quarta-feira, 28 de abril de 2021

No café em dia de chuiva, um enigma

 Acabo de aprender algo incompreensível. Quem mo ensinou foram duas jovens na casa dos vinte, há pouco na esplanada. Uma delas está grávida. Disse que queria um chocolate. A outra falou:

-- Uma vez, quando eu estava grávida, tive vontade de comer um tijolo.

Eu, a princípio, não percebi a literalidade da situação: -- Um tijolo, porquê!?

-- Passei por umas obras, e comi um pedaço, e gostei, satisfiz o desejo.

A outra, aquela que agora anda de gravidez, diz: -- A gente precisa de certos minerais, há dias tive vontade de comer areia.

-- !?, vou pra casa, a chuiva amainou, télogo. Vou ver se fujo do Arturinho crava.

-- Abraço.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

-- Pulhas, pulhas!...

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Já não consentiam ao Doninha que entrasse na Sociedade Harmonia Cerromaior. Nem no café. A perna supurava, deixando em redor um cheiro acre. Mas, mais que o cheiro, era a figura andrajosa, suja, e as conversas despropositadas que incomodavam os presentes.

O contínuo fora avisado e não o deixava passar da porta -- que a direcção ia ver, ia decidir. Também no café o dono o empurrava para a rua, falando apressadamente:

-- Não! Vá-se embora, homem! Aqui não é nenhuma taberna!

Ia para trás do balcão, vagamente receoso dos olhos do Doninha, que ficava parado no meio da rua, a olhá-lo fixo. Aquele olhar tinha qualquer coisa de sinistro e de triste como o de um cão faminto e escorraçado.

Depois, Doninha afastava-se, meio curvado, apoiando-se a uma bengala. Vinha até ao largo. Aí, sentava-se num caixote, sem se importar que fizesse sombra ou que o sol do Verão queimasse como brasa. Para ali estava, horas seguidas, calado, olhando o chão. Muitas vezes acontecia virem buscá-lo, apreensivos com a imobilidade do carteiro, de cabeça encostada à parede, a velha farda aberta, o peito avermelhado e magro.

-- Saia daí, Doninha. Olhe que ainda apanha uma congestão.

Doninha deixava-se levar.

Só uns tantos frequentadores das vendas se agradavam da sua presença. Pagavam-lhe vinho, que Doninha bebia com sofreguidão. Em seguida, puxavam-lhe pela língua. Já sabiam qual o assunto do carteiro. E ficavam, de gosto, a ouvi-lo falar mal da gente da vila.

Contava tudo. Adultérios, roubos, intrigas. Negócios de corda ao pescoço eram trazidos para ali, à luz do Sol e pelas palavras próprias, sem subterfúgios. Nenhuma família escapava na boca do Doninha.

Um prazer rir impunemente de escândalos que todos conheciam, mas ninguém se atrevia a criticar em voz alta.

-- É por eu saber tudo isto que eles me não querem no clube nem no café! -- exclamava Doninha, de olhos muito abertos. -- Sei tudo. A mim não me fazem o ninho atrás da orelha!

Por fim, Doninha só dizia:

-- Uns pulhas!

Desabotoava o único botão da farda sebenta, abria a camisa, estendendo o queixo como se tivesse dificuldade em respirar. Agora, todo o ódio se lhe refugiava nos olhos:

-- Pulhas!

Ninguém sabia já de quem falava. Vinham-lhe crises terríveis. Tremia todo como um trapo sacudido por um redemoínho de vento. Seguravam-no antes que caísse desamparado, e o acesso terminava numa ansiedade e numa sede que só o vinho aplacavam. Então, ficava amarfanhado sobre o banco, erguendo a mão trémula, com o brilho do ódio embaciado pelas lágrimas:

-- Pulhas, pulhas!...

Os homens das vendas começaram a sentir naquele olhar e naquelas palavras qualquer coisa que lhes dizia respeito. A pouco e pouco, afastaram-se do Doninha.

Todos, na vila, evitavam referir-se ao carteiro. Somente, de quando em quando, abriam excepção para uma frase onde punham toda a necessidade de explicar aquela desgraça:

-- É da sífilis que lhe subiu à cabeça.

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páginas 173 -- 175


Manuel da Fonseca em «Cerromaior»

edição Caminho, 6ª edição, 1981

domingo, 25 de abril de 2021

Bezerra da Silva - Malandragem dá um Tempo

oi, pessoal, o cara não fumava, mas era um malandro legal !

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Bezerra da Silva - Malandragem dá um Tempo Vou apertar Mas não vou acender agora Vou apertar Mas não vou acender agora Eh! Se segura malandro Prá fazer a cabeça tem hora Se segura malandro Prá fazer a cabeça tem hora Eh, você não está vendo Que a boca tá assim de corujão Tem dedo de seta adoidado Todos eles afim De entregar os irmãos Malandragem dá um tempo Deixa essa pá de sujeira ir embora É por isso que eu vou apertar Mas não vou acender agora...ihhhhh! É que o 281 foi afastado O 16 e o 12 no lugar ficou E uma muvuca de espertos demais Deu mole e o bicho pegou Quando os home da lei grampeia Coro come a toda hora É por isso que eu vou apertar Mas não vou acender agora...ihhhhh! É que o 281 foi afastado O 16 e o 12 no lugar ficou E uma muvuca de espertos demais Deu mole e o bicho pegou Quando os home da lei grampeia O coro come toda hora É por isso que eu vou apertar Mas não vou acender agora...ihhhh!

sábado, 24 de abril de 2021

Assapou a manápula

 -- Ó Urânio, tira aí a foto para mostrar aos nossos netos.

-- Tábem.

Então, o incontornável mano mais-novo Tomás QualquerCoisa, aquele que daqui a vinte anos venderá obras-meia-primas ao ministério da cultura, assapou a manápula sobre o ombro do meio mais-velho e riu confiante de boné e perna cruzada.

O meio mais-velho confundido com a exuberância do primaço só teve tempo para rir meio de olhos fechados por causa do flash, e na foto lá conseguiu que aparecessem pelo menos os dedos, que os anéis estão no prego, com batatas fritas, arroz e um ovo em cima do cavalo.



Tendo-te como sócia,

 Em aflição de hipertexto e cliques na open word online, se eu te quiser vender este poema como meio de tu mesmo me justificares e o leres como uma súplica de carinho, orgasmo e intoxicação… e se tu aceitares esse valor com confiança… eu serei hoje salvo e nuit aujourd’hui insónia nenhuma assassinará o meu id e o sono será refrescante, não haverá sonhos em que a súcuba me trinchará o sexo nem verei meu rebento filho dormindo sobre seu avô, três gerações de mortos, adoradores de kali, yantras for you I will deliver in a minute sleep mais tarde credo, em noites de facas longas tendo-te como sócia, beijo?

‘Pensando na musa muda que

enrolada em peles de arminho

no final do conto canta as tears go by descendo as escadas,

rodopio esta in-sónia assassinando o poema.

Entre dervixes e chás de urtigas,

entre camaleoas no bar e koans na via rápida,

entre deus, sua opulência capital e o mártir escolherei a

decadência legit da vítima na capela da sócia.

Quererei não sinhô ra ma ri ah fulô acordar mañana cansado casado castrado,

svegliarsi domani stufo deum sonno,

em ciúme ou ausência de ciúme

num clube de boxe ou em telhados suspensos,

tão gordo da caridade neuroléptica como do

nariz de postiço esqueleto abanando,

recordando uma infância de tédio e pouco carinho e

observador ainda aspirante a ser inaugurado,

memórias de carnavais alheios,

de coca colas com aspirinas e belos narizes cleo,

pária ou garoa de programa passatempo a quem esgalharam o t no café

ou como io com champagne em copos d’água,

fazendo a lista dos que desmaiam e,

alheados como eu e sentindo o absurdo,

fazem de uma vida a conclusão em regressos via popó,

com um dedo encenando a fotografia,

silenciosamente,

um halo de vulgar santidade,

123

um gatilho na cabeça de um gatinho,

de cavagnac cã sem morada,

de espianto em casa da musa muda do momento,

um eterno squat no xadrez de vampiro, de jongleur,

nunca em fiúme e com desejo animal,

sem ciúme em Derza e anónima no século XXIII,

al la petite mort,

why not?, excess makes the heart grow fonder.’


Manuelle Biezon

em «Hobo em memória cache»


Aqueles que caminham precisam de saber: