sábado, 10 de abril de 2021

Magia Negra:

 Kapataz featuring

Allen Halloween e Bezegol

Cruo e directo ao gasganete!

Nada a temer


sexta-feira, 9 de abril de 2021

As compras do mês:


 

As compras do mês:

a música rap do vizinho
Bruno Kapataz Soares
e as palavras dos ídolos de juventude: WS Burroughs e Julio Cortázar.
O deal com o vizinho Kapataz incluiu a troca de uma aguarela minha em tamanho A4 pintando (a partir de uma fotografia que a minha irmã me enviou para a República da Irlanda quando eu lá trabalhei em 1998) uma estudante vestida com as cores do seu curso superior, sentada ao lado do boneco Ronald McDonald, festejando com as as amigas.
Fiquei contente de poder transmitir algo meu a um amigo e, acima de tudo, a um amigo que faz boa música. Kapataz tem os seus álbuns a venda, não só na net, mas também em mão. SUPPORT HIM, he's a good fellow. rapa aí mano, arrebenta com a escala!

O deal do Burroughs foi arranjado por cinco eurinhos na Livraria 50Kg. A livrarria é uma verdadeira mina e o livreiro além de editor é também poeta e restaurador de livros. É um bom local para leituraólicos.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Direitos que diria constitucionais.

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E foi isso que eu fiz logo que cheguei a casa e depois de preparar um café de saco no fogão de indução da minha cozinha. Há dias disse a um colega: «certo, a renda é barata mas é só por um quarto, o resto são arrumos e a frequência da casa de banho e da cozinha... mas vê só o estado desta chaminé, repara nas rachas que tem, parece só aparato mas qualquer dia estou com a cabeça debruçada sobre o tacho mexendo o refogado de frango com massa esparguete do almoço e... acabo enterrado debaixo da chaminé!»

É mesmo!, há dias cortei na casaca mas nem tudo é mau, até tenho um fogão ultramoderno, os outros dois ocupantes da casa mal pôem os pés aqui em casa, e eu estou e sinto-me senhor de sete quintas.

São agora quase nove da noite. Dispo-me e deito-me por baixo do édredon da cama, tenho na mesinha-de-cabeceira o café quente e uma pedra que achei num muro para fumar. Coloco um cedê a tocar. Começo a escrever, vou bebendo e fumando. Sinto-me cansado de teclar no processador de texto. Termino o que queria dizer e publico nas redes sociais. A bomba que largo não pretende matar ninguém, apenas alertar para situações que não podem passar despercebidas. Somos todos pessoas que precisamos de paz, pão, habitação, saúde e educação. E muitos de nós não podemos pagar estes direitos que diria constitucionais.

Que dizer do sem-abrigo que vi ontem à porta do restaurante pedindo uma tenda e um colchão porque os serviços de limpeza urbana lhe levaram as coisas embora, eu diria mesmo: roubaram e deitaram ao lixo, ou para onde foi que levaram os cartões de papelão do abrigo de rua?, deixaram morada para levantamento dos pertences do sem-abrigo? Antigamente, era o canil o destino dos pertences e o sem-abrigo a dizer: -- Fiquei só com a roupa do corpo... E eu olho para ele e para o seu olhar alienado, olhando para longe da pessoa a quem se dirige pedindo: -- Arranje-me uma tenda, ao menos um colchão...

Desligo o computador e deito-me finalmente, estou cansado, demasiadas emoções num só dia. Vivi hoje como noutras noites a miséria alimentar, miséria mais dos outros que minha, pois eu ainda posso cozinhar. Não estou totalmente dependente da ajuda alimentar mas admito que a poupança me dá jeito para investir noutras coisas como livros ou tubos de óleo. Ponho-me a pensar em Heberto Padilla e no verso: «diz ao menos a tua verdade / e depois / deixa que aconteça qualquer coisa:» e, depois, adormeço a ouvir «Radio», uma peça para dois rádios de John Cage.

 

Dias depois, encontro novmente o Doutor A. R. Spider no jardim ao fim da tarde.

-- Tens um charro?, pergunta.

-- Tenho.

-- Olha, vai ali a tua noiva!

Eu olho e vejo a espanhola sem-abrigo de sapatilhas verde-eléctrico e ignoro que ele me está a gozar e a depreciar, como se eu não merecesse melhor, humpf!, mas ignoro, faço que me rio e pergunto: -- Eheh, a sério!

-- Estava só a brincar...

Eu continuo o absurdo dizendo: -- Não!, não me meto com ela, é casada com um gitano lá nas espanhas e não quero que ele se zangue e venha cá pôr-me a faca!, eheheh...

A. R. sorri. Eu penso que involuntariamente também estigmatizo em anedota o preconceito de classe, chutando o gozo do Doutor de mim para cima de um «cigano». Sinto-me mal com a minha própria atitude, é como se eu pisasse o mais fraco. Fumamos calados o charro. 

Ouve-se rap vindo de umas colunas. Vemos ao longe um mano a rapar para os amigos. A. R. diz para irmos ter com eles.

Falam de rap entre eles, discutem tendências e estilos de rap e hip-hop, produtores de outrora e produtores novos que descobrem novos mundos. Kapataz rapa mais uma rima, tem um estilo super-rápido e sem perdigotos. Põe Wu Tang a tocar no tubo. Os amigos, um casal de namorados, andam na casa dos vinte anos, quando Kapataz termina nós batemos palmas mas eles dizem «não, palmas não, uus ululantes, uuuu... uuuu». Dou dez euros adiantados por um cedê do Kapataz, afinal é um excelente rapper e conhece todo o mundo, até o Valete dos subúrbios de Lisboa ei... -- Põe a «roleta russa!»

A rapariga sorri e diz: -- Não, essa é já muito batida. E põe um fadinho da Maria da Piedade. Eu calo-me e rio-me, todos riem e ela ri-se também dizendo: -- Não falem mal da minha Piedade! E põe a tocar uma rapper colombiana. Uma voz em espanhol, o beat por detrás, o rap é mundial.

A. R. diz: Vamos daqui a pouco à comida? Convida-me para um café em tua casa primeiro, ainda não bebi um hoje, sou cafeólico, sabes fazer cartões de apresentação?

-- Sim, sei. Porque? Queres que te faça um, é?

-- Quero que ponhas: «Doutor A. R. Spider -- especialista em vudu e medicina ilegal».

-- Ahahah!

Deixamos os nossos amigos musicais e vimos até minha casa. Pelo caminho vou explicando ao Doutor:

-- Olha, Doutor, este rapaz fez parte do projecto es.co.la como aluno na Fontinha, ele até disse: «o meu pai não me deixva sair mas se fosse para ir à es.co.la ele já deixava!» e eu: «sim, e davam explicações de inglês e matemática, aulas de pintura, tudo de graça...», ele recorda: «até torneios de pingue-pongue...»

Emociono-me e continuo: -- A es.co.la... ei!, foi a melhor coisa que no Porto aconteceu a nível social, três mil pessoas expulsaram os polícias, mas depois eles voltaram dias depois com reforços e destruíram tudo, tijolaram, partiram o mobiliário, transformaram livros em cimento e deitaram ao contentor do lixo, foram doze anos de Rui Rio, e agora, se o deixarem candidatar novamente, serão doze anos de Rui Moreira, enfim... o povo do Porto gosta de senhores galantes. E a rapariga tão bonita, tão jovem, tão fresca, eles são já o futuro...

-- Sim, ela é muito bonita.

 

Depois do café de saco em minha casa e depois de irmos ao restaurante solidário, hoje não houve o extra da carrinha, comemos nas escadas da igreja e despedimo-nos e cada um volta para o seu alojamento. Ponho-me a falar sozinho pelo caminho:

-- Bem, pelo menos, agora posso tomar e oferecer um café feito por mim aos meus amigos e colegas que me visitam. Aqui há uns anos, era bem diferente. A primeira senhoria não me deixava cozinhar, quanto muito deixava-me aquecer um bule de água para café instantâneo. Não é a mesma coisa. Foi nessa altura que conheci a irmã Lúcia num bar de contrabandistas. Ela era apenas uma das amigas especiais do gerente e, ao que parece, ela engraçou comigo. Ela tinha cabelo comprido louro e encaracolado, apanhado num rabo de cavalo e, da primeira vez que falámos, ofereceu-me erva à discrição e eu não me fiz discreto e servi-me bem; da segunda vez, pagou-me cerveja nos bares e quis que eu a acompanhasse de táxi a casa mas algo na sua atitude de senhora mandona, porque pagadora do consumo da noite, fez-me retroceder e não seguir com ela, afinal eram já seis da manhã e às dez teria de estar já acordado e sóbrio para ir poder reservar o lugar para almoçar na cantina dos pobres, se não chegasse a tempo poderia já não almoçar, já na altura havia muita gente troicada; da terceira vez, já ela rapara a pente zero o cabelo, eu disse-lhe: «sabes o que me falta? Uma companhia...» e ela respondeu soberana: «Compra um cão!» Não nos vimos durante umas semanas, até que uma manhã de Natal ela me manda uma mensagem para o telemóvel quando eu me preparava para almoçar com os meus pais. Respondo agradecendo as boas festas e retribuindo os cumprimentos. Ela volta a responder e convida-me para sua casa. Apanho o autocarro mal posso deixar a família e vou ter com ela já bem almoçado, levo ganza. Chego lá e ela propõe que eu vá à bomba de gasolina abastecer-me de uísque e vinho, dá-me vinte euros. Eu regresso com uma garrafa de Cutty Sark e um vinho tinto de Murça. A sua casa tem um quarto interior sem janela onde dorme a filha de quatro anos, uma cozinha, uma sala com uma reentrância onde ela dorme num colchão no chão, nenhuns móveis, chão de taco encerado, uma pequena manta onde nos sentámos, uma televisão, um leitor de dvd, vários filmes, duas garrafas, dois copos e vários charros. Pômo-nos a ver devedês, a fumar, a beber e acabamos finalmente a comermo-nos.

-- É, meu! Não sei porquê, a irmã Lúcia preferia oferecer-me o traseiro, o sexo não era nada seguro, ela não gostava de camisas, e eu cheguei a cansar-me de tão repetitivo que era, sempre a mesma posição, só a via de costas, a partir de certa altura, deixámos de falar um com o outro, enchíamos o copo um do outro, fazíamos mais uma broca, mudávamos de dvd sem mesmo esperar meia hora, ela mandava-me calar quando eu tentava comentar qualquer cena do filme... é!, e depois, chegando ao ponto, dizia «come-me» e eu comia-a. O pior é que ela se cagava. Como durante o serão, eram várias as vias-de-facto, eu às vezes colocava os joelhos em cima de merda seca, pois nada mais havia senão a luz da televisão. Ei, só de pensar... o pior era que não comíamos mais nada, e o meu estômago começou a ressentir-se do excesso de bebida branca e tinta e de mais nada para compensar, nada de sólido, só líquidos ácidos a corroerem as paredes do estômago, soube que tinha de parar com esta aventura quando senti o final do esófago a arder-me sempre que bebia mesmo que apenas um copo de água, comecei a tentar comer antes de ir para casa dela, comecei a vomitar a comida, soube que tinha de parar...

-- Sim, depois ela arranjou um parceiro extra, ainda fizémos um serão os três, com nós dois a competir por ela, ela nessa noite cozinhou-nos um purê com fígados de porco grelhado e mandou-nos ao supermercado comprar bebida, eu disse que não tinha dinheiro, e ela acabou por o escolher a ele na impossibilidade de eu me juntar à sanduíche, raisme fodam.

-- Sim mas ficaste--lhe na memória, ela mais tarde voltou a ligar.

-- Sim mas eu não quis saber. Sei que ela me deixou de considerar um gatuno e, ao mesmo tempo, queria-me como companhia para ela e para a filha, mas, no fundo, ela só queria ganza. Não sei...

-- Da última vez que a vi, ela disse que quando recebesse o abono de família do alemão, do pai da criança, iria comprar um quilo de erva, e eu achei demais, deixei-lhe comida para a filha porque quis deixar e um charro para ela fumar porque ela chorou por ele.

-- Nunca mais a vi. Não, minto, há seis meses ou quê, ia no autocarro e vi-a no passeio. Parecia aparvalhada. Que alguém me perdoe: ela parecia um rapazinho.

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Claudio Mur

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Vasco na neve


 «Vasco na neve»

óleo sobre tela

40cm por 40cm

2021

ZMB


A minha prima divertindo-se com a família na neve.

Momentos felizes.

domingo, 4 de abril de 2021

TV Mulher: Santinha do Terror


 

A4 paper drawing with a .3mm permanent black marker, ZMB 2019
My friend she likes to fall asleep with suspense movies with Brazilian voiceovers in the original movie. She doesn't understand English and this is the way she has to follow the story line of the movie. Portuguese tv and cinema has subtitles to the films so we can learn also the foreign language. But many other countries don't have this feature on their tvs and cinema. Anyway, watching these «doubled» movies of suspense, feels like crazy absurd shit! cof cof but she likes it and I don't really mind lol. She calls these films: filmes de terror

sexta-feira, 2 de abril de 2021

O aprendiz de pintor revela-se um gípsio das má temáticas

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Time is sanctified, painting is sacred, photography is the process.
A construção do templo de Osiris / Amon pelo mago Toth / Hermes permite a sacralização do espaço Isis e a santificação do tempo Horus.
O processo de gravação de um momento, das diferentes imagens intermédias, permite a criação da imagem final, única, no espaço da tela -- mulher sagrada que é a nossa filha.
É o 1 vindo do 9, fazendo 19, vindo da absoluta perfeição divina, o ovo criado no útero da mulher.
O tempo é santificado porque a eternidade é atingida no instante da última pincelada, morte criadora da obra, o filho divino da tela unida ao mago.
É o 1 somado ao 9, fazendo 10, tornando-se 1, o templo casa do deus, a mão do mago, o espaço do templo, proporção dourada, a tela, a obra, o eterno, a beleza, 6 ou G, a beleza da união e o único, a única vez em que foi imaginado o desejo de procriação futura.
Para que haja ordem e organização, para que haja o 7, deve haver uma ponte caindo em espiral da imanência de um deus sobre a filha divina criada.

A matemática é a mais abstracta e a maior das ciências. A pintura é psicologia, psicoterapia e poderá ser sociologia se versar temas fora da realidade interior do pintor.
A teoria de relatividade de Einstein, explicada pela matemática nao-euclidiana de Riemann, diz-nos que a observação de um facto ou experiência depende do objecto, do observador e do meio, sendo, por isso, uma observação relativa. Absoluto é, no entanto, o modelo matemático construído para definir a relação entre observações realizadas por diferentes observadores.
Se combinarmos a teoria da relatividade com a psicologia da percepção, poderemos dizer que se eu tiver uma ideia «definida» e se comentar essa ideia com alguém que eu «conheça bem», poderei adivinhar ou intuir qual será a sua reacção ou opinião.
Se tudo pode ou poderá vir a ser descrito a partir de um qualquer modelo matemático existente ou a ser construído no futuro, para compreender a pintura ou a arte em geral, dever-se-á ter um completo e profundo conhecimento sobre, pelo menos, o modelo matemático ou mapa de realidade que rege o biocomputador do indivíduo que cria ou criou «naquele» determinado momento, ou seja, ter o conhecimento do nosso cérebro, incluindo principalmente o lóbulo direito que, na maior parte do tempo, está inactivo mas que gere, entre outras coisas, a emoção, a analogia, a imagem.
Ou seja, «conhecer bem» uma pessoa significa conhecer totalmente aquilo que nenhum neurocirurgião / cientista / matemático (todos ligados ao cérebro esquerdo lógico, linear, racional) conhece, a parte não-linear do nosso mundo terrestre.
Além disso, seria necessário que a ideia ou imagem proposta fosse absoluta, o que significaria o suicídio ou do indivíduo ou da obra que criou; se uma ideia não fosse ambígua ou misteriosa, não seria uma ideia, não seria algo que prendesse a atenção do nosso pensamento.
O facto de muita boa gente escrever ou ter escrito sobre pintura e arte em geral, incluindo psicólogos, sociólogos, etc, leva-nos a pensar que a arte tal como a matemática é abstracta ou, pelo menos, apenas um mapa de uma das realidades possíveis.
Dizem que, no futuro, a ciencia caminhará ao lado da arte. A ciência tem começado, igualmente, a explicar a religião. No futuro, isto significará o fim da arte a não ser que surja um novo génio. Quanto à religião, temos as nossas dúvidas sobre o seu fim pois haverão sempre novos messias.
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Claudio Mur

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Outrora

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Há muito tempo -- mas muito tempo não basta para vos dar uma ideia... Contudo como dizer melhor?

Há muito, muito, muito tempo; mas muito, muito tempo.

Então um dia... não, não havia dia, nem noite, então uma vez, mas não havia... Havia sim, de outra maneira como falar? Então meteu na cabeça (não, não tinha cabeça), teve a ideia... Sim, é isso, teve a ideia de fazer alguma coisa.

Queria beber. Mas beber o quê? Não havia vermute, nem vinho da madeira, nem branco, nem tinto, nem cerveja Dréher, nem cidra, nem água! Há que pensar que foi preciso inventar tudo isso, ainda não tinha acontecido, a marcha do progresso. Ai! o progresso!

Não podendo beber, quis comer. Mas comer o quê? Não havia sopa de azedas, nem rodovalho com alcaparras, nem assado, nem batatas, nem carne de vaca estufada, nem peras, nem queijo de Roquefort, nem indigestão, nem lugares para se estar sozinho... Nós vivemos no progresso! E julgamos que tudo isso existiu desde sempre!

Então, não podendo beber nem comer, quis cantar (alegremente), cantar. Cantar (triste), sim, mas cantar o quê? Nem canções, nem romanças, meu coração! flor em botão! Nem coração, nem flor, nem agudíssimos la-ri-la-rai os males cantando espantai! Nem ar para transportar a voz, nem violino, nem acordeão, nem órgão, (gesto) nem piano! assim para ser acompanhado pela filha da porteira... só que nem porteira! Ai! o progresso!

Impossível cantar? Então vou dançar. Mas dançar o quê? Com quê? Nem soalho encerado, para uma pessoa se estatelar, está a ver... Nem sarau com lustres e candelabros nas paredes a escorrerem cera para as costas de uma pessoa, nem copos, nem xaropes entornados nos vestidos! Nem vestidos! Nem bailarinas para usarem vestidos! Nem pais a ressonar, nem mães vermelhuscas para empatar a dança!

Então nem beber, nem comer, nem cantar, nem dançar. Que fazer? -- Dormir! Portanto, vou dormir. Dormir, mas não havia noite, nem havia daqueles momentos que não querem passar (quando, de noite, uma pessoa boceja (boceja), boceja, boceja, sabe?). Não havia noite, nem cama, nem edredões, nem cobertas acolchoadas, nem botija quente, nem mesinha de cabeceira, nem... Basta! Ai! o progresso!

Então quis amar! Disse para consigo: vou-me apaixonar; vou suspirar, é uma distracção; até vou ter ciúmes; vou bater na minha... Na minha quê? Bater em quem? Ter ciúmes de quê? De quem? Apaixonar-me por quem? Suspirar por quê? Por uma morena? Não havia morenas. Por uma loira? Não havia loiras, nem ruivas: nem sequer havia cabelos, tranças falsas, pois não havia mulheres! Ainda não tinham sido inventadas as mulheres! Ai! o progresso!

Morrer então! Sim, disse para consigo (resignado): Quero morrer. Morrer como? Não havia canal Saint-Martin, nem cordas, nem revólveres, nem doenças, nem poções, nem farmacêuticos, nem médicos!

Enntão não quis nada! (Queixoso.) Que situação mais infeliz!... (Rectificando.) Mas não chore não! Não havia situação, nem infelicidade. Felicidade, infelicidade, tudo isso é moderno!

O fim da história? Mas não havia fim. Ainda não tinha sido inventado o fim. Acabar é uma invenção, um progresso! Ai! o progresso! o progresso!

Estupidamente, sai.

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páginas 67 - 69


Charles Cros,

em «Monólogos»

Tradução de Regina Guimarães

edição Editora Exclamação