terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Pois é, o Natal...

Pois é, às vezes os homens, como nós ou mesmo como os rapazes, dizem da mulher, da companheira, da namorada, da amiga e menos da mãe, da irmã ou da filha: «elas só querem dinheiro, é só mamar à minha custa, tremoços e finos, sandálias e cinema com pipocas, é só mamar, trabalhar é grupo!»
Eu próprio o cheguei a dizer quando vi que uma mulher lutava antes de eu a conhecer e deixou de o fazer quando me conheceu, também eu disse «tu engordas e eu emagreço» e para mim dizia «até ao dia em que me farte!», esse dia veio, adquiri alegria e força, compreendi ambos os lados da questão: se, por um lado, eu tinha gordura a mais que me tirava saúde, ela, por outro lado, tinha deixado de ter dinheiro para sair à rua e comprar saúde e alimento.
Hoje dou mais sem nada pedir em troca, há dias em que imagino que não seria inverosímil um dia próximo me baterem à porta dizendo «tenho fome» e ficarem estupidamente à espera que eu lhes sacie a fome porque sabem como eu sou, há quem me veja como um anjo, e eu devo ser «católico» porque todos os dias dou e todos os dias me dizem «quando amadeus chegar ele vai-me dar e depois eu dou-te» e todos os dias me canso de ouvir promessas e histórias de enganar o otário católico, que todos os dias lhes dá porque se lembra que, um dia houve em que, também, quis pedir porque não tinha e teve vergonha de pedir e passar por lixo na passadeira ou passar por ser um cão a quem se dá um pontapé. Eu dou mas sei que quem pede hoje, se for atendido, vai pedir o mesmo no dia seguinte, ou mesmo mais, e o abuso vai acabar por encher a cabeça, por fazer saltar a tampa, como naquele dia em que a rir me pediram seis mortalhas, não um mas seis! belos papéis de arroz, e eu mandei-os foder para que soubessem que há um limite.
Além de tudo isto e voltando às mulheres que não querem trabalhar... hoje a situação é distinta: todos os dias fico à espera que ela venha para me ver no intervalo dos seus turnos de serviço e  ela não vem, ela não vem porque sai de casa às nove da manhã e passa o dia no trabalho, come lá, bebe lá, fuma lá, e volta para casa às duas da manhã, para no dia seguinte voltar à mesma rotina, de vez em quando liga e eu tanto a reconforto e lhe digo que estou orgulhoso de ela estar a lutar trabalhando, isto quando estou bem disposto porque, quando estou com os ciúmes, digo que ela nem sabe quanto e quando vai receber, «essa parece ser a tua família, ainda nem sabes qual o teu salário, estás há um mês a trabalhar sem nenhuma folga e nada, nada de salário, nada de descanso, esqueceste-te de mim, ouvi dizer que o restaurante te deu um anel de noivado, fica com ele e com o ramo de flores», e eu desligo o telefone e penso «eu que tenho a cerveja para ela no frigorífico há quase um mês, mulheres houve as quais eu mandaria trabalhar, e esta trabalha de mais, é uma escrava e parece que gosta, aqui ao lado na ilha ninguém trabalha e bastaria que eu gritasse alto Tenho Cerveja para que aparecessem, imediatamente, sete copos limpos e prontos a ser engolidos de penálti, ainda pediriam mais a seguir mas ela não... ela prefere beber com a cozinheira e demais colegas de trabalho, eu já passei à história.»
A verdade é que ela sempre me considerou um amigo e, portanto, não se pode dizer que alguma vez me enganou, fui eu que a seduzi quando ela estava carente e gostámos, sou eu que comecei a vê-la como uma «crítica de arte» mas... a erosão dos dias, as cedências, as adaptações, a necessidade de se jogar às escondidas como a boa desculpa para a ilusão se não transformar em realidade... a verdade é que há muito que a arte deixou de lhe interessar, há muito que a nossa cama está fria, resta-me viver, a pintura é agora essencial nestes dias, sozinho mesmo que tenha vizinhos nesta comunidade que se orgulha de já ter tirado um selfie com o Presidente, pfff!, como se não estivessem igual ou pior desde que se sentiram perús na foto, até dizem «quando eu o voltar a ver, ele vai ouvi-las.», andaram todos com ele na escola e vão todos re-elegê-lo.
Previsões para o natal que chega? O mais certo é não haver perú nem bacalhau nem polvo, o mais certo é passar eu-próprio o natal sozinho e, por opção, comer sozinho o mesmo de todos os dias porque há muito que sou um estorvo para a minha família e uma chucha para a comunidade, as mulheres da minha família são adeptas da Jonet, o meu pai gosta do Cavaco e do Passos Coelho e, para ele, além da geringonça sou eu o inimigo, tem-me ódio ou medo, evita falar comigo e só o faz obrigado- Por isso, sozinho não aborrecerei ninguém e ninguém me aborrecerá, que sa foda o natal e a coca-cola!, eu tenho o jazz.

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