quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Lyria, the angel


'Lyria, the angel'
óleo sobre tela
70cm por 50cm
2019
ZMB

a partir deste desenho:



segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Good? :D

No Sábado à tarde, estava no quarto a pintar e como fundo sonoro ouvia a rádio Antena 2.
Ao Sábado, gosto de ouvir o programa das 16h às 18h.
Este era sobre o Jorge Amado. Uma evocação a propósito de uma nova biografia do escritor escrita por Joselia Aguiar.
Passaram alguns registos sonoros do Jorge Amado a falar, o jornalista e a convidada a ler excerptos da biografia, a falar das diferentes fases da sua vida, dos livros, dos amores, e de como apesar de algumas infidelidades mútuas, Jorge Amado sempre esteve com a mulher: Zélia Gattai.
A certa altura, passam o registo sonoro de uma homenagem que lhe fizeram nos anos 90 em Lisboa, na Casa da América Latina (se recordo bem o nome que no Sábado ouvi na rádio) onde estiveram presentes várias personalidades da cultura e da política portuguesa e também um filho de Amado.
Umas das personalidades que recordo de ouvir falar foi a do Raul Solnado que resolveu evocar uma tarde em que Amado e Zélia passaram por Lagos no Algarve:
O Jorge Amado ia vestido com bermudas, talvez chinelo de dedo e uma camisa com cores e formas luxuriosas, ia com a mulher, e pareciam um casal de velhotes americanos. Passaram na feira e pararam numa banca de frutos e o Jorge decidiu comer um figo.
O comerciante pergunta-lhe: -- Good?
O Jorge Amado lá deixou passar o facto de parecer inglês e até deve ter ficado contente por não ser reconhecido, de modo que respondeu: -- Good!
Então, o comerciante, vendo que era entendido pelo cliente e certificando-se assim que ele era estrangeiro e não percebia a língua portuguesa, respondeu:
-- Good. Estás gordinho seu filho da puta!
Neste momento, eu parei de pintar e ri-me porque na rádio o Solnado fez rir toda a gente que o ouvia, seja naquele dia na Casa da América Latina seja eu hoje que ao escrever isto me estou a rir.
O Raul Solnado diz ao concluir a sua história do Jorge Amado em Lagos numa banca de figos:
-- Toda a gente se cagou a rir, o próprio Jorge também, e depois veio uma senhora que vendedora noutra banca se virou para o vendedor de figos e lhe disse: olha o que foste dizer... não vês que este senhor é o pai da Gabriela, o senhor que escreveu a telenovela?


sábado, 7 de dezembro de 2019

Alberto Pimenta -- Indulgência Plenária

Requiem por e para
Gisberta



Nota apensa ao poema
de autor não identificado mas provavelmente do editor

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Num dia de Março, talvez Abril de 2006, Alberto Pimenta sentou-se na esplanada de um restaurante voltado para o Coliseu de Lisboa, abriu a meio o jornal que acabara de comprar, e deu com a notícia da morte de Gisberta Salce Júnior, em Fevereiro, no Porto. Transtornado com a brutalidade do que viu descrito em meia dúzia de linhas, fechou o jornal e disse para si eu vou escrever um poema sobre isto. E escreveu o poema que acabam de ler.

Quanto ao crime, a autópsia indicaria afogamento como a causa da morte, mas o homicídio da antiga estrela transexual brasileira de 45 anos, seguiu-se a vários dias de tortura. Espancada até à inanição, ficou por um fio depois de ser apredejada e levar repetidamente com murros, pontapés e pauladas. Apanhou sobre o choro, enquanto suplicava. Os agressores eram adolescentes, menores de 16 anos, boa parte deles entregues às Oficinas de São José -- instituição católica que recebia dinheiro do Estado para acolher rapazes retirados às famílias --, vagueavam pelas ruas a cidade, em vertigem delinquente, e tinham dado com ela na cave de um prédio abandonado na Avenida Fernão de Magalhães, no Campo 24 de Agosto.
A certa altura, julgando-a morta, e temendo as consequências que adviriam quando o corpo fosse encontrado, resolveram livrar-se dele. Ainda pensaram deitar-lhe fogo, enterrá-lo, mas fosse pelo receio de que isso alertasse o vigilante do parque fosse por falta de ferramentas, três acabaram por arrastar o corpo uns cem metros, do colchão encardido onde agonizava há dias e onde aparentemente já nem respirava, até uma cratera na placa de betão que formava um poço, com a água a cerca de dez metros da superfície. Foi ali que Gisberta acabou por morrer.
Depois de uma aproximação benevolente, com um dos miúdos a reconhecê-la dos tempos em que tomara conta dele, oito anos antes, ele e outros passaram a visitá-la no intervalo do almoço. Chegaram a levar comida à barraca que ela improvisara num extremo da cave, a cozinhá-la, e a mulher que nascera com corpo de homem no interor de São Paulo falou-lhes da vida que levou, do sonho interrompido de ter um corpo que reflectisse quem era interiormente, e sentiu-se na obrigação de explicar também a sua degradação, os sinais físicos exteriores que denunciavam o tão débil estado de saúde. Imigrante ilegal, depois de passar por França antes de chegar ao Porto, de ter servido às mesas, alcançado fama com os espectáculos de transformismo em que deslumbrava a noite do Porto com a figura elegante, os modos delicados e os cabelos volumosos, louros, encarnando Marilyn Monroe e outras divas, começou a usar drogas e acabou por se virar para a prostituição. Apanhou sida e, mais tarde, foi-lhe diagnosticada tuberculose pulmonar, pneumonia e candidíase laríngea, uma combinação que, por si só, seria o suficiente para liquidar qualquer um, provocando-lhe astenia, anorexia, febre, anemia, dificuldades respiratórias e mialgia.
Quando se espalhou a notícia de que alguns dos rapazes tinham começado a dar-se com «um travesti» que até tinha mamas, fizera operações, pintava os lábios, os olhos, e que parecia «mesmo uma mulher», Gisberta voltou a abalar a modorra daquela cidade, e mais miúdos vieram ver. Depois, tudo o que foi preciso foi que um deles se lembrasse de lhe bater. Os outros seguiram-no.
Depois de se terem visto livres do corpo, alguns dos miúdos não conseguiram enterrá-lo na consciência e falaram. As autoridades foram alertadas e, na cave, além do corpo, encontraram «um colchão, dois cobertores, um casaco de ganga com forro amarelo, uma écharpe de malha, uma camisola de malha, várias peças de roupa emaranhada, diversos sacos de plástico. E um par de luvas, um pente, dois batons, um rímel, um eyeliner, uma gilete, uma pequena caixa com dois espelhos, seis preservativos».
Eis em substância pura e dura o resumo do acontecido, que AP, no desconhecimento da maioria dos pormenores aqui escancarados, pressentiu e recriou, dando ao seu discurso poético verdade elegíaca: expondo a fatal humilhação de toda a felicidade que se desobrigou dos cânones que a admitem.
Um «requiem para Gisberta» diz o autor quando fala com quem sabe o que é um requiem.
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página 57-59

'Indulgência plenária'
Alberto Pimenta
3ª edição pela editora Língua Morta em 2018

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

A far away dream


quinta-feira, 28 de novembro de 2019

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Terror e medo



Em «Dormir ao sol» de Bioy Casares, no Instituto Frenopático trocam-se por transplante sem anestesia de um cão para um paciente as glâdulas pineais, onde dizem estar a alma, de modo a restaurar a sanidade mental.

Em «O alienista» de Machado de Assis, o médico interna toda a gente que lhe parece ter um desiquilibrio mental, depois liberta toda a gente porque a Casa Verde contém já quatro quintos da população da cidade, depois chega à conclusão que todos são loucos e interna os sãos que só liberta quando os vê fazer alguma manigância desiquilibradora, e, por fim, interna-se a si mesmo passando a ser o único paciente.

Há uns anos, vi um filme «de terror» inspirado no trabalho de um médico húngaro dos anos 10 dentro do seu hospital.

Choro de medo com as atrocidades que os doentes sofriam.
Os meus problemas são tão pequenos quando comparados com os de outros.

Que fazer quando queres ajudar e ninguém liga ao que dizes?
Fazer como o passageiro que vinha a meu lado um dia num avião: acabar um livro e começar outro no mesmo vôo, no mesmo dia, na mesma noite, agora mesmo.

Combater o tédio, precisa-se e procura-se.

domingo, 24 de novembro de 2019