Parece que o meu avô, ele sim, era um palhaço como deve ser. O Voltan até costuma dizer que, para voltar a ser uma coisa a sério, o Grande Circo Romani precisava de um palhaço como o velho Bufo, o inimitável Bufo, que fazia um número «meio acriançado», mas que era um sucesso tremendo.
O Grande Bufo fazia de conta que era um palhaço órfão e, a dada altura, apontava para o público, indicava uma pessoa qualquer e gritava: Papá! Depois, sem parar de apontar, avançava para o escolhido com uma felicidade exagerada e os passos largos dos enormes sapatões (acho que eram os mesmos que o Lima ainda usa, amarelos e com a sola a separar-se do resto), e as pessoas já não paravam mais de se rir, sobretudo quando ele se sentava em cima do colo de alguma das pessoas da assistência, normalmente um homem baixinho e careca e com o ar mais inocente e atrapalhado do mundo.
Depois daquilo de encontrar o pai, o número do meu avô tinha ainda um segundo «momento alto», que era quando ele levantava a perna como se fosse dar um traque e atirava um esguicho de pó-de-talco para cima das pessoas.
«Punha toda a gente a rir, o diabo do homem. As senhoras ainda punham aquele ar meio enojado, mas riam a bom rir, até lhes doer a barriga ou fazerem nas calcinhas. Era um pândego.»
Parece que o truque do meu avô consistia num depósito onde o pó ficava guardado, numa espécie de pequeno fole que levava na barriga, e num tubo que ficava preso aos fundilhos das calças. Ele voltava as costas para o público, dobrava-se, alçava a perna, apertava o fole e saía-lhe uma nuvem branca pelo traseiro.
O Voltan também diz que já não há palhaços como o Grande Bufo e que, se ele não era o melhor palhaço do mundo, era, quase de certeza, o melhor palhaço cigano do mundo, já que «tinha muita expressividade» e «transformava qualquer gesto que fizesse numa coisa muito hilariante».
Manuel Jorge Marmelo em
«Somos todos um bocado ciganos»
página 122
edição Quetzal, 2012
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