'
Meter palavras em papel metido em canto: não sei como isso possa ser sem que o escrito saia talhado, leite lanche de vermes.
Recordo. Tempos em que temi ser diferente. E mais: o sossego sol de Abril quando percebi que o era mesmo, segundo as leis de ser pessoa. Só que muitos poucos ousam abertamente as consequências, e são então explosões ou os pequenos golpes da cuidadosa, afiada sacanice. Quem frequentou determinados casamentos, ou tavernas em noites de jorna, viu.
À parte isso, a cada qual um destinar-se. E assim desenham-se impressões intransmissíveis, digitais. As minhas também, talhadas por sucessos em que a própria vontade não jogou, e me safaram dos hábitos do canto em coro. Reforços recebidos para o concelebrar, mãos de estar-com dadas a algumas criaturas que me apareceram, a quem apareci. O meu saber o mundo desde o começar: situação de naufrágio. Foi como se nascesse a bordo de jangada onde pessoas inseguras andassem reinando ao estamos-num-paquete. Vi água entrando como em passador, e lá-vai-d'eu, nadar até trepar noutra jangada. Quando esta segunda geringonça naufragou, foi nova natação até que entrei numa terceira. Já estou (momento actual) de novo a dar aos braços e às pernas; que a jangada III se está sumindo na profundidade das loucuras antiquíssimas.
De todas essas reproduções miniaturais d'O Naufragar ficou-me a memória perfeita do que amei: os camaradas de jangada e risco, meu lote no respiro. Ficou-me pois o horror de ver a maioria deles ir ao fundo por carência de saber apredejar de riso o tenebroso. Vi-os cair a pique no abismo como caranguejos enfeixados uns nos outros.
Não sei se houve Barca inicial, acho que não. Acabaremos por construir alguma? Ignoro, e não é desse iinterrogar que me vem rasto. Sinto: nadar para aguentar o próprio do corpo, e então cresce conjunto de promessas no dar e receber dos mútuos, múltiplos impulsos. Vou mais: da fortaleza em companheirismo se descobrirá talvez nosso destino, que o passado profetiza. Peixe deu animal de seco, anos depois nós-mesmos. Homem é apogeu desértico. Entrevê distantes águas e talvez seja miragem, talvez não. Possível que o oceano venha, e nós a ele. E água e gente uma misturação de respirar completo, mudança do presente noutras luzes por sumidos o passado e o futuro.
Donde: cercado por detritos de jangadas e viventes esbracejando à tona das areias, parece-me que o meu nadar tem exacta relação com as metidas frases no papel - a outros destinado. Nas noites mornas do Quartier Latin, nos intervalos entre fogo e sangues, quando um vagabundo músico toca aceitavelmente, o grupo silencioso que se forma no passeio em escuta fica, por momentos, reunido mediante a audição dos mesmos sons de jazz, anónimo.
'
,página 113
'A noite e o riso'
Nuno Bragança
Moraes Editores,
3ª edição 1978
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
segunda-feira, 24 de novembro de 2014
A white rainbow and xmas is drawing near
'A white rainbow'
from the single 'Winter solstice'
1999
Coil
Lyrics:
A white rainbow under an unquiet skull
(A roaring aura)
(A tremulous column of air, hanging there)
Moon's milk spills from my unquiet skull
And forms a white rainbow
(A psychosis, a roaring aura)
(Aurora borealis)
A white rainbow
A lunar ascension, a solar declension
A tremulous column of air hanging there
A bleached beach, a psychosis
(Laughing like skeletons clattering at midday)
Feel the moon's pull
Feel the moon's pull
Moon's milk spills from my unquiet skull
A white rainbow
Inverted vertigo, a psychosis
(Moon's milk spills)
And overhead, overhead
(Feel the moon's pull)
A tremulous column of air, hanging there
(A white rainbow)
(Laughing like skeletons clattering at midday)
And overhead, a white rainbow
Under an unquiet skull, under an unquiet skull
Feel the moon's pull
A white rainbow
(A roaring aura)
(A tremulous column of air, hanging there)
Moon's milk spills from my unquiet skull
And forms a white rainbow
(A psychosis, a roaring aura)
(Aurora borealis)
A white rainbow
A lunar ascension, a solar declension
A tremulous column of air hanging there
A bleached beach, a psychosis
(Laughing like skeletons clattering at midday)
Feel the moon's pull
Feel the moon's pull
Moon's milk spills from my unquiet skull
A white rainbow
Inverted vertigo, a psychosis
(Moon's milk spills)
And overhead, overhead
(Feel the moon's pull)
A tremulous column of air, hanging there
(A white rainbow)
(Laughing like skeletons clattering at midday)
And overhead, a white rainbow
Under an unquiet skull, under an unquiet skull
Feel the moon's pull
A white rainbow
'Xmas is now drawing near'
form the single 'Winter solstice'
1999
Coil
lyrics:
Come serve the Lord and be at His command
And God a portion for you will provide
And give a blessing to your soul besides
Down in the garden where flowers grow in ranks
Down on your bended knees and give the Lord thanks
Down on your knees and pray both night and day
Leave off your sins and live upright I pray
So proud and lofty is some sort of sin
Which many take delight and pleasure in
Whose conversation God doth much dislike
And yet He shakes His sword before He strikes
So proud and lofty do some people go
Dressing themselves like players in the show
They patch and paint and dress with idle stuff
As if God had not made them fine enough
Even little children learn to curse and swear
And can't rehearse one word of godly prayer
Oh teach them better, oh teach them to rely
On Christ the sinner's friend who reigns on high
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
'O meu filho há-de ser um senhor!', diz um esquecido de deus
'
- Por que me perguntas isso? Vês ali o garoto? Vês o molho de trevo? Ele queria um carneiro para a festa. Disse-lhe que éramos pobres. começou a chorar. E então pensei: eis-me chegado ao fundo da miséria. Depois voltei a pensar no crime de Saadi. Torturava-me, agarrava-se ao meu corpo. Foi nesse momento que passou o guarda Gohloche e me contou a história dos varredores. A princípio, não percebi nada. Depois tentei compreender. Sentia-me arrancado do fundo da minha miséria pela acção desses homens, e a sua coragem dava-me forças, e sentia despertar em mim o gosto de viver. Nao sei como explicar-te. Já sou velho, e tudo isso nasceu em mim esta noite.
- Chaktour, meu irmão -, disse Haroussi, - acabo de sair da prisão e garanto-te que estou muito cansado. Já não compreendo nada. Mas apesar de tudo vou dizer-te uma coisa. Há pouco mostraste-me o rapaz e o molho de trevo para me atrair junto do teu coração doente. Agora repara no domador de macacos, lá adiante, ao lado da sua cabana. Estás a vê-lo? Não é meu filho: é um filho da puta,, mas cada vez que me acontecesse encontrá-lo desencadeia em mim sempre o mesmo pensamento: porque não há domadores de homens? Se houvesse, talvez fosse possível saber o que podem fazer os homens.
- Eu sei o que podem fazer -, disse Chaktour.
- Então diz-me.
- Só o sei desde esta noite.
- Não importa. Diz-me.
- Os homens podem envenenar as mulheres, e também podem revoltar-se e espancar o capataz.
- Isso não explica nada.
- Explica tudo. Agora vejo as coisas com clareza que chego a ter medo. A culpa é deste molho de trevo. Estava deitado na minha miséria, sufocado por ela, e não me passava pela cabeça rejeitá-la. Não entendia a vida sem a sua presença. E eis que a criança chega com um molho de trevo, e a miséria torna-se de repente insuportável. Sofro como um homem queimado e a quem arrancaram os olhos para que não possa ver nada à sua volta. Um molho de trevo e era-me revelado o sentido de uma outra vida.
- Que vida?
- Não sei. Há no ar coisas que se anunciam e me dizem que o nosso sangue ainda não arrefeceu por completo. Ainda dispomos de muito calor, de muita vida. Um calor capaz de milagres.
- Vais abrir banca de bruxo?
- Não, eu não. Olha para aquele garoto a chorar. Com certeza que tem frio. Não tem nada por baixo da túnica. E desde manhã que ainda não comeu nada. Mas é ele o fazedor de milagres. É ele o bruxo de amanhã. Há pouco, completamente abatido na minha oficina, perguntava: quem salvará o menino? Pois bem, o menino salvar-se-á sozinho. Não aceitará a pesada herança da nossa miséria. Terá braços suficientemente fortes para se defender. Eis o que o ar anuncia à nossa volta. Escuta, Haroussi...
Sobreveio um silêncio que se estendeu muito longe, até ao fundo das vielas lamacentas. O vento tinha deixado de soprar. A miséria do mundo chegava ao fim do seu destino.
'
, página 80
'Os homens esquecidos de Deus'
Albert Cossery
edição Antígona
- Por que me perguntas isso? Vês ali o garoto? Vês o molho de trevo? Ele queria um carneiro para a festa. Disse-lhe que éramos pobres. começou a chorar. E então pensei: eis-me chegado ao fundo da miséria. Depois voltei a pensar no crime de Saadi. Torturava-me, agarrava-se ao meu corpo. Foi nesse momento que passou o guarda Gohloche e me contou a história dos varredores. A princípio, não percebi nada. Depois tentei compreender. Sentia-me arrancado do fundo da minha miséria pela acção desses homens, e a sua coragem dava-me forças, e sentia despertar em mim o gosto de viver. Nao sei como explicar-te. Já sou velho, e tudo isso nasceu em mim esta noite.
- Chaktour, meu irmão -, disse Haroussi, - acabo de sair da prisão e garanto-te que estou muito cansado. Já não compreendo nada. Mas apesar de tudo vou dizer-te uma coisa. Há pouco mostraste-me o rapaz e o molho de trevo para me atrair junto do teu coração doente. Agora repara no domador de macacos, lá adiante, ao lado da sua cabana. Estás a vê-lo? Não é meu filho: é um filho da puta,, mas cada vez que me acontecesse encontrá-lo desencadeia em mim sempre o mesmo pensamento: porque não há domadores de homens? Se houvesse, talvez fosse possível saber o que podem fazer os homens.
- Eu sei o que podem fazer -, disse Chaktour.
- Então diz-me.
- Só o sei desde esta noite.
- Não importa. Diz-me.
- Os homens podem envenenar as mulheres, e também podem revoltar-se e espancar o capataz.
- Isso não explica nada.
- Explica tudo. Agora vejo as coisas com clareza que chego a ter medo. A culpa é deste molho de trevo. Estava deitado na minha miséria, sufocado por ela, e não me passava pela cabeça rejeitá-la. Não entendia a vida sem a sua presença. E eis que a criança chega com um molho de trevo, e a miséria torna-se de repente insuportável. Sofro como um homem queimado e a quem arrancaram os olhos para que não possa ver nada à sua volta. Um molho de trevo e era-me revelado o sentido de uma outra vida.
- Que vida?
- Não sei. Há no ar coisas que se anunciam e me dizem que o nosso sangue ainda não arrefeceu por completo. Ainda dispomos de muito calor, de muita vida. Um calor capaz de milagres.
- Vais abrir banca de bruxo?
- Não, eu não. Olha para aquele garoto a chorar. Com certeza que tem frio. Não tem nada por baixo da túnica. E desde manhã que ainda não comeu nada. Mas é ele o fazedor de milagres. É ele o bruxo de amanhã. Há pouco, completamente abatido na minha oficina, perguntava: quem salvará o menino? Pois bem, o menino salvar-se-á sozinho. Não aceitará a pesada herança da nossa miséria. Terá braços suficientemente fortes para se defender. Eis o que o ar anuncia à nossa volta. Escuta, Haroussi...
Sobreveio um silêncio que se estendeu muito longe, até ao fundo das vielas lamacentas. O vento tinha deixado de soprar. A miséria do mundo chegava ao fim do seu destino.
'
, página 80
'Os homens esquecidos de Deus'
Albert Cossery
edição Antígona
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Dois poemas de Ruy Cinatti
'
PARA UMA DESCONHECIDA
Deste-me uma orquídea, ó rapariga
em troca de um papel com versos meus.
Eu oferecia-a Nossa Senhora
e ficámo-nos rindo a sós com Deus!...
na capela de Nossa Senhora da Saúde à Mouraria...
18.2.77
CONSEQUÊNCIA
No invisível vejo o meu destino
e toco-o com os dedos: é uma flor
a que chamo Cristo e dela faço
o mais vivo farol do meu amor.
Os homens passam, divertem-se, conversam.
São meus irmãos, quero-lhes bem
e em paz lhes digo: Sejam honestíssimos.
O resto virá por graça de Quem vem...
10.3.77
'
,
'Corpo Santo'
Ruy Cinatti
Averno 2014
PARA UMA DESCONHECIDA
Deste-me uma orquídea, ó rapariga
em troca de um papel com versos meus.
Eu oferecia-a Nossa Senhora
e ficámo-nos rindo a sós com Deus!...
na capela de Nossa Senhora da Saúde à Mouraria...
18.2.77
CONSEQUÊNCIA
No invisível vejo o meu destino
e toco-o com os dedos: é uma flor
a que chamo Cristo e dela faço
o mais vivo farol do meu amor.
Os homens passam, divertem-se, conversam.
São meus irmãos, quero-lhes bem
e em paz lhes digo: Sejam honestíssimos.
O resto virá por graça de Quem vem...
10.3.77
'
,
'Corpo Santo'
Ruy Cinatti
Averno 2014
..
'Tiremos as maiúsculas a deus e a nossa senhora
que poderão ter a congraça de vir por curiosidade
e substituamos cristo por cada um de nós em plena auto-estima.
Convém também que não sejamos demasiado honestos,
andam tubarões na costa e lampreias no éter.'
As alterações que eu faria a estes maravilhosos versos.
Figuras em molduras encontradas no lixo
'Uma figura'
óleo sobre pano cru
27cm por 22cm
2006
ZMB
Adenda: Maio 2015
Este quadro «Uma Figura» foi vendida na Ribeira,
a um senhor que fez questão de me deixar sem eu o exigir
o seu chapéu escuro
enquanto ia ao Multibanco.
Na altura da Páscoa, estive na Ribeira do Porto
algumas tardes tentando vender alguns quadros meus
e de qualquer modo fazendo uma exposição pública na rua e de graça e anónima.
Adenda: Maio 2015
Este quadro «Uma Figura» foi vendida na Ribeira,
a um senhor que fez questão de me deixar sem eu o exigir
o seu chapéu escuro
enquanto ia ao Multibanco.
Na altura da Páscoa, estive na Ribeira do Porto
algumas tardes tentando vender alguns quadros meus
e de qualquer modo fazendo uma exposição pública na rua e de graça e anónima.
'Sem título'
óleo sobre pano crú
32cm por 38cm
2006
ZMB
Fotos de época,
antes de polir e envernizar,
Estes dois trabalhos estão presentes na exposição
'ZMB na Casa da Horta'
Rua de São Franscisco nº12, Porto
3ª-Sab, 12h-24h
Novembro de 2014
O preço de cada um destes trabalhos no local de exposição é de 30€.
Após o términus desta, o preço será acrescido de portes de correio.
Também posso entregar em mão na zona do Porto.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
Uma ficção distópica, será?
'
- O.K. Dois anos de serviço activo depois de me ter graduado. Os brincalhões do céu ainda são mais optimistas que os estudantes e têm mais dinheiro... e entretanto eu aprendera mais matemática e engenharia. Mandaram-me para a actividade exactamente a tempo de ser chamado de novo para a Guerra dos Espasmos. Não me aleijei: estava mais seguro que os civis. Mas isso fez-me perder outro ano, ainda que a luta já estivesse quase acabada quando me mandaram recolher. Isso tornou-me um veterano... com todos os benefícios, enquanto gozava os benefícios de ser um simples estudante. Fui a Manhattan e assinei de novo pela escola. Candidato a doutor. Escola da Educação. A princípio nada pareceu sério, pois estava disposto a usar os meus benefícios de veterano ao mesmo tempo que gozava os benefícios de ser estudante... e dedicava a maior parte do meu tempo a amontoar dinheiro para me qualificar para o legado.
«Sabia que os mais estúpidos estudantes, os mais parvos professores e os cursos mais asnáticos estão concentrados nas escolas de educação. Ao inscrever-me nas conferências de grande assistência, à noite, e nas impopulares aulas das oito da manhã, calculei que podia passar a maior parte do tempo a descobrir como funcionava a bolsa. E conseguí-o, trabalhando lá, antes de arriscar um chavo.
«Eventualmente, tive de escolher um problema para investigar, ou desistir das vantagens de ser um estudante. Estava farto de uma escola em que o bolo era todo merengue sem recheio, mas fiquei porque sabia como lidar com um curso em que as respostas são questões de opinião e a opinião que conta é a do professor. E sabia também como me arranjar com essas conferências nocturnas de grande assistência: comprar OS APONTAMENTOS: Ler tudo quanto o professor publicou. Não faltar demasiado e, quando se resolver aparecer, chegar cedo, sentar ao meio da primeira fila, ter a certeza de que o professor nos vê de cada vez que ele olha na nossa direcção... nunca tirando os olhos dele. Fazer uma pergunta que se sabe que ele pode responder porque foi escolhida entre os seus trabalhos publicados... e declarar o nosso nome sempre que fazemos uma pergunta. Felizmente, Zebedeu Carter é um nome fácil de recordar. Família: Obtive as melhores qualificações quer nos cursos quer nos seminários... porque não estudei educação. Estudei professores de educação.
«Mas ainda tinha de fazer a "contribuição original para o conhecimento humano" sem a qual um candidato não pode ter o grau de doutor na maior parte das chamadas disciplinas... e as poucas que não o exigem são um osso duro de roer.
«Estudei a comissão da faculdade antes de me deixar atar a um problema de investigação... não sem ler tudo quanto cada um dos seus membros tinha publicado mas também comprando os trabalhos por eles publicados ou pagando à biblioteca as fotocópias dos trabalhos esgotados.»
O meu marido pegou-me pelos ombros.
- Dejah Thoris, aí vai o título da minha dissertação. Podes pedir o divórcio nas condições que entenderes.
- Zebedeu, não fales assim!
- Então aguenta-te. «Um Inquérito Ad-Hoc Sobre a Optimização da Infra-estrutura das Instituições Educacionais Primárias na Interface Entre a Administração e a Instrução, com Atenção Especial às Necessidades da Dinâmica de Grupo.»
- Zebbie! Que quer dizer isso?
- Não significa nada, Hilda.
- Zeb, deixa-te de brincar com as senhoras. Um título desses nunca seria aceite.
- Jake, tenho a certeza de que nunca tiraste um curso numa escola de educação.
'
,página 86
"O número do monstro -1"
Robert A. Heinlein
Colecção Argonauta,
Livros do Brasil 1980
- O.K. Dois anos de serviço activo depois de me ter graduado. Os brincalhões do céu ainda são mais optimistas que os estudantes e têm mais dinheiro... e entretanto eu aprendera mais matemática e engenharia. Mandaram-me para a actividade exactamente a tempo de ser chamado de novo para a Guerra dos Espasmos. Não me aleijei: estava mais seguro que os civis. Mas isso fez-me perder outro ano, ainda que a luta já estivesse quase acabada quando me mandaram recolher. Isso tornou-me um veterano... com todos os benefícios, enquanto gozava os benefícios de ser um simples estudante. Fui a Manhattan e assinei de novo pela escola. Candidato a doutor. Escola da Educação. A princípio nada pareceu sério, pois estava disposto a usar os meus benefícios de veterano ao mesmo tempo que gozava os benefícios de ser estudante... e dedicava a maior parte do meu tempo a amontoar dinheiro para me qualificar para o legado.
«Sabia que os mais estúpidos estudantes, os mais parvos professores e os cursos mais asnáticos estão concentrados nas escolas de educação. Ao inscrever-me nas conferências de grande assistência, à noite, e nas impopulares aulas das oito da manhã, calculei que podia passar a maior parte do tempo a descobrir como funcionava a bolsa. E conseguí-o, trabalhando lá, antes de arriscar um chavo.
«Eventualmente, tive de escolher um problema para investigar, ou desistir das vantagens de ser um estudante. Estava farto de uma escola em que o bolo era todo merengue sem recheio, mas fiquei porque sabia como lidar com um curso em que as respostas são questões de opinião e a opinião que conta é a do professor. E sabia também como me arranjar com essas conferências nocturnas de grande assistência: comprar OS APONTAMENTOS: Ler tudo quanto o professor publicou. Não faltar demasiado e, quando se resolver aparecer, chegar cedo, sentar ao meio da primeira fila, ter a certeza de que o professor nos vê de cada vez que ele olha na nossa direcção... nunca tirando os olhos dele. Fazer uma pergunta que se sabe que ele pode responder porque foi escolhida entre os seus trabalhos publicados... e declarar o nosso nome sempre que fazemos uma pergunta. Felizmente, Zebedeu Carter é um nome fácil de recordar. Família: Obtive as melhores qualificações quer nos cursos quer nos seminários... porque não estudei educação. Estudei professores de educação.
«Mas ainda tinha de fazer a "contribuição original para o conhecimento humano" sem a qual um candidato não pode ter o grau de doutor na maior parte das chamadas disciplinas... e as poucas que não o exigem são um osso duro de roer.
«Estudei a comissão da faculdade antes de me deixar atar a um problema de investigação... não sem ler tudo quanto cada um dos seus membros tinha publicado mas também comprando os trabalhos por eles publicados ou pagando à biblioteca as fotocópias dos trabalhos esgotados.»
O meu marido pegou-me pelos ombros.
- Dejah Thoris, aí vai o título da minha dissertação. Podes pedir o divórcio nas condições que entenderes.
- Zebedeu, não fales assim!
- Então aguenta-te. «Um Inquérito Ad-Hoc Sobre a Optimização da Infra-estrutura das Instituições Educacionais Primárias na Interface Entre a Administração e a Instrução, com Atenção Especial às Necessidades da Dinâmica de Grupo.»
- Zebbie! Que quer dizer isso?
- Não significa nada, Hilda.
- Zeb, deixa-te de brincar com as senhoras. Um título desses nunca seria aceite.
- Jake, tenho a certeza de que nunca tiraste um curso numa escola de educação.
'
,página 86
"O número do monstro -1"
Robert A. Heinlein
Colecção Argonauta,
Livros do Brasil 1980
He doesn't like what he sees
'He doesn't like what he sees'
óleo sobre tela
40cm por 30cm
2007
ZMB
Do mesmo trabalho uma fotografia de época:

'Vê-se cacos de janela, reflexos de luz e olhares cruzados.'
Hoje a ironia deu por mim a pensar enquanto ia passeio acima buscar o jantar para logo:
O que está a dar é montar uma banca com prospectos em tons elécricos e mostrar uma gravata, gel no cabelo, um bom fato e uma voz de barítono, ser bem-educado para quem nos cumprimenta, e quando nos fizerem perguntas de circunstância levantar o queixo e franzir os olhos e dar a impressão que se pensa no assunto e se sabe qual o caminho a seguir.
- É um senhor, é como a merkle, vai arrumar com a escória dos que não querem trabalhar!
Do mesmo trabalho uma fotografia de época:
'Vê-se cacos de janela, reflexos de luz e olhares cruzados.'
Hoje a ironia deu por mim a pensar enquanto ia passeio acima buscar o jantar para logo:
O que está a dar é montar uma banca com prospectos em tons elécricos e mostrar uma gravata, gel no cabelo, um bom fato e uma voz de barítono, ser bem-educado para quem nos cumprimenta, e quando nos fizerem perguntas de circunstância levantar o queixo e franzir os olhos e dar a impressão que se pensa no assunto e se sabe qual o caminho a seguir.
- É um senhor, é como a merkle, vai arrumar com a escória dos que não querem trabalhar!
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