segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Dirt Scratching


Um desenho colaborativo com o André Lemos: 
contacto no instagram @opuntialemos


 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

This is the illusion record

 https://archive.org/details/irabcdjol18



IRABCDJOL 18

01: A bird told me
02: Agora na verdade não já não
03: Sobre mim os galos
04: Restos mortais
05: A lavadeira e o construtor
06: Corpos esquisitos
07: Blues para acordar bem
08: Em boa voz igual a vós


Track 01 is an old field recording from 2002 that I overdubbed with harmonica.

Track 02 is a sound experience where I overlap two tracks which where slowed down in pitch, in order to create a eerie sense. The name of the track is taken from a line in a Mark Fisher’s book.

Track 03 is a mix of concrete sounds with bird sounds to which a flute responds.

Track 04 is a beat playing along flute, harmonica and a field recording. The title refers to the name of short tale by Luigi Pirandello.

Track 05 was improvised and recorded to a cell phone and sent in 2021 to Rádio Paralelo online to meet a Casa da Achada’s challenge.

This is the illusion record

ZMB 2026





domingo, 6 de setembro de 2026

Cigarros triplos

 

Daniël só fumava três, no máximo quatro dias por semana, mas nesses dias fumava desalmadamente de manhã à noite, a bem dizer um cigarro atrás do outro, e eram os cigarros mais compridos que já vi.

Na primeira semana de cada mês, encomendava sem falta no economato sete maços de cigarros Louis Doize extra légères, sans filtre e três livrinhos de mortalhas Riz-la-Croix automatique, gommé.

Tinha por hábito usar as mortalhas para enrolar cigarros triplos, que guardava cuidadosamente numa caixa achatada de pincéis, lacada a vermelho e com um dragão chinês desenhado a dourado, que levava para todo o lado como um precioso presente.

Fumava esses cigarros incrivelmente compridos sem a menor ostentação. Sentava-se calma e discretamente no seu cantinho habitual à mesa e bafejava, com dedicação, quase recolhimento, cadenciadas nuvenz azuis de fumo à sua frente, como um impertubável árabe junto ao seu cachimbo de água a meditar em silêncio sobre a insondável sabedoria de Alá.

Nada no rosto ascético de Daniël revelava a menor emoção ou satisfação ao fumar. Apenas os seus olhos adquiriam um brilho oleoso, como o olhar estático de um epiléptico no início de uma crise.

Punha-me muitas vezes a observá-lo à distância, mas ele parecia não notar qualquer presença na sala superlotada. Às vezes, os seus gestos comedidos e ritualísticos faziam lembrar o vagaroso cerimonial de um sumo sacerdote, de brocado e dedos carregados de anéis, a balançar o incensário, e cujos pensamentos se elevam com as lufadas de fumo para regiões mais celestes.

Depois do pequeno-almoço, um guarda dava a Daniël lume para o seu primeiro cigarro, sem que este precisasse de o pedir. O guarda era um iniciado no ritual. Na sua farda branca, ficava plantado à saída do refeitório como um menino de coro e sacava automaticamente a caixa de fósforos do bolso.

A partir desse momento, Daniël iniciava a sua maratona mensal de fumo de três dias, por vezes quatro. Colocava a caixa de pincéis com a reserva preparada como um pequeno tabernáculo na mesa à sua frente e fumava sem inalar os seus cigarros de triplo comprimento. Com o dedo amarelado, sacudia cuidadosamente a cinza para uma saboneteira de lata ao lado da caixa de pincéis e usava sempre a beata para acender cada novo cigarro extralongo. Nunca vi uma demonstração mais completa de fumar em cadeia. Era um perpetuum mobile, interrompido apenas pelas refeições e pelo descanso nocturno. Após cada inevitável interrupção, o guarda dava-lhe silenciosamente de novo lume e Daniël prosseguia silenciosamente a sua maratona.


Roger Van de Velde em

«Crânios crepitantes», páginas 33 - 34

tradução de Judite Berkemeier

edição VS

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

«Coisas» dos Ornatos Violeta


Leva qualquer eu a meu dia Dá-me paz eu só quero estar bem Foi só mais um quarto uma cama No meu sonho era tudo o que eu queria Quando alguém deixar de viver aqui Espera que ao voltar seja para ti Nada vai ser fácil Nunca foi Quando alguém deixar de te dar amor Pensa que há quem viva do teu calor Hoje é só um dia e vai voltar Amanhã E não foi assim que o tempo nos fez E fez assim com todos nós E não foi assim que a razão nos amou E fez assim com todos nós São coisas São coisas São só coisas São coisas Se uma voz nos diz que é viver em vão P'ra que raio fiz eu esta canção E se o fim é certo Eu quero estar cá Amanhã E não foi assim que o tempo nos fez E fez assim com todos nós E não foi assim que a razão nos amou E fez assim com todos nós São coisas São coisas São só coisas São coisas Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver Eu estou bem Quase tão bem Vê como é bom voltar a viver 
Eu estou quase a viver 


sábado, 29 de agosto de 2026

Crónica de um retirado

 


é quase verdade: beber e fazer barcos de papel
nada mau
e logo num mundo onde há quem não coma duas refeições num dia,
onde há quem tenha sido despejado de casa ou visto a sua casa ser bombardeada,
onde uma mãe chora o filho assassinado na prisão,
onde um pai descobriu que a sua filha foi violada...
comparar os meus problemas com os problemas das pessoas comuns é verificar que 
tive mais sorte do que muitos.
Ah, o meu pai tem ideias que eu não gosto!, diz o id.
O superego diz: E aqueles que nunca souberam o que era um pai?
A minha mãe flutua e tudo esquece...
Sim, mas ainda é presidente de uma associação de caridade. Ajuda-a!
O que me custa a aceitar é que ela me faz lembrar o salazar que caiu da cadeira, ele pensava que governava e eram os ajudantes que faziam tudo.
O superego contrapõe: mas fazer guerra com os próprios pais? Se não fossem eles hoje eras sem-abrigo.
O que eu queria é impossível: mudar o meu pai, atrasar a degenerescência do cérebro da minha mãe. Preferiria ir antes deles.



sábado, 15 de agosto de 2026

Ahmed Abdul Malik - Don't Blame Me

 


Ahmed Abdul-Malik - bass, oud Tommy Turrentine - trumpet Eric Dixon - tenor saxophone Bilal Abdurrahman - clarinet, percussion, Korean reed instrument Andrew Cyrille - drums Calo Scott - Cello, violin Recorded May 23, 1961

terça-feira, 28 de julho de 2026

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A borboleta preta

 No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha da Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

-- Também por que diabo não era ela azul?, disse comigo.

E esta relexão, -- uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, -- me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas». A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, ensinou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse mais verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restitui-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.


Machado de Assis

em «Memórias póstumas de Brás Cubas», página 67 - 68

edição Dinalivro


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Blue lake




Don Cherry - pocket trumpet, piano, flute, vocals Johnny Dyani - bass 
Okay Temiz - drums, percussion