quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Algo debaixo de uma folha de papel coberta de cal

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O escritor, poeta ou prosador, senta-se à escrivaninha. Seguramente, a luz nocturna iluminará as teclas da máquina de escrever, o tinteiro de cobre e as volumosas folhas de manuscritos. Lá fora, pode ser que a chuva toque no parapeito da janela, que os pássaros piem sobre a tília ou, porque não, que a tempestade de neve sibile numa noite de Inverno rígida.

Pode vir inesperadamente à mente dele que existe algo muito além, num grito, num ululo ou num sussurro (a intensidade é irrelevante nesse caso), à espera de tormar forma, para existir. Pode parecer que esse algo estende a sua sombra sobre o escritor. A sala ao seu redor talvez desapareça. Nesse momento, as proporções desse algo revelam-se paradoxais.

Para não arriscar deixar levar-se por um desconforto infinito, intimamente relacionado com a sensação de ter perdido uma ocasião (não se sabe o tamanho, o que torna o desconforto ainda maior), o escritor tenta dominar as coisas. Tem consciência de que conseguir tal é uma necessidade absoluta para si, porque as dimensões das coisas o assustam e a negligência lhe causa insatisfação, ou, no melhor dos casos, dor de cabeça.

Naturalmente, é impossível indicar um método exacto. Não se trata de um processo de condensação nem de um cálculo matemático. Esse algo que se estende sobre ele apresenta-se sempre de um modo diferente. Como uma bola a ser chutada para cima, como mãos a estrangular o pescoço que devem ser afastadas, ou ainda -- e nesse caso, podemos apenas imaginar -- como algo debaixo de uma folha de papel coberta de cal que deve ser rapidamente limpa.

Quando acaba, ou seja, quando cobre de palavras cada linha, percebe com surpresa o quanto foram reduzidas as proporções daquele algo. Tudo está preenchido, o que, no início, causa um pouco de desilusão. Claro, ele sabia que a poesia, ou qualquer que fosse o detrito, apareceria microscópica em relação à experiência com a cal. Além disso, era claramente indispensável para o equilíbrio interior reduzir as proporções a um tamanho normal. Se houvesse tido força, teria preferido naturalmente esquecer a história a ser limpa, mas não era o caso, e não ousou fazê-lo.

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páginas 53 - 54


Stig Dagerman,

 em

«A política do impossível»

Edição VS 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Palavras de Bolso

 'Trans(formar) o olhar'- 
Depoimentos de formandos de projecto pedagógico com adultos, 
de autoria de Elisa Marques. 
Música: 'Alegrías', Camaron De La Isla / Tomatito

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

'Pulsação' de António Barahona

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Pulsação

Perene é ser soneto: eis do futuro,
essa canção com oitocentos anos:
sábios, mil sons ecoam bons sopranos,
no timbre d'árias tensas de ouro puro.
Catorze versos a fundir degraus
(ligas de cobre e prata e elixir)
refeitos pra durar até que expire
seu último cantor, à flor do caos.
Perene é ser soneto, que reside
na cópia à rasa essencial do verbo:
tal como a roda, o cubo e o triângulo,
vem inscrito no código soberbo
de quem tece um casulo e sente livre
o sôpro do seu sangue num coágulo.
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António Barahona
página 297 de
'ao ouvido de um moribundo'
edição Língua Morta

Nature Boy

the classic,

here in John Coltrane's blow

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O Cabrita é o maior! Eis o dogma:

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É automático. Cada vez que ouço um escritor a gabar-se de ter sido o último operário a substituir o parquê na mansão do real imagino, como o Nabokov, uma pessoa, sob o efeito de hipnose, a fazer amor com uma cadeira.

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página 237

«Fotografar contra o vento»

António Cabrita

Editora Exclamação