The Derza dream
óleo sobre papel
tamanho A2
2024 ZMB
O bom de voltar para casa dos meus pais é passar a comer bem. A minha mãe nunca me deixou ficar mal. Neste primeiro mês parecia que estava na engorda, carradas e carradas de boa comida, exemplo: dourada com batata cozida e hortaliça. Uma dourada para mim e uma dourada para eles, ou seja, cada um come metade e eu como a unidade. Já reclamei. Não faz sentido comer o dobro deles: «Vocês devem pensar que antes eu passava fome.» Mas eles talvez saibam ou desconfiem que eu poupava na comida para comprar livros e ganza, indo para isso comer à caridade da Ordem do Terço.
Na Quarta-feira à noite, na minha folga, comemos uns rissóis que a ex-mulher do Zezinho e actual sócia, a Joana cozinhou. Uma dúzia de rissóis por três euros e cinquenta, com direito a factura-recibo, que não serve para nada. Ficaram aprovados. Mandei mensagem ao Zé a dizer que estavam bons. Ele respondeu à laia de empresário dizendo «Sempre às ordens.»
O Zé, há dias ligou-me a perguntar se tínhamos quarto para ele no hotel, eu disse-lhe «é mais caro do que tu podes pagar, não temos.» O Zé, há dias pelo face mandou-me a proposta: «se precisares de alguma coisa do supermercado, eu posso fazer as compras por ti e levar-tas a casa.» O Zé, empresário na procura do biscate, cobraria iva, sacos para trazer as compras, combustível para a deslocação das botas até ao meu domicílio e apresentar-me-ia a factura-recibo. Respondi: «Ó Zé, eu não sou velhinho, não preciso de nada, obrigado na mesma.»
Hoje, a minha mãe grelhou iscas de porco e eu estive a contar-lhe que esta madrugada sequei uma saia à ceguinha da cave. Tinha sido culpa minha. Ela chamara-me durante a noite quando começou a chover e a sua única saia estava na corda ao ar livre a molhar-se. Ela chamou-me, chamou, chamou e eu a dormir. Logo, mãe, não tive outro remédio senão secar-lhe a saia usando o ferro a vapor. Nós não podemos secar roupa dos hóspedes na máquina de secar e embora eu já o tenha feito, desta vez não o fiz porque não ia pôr a trabalhar a máquina só por uma peça de roupa. Falei ao chefe sobre secar a saia da ceguinha e ele não disse mal. A minha mãe disse que ia oferecer uma saia à ceguinha, mas eu disse «não dá, eu não sei o número dela e tem de ser a medida certa, não dá para trazer uma saia dela como modelo para casa para a costureira fazer uma por medida, porque ela só tem aquela.»
Hoje, fui ao Central gravar os ciganos junior a jogar jogos online no telemóvel. Modernices.
21-10-21, 19h52
Acabei de jantar frango com arroz. Tomei café.
Eu tenho dois cunhados, um é Zé António e o outro Tó José.
O Zé tem um curso de economia tirado numa privada mas começou a sua vida profissional através do pai que, trabalhando num hospital, o informou de um concurso e o meteu a trabalhar com ele. Como o pai tnha também uma empresa que fornecia serviços a hospitais, o Zé continuou na empresa do pai e chegou a sócio, hoje é dono da empresa e facturou milhares desde a covid.
O Tó é mais self made man, não tem curso superior mas subiu a custo numa empresa tecnlógica, faz regularmente visitas ao estrangeiro para formação ou negócios da empresa. Desde a covid trabalha mais em teletrabalho indo uma vez por semana à sede da empresa para reuniões.
Disse o meu pai ontem ao almoço: A tua irmã disse que o Tó estava com dor de barriga e não foi trabalhar, ficou em teletrabalho.
Disse o meu pai hoje, a rir: A tua irmã diz que o Tó se sentiu melhor ontem mas que depois comeu uma fartura e ficou doente de novo.
Atão, não foi trabalhar hoje, outra vez?, perguntei eu.
A minha mãe, por seu lado, perguntou: Onde arranjou ele a fartura?
O meu pai esclareceu: Ele ontem foi ao Mercadona, deve ter sido lá que a comprou.
Mas, pergunto eu, foi ao médico ao menos ver da dor de barriga, passou-lhe uma baixa, foi?
Não sei, disse o meu pai, ficou em teletrabalho.
É pai, que sorte ter um patrão como o dele!
Parece que estás com raiva do Tó.
Não, não estou contra ele, quem dera que todos os empregados tivessem patrões como o dele. Não estou contra ele por ele ter regalias, apenas estou contra ele e o Zé quando eles se põem a dizer que o pobre não quer trabalhar.
Há muitos pobres que não querem trabalhar, diz o meu pai.
Sim, há pobres que não aceitam ser escravos. A escravatura acabou há quase duzentos anos, oficialmente quero dizer. Mas hoje em dia, ela parece de volta. Só digo que nem todos têm um patrão como o Tó que nem precisou de atestado para não ir trabalhar. E quanto ao Zé, apanhei-o a falar ao telemóvel com o irmão e ele referia-se à empregada como escrava.
Como o meu pai não responde, eu continuo no mesmo tom: os meus cunhados falam de uma posição de privilégio e pensam que todos têm as mesmas condições que eles, e quem não tem essas condições é para eles um bandido que não quer trabalhar. Quantos pobres não são escravos? Para dar um exemplo concreto, pai: Eu, no Tijuana há quase três anos, quando fui assaltado na recepção do hotel e tive que sair atrás do hóspede que me roubara a carteira, atirei-me para cima dele na escadaria que dá para a rua, foi de madrugada e se viesse um carro atropelava-nos, fiquei cheio de nódoas nos braços e nos joelhos mas recuperei a carteira. No dia seguinte, pedi ao patrão para folgar e ele disse: Não, sr. Rogério, não pode ser, precisamos de si. E mostrou-me um taco de beisebol dizendo: da próxima vez com isto você abre a cabeça do bandido.
Ias ao médico, disse o meu pai.
Sim, pai, dizes isso porque confias muito nos médicos, não é? Mas tu quando precisas de um médico vais ao privado porque o centro de saúde não te atende. Infelizmente, tu também pensas como os meus cunhados. Vocês safam-se porque têm dinheiro. Ora, nem toda a gente tem o vosso dinheiro para se poder safar.
O quarto da cineasta está cheio de discursos e de fumo, através dos quais um dos homens (andará por volta dos trinta) olha atentamente para Jaromil desde há alguns momentos: «Tenho a impressão de já ter ouvido falar de si», disse-lhe por fim.
-- De mim? -- exclamou Jaromil cheio de satisfação.
O homem perguntou a Jaromil se não era ele o rapaz que desde miúdo frequentava a casa do pintor.
Jaromil sentia-se feliz por poder, graças a uma relação comum, ligar-se mais solidamente àquela sociedade de pessoas desconhecidas, e apressou-se a responder afirmativamente.
-- Mas não o vais ver há muito tempo -- disse o homem.
-- Sim, há muito tempo.
-- E porquê?
Jaromil não sabia que resposta dar, e encolheu os ombros.
-- Eu sei porque é, sim. Isso podia trazer problemas à tua carreira.
Jaromil esforçou-se por rir.
-- A minha carreira?
-- Publicas versos, recitas poemas nos comícios, a dona desta casa fez um filme sobre ti para garantir a sua reputação política. Ao passo que o pintor está proibido de fazer exposições. Sabes que a imprensa o retrata como um inimigo do povo?
Jaromil calava-se.
-- Sabes ou não sabes?
-- Sim, ouvi dizer isso.
-- Parece que os quadros dele são abjecções burguesas.
Jaromil calava-se.
-- E sabes o que é feito do pintor?
Jaromil encolheu os ombros.
-- Expulsaram-no do liceu, e ele trabalha como servente nas obras. Porque não quer renunciar às suas ideias. Só pode pintar à noite com luz artificial. Mas pinta belos quadros, enquanto tu escreves belas merdas!
página 361 - 362
Milan Kundera em «A vida não é aqui»
tradução de Miguel Serras Pereira
edição D. Quixote
«Altar of flies»
óleo sobre tela
60cm por 45cm
2024
ZMB a partir de capa de disco da banda Altar of Flies,
um projecto de noise doom de Mattias Gustafson
https://www.discogs.com/release/6001846-Altar-Of-Flies-Altar-Of-Flies