quarta-feira, 12 de abril de 2023

Metáfora sobre o chatGpt

No livro O Suave Milagre e outras páginas de Eça de Queiroz há um conto acerca da interacção da tecnologia com o ser humano. O narrador descreve um amigo citadino e da classe superior, ou seja, educada, instruída, a par das novidades da tecnologia e acima de tudo, um amigo com dinheiro, moderno, um liberal do século XIX.
Ora, este liberal tem a sua casa cheia dos últimos inventos e o amigo narrador descreve quase com humor zen o modo como a tecnologia malfunciona, ou empena e deixa de funcionar, mas o liberal não desiste, e o narrador também não, vai descrevendo como o amigo vai ficando doente e solitário e sem vontade de ler qualquer coisa da sua formidável e actual e moderna biblioteca, dir-se-ia que a tecnologia e a vida moderna faz mal á saúde.
Até que planeiam uma temporada no campo para mudar de ares, as malas perdem-se no caminho, os caseiros não estavam á espera do senhor, o senhor acaba a dormir na palha varrida á pressa de um quarto.
O conto termina com o liberal a ganhar cor nas faces e até a casar. A mudança de vida fez-lhe bem, a tecnologia ficou na capital.

domingo, 9 de abril de 2023

A única fuga que resulta é viver sendo invisível

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Um poeta inclina-se sobre os seus poemas: vinte foi quantos escreveu. Vira as páginas, uma após outra, e dá-se conta de que cada poema lhe desperta um sentimento muito particular. Debate-se com grande dificuldade, procurando descobrir que coisa é essa que paira sobre ou à volta dos seus poemas. Pressiona, mas não surge nada; empurra, mas não sai nada; puxa, mas tudo fica igual, ou seja, obscuro. Afunda-se no livro aberto com os braços cruzados e começa a chorar. Já eu, em contrapartida, o malandro do autor, debruço-me sobre a sua obra e reconheço com incomensurável facilidade o enigma da sua tarefa. São simplesmente vinte poemas, um dos quais é simples, outro é pomposo, outro mágico, outro entediante, outro comovente, outro piedoso, outro pueril, um bastante mau, outro animalesco, outro tímido, outro ilícito, outro incompreensível, outro repugnante, outro encantador, outro comedido, outro fabuloso, outro genuíno, outro inútil, outro pobre, outro inexprimível e um outro que já não pode ser mais nada, pois só há vinte poemas distintos que, através dos meus lábios, encontraram, se não um juízo justo, pelo menos célere, o que, pelo menos para mim, supõe sempre algum tipo de esforço. Uma coisa é certa: o poeta que os escreveu continua a chorar, inclinado sobre o livro; o sol brilha sobre ele e a minha gargalhada é o vento que sopra tempestuosa e friamente sobre os seus cabelos.

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Robert Walser, página 51 - 52 em

«Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos»

selecção, tradução e prefácio de Ricardo Gil Soeiro

edição Assírio & Alvim, colecção Gato Maltês


sexta-feira, 7 de abril de 2023

quarta-feira, 5 de abril de 2023

«Decisões» de Claudio Mur, escrito em 93 ou 94 quando começou a minha resistência às aulas de engenharia e ao futuro que elas me poderiam dar

 

Decisões

 

I. Oesmuccmia

 

O que me pedem

que me denuncie

que renuncie à minha liberdade

que renuncie à minha vontade

Formas, autómatos, máquinas

Máquinas controladas por máquinas, autómatos que

Um dia virão a ser controladores de homens

Um dia virá que serão implantadas máquinas no

Cérebro — a unidade central de processamento —

Será uma raça sem filosofia nem alegria

Univocamente direccionada para…

Interactividade para quê? Segas para quê?

Ah! A laranja mecânica volta a atacar.

 

II. 543

 

Mas para que serve isto?

isto é uma merda

não percebo nada disto

Não vou, não quero

Não estou a entrar no jogo deles

Tudo nasce no líder…

… da empresa…

Estou farto

fora

sem interesse destruído extenuado ludibriado

Estou farto

Nada se aprende

A competição aperta a qualidade faz a diferença

é a selva da sobre vivência

A formação é indispensável

Convoluções transformadas em série em séries

oh mas que raio

Já não sei o que hei-de escolher

Talvez

ponha uma pedra definitivamente

digite aquela sequência

… concordas?

Vou pôr qualquer coisa… mudar o estilo

haverá melhor incentivo?

Calibra-te certifica-te obtém marcas

Navega num crescendo de emoção

o futuro

energia talvez maquiavelicamente perigosa

A rondar o abismo o limite

O fim como meio os fins justificam os meios

ou escolha!

O meio para o fim os meios justificam os fins

Visionarismo voyeurismo ou talvez não

Violinos alegria kaô ou máquinas de calcular tristeza

Qual a escolha?

Quem sairá prejudicado?

 

III. Aquaismja

 

Anseio por te ver

tenho saudades quero tocar-te

Quero sentir o teu prazer

As responsabilidades os compromissos os afazeres

não o permitem

Aspirar o perfume com que me inebrias o cérebro e inflamas o coração

Isso é melhor que...

Sinto-me totalmente absorto em ti e já nada faz sentido

Minimalmente minimal

já não digo coisa com coisa

aliás se calhar nunca disse

porque

tudo o que parece deixou de o ser.

 

 Claudio Mur