«Imagine to live a life with no telly»
óleo sobre papel tamanho A2
2025 ZMB
Ganhei inspiração para este óleo num diálogo-canção do álbum Spore by Scanner.
I say thanks to Robin Rimbaud
«Imagine to live a life with no telly»
óleo sobre papel tamanho A2
2025 ZMB
Ganhei inspiração para este óleo num diálogo-canção do álbum Spore by Scanner.
I say thanks to Robin Rimbaud
Drogados
Drogados
Eu bem os vejo
Com caras de lobo
E almas de cordeiro ...
Qual deles para arranjar a droga
O mais trapaceiro.
Filhos da Vida
Da neve e do frio
Da noite sem cama
E do calor do Rock and Roll.
Eles são drogados
Por não encontrarem
Um Ambiente de Paz e de Amor.
Drogados ...
Não são os Mordomos do Universo inteiro
São os primeiros a despir a camisola
Para ajudar um companheiro.
São Aqueles que mais sensíveis
Querem um Mundo mais verdadeiro.
Drogados são seres iluminados.
Mas o Mundo sem Amor
É traiçoeiro
2004
poema de Júlio Alberto Allen Vidal
lido por um amigo
ontem Sábado dia 7 de Fevereiro na Casa de Cultura de Paranhos
na apresentação do Volume II da sua Antologia Póstuma
editado pela Apuro em 2026
e com biografia e selecção de Bernardo Guerra Machado
Queria deixar uma nota profiláctica sobre a Hepatite C.
Na tentativa de cura da hepatite C, antigamente, havia um tratamento quer era difícil e invasivo para o doente e portanto de cura difícil, era o Interferon.
Lembram-se do tempo da Troika em que no parlamento português se discutiu se o Estado devia pagar um milhão à farmacêutica para patrocinar um novo tratamento que prometia a quase cura? O Passos Coelho não queria pagar, mas na altura no debate um doente irrompeu pelas galerias a dizer «Não me deixe morrer!!» O Passos acabou por aceitar negociar o medicamento com a farmacêutica e chegou a um acordo e o novo tratamento foi introduzido no Serviço Nacional de Saúde.
Eu, em 2014 ou 2015, quando almoçava na caridade da Ordem de São Francisco na Ribeira onde morava, costumava sentar-me muita vezes à frente de um senhor de cinquenta e poucos anos, português africano que chegou a jogar futebol num clube regional. Como nem todos ficam Ronaldos esse meu amigo, senhor que quase todos os dias almoçava à minha frente, ficou pobre quando terminou a carreira de futebolista e agarrado ao alcóol e às drogas e contraíu hepatite C
Ele falou-me que entrara neste novo tratamento em que lhe prometiam a cura em três meses, e só tinha de ficar abstinente: não beber não fumar nem tomar drogas.
Eu depois deixei de lá ir almoçar porque mudei de residência mas ele parecia-me mais gordo e contente, e parecia estar a recuperar.
Falo tudo isto porque em 2021 o Julião morreu de cancro hepático e eu acho que a sua hepatite C evoluiu para cancro porque ele embora tendo aderido ao novo tratamento, voltou a consumir crack que é a cocaína que se fuma pelo cachimbo, vulgo «caneco», ele não conseguiu resistir à tentação de consumir. Foi uma época em que o crack estava mais barato que o haxixe e os maus amigos apareceram-lhe novamente com o crack.
O Júlio tinha muitos defeitos mas tinha o coração puro, ficava sem comer às vezes para dar de comer a um amigo, fosse ele bom fosse ele mau.
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Noite de Fevereiro
Juro, acredita em mim -- a sala de visitas estava escura -- mas a música chamou para o centro da sala -- a sala se escureceu toda dentro da escuridão -- eu estava nas trevas -- senti que por mais escura a sala era clara -- agasalhei-me no medo -- como já me agasalhei de ti em ti mesmo -- que foi que encontrei? -- nada senão que a sala escura enchia-se da claridade que se adivinhava no mais escuro -- e que eu tremia no centro dessa difícil luz -- acredita em mim embora eu não possa explicar -- houve alguma coisa perfeita e graciosa -- como se eu nunca tivesse visto uma flor -- ou como se eu fosse a flor -- e houvesse uma abelha -- uma abelha gelada de pavor -- diante da irrespirável graça dessa luz das trevas que é uma flor -- e a flor estava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce -- acredita em mim que também não creio -- que também não sei o que poderia uma abelha viva de pavor querer na escura vida de uma flor -- mas crê em mim -- a sala estava cheia de um sorriso penetrante -- um rito fatal se cumpria -- e o que se chama de pavor não é pavor -- é a brancura subindo das trevas -- não ficou nenhuma prova -- nada te posso garantir -- eu sou a única prova de mim.
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Clarice Lispector
em «A legião estrangeira», página 142
edição Companhia das Letras
Havia um filho da mãe de um português, criador de gado na zona, que tinha um miúdo negro como pastor. E o homem no café contava como o gajo, para castigo, lhe tinha marcado a testa com um ferro em brasa, o mesmo com que feria o gado. Fui ter com o Calane da Silva, camarada de redacção, pusemos gasolina no carro e metemo-nos à estrada. Andámos dois dias à procura na tal zona de Changalane, até que há um cantineiro que nos diz conhecer 'o Oito'. E foi o miúdo quem nos contou. Perdera uma cabeça de gado e, receoso das represálias, andara fugido durante três dias no mato. Mas é caçado e espera do patrão uma carga de porrada. Nada disso! O patrão agarra no miúdo e manda outro preto marcar-lhe a testa. Kah! Em brasa! Desde aí ficou 'o Oito'. A marca do criador era um oito deitado, assim como o símbolo do infinito. Tinha quinze anos. (Relato do repórter fotográico Ricardo Rangel, citado por Luís Carlos Patraquim no Público Magazzine de 30 de Junho de 1991)
em «Ministros da noite -- livro negro da expansão portuguesa»
Selecção, organização e prefácio de Ana Barradas
edição Antígona