sexta-feira, 1 de novembro de 2019
quinta-feira, 31 de outubro de 2019
domingo, 27 de outubro de 2019
Willalee, o Cantor de Gospel e a menina Marybell
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Willalee soluçava de olhos fechados, baloiçando-se de um lado para o outro sobre os joelhos. O Cantor de Gospel, afligido pela crescente certeza de que era o responsável pela situação de Willalee, olhou fixamente para ele, incapaz de dizer nada. Por fim, agarrou Willalee pelos ombros e disse:
-- Sossega, vá. Sossega. Ouve, eles não te vão fazer nada. Estás a ouvir? Eu estou contigo. Agora pára com isso e levanta-te. Eu estou contigo.
Willalee levantou-se e sentou-se na beira da cama de ferro. O Cantor de Gospel foi até à janela e olhou para fora. Por baixo, ao longo de todo o comprimento de Enigma, a multidão redemoinhava agora, num marulhar de cor e som. Por detrás dele, Willalee continuava a falar, num tom uniforme e pesaroso.
-- Tu sempre tiveste comigo. Desque fui salvo, nem um instante tiveste longe de mim, nem um. E eu tou salvo, percebi logo isso quando foi que assucedeu. E sei que continuo a tar salvo, é o que diz no Evangelho. Mas tenho o sangue da menina Marybell nas mãos... no coração.
-- Ouve -- disse o Cantor de Gospel, voltando costas à janela e desejoso de reconfortar Willalee, de lhe contar a verdade, embora ciente de que a verdade causaria ainda mais dano do que aquela fantástica teia de mentiras. Mas o que viu ao virar-se tornou desnecessária qualquer palavra. Ali, sobre a cama de ferro, estava uma enrugada fotografia sua, cuidadosamente alisada, mas velha e a desfazer-se nos vincos. Willalee, cujos lábios se moviam, continuando a falar, estava a olhar não para o Cantor de Gospel, mas para a sua imagem.
O Cantor de Gospel atravessou devagar a cela até à cama.
-- Onde é que arranjaste isso?
Willalee não ergueu os olhos da fotografia.
-- ... ela que fez tudo. Se ela num tivesse vindo no bairro eu continuava a ser a pessoa que era. Um preto ruim, com cortes de navalha nas costas e que se deitava com mulatas. Ela mostrou-me o caminho. -- Enquanto falava, o dedo caloso, tremendo, de Willalee traçava o contorno da cara do Cantor de Gospel na capa da revista.
-- Ela ajudou um preto ruim a endireitar, e depois disso nunca mais cortei-me nas costas, parei de invocar o nome de Deus em vão e de dormir com mulatas. Ela falou-me do Cantor de Gospel. Falou-me como era. A menina Marybell, a menina Marybell. Ela que arranjou a igreja. Que preparou tudo. Que pôs tudo a andar. A menina Marybell. -- Olhou momentaneamente para as suas mãos, voltando as palmas para cima, enquanto abanava a cabeça, ainda a falar, numa voz sonolenta e monótona. -- Congregar. Vamos congregar na igreja quando ele voltar a casa. Arranjamos a igreja, temos tudo pronto e quando ele chegar vai entrar na igreja, vai olhar à volta e dizer tá muito bem. Sim, tamos preparado pra quando ele voltar a casa. Sim. A menina Marybell disse logo que souber quando ele chega vem avisar a gente. Veio a meio da noite. Um home nunca sabe o dia e a hora. Ela... -- Fez uma pausa, inclinando ligeiramente a cabeça, como para ouvir algo. Espetou um dedo no centro da testa e pressionou. -- Ela disse: vim pra te contar a verdade sobre o Cantor de Gospel. Eu disse: quando ele chega? Ela... -- Um cinzento de cor de cinzas humedecidas perpassou pelo rosto de Willalee. Uma veia inchou-lhe na fonte. -- Não -- disse, num sussurro. -- Eu sou pastor. Eu tou salvo. -- Voltou a olhar a flácida fotografia do Cantor de Gospel. -- Não, Senhor, não. Ela disse: Foste salvo com base em falsidade, a igreja é falsidade, o Cantor de Gospel é um falso. Disse: Deus é um home coas calças em baixo, Deus é uma braguilha desabotoada. Ela disse: o Cantor de Gospel... e eu cravei nela o picador de gelo. Agarrei-le pelo pescoço e espetei outra vez, espetei, espetei, espetei... -- Desatou a soluçar, com a cara enterrada na cama e os punhos cerrados.
Mais do que ajudar voluntariamente, o Cantor de Gospel caiu de joelhos. Colocou o braço em volta de Willalee.
-- Por favor -- pediu. -- Por favor.
Willalee ergueu os olhos. Parara de tremer. Já não chorava. Parecia até que ia sorrir.
-- Eu sabia -- disse. -- Eu sabia que contigo ia descobrir o porquê que matei a menina Marybell e fazer as paz co Senhor. Agora tou pronto. Agora já ninguém pode magoar-me porque agora sei o que fiz e sei que ofendi o Senhor. Vou pra casa.
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páginas 212 - 214
'O cantor de gospel'
Harry Crews
tradução de José Miguel Silva
edição Maldoror
Willalee soluçava de olhos fechados, baloiçando-se de um lado para o outro sobre os joelhos. O Cantor de Gospel, afligido pela crescente certeza de que era o responsável pela situação de Willalee, olhou fixamente para ele, incapaz de dizer nada. Por fim, agarrou Willalee pelos ombros e disse:
-- Sossega, vá. Sossega. Ouve, eles não te vão fazer nada. Estás a ouvir? Eu estou contigo. Agora pára com isso e levanta-te. Eu estou contigo.
Willalee levantou-se e sentou-se na beira da cama de ferro. O Cantor de Gospel foi até à janela e olhou para fora. Por baixo, ao longo de todo o comprimento de Enigma, a multidão redemoinhava agora, num marulhar de cor e som. Por detrás dele, Willalee continuava a falar, num tom uniforme e pesaroso.
-- Tu sempre tiveste comigo. Desque fui salvo, nem um instante tiveste longe de mim, nem um. E eu tou salvo, percebi logo isso quando foi que assucedeu. E sei que continuo a tar salvo, é o que diz no Evangelho. Mas tenho o sangue da menina Marybell nas mãos... no coração.
-- Ouve -- disse o Cantor de Gospel, voltando costas à janela e desejoso de reconfortar Willalee, de lhe contar a verdade, embora ciente de que a verdade causaria ainda mais dano do que aquela fantástica teia de mentiras. Mas o que viu ao virar-se tornou desnecessária qualquer palavra. Ali, sobre a cama de ferro, estava uma enrugada fotografia sua, cuidadosamente alisada, mas velha e a desfazer-se nos vincos. Willalee, cujos lábios se moviam, continuando a falar, estava a olhar não para o Cantor de Gospel, mas para a sua imagem.
O Cantor de Gospel atravessou devagar a cela até à cama.
-- Onde é que arranjaste isso?
Willalee não ergueu os olhos da fotografia.
-- ... ela que fez tudo. Se ela num tivesse vindo no bairro eu continuava a ser a pessoa que era. Um preto ruim, com cortes de navalha nas costas e que se deitava com mulatas. Ela mostrou-me o caminho. -- Enquanto falava, o dedo caloso, tremendo, de Willalee traçava o contorno da cara do Cantor de Gospel na capa da revista.
-- Ela ajudou um preto ruim a endireitar, e depois disso nunca mais cortei-me nas costas, parei de invocar o nome de Deus em vão e de dormir com mulatas. Ela falou-me do Cantor de Gospel. Falou-me como era. A menina Marybell, a menina Marybell. Ela que arranjou a igreja. Que preparou tudo. Que pôs tudo a andar. A menina Marybell. -- Olhou momentaneamente para as suas mãos, voltando as palmas para cima, enquanto abanava a cabeça, ainda a falar, numa voz sonolenta e monótona. -- Congregar. Vamos congregar na igreja quando ele voltar a casa. Arranjamos a igreja, temos tudo pronto e quando ele chegar vai entrar na igreja, vai olhar à volta e dizer tá muito bem. Sim, tamos preparado pra quando ele voltar a casa. Sim. A menina Marybell disse logo que souber quando ele chega vem avisar a gente. Veio a meio da noite. Um home nunca sabe o dia e a hora. Ela... -- Fez uma pausa, inclinando ligeiramente a cabeça, como para ouvir algo. Espetou um dedo no centro da testa e pressionou. -- Ela disse: vim pra te contar a verdade sobre o Cantor de Gospel. Eu disse: quando ele chega? Ela... -- Um cinzento de cor de cinzas humedecidas perpassou pelo rosto de Willalee. Uma veia inchou-lhe na fonte. -- Não -- disse, num sussurro. -- Eu sou pastor. Eu tou salvo. -- Voltou a olhar a flácida fotografia do Cantor de Gospel. -- Não, Senhor, não. Ela disse: Foste salvo com base em falsidade, a igreja é falsidade, o Cantor de Gospel é um falso. Disse: Deus é um home coas calças em baixo, Deus é uma braguilha desabotoada. Ela disse: o Cantor de Gospel... e eu cravei nela o picador de gelo. Agarrei-le pelo pescoço e espetei outra vez, espetei, espetei, espetei... -- Desatou a soluçar, com a cara enterrada na cama e os punhos cerrados.
Mais do que ajudar voluntariamente, o Cantor de Gospel caiu de joelhos. Colocou o braço em volta de Willalee.
-- Por favor -- pediu. -- Por favor.
Willalee ergueu os olhos. Parara de tremer. Já não chorava. Parecia até que ia sorrir.
-- Eu sabia -- disse. -- Eu sabia que contigo ia descobrir o porquê que matei a menina Marybell e fazer as paz co Senhor. Agora tou pronto. Agora já ninguém pode magoar-me porque agora sei o que fiz e sei que ofendi o Senhor. Vou pra casa.
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páginas 212 - 214
'O cantor de gospel'
Harry Crews
tradução de José Miguel Silva
edição Maldoror
sábado, 26 de outubro de 2019
Propostas musicais neste fim de tarde
Na Rua Anselmo Braancamp 345
no Museu Vivo do Tasco Tripeiro
organizado pelo Bazar Esquisito
No Museu Vivo do Tasco Tripeiro
teremos uma dupla DJ
Exultanza Catatonica é Demetrio Castellucci de Black Fanfare,
a sua música move-se em duas linhas paralelas, uma é um som electro-acústico melódico e puramente orgânico, a outra é rítmica, evocando uma batalha de elementos percussivos.
E DJ One Erection é Pedro Augusto, músico e compositor nos projectos Ghuna X e Live Low, tem também conduzido um largo percurso na composição de bandas sonoras nas áreas de dança contemporânea, teatro e cinema
E DJ One Erection é Pedro Augusto, músico e compositor nos projectos Ghuna X e Live Low, tem também conduzido um largo percurso na composição de bandas sonoras nas áreas de dança contemporânea, teatro e cinema
terça-feira, 22 de outubro de 2019
domingo, 20 de outubro de 2019
Sincronicidade
eu não estava para partilhar isto mas o sr. xilre escreveu uma publicação, hoje Domingo,
e eu, como vejo em muitas palavras de bloggers que gosto de ler, pedaços daquilo que Jung chamou de
Sincronicidade,
decidi partilhar, em baixo, um texto que escrevi esta semana,
tem traços opostos ao do Xilre mas versa o mesmo tema.
não façam caso do protagonismo dado ao eu que fala, eu não sei escrever na terceira pessoa:
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Caro público, vejo o brilho do sol e cores novas em cada olhar, tenho os meus seres como elementos, letras como eus e como amigos, falo com eles como se fosse comigo próprio,
não uso filtros nem símbolos de pontuação ortográfica como travessões que indiquem diálogo, tudo é solilóquio:
Eu sou como o psicanalista do livro do Boris Vian, sou um jovem cebola e não aparento a idade que tenho, sou autofágico. Sou muito mais velho, um píton, um mago, um
nigromante. Ando é disfarçado entre os pingos da chuva vestido com a personalidade dos meus amigos porque em mim a ela não lhe reconheço os traços. Adopto as amigas como irmãs primeiro,
mulheres depois e por fim mães. As cabeças de todos são parte de mim, são os meus seres. Com eles e elas falo, almoço-os a todos, fumo as suas calças de cânhamo acompanhando
o café com cheirinho e deito fora as suas cuecas de flanela, varro as cinzas do churrasco dos seus ossos e depois discurso mesmo que ninguém ligue puto, digo urso em estado alterado perante uma plateia de uanabís
como eu, todos temos um futuro ainda.
Não li muitos livros durante a adolescência porque poucos os havia interessantes em casa. Os meus pais também não liam muito mas esforçavam-se e encomendavam
livros do Círculo de Leitores e das Selecções Readers Digest. Foi assim que não sei como caíram lá em casa obras como A laranja mecânica, A servidão humana do Maugham que jurei nunca ler por causa do título. Eu não queria ler coisas tristes com esta idade, queria livros que me provocassem a excitação dos sentidos e finalmente a desejada
consumação sexual, queria livros com amor e sexo, com palavras úteis que me ensinassem. Livros fúteis talvez para um adulto mas livros importantes para a definição e acção
emocional e sexual de um adolescente. Havia outros livros que mais tarde surripiaria mas de Anthony Burgess ganhei a ideia que palavras como ultraviolência degeneram em loucura e culpa em encarceramento e reclusão
em religião e partido em sacrifício e morte, tudo isto porque o amor, já alguém o cantou, o amor é uma doença.
Mas eu quero começar por algum lado e dizer que, há quatro anos, desisti da religião porque não cria no dogma que aprendi na catequese. Andei lá até
aos dezasseis anos para ver se arranjava amigos e namoradas mas os rapazes gozavam-me e as raparigas estavam apaixonadas pelo rapaz da moto. Era isso ou a rua e os meus pais não me deixavam sair para outro lado. No
dia do crisma na Sé em Derza os meus pais estiveram ausentes e a madrinha que me levou ao altar para receber a bênção do bispo foi a Irmã Belinda, uma missionária idosa da paróquia
que fez esta caridade a mim e aos pobres sem pais. Senti-me um pobre e tão pobre como eles, senti-me condenado. Nesse dia mesmo, mandei foder toda a gente em pensamento e assim apostasiei a água benta do bispo
e decidi que era mau, que sou mau e que vou para o inferno. Irei com todo o gosto para o inferno.
Carimbei a heresia na festa de finalistas, oferecendo para o sorteio de prendas uma lingerie em couro vermelho e com um fecho de latão à frente que um tio, que nunca casou
com a minha tia, me dera uma noite na feira popular da cidade vermelha onde ele trabalhava. Despachei assim este emplastro familiar indo ele calhar a um santo paroquiano pretendente a caloiro de filosofia. Logo nos rimos uns
dos outros, eu ri-me sem saber que me estavam a riscar do mapa e a chamar-me de pervertido, estúpido e louco. Ainda consegui ao fim da noite dar uns beijos numa colega na discoteca mas o encontro marcado para uma tarde,
dois dias depois, correu mal, ela rechachara-me com medo e eu sem perceber o porquê dela, fiz cara de patrão mau, fechei a porta e saí para a rua. Nunca mais a vi e não recordo o seu nome. Para me
saciar, decidi seguir uma prostituta até à hospedaria, dei-lhe dois contos e subi, ela foi lavar-se e voltou sem a saia, deitou-se, e eu tirei as calças e puz-me em cima dela a beijar-lhe o pescoço
para que a tesão me viesse. Ela disse despacha-te e eu bloqueei. Parei. A tesão não veio e eu vesti-me sem dizer nada. Ela disse: se tiveres problemas
volta cá. Voltaria ao longo da vida mais duas vezes, a uma dei-lhe dinheiro para a calar, a outra tratei-a com carinho filial, convidei-a para tomar café mas o sucesso não veio nunca. As prostitutas não
me seduziram, nunca me servirão, penso que as respeito demais.
'
Claudio Mur
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