quinta-feira, 23 de abril de 2026

Agora na verdade não já não

 

 
''
Diz-se que o extraordinário romance Red Shift (1973), de Alan Garner, foi inspirado no momento em que o autor viu um grafiti numa estação de comboios onde se podia ler: «agora na verdade não já não». Existe algo tão inquietante, tão críptico e tão sugestivo nesta frase, especialmente quando é grafitada por um anónimo. Que é que o autor desconhecido deste poema vagabundo queria dizer com isto, e que significava isto para ele? Que evento o levou a escrevê-lo -- foi uma crise pessoal, um evento cultural, uma qualquer revelação mística? E será que alguém além de Garner alguma vez viu a frase grafitada na parede da estação de comboios? Ou foi apenas Garner que a viu? Não que esteja a insinuar que a imaginou -- mas a frase captura de forma tão perfeita os vórtices temporais da obra de Garner que é quase como se pudesse ser uma mensagem que só lhe era destinada a ele. Talvez fosse mesmo, independentemente das «intenções» do grafiteiro.
Se quisermos acreditar na fonte anónima mais famosa do mundo, as palavras «agora na verdade não já não» foram escrevinhadas em batom, por baixo dos nomes de dois amantes que haviam sido escritos a giz na parede. Em qualquer dos casos, a explicação para a frase parece ser -- à primeira vista -- algo prosaica. Alguém -- um dos amantes, ou algum dos seus amigos, inimigos, rivais, ou mesmo um estranho -- tecia um comentário -- sarcático, melancólico, irado? -- sobre o estado da relação. Uma frase que não é bem banal, mas que é certamente transparente, conversacional -- «agora na verdade não já não» -- adquire uma opacidade poética em virtude da omissão de uma vírgula. No entanto, mesmo aquela explicação aparentemente deflacionária não consegue evitar a inquietação da frase: «agora na verdade não já não». Dizer que havia algo predestinado sobre o encontro de Garner com o grafiti é duplicar a inquietação intrínseca e indelével provocada por esta frase. Porque assim, para onde é que a frase nos aponta senão para uma temporalidade fatal? Agora não, já não, na verdade não. Quero isto dizer que o presente se erodiu, desapareceu -- agora não já não? Estamos nós no tempo de um já perpétuo onde o futuro já foi escrito; em cujo caso não é o futuro, na verdade não?
''

Mark Fisher, página 117 - 118

«O esquisito e o inquietante»

tradução de Leonor Castro Nunes
edição VS


sábado, 11 de abril de 2026

This is the family record

 



IRABCDJOL 17

01: Filho da mãezinha
02: I am the baker (long)
03: O protocolo do rubor
04: Insane again?
05: A visão de um louco

Track 01 is a collage of sounds including two twisted versions of Alan Vega songs and a traditional portuguese song by Mãe Linda.
Track 02 is the long version that includes a metronome and field recordings.
Track 03 is inspired in a rythm by Manitas de Plata performed here on flute and includes a poem by Roger Wolfe which is the title of this track.
Track 04 is a live improv using the sound of a tv, assorted percussion and flute and voice on tape.
Track 05 is an attempt to sing like Meredith Monk on the Book of Days record.

This is the family record




quinta-feira, 2 de abril de 2026

Só (Solidão) por Tom Zé

 


Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefo...
E no meu descompasso
O riso dela
Na vida quem perdeu o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de SOluço em SOluço esperar
O SOl que SObe na cama
E acende o lenÇOl
SÓ lhe chamando
SOlicitando
SOlidão
Que poeira leve...
Se ela nascesse rainha
Se o mundo pudesse agüentar
Os pobres ela pisaria
E os ricos iria humilhar
Milhares de guerras faria
Pra se deleitar
Por isto eu prefiro
Chorar sozinho
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone tocou, foi engano
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
passo
O riso dela