quinta-feira, 25 de abril de 2019

Tias e beatas de tribunal

Há que ter cuidado com certas mulheres das quais as poucas coisas que sabemos é trabalharem em tribunais, nem que seja a servir café, e que se dizem do lado das «mulheres honestas» que os seus superiores, como aquele juiz que se tornou mediático, pretendem defender por oposição às «mulheres adúlteras» que acabam a castigar em acórdãos. Há que ter cuidado porque podem arranjar expedientes para nos preudicar a vida. Não havendo nada de criminoso a imputar-nos, apenas o fumar de vez em quando um charro, dedicam-se enquanto se imaginam a trabalhar num processo a escrever textos cor-de-rosa onde os personagens masculinos são todos uns escroques em relação às mulheres ou às antigas namoradas. Venho-me apercebendo disso ao longo dos meses. O que me incomoda um pouco, é ver um outro pormenor que eu ficcionei a partir da minha vida ser trucidado, distorcido e adaptado. Eu tenho um pouco a mania da perseguição mas não há texto que ela escreva que não tenha um pormenor que eu não veja como uma espécie de facada literária. É certo que não é plágio mas incomoda-me ver que esta mulher, que também é blogger, insiste em mostrar ao mundo, o que me parece ser, o seu ressabiamento perante os homens. Não tem ela uma vida feliz?, o grande amor da sua vida deixou-a por uma «desavergonhada» e não conseguiu ainda encontrar um marido para quem cozinhar?, porque não ficciona ela histórias bonitas acerca dos seus homens, os seus homens fizeram-lhes todos mal, teve ela alguma vez um homem na vida?
São perguntas que não lhe quis fazer quando tomei café com ela uma única vez, incomodou-me o seu olhar inquisidor quando quis, tal como se fosse polícia ou psiquiatra, saber se eu fumava. Mas não se importou quando eu lhe disse que Prozac ou comprimidos para dormir também são droga e até admitiu que a eles recorreu para curar uma depressão. Tenho eu de dar link e audiência a esta mulher, para quem os meus hábitos e modo de vida são censuráveis, além de na tal nossa conversa não ter surgido nenhuma faísca? Já há alguns meses que a eliminei do facebook.
Tenham cuidado com as mulheres despeitadas, algumas ficarão para tias ou mesmo beatas.
Que nas suas histórias haja ao menos sal, alho ou pimenta será pedir em demasia.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Eek-a-Mouse oié

O Zulmiro é tão insolente que chega a ser fino, um mano gentil para todas as lojas de discos. Quando lhe chegam as notas azuis à mão, o Zulmiro que também é Maria faz a festa, começa por acordar sem despertador precisamente antes de se inciar a transmissão do programa Palavras de Bolso na rádio clássica e felizmente pública (para qual o Zulmiro Maria, que é Belo de apelido, paga uma taxa na factura da luz àquelas três gargantas chinesas e ao Ameixa, Ximenes Laurindo, seu primo que também beneficia por ser o homem do cadeirão). Depois de ouvir as vozes do programa, levanta a pressiana, oscula o ar, verifica se o sol está presente. Dirige-se à cozinha, prepara café, toma uma chuveirada rápida no polivã, recolhe a chávena de café, volta para o quarto e, enquanto os jornalistas culturais da rádio falam e apresentam as novidades do dia, ele começa a pensar em listas. Ele não sabe o que nasceu primeiro: se as notas azuis, se as listas de discos a obter, aquela reimpressão daquele álbum lendário que acaba de chegar à loja da taune, o Zulmiro pensa «Ora, disco é cultura, cultura é droga fixe, a droga mata a fome, com esta nota azul vou comprar o Gonçalo F. Cardoso e as suas Impressões de uma Ilha, vou ouvir o disco e vou ser feliz ao imaginar-me em Zanzíbar a viver da pintura de cocos», diz Zulmiro que também é Maria que também é Belo, que se vestiu de fato branco do melhor tecido e com um gorro branco a dizer Hamster D, para ir à loja.
Como habitual em todas as lojas que frequenta, em que é um habitual, de cada vez que lá vai é bem tratado, gostam dele em todas as lojas, gostam também quando ele compra aquele disco que mais ninguém compra. Zulmiro sente-se extasiado quando sente que chegou ao disco primeiro que outro vagabundo qualquer e tão insolente quanto ele, gostam tanto dele que a Maria chega a ter ciúmes de tanto sorriso e apertos de mão e promessas que transpiram, porque o mundo vive de promessas, eu cá acho que eles pensam que ele é rico, porque gasta tantas notas azuis em discos como o vizinho em tabaco Regina, os padrinhos em jantares a dois com licor Beirão. O que eles não sabem é o que eu vou contar a seguir, eu que sou o espelho do Zulmiro que também é Maria e também é Belo, fui eu que lhe dei o nome, uma homenagem orgulhosa à tia, e ao maior surrealista António Maria e também ao Ruy, o saudado e saudoso Belo. Tenho a dizer-lhes o seguinte: «O Zulmiro é um drógado!», é um viciado em música em suporte físico, também faz dauneloudes mas se gostar quer ter aquele disco, aquele capa em cartão, «ah!» como ele gosta de observar aquela serigrafia em cartão e capa do segundo disco dos Cassiber à luz do sol, como ele gosta de desmaiar quando ouve o sax do Albert Ayler a chorar em Vibrations... só visto!, eu sei do que falo, estou presente como espelho de canto de quarto nesta sua nova casa, vejo a moca que ele apanha quando pôe o cd gravado da k7 ''Super'' dos Nihil Aut Mors, enfim que dizer... eu quase que aceito o modo de vida dele, ele é feliz assim sendo um drogado musical. Mas para muita gente põe-se um problema: donde vêm as notas azuis? As lojas não se importam, querem é que ele consuma, mas os vizinhos já o acusaram de ser contrabandista e traficante, chegaram a dizer que a droga entrava à noite em casa pela calada, palhaços!, grandes estrumpfas do calhau mais longe do sol!, nem sequer imaginam que a droga vem via postal e entregue pelo carteiro, ainda hoje chegou uma edição de 180 gramas em vinil preto da banda sonora do filme do Gainsbourg, sim o Jetaime!, mas aí o Zulmiro até que ficou desiludido, achou que a música era como droga marada, daquela rena que sabe a petróleo ou acetona (quando não é mesmo madeira, chegou a acontecer), tanta versão do jetaime e nem uma única cantada pela Jane e pelo Serge. Mas o Zulmiro arranjou solução, sabe de um dealer nos Baixos Países que tem para venda uma reimpressão do single, vejam lá!, sete polegadas de droga com a voz da Jane e do Serge por apenas um conto de kenga mais portes... o Zulmiro espera ansiosamente o próximo dia oito, o dia em que chegam as notas azuis, entretanto ele mandou-me enviar, a uma irmã que ele conheceu recentemente numa caixa de comentários, um video de um jamaicano chamado eek-a-mouse:






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sábado, 20 de abril de 2019

Pó de Anjo



Reading of 'Pó de anjo',
a poem written by Paulo da Costa Domingos and inside a 2019 book by the poet called 'Carmes'.
On the background we can hear sounds by the band No Noise Reduction and they are taken from a compilation CD of way out Portuguese music edited by the Ananana label

(um bem-haja ao poeta)

domingo, 14 de abril de 2019

Sara, a rainha cantando coisas bunitas

(Não diga a ninguém)
(Eu não digo a ninguém) Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Diz-me Que a minha carapinha te faz lembrar Uma coroa de rainha Diz-me ainda Que nunca viste Um sorriso igual ao meu, só meu Quero ouvir Tanta coisa que só podes falar baixinho Por isso fala comigo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Inspira-te, perde a vergonha Diz-me que queres casar comigo E então deixa-te de coisas Perde dessa mania De fingir que nada sentes Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo (Arco-íres, lua-cheia, paz) (Riso de bebê) Entra por baixo da pele Acende a luz no meu peito Embala-me o coração Encontra-me a pulsação Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Sussurradas ao ouvido com sabor Chego mais perto, dá-me amor É o caminho mais certo Diz-me coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas Diz-me coisas bunitas Coisas bunitas Diz-me coisas docinhas Coisas bunitas



https://www.discogs.com/Sara-Tavares-Fitxadu/release/11508276