terça-feira, 9 de setembro de 2025

Nunca mais comerei pão

Tanios começou de repente a tremer, como se uma corrente de ar frio tivesse penetrado na sala. Com grande custo conseguiu pronunciar a palavra "laych" -- "porquê?".
-- Depois do que se passou, a nossa aldeia já não pode manter os seus contactos com essa escola. O nosso xeque disse-mo claramente antes de partir. Na presença do nosso patriarca. 
-- Que o xeque decida pelo idiota do seu filho, mas não por mim.
-- Não permito que fales dessa maneira, enquanto estamos debaixo do seu tecto. 
-- Raad nunca quis aprender nada, ia à escola forçado, porque o seu pai o obrigava a tal, e está muito contente de não ter que lá voltar mais. Eu, ia lá para estudar, aprendi muito, e tenho vontade de continuar a aprender. 
-- O que aprendeste é suficiente. Acredita na minha experiência, se estudares demasiado já não suportarás viver entre os teus. Deves instruir-te apenas o necessário para ocupares plenamente o teu lugar. É isso a sabedoria. Vais ajudar-me no meu trabalho, eu ensinar-te-ei tudo. 
"Agora és um homem. É tempo de começares a ganhar o teu pão. 
Tanios levantou-se como um morto.
-- Nunca mais comerei pão. 

Amin Maalouf em O Rochedo de Tanios
Tradução de Maria da Graça Morais Sarmento 
Edição Difel

domingo, 7 de setembro de 2025

Tuíte Quero lá saber do Proust

 O dia de ontem? Memorável!

O doutor dá a sua consulta — a última

                              antes da reforma.

Pergunta como me sinto

                                    agora

Com a redução da prescrição?

Eu digo-me bem e peço

                                    ainda menos...

— Informe-me, faça a exegese,

o que está escrito acerca da 

                     minha situação clínica?

Ele lê: agitação... mania da perseguição...

          exaltação... verborreia...

Tento explicar os porquês:

‘o verão, o varão, o barão, a barona

                        e a baronesa, doutor...

a baronesa recusou a minha declaração,

ela contou, extrapolou,

submeti-me à chacota, zanguei-me 

                         com o boss, doutor...’

Falo, principio a abordar o resíduo.

O doutor diz: tem problemas da adaptação.

Insisto: as minhas relações são frustrantes,

                                          conflituosas.

Digo: os media transmitem propaganda.

induzem, tornam o meu pensamento verídico,

                                                manifesto.

Ele analisa; é aí que começa a doença,

a inadaptação não é propriamente doença,

                             mais um modo de ser.

Quanto às mulheres, ele diz:

‘quem vai à guerra...’



Lentamente as palavras vão 

                         fazendo sentido.

Negoceia-se uma redução de dose.

Ao fim de um ano... talvez 0mg.

Depois... um período de três anos

                             em vigilância.

Sei que o doutor faz um boa acção:

uma prenda com veneno antes da 

                               sua reforma.

Só eu poderei descobrir o antídoto.

Ser auto-suficiente.


A celebração inclui Wilhelm Reich 

                               na Amazon.

Consegui um cartão de crédito.

Exercito o meu inglês.

Leio: ser bilingue pode impedir 

                              o alzheimer.

Ao jantar envio sms a dizer:

‘não trabalho segunda,

if I might be bold entre linhas

vamos querida para fora uns dias’

Confesso-me ousado, espero que

                                   ela goste.

Lembro: apaixonar-me por email é

                                rotina minha.

Aguardo resposta.

Ouço Legendary Tiger Man em vinyl.


sexta-feira, 5 de setembro de 2025

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Tom Zé - Se (1976)




Ah se maldade vendesse na farmácia
Que bela fortuna você faria
Com esta cobaia
Que eu sempre fui nas tuas mãos
Oh mulher
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) De quem?
(Se) O que?
Se isto for possível pois me contem
Como escrever de novo um jornal de ontem
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) De quem?
(Se) O que?
Eu beijaria os pés da Santa Máter
E reescreveria o seu caráter
Ah se maldade vendesse na farmácia
Que bela fortuna você faria
Com esta cobaia
Que eu sempre fui nas tuas mãos
Oh mulher
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) De quem?
(Se) O que?
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) De quem?
(Se) O que?
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) Se desse
(Se) Se fosse
(Se) De quem?
(Se) O que?
(Se) Sentisse
(Se) Mas como?
(Se) Porém
(Se) Por quê?
(Se) Ora
(Se) Não diga
(Se) Se fosse
(Se) ...

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Graffiti


A humanidade só será livre no dia em que o último capitalista for enforcado nas tripas do último estalinista 

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Primeiras impressões de ZOV de Rui Manuel Amaral


Vou neste capítulo. 
Até aqui, os capítulos são como pequenos actos de uma peça de teatro. O palco pode ser ao ar livre ou ser um salão com uma fotografia projectada na parede do fundo como cenário, se tivéssemos muito dinheiro podíamos montar um cenário real, quero dizer, plantar árvores, requisitar estátuas, ou então,  encenavamos a peça em vários locais, um local um acto, que digo eu?!, um acto por dia, poder-se-iam arranjar excursões para o público seguir na comitiva dos actores.
Eheheh escrevo tudo isto porque estou a tentar entrar no espírito do texto, que é cómico e divertido, os actos até este capítulo são quase todos monólogos que me parecem vir da tradição do absurdo mas antes de Beckett, estou a pensar em Charles Cros.
Um destes monólogos é para mim memorável, e se eu fosse jovem talvez lhe chamasse de épico, o monólogo da mulher que fala ao homem que do início ao fim permanece calado e sem mexer um músculo, lembrou-me na vida real a Vallis dando-me um sermão e eu com a cabeça entre as orelhas afundado no sofá caladinho que nem um rato.

É um livro que aconselho.