quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O país azul

 Encheu-se o pequeno fogão de ferro fundido e acendeu-se. Havia um pouco de madeira de uma obra demolida, ainda manchada de cimento. As castanhas assavam sobre a tampa: Maïe tinha-as mordido para lhes dar ar. Por vezes estalavam e Maïe resmungava: «Castanhas más, fazem favor de não saltar?» Entretanto cosia o forro da beatilha de um corpete. A agulha passava com um rangido doce. A luz do fogão caía sobre as suas mãos ágeis, e fazia brilhar o tecido. Michel, acocorado, fechava os olhos com o calor.

-- Eu coso, coso -- disse Maïe. -- Vou ganhar cinco moedas. Não é bem pago? Dá-me um pouco de vinho doce, monstro. Bebe o fundo: não quero nem casar nem ser enforcada.

Na sua linguagem infantil, contou-me a sua vida. Ela não conhecia nem o bem, nem o mal. Tinha vagueado pelos campos, com horríveis rapazes, para fazer comédias. Aos nove anos, era princesa no fundo de uma granja, com os pés nus na palha e uma coroa de papel dourado na cabeça. Sabia ainda as tiradas dos seus papéis, e recitou-mas. «Oh! havia uma linda peça, disse ela. Chamava-se, parece-me, o País Azul. Não se via que era azul, mas nós imaginávamos, compreendes? As montanhas eram azuis, as árvores azuis, a relva azul, e os animais azuis. E eu dizia: «Príncipe, eis o palácio do rei meu pai; é de aço forte e a porta de ferro vermelho, guardada por um dragão com três cabeças. Se quiseres conseguir a minha mão...» Hou -- foi uma castanha que saltou. Michel, descasca as castanhas em vez de dormires. É verdade que há um país azul? Tenho a certeza que eu ia para lá; mas meteram na prisão todos os amigos que representavam comigo. Diziam que eles roubavam casas. Um dia veio um guarda, e disse-lhes, e disse-lhes ... não interessa, já não me lembro -- mas não os voltei a ver. E desde então moro na cidade; mas é triste. Está sempre a chover. Só se vêem telhados e lojinhas escuras.»

Assim tagarelava; depois irritou-se: «Michel, já te proibi de sujares o chão com as cascas. Apanha-as. Patife! Toma!» Tirou uma bota e atirou-lha à cabeça. Tinha a cara vermelha e os olhos brilhantes.

-- Nem calculas como ele é mau. Faz-me peder a paciência!

Entretanto tive de deixar a pequena Maïe; mas prometi voltar. Eu via-a todos os dias, e ela estava sempre a coser diante do fogão. Agora fazia lindos vestidos com lenços coloridos. A sua pele retomava vida; Maïe finalmente comia. Mas tornava-se triste à medida que a miséria desaparecia. Ela via cair a chuva. «Monstro, monstro mau», dizia ela, de olhos vazios e lábios moles. Uma vez, entreabrindo a porta, via-a diante do espelho quebrado, com os cabelos de oiro sobre os seios ainda mal formados, uma coroa de papel recortado com uma tesoura na cabeça. Quando me ouviu, escondeu-a. «O Michel é mau, disse ela: dava um bom dragão.»

O Inverno chegava ao fim. O céu era ainda sombrio, mas alguns raios faziam luzir os bordos dos telhados. A chuva caía menos espessa.

Uma noite, encontrei o quarto vazio. Já não havia mesa, nem cadeira, nem fogão, nem bilha. Olhando pela janela, pareceu-me que o contorno de uns ombros desaparecia ao fundo do pátio. E, à luz do rolo de pavio que me servia para subir a escada, vi um letreiro pregado na parede, com estas palavras escritas em letras grandes:

BOA NOITE, MINHA CASA. MAÏE E MICHEL PARTIRAM PARA O PAÍS AZUL


página 123 - 125

de O País Azul

escrito por Marcel Schwob em «O rei da máscara de ouro»

tradução de F. Paiva Boléo

Edição Livros B, editorial Estampa 1976


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