quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
É isso, Zelig na verdade, mas eu de tanto esse te parecer esqueço-me, às vezes, de quem sou: Eyes to the blind
[página 80]
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Num popular restaurante italiano, almocei hoje com Eugénio Salazar, doutor em história e escritor neófito que já publicou um par de pequenas coisas. Vendo-o lutar com o esparguete, contei-lhe em que estava a trabalhar, os inícios, os detalhes, as dúvidas e, pouco a pouco, fui-me apercebendo de que a explicação deste livro requer outro livro, quase precisa de um manual de instruções para se tornar compreensível. Enquanto eu sofria para o tornar mais claro, ele não levantou, em nenhum momento os olhos do prato: ai sim, claro, com certeza, percebo. Creio que não me percebia, ou talvez sim. Quando por fim acabei de falar, a minha lasanha já tinha arrefecido. Durante alguns minutos, comemos em silêncio. De repente, o doutor Salazar baixou os talheres, bebeu um gole de vinho tinto e disse-me para não ser tão ingénuo, senhor Halfon, esse momento não existe, na verdade você anda à procura, perdoe que lho diga, de pretextos que justifiquem a sua própria decisão de se tornar escritor, quem sabe se por insegurança, precisa das respostas de outros autores para validar a sua, mas não sei, senhor Halfon, não sei porque é que o senhor se empenha em escrever livros tão estranhos e, além disso, não sei se o percebi muito bem, teria de o ler. Ao beber outro gole de vinho, fez um ruído desagradável, semelhante a um arroto contido, e passou a língua pelos lábios. Como se chamava, senhor Halfon, aquela personagem de Woody Allen que se esforça tanto por mudar a sua imagem e parecer outra pessoa, Zenin ou Zelin ou coisa parecida, não me lembro. Foi tudo o que me disse. Deixei que pagasse a conta.
(...)
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[página 114]
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Ao inteirar-se da sua breve aparição nas linhas do manuscrito, um autor escreveu-me para me acusar de estar a praticar aquilo a que se chama "um vampirismo literário exagerado". Não sei, talvez tenha razão, talvez o meu afã de investigar outros escritores me tenha levado, sem me aperceber disso, a usurpar não só as suas palavras e personagens, mas também o seu estilo narrativo; a querer tornar-me, suponho, um composto de todos eles. É o fenómeno de Alonso Quijano e Madame Bovary e Tom Sawyer e Holly Golightly e de todos os outros que acreditam naquilo que lêem, que acreditamos naquilo que lemos. O perigo de penetrar apaixonadamente no mundo dos livros é o de nos tornarmos, nós próprios, no aglomerado de pequenos excertos literários. E os livros que escrevemos não podem ser mais do que um aberrante somatório de todas as páginas que vamos arrancando aos livros que lemos.(...)
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[página 124]
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Entre tantas dúvidas que me assolam no meio da melancolia febril, uma coisa é clara, para mim. As pessoas entram e saem da literatura sem saberem porquê. E talvez o simples facto de fazer a pergunta seja aproximarmo-nos demasiado do sol, pois a razão nunca poderá compreender manifestações do espírito estético. Nunca. Sem pedir permissão, nem perdão, o anjo literário assoma, eleva-nos efemeramente até alguns paraísos e arrasta-nos para os nossos infernos e isso é tudo e merda para isso.
(...)
'
"O anjo literário"
Eduardo Halfon
Edição Cavalo de Ferro
Artist: Scorn
Title: White Irises Blind (Minimal Mix)
Album: White Irises Blind ('97 Re-Issue)
Year: 1993
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Num popular restaurante italiano, almocei hoje com Eugénio Salazar, doutor em história e escritor neófito que já publicou um par de pequenas coisas. Vendo-o lutar com o esparguete, contei-lhe em que estava a trabalhar, os inícios, os detalhes, as dúvidas e, pouco a pouco, fui-me apercebendo de que a explicação deste livro requer outro livro, quase precisa de um manual de instruções para se tornar compreensível. Enquanto eu sofria para o tornar mais claro, ele não levantou, em nenhum momento os olhos do prato: ai sim, claro, com certeza, percebo. Creio que não me percebia, ou talvez sim. Quando por fim acabei de falar, a minha lasanha já tinha arrefecido. Durante alguns minutos, comemos em silêncio. De repente, o doutor Salazar baixou os talheres, bebeu um gole de vinho tinto e disse-me para não ser tão ingénuo, senhor Halfon, esse momento não existe, na verdade você anda à procura, perdoe que lho diga, de pretextos que justifiquem a sua própria decisão de se tornar escritor, quem sabe se por insegurança, precisa das respostas de outros autores para validar a sua, mas não sei, senhor Halfon, não sei porque é que o senhor se empenha em escrever livros tão estranhos e, além disso, não sei se o percebi muito bem, teria de o ler. Ao beber outro gole de vinho, fez um ruído desagradável, semelhante a um arroto contido, e passou a língua pelos lábios. Como se chamava, senhor Halfon, aquela personagem de Woody Allen que se esforça tanto por mudar a sua imagem e parecer outra pessoa, Zenin ou Zelin ou coisa parecida, não me lembro. Foi tudo o que me disse. Deixei que pagasse a conta.
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[página 114]
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Ao inteirar-se da sua breve aparição nas linhas do manuscrito, um autor escreveu-me para me acusar de estar a praticar aquilo a que se chama "um vampirismo literário exagerado". Não sei, talvez tenha razão, talvez o meu afã de investigar outros escritores me tenha levado, sem me aperceber disso, a usurpar não só as suas palavras e personagens, mas também o seu estilo narrativo; a querer tornar-me, suponho, um composto de todos eles. É o fenómeno de Alonso Quijano e Madame Bovary e Tom Sawyer e Holly Golightly e de todos os outros que acreditam naquilo que lêem, que acreditamos naquilo que lemos. O perigo de penetrar apaixonadamente no mundo dos livros é o de nos tornarmos, nós próprios, no aglomerado de pequenos excertos literários. E os livros que escrevemos não podem ser mais do que um aberrante somatório de todas as páginas que vamos arrancando aos livros que lemos.(...)
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[página 124]
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Entre tantas dúvidas que me assolam no meio da melancolia febril, uma coisa é clara, para mim. As pessoas entram e saem da literatura sem saberem porquê. E talvez o simples facto de fazer a pergunta seja aproximarmo-nos demasiado do sol, pois a razão nunca poderá compreender manifestações do espírito estético. Nunca. Sem pedir permissão, nem perdão, o anjo literário assoma, eleva-nos efemeramente até alguns paraísos e arrasta-nos para os nossos infernos e isso é tudo e merda para isso.
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"O anjo literário"
Eduardo Halfon
Edição Cavalo de Ferro
Artist: Scorn
Title: White Irises Blind (Minimal Mix)
Album: White Irises Blind ('97 Re-Issue)
Year: 1993
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Empreender, chular e mandar trabalhar os outros ou fazer mesmo como os outros:
Há-de algum dia ser diferente?
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V
Com a continuação, a carreira de Tchichikov ganhou um andamento vertiginoso. O que ele não fez! É uma coisa que vai além da compreensão. Fundou um 'trust' que devia extrair ferro da serradura e recebeu um novo empréstimo. Entrou como accionista numa grande cooperativa e alimentou toda a cidade de Moscovo com salsição fabricado de cadáveres. Tendo sabido a proprietária de terras Korobotchka que em Moscovo agora «tudo era permitido», quis comprar bens imóveis. Ficou interessado com Zamukhrychkine e Utiechitelny e vendeu-lhe o Picadeiro, em frente da Universidade. Tomou de empreitada a electrificação de uma cidade onde não se podia ir a parte alguma mesmo que se galopasse durante três anos, e, depois, de ter entrado em contacto com o antigo governador, mandou demolir uma paliçada e plantar estacas para que aquilo tivesse o ar de uma construção. Quanto ao dinheiro concedido para a electrificação, escreveu que lhe tinha sido roubado pelo bando do capitão Kopeikine. enfim, fez milagres.
Não tardou que começasse a correr que Tchichikov era trilionário. As empresas disputavam-no entre si como especialista. E já, Tchichikov alugara por cinco biliões um apartamento de cinco divisões; já ele ia comer as suas refeições ao restaurante Império.
VI
Mas subitamente, deu-se uma catástofre.
Foi Nozdriov, como precisamente o vaticinara Gogol, quem perdeu Tchichikov, e Korobotchka quem lhe deu o golpe de misericórdia. Sem o mais pequeno desejo de lhe fazer uma perfídia, mas muito simplesmente em estado de embriaguez, Nozdriov foi contar no campo de corridas a história da serradura e da empresa inexistente que Tchichikov fundara, e terminou dizendo que Tchichikov era um patife e que se ele mandasse o fazia fuzilar.
O público começou a pensar naquilo e o boato voou e espalhou-se como uma faísca.
E como aquilo não chegasse, veio ainda aquela tola da Korobotchka meter o nariz numa repartição para perguntar quando poderia abrir uma padaria no Picadeiro. Em vão lhe explicaram que o Picadeiro era um edifício público e que ali não se podia comprar nem abrir fosse o que fosse. A pobre da mulher não quis compreender nada.
O que se dizia de Tchichikov tornava-se cada vez mais grave. Começaram então a perguntar que passarão seria aquele Tchichikov e donde teria ele vindo. As bisbilhotices começaram a aparecer e aquilo que se dizia, era de dia para dia mais sinistro e fantástico. A inquietação insinuou-se nos corações. Os telefonemas começaram a tocar. Fizeram-se consultas. A Comissão de construção apelou para a Comissão de vigilância;(...)
Correram a casa de Nozdriov. Evidentemente, era estúpido. Toda a gente sabia que era um mentiroso e que ninguém podia fiar-se na sua palavra. Mas mandaram chamar Nozdriov e ele respondeu a tudo.
Declarou que Tchichikov tinha efectivamente fundado uma empresa que não existia e que ele Nozdriov não via razões para que Tchichikov não o fizesse uma vez que toda a gente o fazia.
(...)
- Uma pedra ao pescoço, um buraco no gelo, e rio com ele!
(...)
'
'As aventuras de Tchichikov'
Mikhaïl Boulgakov
no volume "Feitiçaria seguido de Os ovos fatídicos'
Editorial Estampa 1973
V
Com a continuação, a carreira de Tchichikov ganhou um andamento vertiginoso. O que ele não fez! É uma coisa que vai além da compreensão. Fundou um 'trust' que devia extrair ferro da serradura e recebeu um novo empréstimo. Entrou como accionista numa grande cooperativa e alimentou toda a cidade de Moscovo com salsição fabricado de cadáveres. Tendo sabido a proprietária de terras Korobotchka que em Moscovo agora «tudo era permitido», quis comprar bens imóveis. Ficou interessado com Zamukhrychkine e Utiechitelny e vendeu-lhe o Picadeiro, em frente da Universidade. Tomou de empreitada a electrificação de uma cidade onde não se podia ir a parte alguma mesmo que se galopasse durante três anos, e, depois, de ter entrado em contacto com o antigo governador, mandou demolir uma paliçada e plantar estacas para que aquilo tivesse o ar de uma construção. Quanto ao dinheiro concedido para a electrificação, escreveu que lhe tinha sido roubado pelo bando do capitão Kopeikine. enfim, fez milagres.
Não tardou que começasse a correr que Tchichikov era trilionário. As empresas disputavam-no entre si como especialista. E já, Tchichikov alugara por cinco biliões um apartamento de cinco divisões; já ele ia comer as suas refeições ao restaurante Império.
VI
Mas subitamente, deu-se uma catástofre.
Foi Nozdriov, como precisamente o vaticinara Gogol, quem perdeu Tchichikov, e Korobotchka quem lhe deu o golpe de misericórdia. Sem o mais pequeno desejo de lhe fazer uma perfídia, mas muito simplesmente em estado de embriaguez, Nozdriov foi contar no campo de corridas a história da serradura e da empresa inexistente que Tchichikov fundara, e terminou dizendo que Tchichikov era um patife e que se ele mandasse o fazia fuzilar.
O público começou a pensar naquilo e o boato voou e espalhou-se como uma faísca.
E como aquilo não chegasse, veio ainda aquela tola da Korobotchka meter o nariz numa repartição para perguntar quando poderia abrir uma padaria no Picadeiro. Em vão lhe explicaram que o Picadeiro era um edifício público e que ali não se podia comprar nem abrir fosse o que fosse. A pobre da mulher não quis compreender nada.
O que se dizia de Tchichikov tornava-se cada vez mais grave. Começaram então a perguntar que passarão seria aquele Tchichikov e donde teria ele vindo. As bisbilhotices começaram a aparecer e aquilo que se dizia, era de dia para dia mais sinistro e fantástico. A inquietação insinuou-se nos corações. Os telefonemas começaram a tocar. Fizeram-se consultas. A Comissão de construção apelou para a Comissão de vigilância;(...)
Correram a casa de Nozdriov. Evidentemente, era estúpido. Toda a gente sabia que era um mentiroso e que ninguém podia fiar-se na sua palavra. Mas mandaram chamar Nozdriov e ele respondeu a tudo.
Declarou que Tchichikov tinha efectivamente fundado uma empresa que não existia e que ele Nozdriov não via razões para que Tchichikov não o fizesse uma vez que toda a gente o fazia.
(...)
- Uma pedra ao pescoço, um buraco no gelo, e rio com ele!
(...)
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'As aventuras de Tchichikov'
Mikhaïl Boulgakov
no volume "Feitiçaria seguido de Os ovos fatídicos'
Editorial Estampa 1973
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Alucinações literárias temperadas com o sal refinado da dura realidade
Supõe que vais a passear na rua e uma mulher atraente atravessa a rua vindo em tua direcção. Pára e olha para ti a três ou quatro metros de distância.
-Se fores um fotógrafo... sentir-te-ás atraído a tirar uma fotografia. Não verás tu que o acto de encaixar uma realidade dentro de uma imagem é perder tempo e não observar ao vivo essa mesma realidade?-Se fores um pintor... observarás essa realidade em todos os seus aspectos, as emoções que a sua face revela, o modo como meneia o corpo. Sentir-te-ás atraído a fixar uma dessas sensações em tela mas conseguirás tu realmente pintar essa emoção que tão bem captaste em todos os seus pormenores?
-Se fores um escultor... tentarás fazer um modelo dessa realidade mas conseguirás tu transmitir a cor da pele, o vestido ou o sapato que ela usa?
-Se trabalhares na área dos audiovisuais ou teatro... tentarás talvez representar toda a sequência recorrendo a actores que poderão ser ou não profissionais. Conseguirás tu representar essa sequência na perfeição quando perfeição significa a representação da realidade em todos os seus pormenores como a emoção espontânea que varia de situação em situação e de pessoa para pessoa?
Não vês que a representação significa uma mentira, a falsa representação da realidade?
Por isso uma das mais importantes ferramentas deve ser a imaginação ou a construção de uma realidade que não vimos na realidade mas que talvez pre-vimos.
-Se fores um poeta... sentir-te-ás tentado a escrever um poema sobre essa realidade mas não seria mais interessante e real aproximares-te dessa realidade e dizer-lhes o poema espontâneo que desejaste em vez de o passares ao papel? A isso chamar-se-ia tentar fazer com que acontecesse.
'Os hashishin ou as epístolas de Claudio Mur aos parolos e às mui puissíssimas'
Edições Cassiber
2009
Segunda edição: 2012, aumentada com desenhos
Envio por correio: 5 euros.
pedidos para ed.cassiber@gmail.com
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Tu não és uma falsa memória, pois não?
I am sick of poetry. The sky starts to darken.
There's nothing strange on this end of afternoon.
People walk in a rush towards home after their jobs.
Others stumble in the contrary direction.
It seems that I told but you were not sure.
I was unsure also as I seem to have denied it later.
But now that calm is and the misery of living never ends
I wish I could come to see you and kiss you again:
This would make me be alive, a better man
and not a beast with false memories.
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Versões por Nick Cave
Hey Joe,
popularizado por Jimi Hendrix
Avalanche,
original de Leonard Cohen
I stepped into an avalanche
It covered up my soul
When I am not this hunchback that you see
I sleep beneath the golden hill
You who wish to conquer pain
You must learn to serve me well
You strike my side by accident
As you go down to your goal
This cripple here that you clothe and feed
Is neither starved nor cold
He does not ask for your company
Not at the centre, the centre of the world
I who am on a pedestal
You did not raise me there
Your laws do not compel me now
To kneel grotesque and bare
For I myself am the pedestal
For this ugly hump at which you stare
You who wish to conquer pain
You must learn what makes me kind
The crumbs of love that you are for me
Are the crumbs I've left behind
Your pain is no credential here
It's just a shadow of my wound
I have begun to ask for you
I who have no greed
I have begun to long for you
I who have no need
You say you've gone away from me
But I can feel you when you breathe
Do not dress in those rags for me
I know you are not poor
And do not love me quite so fiercely now
When you know that you are not sure
It is your turn, my beloved one
It is your flesh that I wear
It covered up my soul
When I am not this hunchback that you see
I sleep beneath the golden hill
You who wish to conquer pain
You must learn to serve me well
You strike my side by accident
As you go down to your goal
This cripple here that you clothe and feed
Is neither starved nor cold
He does not ask for your company
Not at the centre, the centre of the world
I who am on a pedestal
You did not raise me there
Your laws do not compel me now
To kneel grotesque and bare
For I myself am the pedestal
For this ugly hump at which you stare
You who wish to conquer pain
You must learn what makes me kind
The crumbs of love that you are for me
Are the crumbs I've left behind
Your pain is no credential here
It's just a shadow of my wound
I have begun to ask for you
I who have no greed
I have begun to long for you
I who have no need
You say you've gone away from me
But I can feel you when you breathe
Do not dress in those rags for me
I know you are not poor
And do not love me quite so fiercely now
When you know that you are not sure
It is your turn, my beloved one
It is your flesh that I wear
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