sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Uma reportagem com desenhos sobre o Jazz em Agosto.



Gosto bastante deste desenho que a Rita Draper Frazão fez do músico
Wadada Leo Smith
Uma reportagem no seu blog: innertour.blogspot.pt


Uma canção onde o amor é cego



'Watersong'
from the album 'Wings of joy'
The Cranes

Water song. Lyric. This love is in my heart A love that longs to climb so high To the stars that shine above This love is in my heart It's like rain Falling in my arms We could go so far to be When the stars fall from above The mystery is in a song we'll never find Where the love is always blind Caring one....but dreams just then fall apart Love...we'll find again And I know my sense will heal in the end When the seasons change And the winter falls again These fears washing over me How I longed to be with you my dear Wait for spring. Wait for spring Wait for spring. See what tomorrow brings See what tomorrow brings

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Mike Stilkey


via linkedIn:
«Mike Stilkey finds a creative way to use the discarded library books.
 He stacks the hardcover book and paints directly on their spines. 
He works with ink, paint, colored pencils and lacquer.»

Cha para os amigos

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No dia seguinte, o capitão encontrou o Sancho e tomou café com ele. Este perguntou-lhe se já resolvera o problema da habitação e como correra a mudança. O capitão registou o interesse e a quase preocupação do Sancho mas, sendo novo na zona e mostrando o seu sorriso de acrílico, contou os pormenores alto e bom som para quem quisesse ouvir, agradecendo sempre agradecendo entre sorrisos tresloucados. 
Os dias passaram. 
Sempre que o capitão entrava no café, era recebido com extrema curiosidade por todos e, talvez por consideração à dica que o Sancho lhe fornecera, pagava a este sempre o café. O capitão vinha de um corte com a sua realidade-passado, estava sem contactos com o mundo actual, sem ninguém com quem falar e dir-se-ia que o Sancho queria dizer presente, queria falar e perguntar a opinião do capitão sobre muitas coisas, importantíssimas, tais como se o capitão ia ao ginásio ou se fazia corrida no parque auto-convidando-se como companhia, dir-se-ia que o sondava e queria ser até próximo, até… até que se chegou à política. Sancho era da linha dura à direita, dizia que na prisão pelo menos teria direito a alimentação e cama, dizia que, se algumas pessoas ficassem totalmente sem apoio social, talvez fossem obrigadas a usar o colchão. Estas palavras calaram a princípio o capitão que se incomodou, porque lhe pareceu o Sancho pensar que o capitão tinha um colchão de dinheiro, «afinal apareces-me aqui sem trabalho que te identifique, apenas com um sorriso na cara e modos de quase palhaço e agora estás-me a perguntar onde se almoça de graça?!», foi o que o capitão pensou que o Sancho telepaticamente dizia. Mas só lhe respondeu já sem sorriso na cara e quase com dor: «O pior é daqueles que já não têm colchão…» A partir daqui, o capitão Mancha, Cha para os amigos, começou a preferir tomar café sozinho. 
O que Cha precisava era de trabalho e também resolver o problema da alimentação. A dona Zelda talvez, ao ver que a boa impressão sobre o seu novo hóspede se confirmava, deixou-o guardar no frigorífico os dois taparuéres que, por um preço quase simbólico, trazia diariamente para casa (a saber: um de sopa e outro com comida cozinhada além de pão ou bolos iogurtes ou fruta.) Deixou-o igualmente usar o microondas e permitiu que o Cha fizesse café usando o fogão. O problema era a distância que era necessário percorrer todos os dias para ir à associação de caridade. Durante mais de um mês, Cha caminhou sobre o sol de Agosto monte acima para lá chegar. Uma subida de certamente mais de três quilómetros de duração. Demorava uma hora. Chegava, dirigia-se à pia e lavava o suor. Arfava. Depois esperava a sua vez. A volta era fácil, era a descer mas sem isenção de riscos: às vezes, o taparuére de sopa virava-se dentro da mochila, as sapatilhas a meio do mês tinham um buraco na planta do pé. Cha disfarçava o desconforto do contacto da pele com o chão, usando papel de jornal a fazer de sola. Cha emagreceu quatro quilos num mês. Era urgente arranjar maneira de se alimentar em condições menos precárias. Tirar o passe de transporte público era assunto fora da balança. Por isso, tinha perguntado ao Sancho onde comer barato nas redondezas. Também foi falar com a assistente social da junta de freguesia. Esta, ao ouvir Cha dizer que era um esquizofrénico estabilizado e que precisava de ajuda alimentar perto e que nem se importava em pagar, teve algum receio mas primeiro, perguntou-lhe se as suas perturbações mentais eram devido a drogas. Depois, quando Cha admitiu em parte tal hipótese ser possível, acabou por lhe indicar um refeitório a cem metros, aberto a todos os que precisam de uma refeição completa pela manhã. É onde o capitão ainda hoje come. O trabalho chegou-lhe por indicação telefónica, tem de se apresentar, hoje às sete horas da tarde, como «à experiência» num restaurante. «Se correr bem, até passo a comer aqui, o salário é bom, só não gosto dos turnos mas, já sei, os horários de trabalho da restauração não deixam muito tempo disponível de lazer. É quase um casamento!?» riu-se Cha.
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Claudio Mur
A colocação do texto de Raul Brandão, no meu post anterior, levou-me à seguinte reflexão:
Algo não bate certo comigo.
Ando a dizer aos meus conhecidos de café que vivo bem, e, apesar de mostrarem ter mais do que eu, eles respondem-me que são pobres.
Alguns deles ignoram as minhas palavras e perguntam-me se quero beber alguma coisa.
Outros dão-me cinco euros quando eu digo comer, às vezes, uma francesinha.
Eu, que tentava demonstrar que me dou a um luxo de vez em quando, acabo a dizer quase envergonhado: «obrigado obrigado».
Não sou deste planeta.

domingo, 16 de agosto de 2015

Miséria, pobre miséria a de pensar assim

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Depõe a sombrinha imaculada no sítio do costume, aberta para a poupar, e, depois de lhe limpar com extremos de cuidado uma nódoa na ponteira, senta-se à mesa e escreve:
«Últimos conselhos de uma mãe a seu filho. -- Filho, fui eu que te criei. sustentei-te de restos, de pobreza, de humildade. Só pensei em ti: tens, portanto, obrigação de ouvir os últimos conselhos que te dou. Olha que és o meu filho, o filho que criei de dia, de noite, de fome, de obediência e de sonho amargo. Criei-te para que pudesses um dia pertencer às classes elevadas. Por isso sofri, para isso sonhei, para isso desapareço, agora que cumpri o meu destino.
Filho: mente. Às pessoas ricas é preciso mentir sempre e dizer sempre que sim. Deve-se-lhes consideração, deve-se-lhes obediência. Nunca te ligues com os pobres. Para pobres bastamos nós. A pobreza pega-se, não há nada no mundo pior que a pobreza. Tem cuidado com a língua. Pela boca morre o peixe. Nunca digas o que sentes: o que a gente sente é sempre uma inconveniência. Há pessoas que dizem: -- Eu gosto que me contradigam. -- Foge delas como o Diabo da cruz. O que toda a gente quer é que os outros sejam da sua opinião. Só os ricos têm direito de contradizer os pobres. Um pobre não deve ter opinião. Guarda as conveniências, acima de tudo guarda as conveniências.
O mundo antigo tinha muito de bom; sabendo-se ser agradável arranjava-se lá um cantinho. A morte é indispensável para as pessoas herdarem, e para nos dias de luto se desanojarem os ricos. Foge do pecado. Sê religioso e temente a Deus. Nunca digas mal de ninguém. E habitua-te filho, habitua-te que é o grande segredo da vida. Habitua-te a cumprir os teus deveres para com a sociedade. O dever acima de tudo, o dever de te subordinares para que te não queiram mal. Não te esqueças também dos pequenos deveres de cortesia. Não te esqueças de que no dia 21 de Julho faz anos o teu padrinho, nem de deixares cartões de visita às pessoas respeitáveis. Há-as que fingem que não reparam nessas coisas. São as piores, são as que reparam mais. Respeita. Respeita a lei, os superiores, a Igreja, os ricos. Num caso grave da tua vida, chega-te ao pé do conselheiro Pimenta e diz-lhe com humildade: -- Eu sou filho da Restituta que era prima de V. Exª -- E mais nada. Não sejas causa de desordem nem de escândalo. Fala baixinho, e mente, filho, mentir não custa nada. Nunca digas a verdade. Mente para seres agradável aos outros e a ti mesmo. E sobretudo, repito-te, diz sempre que sim. Não custa nada dizer que sim, dizer a tudo que sim, dizer sempre que sim. Tua mãe, Restituta da Piedade Sardinha
Baloiça ao vento, a uma réstea de luar, pendurado numa corda, o cadáver da D. Restituta, que parece dizer pela última vez que sim -- para que o filho possa casar com a filha do conselheiro Barata. Baloiça ao vento num sexto andar -- esquerdo. Morre ignorada e desconhecida quem toda a vida viveu de côdeas, para lhe assegurar o futuro e a assinatura com brasão e elmo, Monfalcão dos Monfalcões (Sardinha).
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, página 130

"Húmus"
Raul Brandão
Edição Vega -- Colecção Mnésis