segunda-feira, 5 de outubro de 2026
terça-feira, 29 de setembro de 2026
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
domingo, 20 de setembro de 2026
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
This is the illusion record
https://archive.org/details/irabcdjol18
sábado, 12 de setembro de 2026
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
domingo, 6 de setembro de 2026
Cigarros triplos
Daniël só fumava três, no máximo quatro dias por semana, mas nesses dias fumava desalmadamente de manhã à noite, a bem dizer um cigarro atrás do outro, e eram os cigarros mais compridos que já vi.
Na primeira semana de cada mês, encomendava sem falta no economato sete maços de cigarros Louis Doize extra légères, sans filtre e três livrinhos de mortalhas Riz-la-Croix automatique, gommé.
Tinha por hábito usar as mortalhas para enrolar cigarros triplos, que guardava cuidadosamente numa caixa achatada de pincéis, lacada a vermelho e com um dragão chinês desenhado a dourado, que levava para todo o lado como um precioso presente.
Fumava esses cigarros incrivelmente compridos sem a menor ostentação. Sentava-se calma e discretamente no seu cantinho habitual à mesa e bafejava, com dedicação, quase recolhimento, cadenciadas nuvenz azuis de fumo à sua frente, como um impertubável árabe junto ao seu cachimbo de água a meditar em silêncio sobre a insondável sabedoria de Alá.
Nada no rosto ascético de Daniël revelava a menor emoção ou satisfação ao fumar. Apenas os seus olhos adquiriam um brilho oleoso, como o olhar estático de um epiléptico no início de uma crise.
Punha-me muitas vezes a observá-lo à distância, mas ele parecia não notar qualquer presença na sala superlotada. Às vezes, os seus gestos comedidos e ritualísticos faziam lembrar o vagaroso cerimonial de um sumo sacerdote, de brocado e dedos carregados de anéis, a balançar o incensário, e cujos pensamentos se elevam com as lufadas de fumo para regiões mais celestes.
Depois do pequeno-almoço, um guarda dava a Daniël lume para o seu primeiro cigarro, sem que este precisasse de o pedir. O guarda era um iniciado no ritual. Na sua farda branca, ficava plantado à saída do refeitório como um menino de coro e sacava automaticamente a caixa de fósforos do bolso.
A partir desse momento, Daniël iniciava a sua maratona mensal de fumo de três dias, por vezes quatro. Colocava a caixa de pincéis com a reserva preparada como um pequeno tabernáculo na mesa à sua frente e fumava sem inalar os seus cigarros de triplo comprimento. Com o dedo amarelado, sacudia cuidadosamente a cinza para uma saboneteira de lata ao lado da caixa de pincéis e usava sempre a beata para acender cada novo cigarro extralongo. Nunca vi uma demonstração mais completa de fumar em cadeia. Era um perpetuum mobile, interrompido apenas pelas refeições e pelo descanso nocturno. Após cada inevitável interrupção, o guarda dava-lhe silenciosamente de novo lume e Daniël prosseguia silenciosamente a sua maratona.
Roger Van de Velde em
«Crânios crepitantes», páginas 33 - 34
tradução de Judite Berkemeier
edição VS
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
«Coisas» dos Ornatos Violeta
sábado, 29 de agosto de 2026
Crónica de um retirado
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
segunda-feira, 17 de agosto de 2026
sábado, 15 de agosto de 2026
Ahmed Abdul Malik - Don't Blame Me
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
sábado, 1 de agosto de 2026
terça-feira, 28 de julho de 2026
quarta-feira, 22 de julho de 2026
A borboleta preta
No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha da Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
-- Também por que diabo não era ela azul?, disse comigo.
E esta relexão, -- uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, -- me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas». A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, ensinou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse mais verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restitui-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas... Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.
Machado de Assis
em «Memórias póstumas de Brás Cubas», página 67 - 68
edição Dinalivro











