sábado, 19 de agosto de 2017

Alfa-Chaud gotajava, gotejava;
Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava.

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-- Esse homem está a perder a razão! -- exclama Jill.
-- Estás mais uma vez enganada -- diz Jabber. -- Acabo de encontrar a razão, só que é uma espécie de razão diferente da que tu imaginavas. Pensas que um poema deve ser encarado. Mas não. No momento em que o escreves, o poema acaba. O poema é o presente que não és capaz de definir. Vivê-lo. Qualquer coisa é um poema se tem o tempo em si. Não precisas de apanhar o "ferry-boat" ou de ir para a China para escrever um poema. O mais belo poema que jamais escrevi foi um lava-louça. Já alguma vez te falei nisso? Havia duas torneiras: uma chamada Froid, a outra chamada Chaud. Froid vivia a vida "in extenso", por meio de um tubo de borracha ligado ao "schnausel". Chaud era viva e modesta. Chaud estava sempre a gotejar, como se tivesse gonorreia. Às terças e sextas ia à mesquita, onde havia uma clínica para torneiras com doenças venéreas. Às terças e sextas Froid era obrigada a fazer o trabalho todo... uma torneira danada para trabalhar. Isso constituía todo o seu mundo. Chaud, por outro lado, tinha de ser mimada, adulada. Se não dizíamos «mais devagar», escaldava-nos a pele. Por vezes, trabalhavam em uníssono, Froid e Chaud, mas isso era raro.Nas noites de sábado quando lavava os pés na pia do lava-louça pensava na maneira perfeita como funcionava o mundo que estas duas torneiras governavam. Só existia esse lava-louça de ferro com as suas duas torneiras. Nem princípio nem fim. Chaud, o alfa, e Froid, o ómega. Perpetuidade. Os Gémeos, com domínio sobre a vida e sobre a morte. Alfa-Chaud percorria todos os graus de Fahrenheit e Réaumur, os fios magnéticos e as caudas de cometas, ia do caldeirão efervescente de Mauna Loa até à luz seca da lua terciária Ómega-Froid, atravessava o Gulf-Stream e ia até aos leitos paludiais do mar de Sargaços, corria por marsupiais e foraminíferos, corria através das baleias mamíferas e das brechas polares, descia os universos insulares, atravessava os cátodos mortos, os ossos mortos e a podridão seca, os folículos e os tentáculos de mundos incriados, modos inatingíveis, mundos invisíveis, mundos por nascer e para sempre perdidos. Alfa-Chaud gotajava, gotejava; Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava. Mãos, pés, cabelos, rosto, pratos, legumes, peixe, tudo bem lavado; desespero, tédio, ódio, amor, ciúme, crime... gotejando, gotejando. Eu, Jabberwhorl, minha mulher, Jill, e, depois de nós, legiões sobre legiões... tudo diante do lava-louça de ferro. As sementes iam pelo cano abaixo: tenros canatupos, abóboras, caviar, macarrão, bile, cuspo, muco, folhas de alface, espinhas de sardinhas, flocos de aveia, tabaco de mascar, pólen, poeira, gordura, lã, algodão, fios, fósforos, vermes vivos, trigo desfibrado, leite a escaldar, óleo de ricino. Sementes de desperdício, caíam para sempre, voltando em puras emanações de uma miraculosa substância química que recusa ser denominada, classificada, rotulada, analisada, desenhada, esquartejada. Voltavam como Froid e Chaud perpetuamente, como a verdade que não pode ser negada. Pode-se tomá-la quente ou fria, ou pode-se tomá-la tépida. Com ela, pode-se lavar os pés ou gargarejar a garganta, tirar o sabão que se tem nos olhos ou o pó das folhas de alface, dar banho aos bebés acabados de nascer ou esfregar os membros rígidos dos mortos; pode-se ainda molhar com ela o pão das "fricadellas" ou misturá-la ao vinho. As primeiras e as últimas coisas. Elixir. Eu, Jabberwhorl, saboreio o elixir da vida e da morte. Eu, Jaberwhorl, de desperdício e de H2O composto, de quente e frio e de todos os níveis intermédios, de espuma e de crosta, das mais finas e das mais minúsculas substâncias que jamais foram perdidas, de grandes costuras e de osso compacto, de brechas de gelo e de tubos de ensaio, de sémen e de óvulos misturados, dissolvidos, dispersos, de "schnausel" de borracha e de torneiras de latão, de cátodos mortos e de infusórios retorcidos, de folhas de alface e de sol engarrafado... Eu, Jabberwhorl, sentado ao lava-louça de ferro, estou perplexo e exaltado, nunca mais nem nunca menos que um poema, uma estância de ferro, um folículo efervescente, um leucócito perdido. O lava-louça de ferro, onde cuspo o coração, onde banho os meus pés delicados, sobre o qual levantei o primeiro filho, onde lavei a gengivas irritadas, onde cantei como um diamante e estou a cntar neste momento e cantarei através dos canos entupidos e das torneiras enfrujadas, embora o tempo corra e eu seja tudo o que há de presente, de passado e de futuro. Canta, Froid, canta transitiva! Canta, Chaud, canta intransitiva! Canta Alfa e Ómega! Canta Aleluia! Canta, ó torneira, canta enquanto o mundo desencanta...
E a cantar numa voz alta e clara, como um cisne ferido, deitámo-lo na cama.
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, páginas 144-146
"O Oho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

A canção do rei Salomão


'A canção do rei Salomão'
técnica mista sobre papel
59cm por 42cm (tamanho A2)
2006 - 2017
ZMB

Este trabalho começou por ser um auxiliar de memória para este trabalho:

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

É a primeira pergunta do assistente social.

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.. Decerto -- torna Boris --, se o tivesse conhecido em Manila poderia ter feito alguma coisa por ele. Podia ter-lhe dado trabalho então...
Manila! Jesus, isto parece-me grotesco! Que tem Manila a ver com o que se passa agora? É como dizer a um homem que se afoga: «Que pena, que pena! Se ao menos o tivesse ensinado a nadar!»
Toda a gente deseja endireitar o mundo: ninguém deseja ajudar o vizinho. Querem fazer de nós um homem sem ter o corpo em conta. Está tudo vesgo. E Boris estava também vesgo quando lhe perguntou: Tem parentes na América? Eu conheço isto. É a primeira pergunta do assistente social. A sua idade, nome, morada, ocupação, religião, e depois, com muita inocência -- o mais próximo parente vivo, faz favor! Como se uma pessoa não tivesse passado por isso tudo. como se não disséssemos a nós mesmos, mil vezes -- «Morrerei primeiro! Morrerei de preferência a...» E eles, sentados muito placidamente, na nossa frente, perguntam o nome, o lugar nunca revelado da vergonha, e vão lá imediatamente, tocam a campainha e deitam tudo cá para fora -- enquanto uma pessoa está sentada a tremer e a suar de humilhação.
Max responde à pergunta. Sim, tinha uma irmã em Nova Iorque. Já não sabe onde ela se encontra. Mudou-se para Coney Island, eis tudo. Decerto, não tinha motivo para abandonar a América. Ganhava lá bom dinheiro. Passava a ferro e pertencia ao sindicato. Mas, quando os negócios começaram a dar para o torto, ele, Max, sentado num banco do parque de Union Square, compreendeu que não valia nada. Montados nos seus garbosos cavalos, os polícias investiam sobre o passeio e afastavam de lá os desempregados. Porquê? Por se estar desempregado? A culpa era sua... ele, Max, fizera alguma coisa contra o governo? Aquilo enfureceu-o, amargurou-o e começou a sentir aversão por si mesmo. que direito tinham de lhe pôr as mãos em cima? Que direito tinham de o tratar como um verme, de levá-lo a pensar que não passava de um verme?
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, página 35
"O olho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa, 2ºedição Julho 1997

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Aconteceu-me algo parecido quando precisei de ajuda oficial, perguntaram pelo telefone da minha mãe. Ainda hoje vejo pessoas na rua que me agridem só por eu existir, um dia destes uma cabeleireira vinha a descer a rua com a companheira e um pequeno cão, o cão ladrou-me, ela afastou-o e disse: -- Ainda se fosses comer Alguém. Eu nada disse, o que ela queria era que eu respondesse para que dali surgisse a algazarra dos ditos e contos, se eu lhe respondesse qualquer coisa como «És linda como a noite, tens penteado muitos camones?, eles não te dão que chegue?, precisas de me incomodar?» Viriam certamente acusações em altos berros para todo o bairro ouvir dizendo isto e aquilo como aconteceu a semana passada quando, por causa de um cano da água, tive o vizinho a chamar-me de porco e de pintor da droga e o filhinho, aprendiz de gorila de claque, a querer bater-me. Pouco faltou para que eu entrasse em casa e pegasse no martelo e fosse lhes responder à letra dizendo «andem cá agora, quem são vocês para me insultarem!», mas foi melhor não ter feito nada porque o senhorio, ainda assim, veio e disse-me que «a corda parte sempre pelo lado mais fraco», pelo que eu engoli a mensagem. Não deixa de ser irónico porque o cano pertencia ao senhorio e eu estava a defender o seu património, é!, as pessoas odeiam o meu modo de vida, pisam no mais fraco e lambém o cu ao mais forte.
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Claudio Mur

sábado, 5 de agosto de 2017

We are doomed my friend fiend



'We are doomed my friend fiend'
óleo sobre tela
60cm por 30cm
2008 - 2017
ZMB

Eis a representação da JJ sentada no sofá.

Não bastaram uns beijinhos para que fôssemos namorados
mesmo que os nossos amigos o pensassem.
Também ela sucumbiu psiquiatricamente às drogas.
Filha de uma família de classe média foi parar a uma clínica privada.
Cheguei a escrever-lhe uma carta.
Não a enviei não fosse ela ficar com esperanças.
Preferi gravar-lhe um cd com Psychic TV e enviá-lo através da mãe.
Esteve lá mais de um ano e não sei como estará agora.

Fica este trabalho como a prova de uma espécie de amor chamado Solidariedade.

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Este ano, 2017, melhorei a cor na referência que faço a este trabalho
http://zmb-mur.blogspot.pt/2014/05/a-estatua-de-laocoon-e-seus-filhos.html
que se encontra aos pés da JJ

Pretendo significar a dificuldade em educar de modo correcto um filho/a
e referir a sensação de o/a filho/a se sentir perdido/a tal como eventualmente também o seu pai.


(fotografia de época
com luz eléctrica e filtro de balanço de brancos)



terça-feira, 1 de agosto de 2017

O fim da cidade paraíso

R. sempre fora um nostálgico. Não tivera uma infância. Afastado da sua cidade natal sofria do mal das saudades. Fora assim durante os estudos universitários, seis anos passados a ir e vir de comboio ao fim-de-semana, da universidade para casa, nascera com dezoito anos e saíra de casa praticamente sem conhecer a cidade mas já nostálgico, a cidade era mito, sabia que voltaria um dia, passou parte desses anos imaginando subir as ruas na direcção do autocarro, que o levaria a casa de seus pais, carregando uma tela para pintura. R. estudava electrónica mas viera-lhe o desejo de pintar quadros, não se importava muito com o futuro, tinha apenas o desejo um pouco romântico de pintar, a sua relação com a arte era ambígua, sabia que era difícil vir a ter um nome estabelecido no mundo da arte, mas na sua alguma inocência pensava que seria o suficiente forte, que produziria obras que desmaiariam os críticos, sonhava com uma exposição retrospectiva em Serralves quando fosse um decano de oitenta anos, uma bomba prestes a explodir com o alguma-vez-conhecido, o alguma-vez-feito na pintura em Portugal, sonhava que iria sempre andar pela sombra, ilustre anónimo sem ninguém nele reparar até um dia... um dia esse dia chegará, dizia ele e olhava para alguns quadros na parede daquele que pôde ser considerado o seu primeiro quarto atelier, O Covil, é esse o nome que lhe deu, esses quadros deram-lhe um fundamento, um futuro que ele quereria aprofundar, disse a um pintor chamado Zé de Aveiro que o seu futuro seria trabalhar como engenheiro e viver a vida comprando telas para pintar, mais tarde quando o seu futuro imediato foi pôr parte do oceano entre si e a sua cidade natal, mais tarde quando emigrou, dando um passo de fuga em frente, disse a um colega de trabalho que não queria ser um Sunday Painter, era algo que ele não queria, isso de ser pintor nas horas vagas, esta mudança de ideias aconteceu no espaço de um ano, a sua mente mudou no espaço de um ano, a ilha para onde foi residir e trabalhar deu-lhe o conhecimento de uma nova língua, havia quadros em todos os bares e cafés que frequentou, havia bibliotecas, estúdios de arte abertos ao público, centros artísticos e universidades, tudo de fácil acesso, mas faltava a mulher, R. não tinha mulher nem deixara namorada em local nenhum, deixara apenas a lembrança, ela fora sua até ao momento em que a sua vida explodiu, depois recusara continuar com ela porque não tinha já o amor-próprio para gostar de si próprio e para poder gostar de estar com alguém, o seu futuro era fugir do mundo mas haveria sempre mundo em todo o lado e ele não contava que tivesse saudades dos portugueses, quando foi disse que não voltaria, enquanto lá esteve tentou permanecer ou mesmo mudar de país de trabalho mas... a verdade é que R. não sabia como safar-se sozinho num país estrangeiro, o dinheiro que recebia era pouco, o contrato terminara e ele perdera a bolsa que recebia de Portugal, estava já a trabalhar por menos dinheiro à espera de uma renovação com aumento de salário, tal não ocorreu e R. decidiu apanhar um avião de volta, voltou a casa pelo natal, parecia um extraterrestre, trazia na bagagem livros de arte, música nova, estudos em papel, uma ou outra tela pintada, e muita vontade de ser alguém... na arte, a electrónica era uma miragem, continuava a não pensar seriamente no ganha-pão, não aprofundava os seus conhecimentos, durante uns anos ainda teve um currículo e arranjou empregos mas o seu persistente desinteresse fez com que acabasse despedido ou se demitisse, durante estes anos que se podem chamar de adolescência residiu parcialmente em casa dos pais, o restante tempo em quartos alugados nas cidades onde de momento trabalhava, chegou até a viver no hotel, a empresa pagou, a idade adulta chegou no Verão em que fez trinta e cinco anos e foi internado pela última vez, a quarta vez, a idade adulta chegou porque R. conheceu a mulher que o fez esquecer a mulher que estivera mais de dez anos na sua memória, não conhecera até aí ninguém que o fizesse esquecer essa mulher, essa mulher nova era uma aspiração de R., algo que ele escrevera como: ter um futuro sem passado. Esta mulher nova fê-lo esquecer tudo o que dentro da cabeça de R. o preocupava e o obcecava: a sensação de culpa, a sensação de não gostar o suficiente de ninguém, a sensação de ver que não havia ninguém que pudesse voltar a interessar-se por ele, sim, porque ele degradara-se muito a nível físico, estava sem cabelo, gordo, com poucos dentes não cariados, com uma doença para toda a vida. A razão para toda esta velhice precoce estava no facto de ele ter querido viver intensamente, recuperar o tempo perdido já que ele aos dezoito anos não tinha o entendimento de um jovem de dezoito anos, por isso eu digo que ele abriu os olhos para o mundo e começou logo a andar apenas na universidade, para trás está o olvido, ainda hoje R. sabe que o mundo não o desejou. Esta mulher nova desejou R., teve uma necessidade imediata de R., R. sentiu desejo e depois amor, aprendeu o que era o amor adulto, esse misto de carinho, compromisso, obrigação e miséria, libertou-se do passado, foi até capaz de, quando mais tarde a voltou a ver, ignorar essa mulher-passado porque reparou que já não gostava dela, ela também não, R. viveu livre um novo presente, a dois, um presente proletário, ela empregada de limpeza, ele trabalhando num armazém de artes gráficas. Foram felizes durante algum tempo, alguns anos que deram uma raiz a R., consolidaram a crença que o passado foi necessário, foi necessário errar e sofrer com os erros, R. vive. 
R. é hoje adulto, vive sozinho na cidade onde nasceu, vive com a sua reforma e a ajuda da mãe e de uma amiga, já não é pintor de Domingo, não vende muitos quadros mas vai tendo dinheiro para comprar uns discos e vai pagando a renda a horas, continua a não se dar bem com os vizinhos, talvez seja a altura de se enfiar no casulo e só aparecer daqui a trinta anos, é claro que tudo isto é imaginação, eu é que escrevo sempre o mesmo «desde que não deixe de pintar tudo é suportável... haverá sempre vida nas ruínas da cidade paraíso, o problema é quando não se aguenta com a cruz, mais vale deixá-la na berma da estrada.»



As damas de Avinhão


'As damas de Avinhão'
óleo sobre tela
70cm por 100cm
2017
ZMB a partir de Picasso