quarta-feira, 10 de abril de 2024

domingo, 7 de abril de 2024

A reconhecer pelos notários

 A RECONHECER PELOS NOTÁRIOS


legalizo esta ilegítima presença

assinando o perigo; enfrentando

a ilogicidade do sol. Inteiro

num vago espaço -- sem lugar.


Sou o que risco aberto no vento

a manhã, preclaro do meu sonho,

e de lua em lua, de astro em astro, tento

que a voz seja o teu corpo e a tua

face na água revérbera da luz.


Uma estampa, uma mulher vestida de toureiro,

têm seu retrato na minha locomoção anfíbia.


... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 


Manuel de Castro

em «Bonsoir, Madame», página 159

edição Alexandria / Língua Morta





quinta-feira, 4 de abril de 2024

O jogo do desconfinamento

 O JOGO DO DESCONFINAMENTO

 um jogo de escolhas a jogar a solo e à suivre

em que o jogador joga com e contra si mesmo

Precisas mais duma carta de amor

ou dum extracto mensal de conta?

Precisas de mais um noite de verão

ou de mais um candeeiro design?

Precisas mais de sopa de legumes

ou de suplementos alimentares?

Precisas de mais um parque arborizado

ou de mais um parque de estacionamento?

Precisas mais da conversa no café

ou dos tweets dos poderosos analfabetos?

Precisas de mais uma mercearia gourmet

ou de mais um mercado de frescos?

Precisas mais de um consultor de imagem

ou duma consulta no médico de família?

Precisas de mais escolas livres e gratuitas

ou de mais coaching e de gestores de talentos?

Precisas mais de hospitais públicos

ou de bancos de investimento?

Precisas de mais dramaturgos sem travão

ou de mais opinion makers?

Precisas mais de prados e florestas

ou de cenários virtuais sofisticados?

Precisas de mais filósofos na rua

ou de mais influencers na net?

Precisas mais de serras e oceanos

ou de paisagismo planificado?

Precisas de mais companheiros

ou da companhia de mais hipsters?

Precisas mais de diversidade biológica

ou de transumanismo galopante?

Precisas de mais geografias rebeldes

ou de mais geolocalização dos párias?

Precisas mais do conto a cada encontro

ou do storytelling da netflix?

Precisas de mais do teu precioso tempo

ou de mais tempo para money-making?

Precisas mais de ler e andar nas nuvens

ou de alimentar o éter da tua cloud?

Precisas de mais companheiros de estrada

ou de mais likes no facebook?

Precisas mais do saber-fazer do lavrador

ou das performances do analista de big data?

Precisas de mais instantes inimagináveis

ou de mais fotografias no instagram?

Precisas mais de ideias para mudar mundo

ou dos softskills dum Scrum master?

Precisas de mais professores talentosos

ou de mais horas de e-learning?

Precisas mais da fantasia duma horta louca

ou de roupa trendy e acessórios tendance?

Precisas mais de ver melhor o que te olha

ou de mais selfies em toda a parte e hora?

Precisas mais do café do teu bairro

ou duma casa de chá rétro na baixa?

Precisas de mais gente a bater à tua porta

ou de mais aplicações no teu smartphone?

Precisas mais da sombra das árvores

ou dum bunker com todas as comodidades?

Precisas de mais bancos de jardim

ou de mais garantias de sigilo bancário?

Precisas mais de paraísos fiscais

ou de mais paraísos artificiais?

Precisas de mais saltimbancos

ou de câmaras de vigilância?

Precisas mais de cantinas comunitárias

ou de templos da nouvelle cuisine?

Precisas de mais contraditores ferozes

ou de mais animais de estimação?

Precisas de mais funambulismo na mioleira

ou de mais arame farpado na fronteira?

Precisas mais de ver crianças a brincar na rua

ou de visitar dreamlands e parques temáticos?

Precisas de mais razões para uma longa vida

ou de mais lazer e escapismo organizado?

Precisas mais de quem te ouça e console

ou dos videojogos da consola?

Precisas mais de brincar aos cozinhados

ou de oscilar entre low-food e fast-food?

Precisas de mais memória para pensar

ou mais ram para te esqueceres disso?



Regina Guimarães

em «caderno das duas irmãs e do que elas sabiam», página 64

editora Exclamação


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Lay off

 

LAY OFF


depois da primeira aula de jaula

pousei a cábula do meu corpo

no cimo morno dum muro

e

de livro aberto no colo

passei a fazer gazeta



já reparaste, camarada,

na vida prolífera dos muros

os muros moldura e os muros ninho

os muros de saltar e os de ruir

os muros lavrados de musgos e líquenes

os muros peçonhentos reptilíneos

e os muros abraçados por espinhos



depois da primeira cantiga

gritada debaixo do chuveiro

marquei com os pés ainda molhados

as voltas que o pensamento pode dar

quando está preso a si mesmo

e nem a quem pode libertá-lo se confia



já reparaste, camarada

nos pequenos dilúvios de que sou capaz

para diluir num só bloco

o pico da montanha e o fundo do vale

com aguarela de limar escarpas

e vassouradas de verde bandeira

até eu mesma ser sem cume e sem sopé



Regina Guimarães

em «caderno das duas irmãs e do que elas sabiam»

página 77

edição Exclamação

terça-feira, 2 de abril de 2024

Tuíte Convite na mesma

Como sabem ontem foi dia das mentiras e portanto voltei a ser apenas um remediado que não ganhou o Euromilhões porque não joga nele. Assim, já não poderei aceitar pedidos de namoro a troco de noções religiosas e culinárias de senhoras da federação russa, nem poderei aceitar pedidos de resgate de donzelas da Nigéria.
Mas o convite para aparecerem por aqui mantém-se: tragam os fígados porque terei para os mais eloquentes desafiadores uma oficina de corticoze e para os artistas e demais criançada um concurso de pintura de carapaça de caracóis, sejam bem-vindos!

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Tuíte Convite

Vocês não vão acreditar mas a notícia tem já vários dias: ganhei o Euromilhões e estou a convidar todo o mundo para vir beber um copo à Rua Paga o Que Deves em Conho City, apareçam!