domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Alfa-Chaud gotajava, gotejava;
Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava.

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-- Esse homem está a perder a razão! -- exclama Jill.
-- Estás mais uma vez enganada -- diz Jabber. -- Acabo de encontrar a razão, só que é uma espécie de razão diferente da que tu imaginavas. Pensas que um poema deve ser encarado. Mas não. No momento em que o escreves, o poema acaba. O poema é o presente que não és capaz de definir. Vivê-lo. Qualquer coisa é um poema se tem o tempo em si. Não precisas de apanhar o "ferry-boat" ou de ir para a China para escrever um poema. O mais belo poema que jamais escrevi foi um lava-louça. Já alguma vez te falei nisso? Havia duas torneiras: uma chamada Froid, a outra chamada Chaud. Froid vivia a vida "in extenso", por meio de um tubo de borracha ligado ao "schnausel". Chaud era viva e modesta. Chaud estava sempre a gotejar, como se tivesse gonorreia. Às terças e sextas ia à mesquita, onde havia uma clínica para torneiras com doenças venéreas. Às terças e sextas Froid era obrigada a fazer o trabalho todo... uma torneira danada para trabalhar. Isso constituía todo o seu mundo. Chaud, por outro lado, tinha de ser mimada, adulada. Se não dizíamos «mais devagar», escaldava-nos a pele. Por vezes, trabalhavam em uníssono, Froid e Chaud, mas isso era raro.Nas noites de sábado quando lavava os pés na pia do lava-louça pensava na maneira perfeita como funcionava o mundo que estas duas torneiras governavam. Só existia esse lava-louça de ferro com as suas duas torneiras. Nem princípio nem fim. Chaud, o alfa, e Froid, o ómega. Perpetuidade. Os Gémeos, com domínio sobre a vida e sobre a morte. Alfa-Chaud percorria todos os graus de Fahrenheit e Réaumur, os fios magnéticos e as caudas de cometas, ia do caldeirão efervescente de Mauna Loa até à luz seca da lua terciária Ómega-Froid, atravessava o Gulf-Stream e ia até aos leitos paludiais do mar de Sargaços, corria por marsupiais e foraminíferos, corria através das baleias mamíferas e das brechas polares, descia os universos insulares, atravessava os cátodos mortos, os ossos mortos e a podridão seca, os folículos e os tentáculos de mundos incriados, modos inatingíveis, mundos invisíveis, mundos por nascer e para sempre perdidos. Alfa-Chaud gotajava, gotejava; Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava. Mãos, pés, cabelos, rosto, pratos, legumes, peixe, tudo bem lavado; desespero, tédio, ódio, amor, ciúme, crime... gotejando, gotejando. Eu, Jabberwhorl, minha mulher, Jill, e, depois de nós, legiões sobre legiões... tudo diante do lava-louça de ferro. As sementes iam pelo cano abaixo: tenros canatupos, abóboras, caviar, macarrão, bile, cuspo, muco, folhas de alface, espinhas de sardinhas, flocos de aveia, tabaco de mascar, pólen, poeira, gordura, lã, algodão, fios, fósforos, vermes vivos, trigo desfibrado, leite a escaldar, óleo de ricino. Sementes de desperdício, caíam para sempre, voltando em puras emanações de uma miraculosa substância química que recusa ser denominada, classificada, rotulada, analisada, desenhada, esquartejada. Voltavam como Froid e Chaud perpetuamente, como a verdade que não pode ser negada. Pode-se tomá-la quente ou fria, ou pode-se tomá-la tépida. Com ela, pode-se lavar os pés ou gargarejar a garganta, tirar o sabão que se tem nos olhos ou o pó das folhas de alface, dar banho aos bebés acabados de nascer ou esfregar os membros rígidos dos mortos; pode-se ainda molhar com ela o pão das "fricadellas" ou misturá-la ao vinho. As primeiras e as últimas coisas. Elixir. Eu, Jabberwhorl, saboreio o elixir da vida e da morte. Eu, Jaberwhorl, de desperdício e de H2O composto, de quente e frio e de todos os níveis intermédios, de espuma e de crosta, das mais finas e das mais minúsculas substâncias que jamais foram perdidas, de grandes costuras e de osso compacto, de brechas de gelo e de tubos de ensaio, de sémen e de óvulos misturados, dissolvidos, dispersos, de "schnausel" de borracha e de torneiras de latão, de cátodos mortos e de infusórios retorcidos, de folhas de alface e de sol engarrafado... Eu, Jabberwhorl, sentado ao lava-louça de ferro, estou perplexo e exaltado, nunca mais nem nunca menos que um poema, uma estância de ferro, um folículo efervescente, um leucócito perdido. O lava-louça de ferro, onde cuspo o coração, onde banho os meus pés delicados, sobre o qual levantei o primeiro filho, onde lavei a gengivas irritadas, onde cantei como um diamante e estou a cntar neste momento e cantarei através dos canos entupidos e das torneiras enfrujadas, embora o tempo corra e eu seja tudo o que há de presente, de passado e de futuro. Canta, Froid, canta transitiva! Canta, Chaud, canta intransitiva! Canta Alfa e Ómega! Canta Aleluia! Canta, ó torneira, canta enquanto o mundo desencanta...
E a cantar numa voz alta e clara, como um cisne ferido, deitámo-lo na cama.
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, páginas 144-146
"O Oho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

A canção do rei Salomão


'A canção do rei Salomão'
técnica mista sobre papel
59cm por 42cm (tamanho A2)
2006 - 2017
ZMB

Este trabalho começou por ser um auxiliar de memória para este trabalho:

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

É a primeira pergunta do assistente social.

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.. Decerto -- torna Boris --, se o tivesse conhecido em Manila poderia ter feito alguma coisa por ele. Podia ter-lhe dado trabalho então...
Manila! Jesus, isto parece-me grotesco! Que tem Manila a ver com o que se passa agora? É como dizer a um homem que se afoga: «Que pena, que pena! Se ao menos o tivesse ensinado a nadar!»
Toda a gente deseja endireitar o mundo: ninguém deseja ajudar o vizinho. Querem fazer de nós um homem sem ter o corpo em conta. Está tudo vesgo. E Boris estava também vesgo quando lhe perguntou: Tem parentes na América? Eu conheço isto. É a primeira pergunta do assistente social. A sua idade, nome, morada, ocupação, religião, e depois, com muita inocência -- o mais próximo parente vivo, faz favor! Como se uma pessoa não tivesse passado por isso tudo. como se não disséssemos a nós mesmos, mil vezes -- «Morrerei primeiro! Morrerei de preferência a...» E eles, sentados muito placidamente, na nossa frente, perguntam o nome, o lugar nunca revelado da vergonha, e vão lá imediatamente, tocam a campainha e deitam tudo cá para fora -- enquanto uma pessoa está sentada a tremer e a suar de humilhação.
Max responde à pergunta. Sim, tinha uma irmã em Nova Iorque. Já não sabe onde ela se encontra. Mudou-se para Coney Island, eis tudo. Decerto, não tinha motivo para abandonar a América. Ganhava lá bom dinheiro. Passava a ferro e pertencia ao sindicato. Mas, quando os negócios começaram a dar para o torto, ele, Max, sentado num banco do parque de Union Square, compreendeu que não valia nada. Montados nos seus garbosos cavalos, os polícias investiam sobre o passeio e afastavam de lá os desempregados. Porquê? Por se estar desempregado? A culpa era sua... ele, Max, fizera alguma coisa contra o governo? Aquilo enfureceu-o, amargurou-o e começou a sentir aversão por si mesmo. que direito tinham de lhe pôr as mãos em cima? Que direito tinham de o tratar como um verme, de levá-lo a pensar que não passava de um verme?
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, página 35
"O olho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa, 2ºedição Julho 1997

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Aconteceu-me algo parecido quando precisei de ajuda oficial, perguntaram pelo telefone da minha mãe. Ainda hoje vejo pessoas na rua que me agridem só por eu existir, um dia destes uma cabeleireira vinha a descer a rua com a companheira e um pequeno cão, o cão ladrou-me, ela afastou-o e disse: -- Ainda se fosses comer Alguém. Eu nada disse, o que ela queria era que eu respondesse para que dali surgisse a algazarra dos ditos e contos, se eu lhe respondesse qualquer coisa como «És linda como a noite, tens penteado muitos camones?, eles não te dão que chegue?, precisas de me incomodar?» Viriam certamente acusações em altos berros para todo o bairro ouvir dizendo isto e aquilo como aconteceu a semana passada quando, por causa de um cano da água, tive o vizinho a chamar-me de porco e de pintor da droga e o filhinho, aprendiz de gorila de claque, a querer bater-me. Pouco faltou para que eu entrasse em casa e pegasse no martelo e fosse lhes responder à letra dizendo «andem cá agora, quem são vocês para me insultarem!», mas foi melhor não ter feito nada porque o senhorio, ainda assim, veio e disse-me que «a corda parte sempre pelo lado mais fraco», pelo que eu engoli a mensagem. Não deixa de ser irónico porque o cano pertencia ao senhorio e eu estava a defender o seu património, é!, as pessoas odeiam o meu modo de vida, pisam no mais fraco e lambém o cu ao mais forte.
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Claudio Mur