sexta-feira, 28 de abril de 2017

Uma lágrima perdida


'Uma lágrima perdida'
óleo sobre tela
30cm por 50cm
2000 - 2017
ZMB


Este quadro também se poderia chamar:
'Não ignores o facto de um cigano perder tempo a dar-te um conselho'

Repintar a cor de um quadro é também tentar explicá-lo,
 dar coerência e unidade, ordenar o caos original.
Mas este é um quadro em que não é possível explicá-lo a posteriori.
É um conjunto de histórias pictografadas que nao parece ter hoje uma lógica.
É um conjunto de ideias: Os dois círculos azuis são os dois hemisférios estelares,
um dos quais desfsado de 90 graus no sentido inverso dos ponteiros do relógio.
Os dois círculos tornam-se um símbolo de infinito.
Num deles está pictografado o símbolo do 50%
(uma imagem explicada em 1996 mas entretanto esquecida).
Em baixo, imagina-se que esteja a roda de uma carroça.
No círculo do lado direito, imagina-se que talvez se veja um mapa condensado e distorcido
das Américas. Por todo o lado, esculturas de óleo empastado,
branco e endurecido ao longo dos anos.
Uma conta de somar com a parcela 23 e uma assinatura garrafal,
sinal de um ego inchado.

(fotografia de época)



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Por detrás das grades


'Por detrás das grades'
óleo sobre tela
30cm por 40cm
2007 - 2017
ZMB


(fotografia de época)


terça-feira, 25 de abril de 2017

De puro vermelho um cravo
Para encontrar o meu amor e encontrei

Eu quis cantar
Minha canção iluminada de sol
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar

Mas as pessoas na sala de jantar
Essas pessoas na sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Schussenried

'
É agora o domínio dos aranhiços
com uma reprodução no quarto onde se fuma
barcos do Dufy e há também
um pouco de esperança no ar que se respira
porque tu vens com o teu olhar alucinado
trazer-me todo o afecto que não cabe no mundo
porque está à margem do mundo e as janelas
não impedem a passagem do nevoeiro
que transporta consigo sempre a mesma imagem

Deus não passeia por aqui por falta de tempo
ser Deus é uma profissão fatigante
falo com quem me ama e digo que estou verde
-- ou amarelo? E
que tem isso a ver com este humilde
alinhar de palavras? Que digo e como?

Se posso ainda amar, sofrer, residir
neste funambulesco castelo é porque
a mesma imagem se repete sempre
em cada gesto, em cada porta bem guardada,
em cada desejo proibido. E no entanto
sou livre, pois a mesma imagem vem
reproduzir-se no papel em que escrevo
e nas palavras que viajam na espessa atmosfera
de ilusão e sofrimento que me envolvem

Respiro a liberdade em cada olhar
dos meus sonambulos companheiros de estadia

O amor é música que se vai apagando lentamente
até ser um murmúrio até ser
uma voz em surdina, um murmúrio que desenha
no ar a mesma imagem, sempre a mesma.

Que digo e como? Se algo move ainda
os braços do amor e do desejo é apenas
a imagem repetida que transfere
o meu sangue para as veias dum mundo alheio ao meu

Que digo e como? Nada existe
para compreender em geometria.
Há um navio que parte, outro que fica. E as bandeiras
não flutuam. Estão coladas
na porta do quarto de fumar.

Cortei as cordas, perdi as folhas dispersas
do calendário que nunca utilizei. E todavia
não há hora, instante ou movimento
que não transporte comigo a mesma imagem.
Psychiatrisches Landeskrankenhaus
Schussenried, Janeiro 1966
'

Manuel de Castro

página 183
em 'Bonsoir, Madame'

edição Alexandria / Língua Morta 044, Dezembro 2013, reimpressao Março 2015

Governantas e trianguladores de guardanapos

No livro 'Conto de fadas de Manuelle Biezon' de Claudio Mur e mais precisamente no texto 'Hobo em memória cache', o narrador, estando hospedado em Amsterdão num hostel e num quarto com quatro camas em beliche, enquanto espera por um possível emprego após ter saído frutrada a tentativa de ingresso numa exploração agrícola à jorna porque o engajador, um tal de senhor Alberto não apareceu, ele, o narrador pôe-se a discorrer sobre os tipos que definem os países, ou seja, pôe a cada elemento de uma nação uma característica que define o tipo geral dessa nacionalidade.
É assim que ele diz: «o português é visto como apoiante da frente nacional em frança».
Não quero agora dizer que todo o português pensa da mesma maneira que os portugueses em França, nem que todos são construtores civis ou donos de restaurantes ou governantas ou porteiras, mas este artigo no DN dá mesmo que pensar:
http://www.dn.pt/mundo/interior/cafe-portugues-festejou-passagem-a-segunda-volta-de-marine-le-pen-6239656.html

domingo, 23 de abril de 2017



'Jê'
óleo sobre tela
40cm por 30cm
2017
ZMB

Eu gostaria mas 
este trabalho está longe de ser uma obra-prima
Confesso uma certa dificuldade em pintar as faces de Jê
(numa superfície de tela do tamanho de uma polegada)
de modo realista. 
Não sou e talvez nunca seja um retratista, vou fazendo o possível.
Aqui Jê é Jê porque sabe que é ela
e não porque a face pareça dela.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Coil is never boring and a great help
on the subject of awakening at the wolves' lair
and dealing well with it



A sleeping explorer
his wandering mind
crossed over the border
a mind like a cemetery
where the corpses
are turning
where the bodies
twist deep
in the frozen grip
of a dreamless sleep
then the lowest
comes up
like a wreck
from the depths.
He hears night calling
and has dreams
of waking
here in this brightness
that burns like
slow lightening
he sees words
burnt in ice
reads, "The World is
a Wound".
Effects of the animal -
Animal sound effects
He says, "Death
he is my friend
He promised me
a quick end".
Says, "The world is
in pain
and should be
put down
and God is a sadist
and that he knows it".
The depths of the
night sky
reflects in his eye
He says,
"Everything changes
And everyone dies".
And the night
slits her veins
and the
darkness drains
and the void
rumbles in
like an
underground train...
Forever comes closer
the world is in pain
we all must be shown
we must realise
that everyone changes
and everything dies.