exalta-se, quer reprimir à força os desejos da minha mãe. E perde toda a razão porque a minha mãe lhe responde com desprezo, com desprezo até da sua própria saúde.

E eu olho para eles e digo «sou bem filho do meu pai e da minha mãe, tenho os seus traços psicológicos e por menos fui internado sem saber ler nem escrever. E agora que estou minimamente são, sou filhinho da mamã e filho do pai. Vivo para que eles durem muitos anos porque não sei o que será de mim quando eles se forem.

Mas ser filho da mamã não me traz vantagens nenhumas.

Ser filho da mãe significa viver em casa dos pais e não ter vida própria. Significa não ter a liberdade de poder trazer quem eu quiser à hora que quiser a minha casa, significa não ter privacidade nas pessoas e nas conversas, significa ter de levar nos almoços de Domingo com a família completa e ouvi-los cada um à sua vez:

Um gozar o colega de ter levado pancada do mestre no ginásio e não perceber que amanhã pode ser a vez dele enquanto a única coisa que o orgulha é ter batido bem na colega do ginásio.

O outro dizer que não é racista mas não gosta de ciganos nem de pretos, dizer que os indianos cheiram mal... e dizê-lo com orgulho e desprezo, o que é ainda pior.

A outra andar a ser menina de companhia de namoradas de jogador de futebol, esperando que haja lá um futuro marido que a levará às Arábias pela via do casamento esquecida a aspiração a Hollywood pela via do teatro, uma paixão de adolescente sem borbulhas.

E ainda levar com um selfmade man que sendo dez anos mais novo me chama de jovem. Filho de um pai que lhe batia e o abandonou junto com o divórcio da mãe doente da cabeça, de quem cuidou e que apareceu em minha casa e agora come à mesa. Eu acho que ele já percebeu que não gosto do insulto, chamei-lhe jovem uma vez e ele ficou histérico, portanto... porque é que insiste em chamar-me jovem? Escrevi a hipótese de ele ser um velhinho doente que tem inveja da minha saúde e do meu amargo-fare-niente porque ele é um selfmade man (não é?), escrevi mas apaguei porque quando ele leu ficou confuso e eu tive pena. Mas logo ele voltou com mais jovem de novo e alternou com um senhor manu quando um fim-de-semana eu voltei tarde do trabalho para almoçar. Não podia simplesmente chamar-me Manu ou Manuel? Foi então que soube que ele tem problemas do foro digestivo e não pode comer mais aquelas comidas boas que os meus pais lhe oferecem ao Domingo e era preciso ver como comia o esfomeado, é uma pena mas porque me hei-de importar com o selfmade man poder morrer pela boca? É nestes dias que o jovem se repete da boca dele para fora com mais insistência. Não dá para gostar dele.

Não dá para gostar dele e não dá para gostar de ninguém com quem partilho os almoços de família. Fazer o quê? Boicotar o almoço ou o jantar. Comer fora. Ou não comer. Partir e não mais voltar. Deixar as minhas propriedades ao deusdará para que eles se emporcalhem e as vendam ao galerista vampiro que está sempre a rebaixar o pintor de modo a pagar menos ou as vendam ao intermediário Eu Tenho Estes Princípios Mas Se O Coleccionador Não Gostar Tenho Outros ou, então, as vendam ao coleccionador apoiante do Nethaniau. Ou então ir tudo para o contentor e eu desaparecer na minha insignificância e não deixar rasto material.

Significa que pouco me importo neste dias com eles em que só ouço infâmias. Deixo outra ouvida num aniversário, aquela do tio gordo, moreno, entroncado, cabelo escuro que só lhe falta a vestimenta para parecer um marroquino como diz, mas não como eles não, esses porcos, esses bandidos,  o tio é o rei dos marroquinos!

Significa acordar nos outros dias e tomar o pequeno-almoço e esperar que os pais acordem para dar a lista das compras a fazer, significa trazer igualmente o pão e esperar pelo almoço à hora que eles o fizerem, a minha mãe já não o faz na verdade, vem da fisioterapia matinal e deita-se, já nem se lembra ou então pensa que o meu pai o faz.

E o meu pai que não admite que a minha mãe se deite cansada e nem sequer admite que a minha mãe tem uma dor aguda desde a ciática até ao pé. Não admite porque ele próprio vive com a própria dor e diz que ninguém acredita nele nem na sua dor, e depois acusa aqueles de virem falar da dor que sofreram há cinquenta, sessenta anos, é como se dissesse «se eu sofri e ninguém se importou e eu me calei, também tu e todos têm de calar.»

E nestas alturas, o meu pai revolta-se e não faz o almoço, fica sentado a remoer na marquise a ver os pássaros e a ressentir-se com os imigrantes que fizeram obras e se instalaram em casa do Avelino. Mas o Avelino morreu carbonizado quando a botija explodiu e o irmão vendeu o casarão. (Aliás, tudo neste país está a venda, os lusos não se importam com a cor do dinheiro que recebem mas gostariam que fosse um branquinho de bem a pagar-lhes.) É nestas alturas que se eu quero almoçar, tenho de ser eu a vir fazer o almoço, mesmo que não tenha escolha naquilo que vou cozinhar e comer.

Também o almoço em si com a televisão nas notícias a reinar. Se nós fôssemos uma família comunicadora não haveria necessidade de ocultar o silêncio com o ruído informativo do écran. De qualquer modo, é uma luta constante. Já apanhei o meu pai a espetar o dedo colado ao televisor e a dizer «Mentira. Jornalistas mentirosos. Tu estás aí a ganhar dinheiro a dizer mentiras!» E depois como foi ele que pagou o televisor e, portanto, o televisor é dele e o programa de televisão que podemos a cada momento ver é ele que decide. Qualquer princípio de notícia que belisque o Primeiro, às vezes o Sumo Primeiro também, ele muda de canal e nós deixamos de ver a notícia e, se na concorrência estiver a dar igual notícia, ficamos a ver os bonecos no segundo canal até que eu ou a minha mãe proteste.

É aí que ele diz «São dois contra mim.»

E eu respondo «Pai, tenho vindo a dizer-te isto há anos. O tempo em que eu queria guerra acabou. Eu sou pela paz. Quero paz contigo e com a mãe. Não quero estar acima de ti, quero apenas falar contigo, em paz. Não precisamos de concordar sempre. Mas também, tu aí zangado com o jornalista como se ele te ouvisse, como eu fazia quando vieram os bombeiros que vocês chamaram na altura para me levar. E depois, zangas-te connosco. Paz, pai. Não precisamos de andar zangados um com o outro.»

E ele desabafa e diz de coração: «Vou lá fazer a paz com o Bloco de Esquerda...»

E Manu termina o café, levanta-se da mesa, põe a mão no ombro da mãe e digo «Vou para baixo, até logo.» E vai para o anexo a pensar: «É inacreditável a sanha que estes direitolas dos extremos têm a um único deputado. Isto é mesmo uma casa de malucos. Eu aqui morro, nem em paz posso morrer. É esta a miséria e a cruz que valeria contar ao psiquiatra. E ele faria o quê? Ainda aumentaria a dose.»

Miséria existencial, eyes to the blind.

Por isso, mal almoço e tomo o café desço para o anexo ao fundo do quintal. Tem uma porta e uma janela, é frio no Inverno e abafado no Verão. Tem uma cama onde durmo e secretárias para a aparelhagem e para o portátil, tem prateleiras para livros e cds e os discos estão em filas no chão, tem uma cadeira almofadada em frente a um cavalete no lado escuro do anexo e é onde pinto. Não tem muita luz natural para auxiliar a pintura mas não tenho melhores condições. As rendas em Timbuktu estão pelo preço da platina e estar neste anexo, onde posso pintar, ler e ouvir música, é de graça. Só não tem casa de banho. Tenho de usar a da casa, fechar o anexo e subir as escadas e entrar em casa.

É chato quando tenho visitas. Se elas precisarem de ir à casa de banho, tenho de entrar com ela na casa principal, o que implica fazer a apresentação mútua. E às vezes não é preciso as visitas subirem e ser apresentadas, não é preciso muito para eu ficar desgostado do meu pai: uma tarde, um colega meu veio ver uns quadros ao meu anexo com intuito de talvez comprar e quis observar um à luz do sol, viemos para o meu pátio, o que o tornou visível a meu pai que estava na marquise, quando se foi embora o meu pai perguntou-me quem era o estrangeiro e eu respondi «É filho de um advogado e não é por se vestir diferente e ser barbudo que é um terrorista, é por isso, pai, por isso que eu não gosto da tua discriminação!»

O pior é quando uma amiga me visitava. Ficávamos a ouvir música e a conversar no anexo, diz Manu. Como comecei a gostar de ar puro e quero continuar a fumar dentro do anexo, só posso fazê-lo de porta aberta. Por isto, a música e tudo o que se diz no anexo é ouvido no exterior e nas casas vizinhas e até na sala onde o meu pai se senta à tarde.

Uma vez, a conversa com esta amiga virou picante e desnorteada e até eu pensei que era demais para ouvidos estranhos. O meu pai nessa noite adjectivou a conversa de conversa ‘de malucos’. Depois outro dia, veio nas notícias a lei de deportar os imigrantes e ele perguntou: «A tua amiga está aqui legal?» E disse-o com o tom «É que se não estiver acho muito bem que...»

E eu explodi: «Queres deportá-la! Mas ela é portuguesa por casamento, esteve casada com um português mais de dez anos, ao fim de seis tornou-se portuguesa, bolas!»

Merda!, quero eu dizer mas à frente do meu pai tento não dizer palavrões. Mas contei à minha amiga e disse-lhe para não voltar cá por uns tempos, agora estou mais sozinho. A minha mãe, que me pergunta porque ela não vem mais, já se esqueceu do sucedido. O meu pai abana a cabeça e diz que não é por ele que ela não vem mais, diz que não disse que não a queria mais. A minha mãe esqueceu, o meu pai vive em negação e eu vivo em solidão e tento não cair no ressabiamento mesmo que este seja quase compreensível..

Um colega que me conhece de antes e de agora que voltei para casa dos meus pai, diz-me para não passar muito tempo em casa, diz-me para pegar no cavalete e ir para o parque de cidade.

Eu sorrio agradecido pela sua preocupação e digo-lhe: «Depois, tinha que pagar o almoço...»

E ele responde «Então, agora há o pingodoce e o frango assado!»

 

«Os meus pais precisam de mim...» digo e em pensamento completo a resposta: «... por perto.»

A verdade´é que a minha mãe fez um teste cognitivo e não está tão mal como isso além da velhice, perdeu inteligência mas não está mais burra, não se prevê que evolua para demência nem tem componentes depressivas. E acima de tudo, quer viver, aceita a dor mas não quer falar dela, a sua dor é sua cruz mas perante os outros ignora-a. Até se esquece do que tem, a médica de neurologia prescreveu fisioterapia, conversa social e caminhadas.

 

Comecei a levar a minha mãe a passear e agora depois do jantar começamos a jogar os três à bisca, o que a ajuda no exercício mental de contar os pontos e as interacções no diálogo entre nós durante o jogo.

É engraçado ver como ela faz batota sem perceber, se o meu pai jogar um às ela às vezes não assiste e corta, a minha batoteira inocente ao fim de décadas de amor católico muitas vezes levado à frustração vinga-se como pode do marido, mas é tudo um jogo, o meu pai acaba até por gostar de também jogar e se rir um pouco.

Nesta terra pouco mais há, morre-se ou foge-se para bem longe esquecendo tudo e todos para trás. Mas e quem regressa anos depois, sem mulher e sem filhos além da colecção de quadros, de discos e de livros? Que fazer nesta terra, como interagir com os vizinhos? Cara alegre e bomdia boatarde e pouco mais, ainda hoje tentei oferecer uma cassete de música cigana e o amigo disse «não ligo bola.» No outro dia, mostrei um zine de desenhos e eles pegaram nele como se fosse ultrapesado e nem que fosse de graça eles achariam vontade de ficar com ele. Há umas semanas, com a antologia do Joaquim Castro Caldas pousada em cima do balcão enquanto pedia um café, um vizinho cigano olhou para o livro, um volume grosso de lombada preta, e perguntou se era a bíblia, eu compreendi que para os ciganos desta terra o único livro é a Bíblia mas respondi que não, que o livro era de poesia. Ele olhou estranhado para mim e sem lhe fazer sentido nenhum.

Quanto às coisas de amor (porque é sempre isso que se quer saber), há, ou houve porque parece que já é passado, uma vizinha que me pareceu bonita e que eu conheci por intermédio da minha mãe e que devido aos seus baixos rendimentos era ajudada pela minha mãe com dinheiro e alimentos. Comecei por dizer à minha mãe, continua Manu, que no meu trabalho da época precisavam de uma empregada e que ela podia concorrer, ela disse que não e até começou a fugir de mim porque, eu quando passava por ela na rua, em vez de lhe falar abria a boca para falar mas o meu sorriso bloqueava a minha voz e acabava a fazer má cara para ela. Depois reparei que ela tem namorado e passei a guardar distância respeitosa e a ver que ela percebeu e, quando por algum motivo deixou de receber a ajuda mensal, passou a nem cumprimentar. Ultimamente, bebe cerveja escondida num canto do balcão do café e deve ter medo que eu vá contar à minha mãe, porque a minha mãe tem um lema retrógado: Fumar e tomar o pequeno-almoço nos cafés são sinais de riqueza.

«Nesta terra não sou mais do que o filho da mãezinha. Quem me dera poder beber uma cerveja com ela e ter uma conversa de comparsa para comparsa.» E quando não há alternativas o Manu volta atrás e comunica-se novamente com a última mulher que o fez feliz e fica a saber que ela foi de férias, que voltou noiva e cheia de jóias, e que voltou atrás porque se tinha de converter à religião dele, e que ele virou maluco e tatuou a cara dela em toda a largura das costas.

Perante tal realidade como esperar que a ficção ultrapasse a realidade?

Já dizia o Cohen que estava à espera que as mulheres tomassem o poder e a verdade é mesmo essa: uma mulher poderosa consegue tudo de graça, a mulher cativa, a mulher escolhe, e há que aceitar a realidade.