Saio do Porto directo a Amesterdão no dia 18. Partimos às nove horas da praça da galiza. Paramos em lourosa, são joão da madeira, viseu, mangualde, celorico da beira, vilar formoso. Demoramos cinco horas a chegar à fronteira. Terreno acidentado a subir desde o porto a vilar formoso. Já em território espanhol tudo é diferente. Sempre em frente. Vamos descendo suavemente o planalto sempre em linha recta. Passamos ciudad rodrigo, salamanca, valladolid e, três horas depois, paramos num centro de camionagem com restaurante a cinquenta quilómetros de burgos. Café solo a um euro e vinte cêntimos e mudança de camioneta. E então começa o temporal.
Quando voltamos ao asfalto, recordo como se fosse hoje que desta cidade sobrevive meio desfeito um cinzeiro verde surripiado de um bar com papagaios, no retorno de uma excursão ao país do badminton, onde ouço discos pedidos numa jukebox, onde se come picanha às três da manhã, onde a mulher que me fascina no momento olha para mim, enquanto dedos femininos lhe acariciam o cabelo negro e procuram com indiferença o elemento que parece faltar para um ménage. Vejo que contribuo para que a foda deles não se concretize, ele não consegue porque ela «se apaixona» por mim e eu inocente ou burrinho não quero trair a maria cá do meu bairro.
Ah!, que emigrante prefere esgalhar o pessegueiro em vez da real narsa apanhar… como vingança ele puxa-me pelos cabelos na camioneta e eu, embriagado com a vitória desportiva e guardando o vinho rasca, predigo que no futuro te espetarei com uma prisca nos olhos tendo a promessa de levar no couro e cambalear mas não cair e vencer o combate por exaustão do adversário. Às vezes. ganho apenas porque o oponente desiste de bater e de ganhar sustento e alegria com isso.
Quanto a ela, se já não me recordo do seu nome, recordo que lhe tirei uma foto porque ela, de cabelos encaracolados negros e de óculos redondos, parecia o slash dos guns n roses, parecia uma rock star e por isso levanto-me para celebrar, vou até à jukebox e procuro «estranged« para me lembrar da ilusão quando às vezes falo para os meus botões e ninguém responde, é fácil enganar-me e pensar que apareci no mundo sozinho. Ninguém me ensinou o beabá ou não gostei dos modos de quem mo tentou ensinar, decidirei terminar a minha conta bancária, a primeira desde pequenino.
Preciso de deduzir todas as outras razões para continuar a ter de dar o salto de modo a descobrir o meu caminho. Sei que és a minha sombra, sei que nunca encontrarei ninguém que te substitua. Também não o quero, reservo o que resta do meu coração para uma nova amora, alguém diferente. Dar o salto e repeti-lo até que encontre o meu verdadeiro lar. Talvez seja este o modo de quebrar o medo para que não haja um ponto de retorno. No meio do silvado, na borda da linha não se vê uma sapatilha a dizer o meu nome de estrela, apenas o silêncio dos grilos e a aparência de uma fé perdida, a minha estrela no céu enlameado. Mas fumando a lenda podia eu com muita fantasia dizer como axl noutra canção: I used to love her but I had to kill her. Uma morte dentro do meu coração. Se e quando as autoridades acharem necessário, os ficheiros em papel aparecerão.
São dezanove horas e estamos a duzentos quilómetros de madrid e a uns cem de território basco. À meia-noite, por aí não me recordo bem, chegamos a bilbau. É pena ser noite. Só se vêem luzes a recortar a baía, a nuvem está algures, a auto-estrada mais elevada que certos andares de cinco pisos, vamos descendo em curvas com saídas para a direita e sinais de trânsito ao centro até à estação de camionetas. Novos passageiros agora e ainda bem porque me canso de ouvir falar mal do país. Mas voltam sempre, agosto é deles. Gostaria de ver bilbau de dia. Talvez no regresso. Tempestade até território francês.
Às duas e meia da manhã, paramos numa auto-route e aproveito a oportunidade para comprar por três euros e noventa uma sandes de atum, ovo e delícias. Não consigo dormir ou durmo por alguns minutos nos solavancos da cadeira. Tento diversas posições. Às cinco, paramos pela segunda vez em território francês, é o início da alvorada. Vejo um mapa da michelin por dez euros, sempre gostei de cartografia, sei também que o mapa não define o território e penso que seria uma boa compra para oferecer mais tarde. Mas como recordo que há prendas que não chegam com recepção comprovada ao destino e às vezes são devolvidas, para já não quero gastar dinheiro desnecessariamente. Do mal o menor, compro lâminas de barbear para toda a estação.
Se portugal é acidentado, espanha uma linha recta até às montanhas que iniciam o território basco com túneis atrás de túneis e depois nova linha recta até à fronteira, a frança de manhãzinha até às nove, nove e meia é a alvorada graciosa. Paramos e eu peço um express double que me custa dois euros e quarenta, vejo os jornais e mais uma vez me contenho de riso com um periódico com caricaturas onde se podem ver os primeiros-ministros europeus, os ditos de rebeldes do hezbollah e hamas e onde não se pode ler muito sobre as atrocidades de israel. Tusso ao fumar o primeiro cigarro amber leaf às nove, nove e meia da manhã, os motoristas dizem qualquer coisa em espanhol mas o meu espanhol não é bom e no comprendo. Atravessamos paris em direcção a norte e aqui chega a desgraça, uma avaria deixa-nos parados ao sol na berma até às duas e meia da tarde em saint quentin a cem quilómetros de lille. Paramos por meia hora para almoçar e arrancamos às três e meia da tarde na direcção de lille, bruxelas e tendo a holanda como destino final de trabalho numa qualquer estufa de flores ou tomates.
Entramos em gent e seguimos em direcção ao ring de antuérpia. Outra cidade a visitar. Às cinco e meia entramos em antuérpia. Avançamos e entramos finalmente em território holandês. Paramos para descarregar um passageiro em breda quase às sete da tarde. Como a paisagem se alterou. Breda tem canais de água, tem pistas de bicicleta, tem árvores, tem casas de tijolo burro. É bonito. Roterdão é fantástica. Falta-me a máquina fotográfica. Sete e quarenta e cinco. Praias com belas mulheres no meio da cidade, o jardim como praia e o tgv correndo em paralelo, o fim de tarde a ouvir os sucessos da pop numa rádio holandesa.
Chegamos a amesterdão às oito e meia, menos cinco mais cinco e o meu contacto não aparece. Ele falara-me numa carrinha mitsubishi mas como chegamos com atraso… eu até vejo um furgão branco mas do homem só lhe conheço o telemóvel. Estou pendurado com um saco que pesa dez quilos e um calor abafado, mais abafado que em portugal. Tento o número e sinaliza inválido por falta de roaming, a cabine pública só funciona a cartão pré-comprado. Nove horas em amstel, estação de camionetas, autocarros, comboios e quem sabe o que mais em ligações ao aeroporto, eu acho que passamos num túnel bem por debaixo da pista de descolagem. Uso o meu melhor inglês aflito, peço a um jovem e ele tira-me um bilhete para central station onde chego às nove e um quarto.
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