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Diz-se que o extraordinário romance Red Shift (1973), de Alan Garner, foi inspirado no momento em que o autor viu um grafiti numa estação de comboios onde se podia ler: «agora na verdade não já não». Existe algo tão inquietante, tão críptico e tão sugestivo nesta frase, especialmente quando é grafitada por um anónimo. Que é que o autor desconhecido deste poema vagabundo queria dizer com isto, e que significava isto para ele? Que evento o levou a escrevê-lo -- foi uma crise pessoal, um evento cultural, uma qualquer revelação mística? E será que alguém além de Garner alguma vez viu a frase grafitada na parede da estação de comboios? Ou foi apenas Garner que a viu? Não que esteja a insinuar que a imaginou -- mas a frase captura de forma tão perfeita os vórtices temporais da obra de Garner que é quase como se pudesse ser uma mensagem que só lhe era destinada a ele. Talvez fosse mesmo, independentemente das «intenções» do grafiteiro.
Se quisermos acreditar na fonte anónima mais famosa do mundo, as palavras «agora na verdade não já não» foram escrevinhadas em batom, por baixo dos nomes de dois amantes que haviam sido escritos a giz na parede. Em qualquer dos casos, a explicação para a frase parece ser -- à primeira vista -- algo prosaica. Alguém -- um dos amantes, ou algum dos seus amigos, inimigos, rivais, ou mesmo um estranho -- tecia um comentário -- sarcático, melancólico, irado? -- sobre o estado da relação. Uma frase que não é bem banal, mas que é certamente transparente, conversacional -- «agora na verdade não já não» -- adquire uma opacidade poética em virtude da omissão de uma vírgula. No entanto, mesmo aquela explicação aparentemente deflacionária não consegue evitar a inquietação da frase: «agora na verdade não já não». Dizer que havia algo predestinado sobre o encontro de Garner com o grafiti é duplicar a inquietação intrínseca e indelével provocada por esta frase. Porque assim, para onde é que a frase nos aponta senão para uma temporalidade fatal? Agora não, já não, na verdade não. Quero isto dizer que o presente se erodiu, desapareceu -- agora não já não? Estamos nós no tempo de um já perpétuo onde o futuro já foi escrito; em cujo caso não é o futuro, na verdade não?
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Mark Fisher, página 117 - 118
«O esquisito e o inquietante»
tradução de Leonor Castro Nunes
edição VS
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