Daniël só fumava três, no máximo quatro dias por semana, mas nesses dias fumava desalmadamente de manhã à noite, a bem dizer um cigarro atrás do outro, e eram os cigarros mais compridos que já vi.
Na primeira semana de cada mês, encomendava sem falta no economato sete maços de cigarros Louis Doize extra légères, sans filtre e três livrinhos de mortalhas Riz-la-Croix automatique, gommé.
Tinha por hábito usar as mortalhas para enrolar cigarros triplos, que guardava cuidadosamente numa caixa achatada de pincéis, lacada a vermelho e com um dragão chinês desenhado a dourado, que levava para todo o lado como um precioso presente.
Fumava esses cigarros incrivelmente compridos sem a menor ostentação. Sentava-se calma e discretamente no seu cantinho habitual à mesa e bafejava, com dedicação, quase recolhimento, cadenciadas nuvenz azuis de fumo à sua frente, como um impertubável árabe junto ao seu cachimbo de água a meditar em silêncio sobre a insondável sabedoria de Alá.
Nada no rosto ascético de Daniël revelava a menor emoção ou satisfação ao fumar. Apenas os seus olhos adquiriam um brilho oleoso, como o olhar estático de um epiléptico no início de uma crise.
Punha-me muitas vezes a observá-lo à distância, mas ele parecia não notar qualquer presença na sala superlotada. Às vezes, os seus gestos comedidos e ritualísticos faziam lembrar o vagaroso cerimonial de um sumo sacerdote, de brocado e dedos carregados de anéis, a balançar o incensário, e cujos pensamentos se elevam com as lufadas de fumo para regiões mais celestes.
Depois do pequeno-almoço, um guarda dava a Daniël lume para o seu primeiro cigarro, sem que este precisasse de o pedir. O guarda era um iniciado no ritual. Na sua farda branca, ficava plantado à saída do refeitório como um menino de coro e sacava automaticamente a caixa de fósforos do bolso.
A partir desse momento, Daniël iniciava a sua maratona mensal de fumo de três dias, por vezes quatro. Colocava a caixa de pincéis com a reserva preparada como um pequeno tabernáculo na mesa à sua frente e fumava sem inalar os seus cigarros de triplo comprimento. Com o dedo amarelado, sacudia cuidadosamente a cinza para uma saboneteira de lata ao lado da caixa de pincéis e usava sempre a beata para acender cada novo cigarro extralongo. Nunca vi uma demonstração mais completa de fumar em cadeia. Era um perpetuum mobile, interrompido apenas pelas refeições e pelo descanso nocturno. Após cada inevitável interrupção, o guarda dava-lhe silenciosamente de novo lume e Daniël prosseguia silenciosamente a sua maratona.
Roger Van de Velde em
«Crânios crepitantes», páginas 33 - 34
tradução de Judite Berkemeier
edição VS
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