sábado, 14 de setembro de 2019

Zeca Pirata



This do-it-yourself cd package with booklet was edited and distributed by Casa Viva at Porto, Portugal around July 2010 https://casa-viva.blogspot.com https://www.discogs.com/Various-Zeca-... Tracklist 01: Zeca Afonso, 1984 02: Os Vampiros : Mário, O Trovador 03: Balada do Sino : Erro! 04: Era de noite e levaram : dUASsEMIcOLCHEIASINVERTIDAS 05: Maria Faia : Sívia Penide 06: Gran Doula Vilã Morena : Hyaena Fierling Reich 07: A morte saiu à rua : KNÖTARÖT 08: A caminho de Urga : Pedro::Diana 09: Eu vou ser como a toupeira : TrashBaile 10: A morte saiu à rua : Azevedo Silva 11: Sete fadas me fadaram : Lost Gorbachevs 12: Índios da meia-praia : Meu Melro 13: Teresa Torga : D. Chica + Heidi M 14: Arcebispiada : Presidente Drógado 15: De não saber o que me espera : Blandino e Sara Luz 16: Grândola Vila-Morena : Rudolfo Inevitavelmente Pirata «O 25 de abril não foi feito para esta sociedade, para aquilo que estamos agora a viver», dizia Zeca Afonso à RTP em 1984, mal imaginava ele como podiam continuar certeiras as suas palavras 36 anos depois da Revolução dos Cravos. E 36 anos depois, quando se comemoram 80 anos do seu nascimento, é com Zeca a exortar os jovens à insubordinação, à subversão, que arranca este «Zeca Pirata». Inevitavelmente pirata, porque o Zeca, para além da liberdade, cantava tudo aquilo que define uma humanidade fraterna e solidária, em tudo contrário a uma humanidade presa a conceitos de propriedade, material, intelectual e artística. O Zeca é património mundial, exemplo maior dos que lutam e acreditam num mundo mais justo, onde não têm lugar «nem muros, nem ameias», e em cuja concepção não existe o outro, existe o nós! E nós concretizamos Zeca Pirata, um projecto consensual para o colectivo Casa Viva assim que convidado a participar nos 80 Anos de Zeca: desafiar músicos/bandas que tocaram na casa a gravarem uma versão do cantautor: Saíram 15 versões de 13 músicas. Uma com pronúncia galega, de uma terra calcorreada por Zeca; outra com pronúncia austríaca, de um sítio onde Zeca chegou mesmo que nunca lá tenha ido. Umas mantendo o cariz popular, outras substituindo a guitarra acústica pela eléctrica, saboreando a intervenção com notas de rock, uns acordes de jazz, sons eléctricos, ruídos imprevistos e um ligeiro toque punk. O retoque final teve a cumplicidade do Blandino e a cronologia da edição dos álbuns a que as músicas pertencem é a única respnsável pelo alinhamento, com o Video Jogos, como excepção, a fechar. Suspeitamos que o Zeca havia de gostar do resultado. Obviamente disponível para cópia pirata.



quinta-feira, 12 de setembro de 2019

O falaciador das ametistas

Pay your respects to the vultures
For they are your future
Our fathers and mothers have
Our fathers and mothers have
They have failed to release us
They have failed to release us
They have failed to release us
Into the welcoming arms
Of the amethyst deceivers

So pay your respects
So pay your respects
Pay your respects to the vultures
And to the crows
And to the carrion crows
And to the ravens
Those graven ravens
And to the carrion crows
And to the rooks
And to the rook
And to the vultures
And to the vultures
And to the vultures

Pay your respects to the vultures
For they are our future
For they are your future
Our fathers and mothers have
Our fathers and mothers have
Our fathers and mothers have
They have failed to release us
Into the welcoming arms
Into the welcoming arms
Into the welcoming arms
Of the amethyst
Of the amethyst

The little mushrooms
The little mushrooms
Welcoming arms
Of the amethyst
Of the amethyst deceivers






A Maria João já canta aqui no meu leitor



https://www.discogs.com/Quinteto-Maria-Jo%C3%A3o-Quinteto-Maria-Jo%C3%A3o/release/2305330

oh baby
me thinks i saw u at the cafe this morning
just before getting my onions at the grocery store and my turpentine at the drug store
me likes your style
come tomorrow again and we'll cross our eyes again
until me becomes nasty and ask you to be my date
let me just be your german shepherd like a stooge!

domingo, 8 de setembro de 2019

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Rádio Sonoplasmática 18#
por Ruca Bourbon

Rádio Sonoplasmática 18# - 
Optimismos Na Europa, Comportamento Satanico e a Grande Revelação



Suzanne Cian; Anuncio; GE Beeping Dishwasher
Rege Cordic and Company, Omicron Visits Earth
Gravação de Campo - Diana canta fado com as crias da Patas, Porto
Gravação de Campo - Senhora no Metro do Porto ao telemóvel
Remistura de CD de revista braille do Espaço T
Gravação de Campo - Taxista da Foz do Porto
Escerto de Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense; David Soares
Kenny Berg -  Virgil  (Prod. SisiI Byas   Crocodile Beats)
Roulote de Jogo; São João; Fontainhas; Porto
Ozel Turkbas - Organ Improvisation
Charles Bukovsky
Clorofila Azul  - Optimismos Na Europa
La Ballade des Pendus de François Villon
Eternal Sunshine of The Spotless Mind - Main Title
Aviso Comboio
Giant Swan - IFTLOYL
Warning signs of satanic behavior
Terebentina - Vem
Joker ri (Batman The Animated Series)
Personagem alcoolizado praça dos poveiros, porto
Valgeir Sigurðsson - Big Reveal
Trailer do filme Meteor
Conferência Inferno - Bazar Esotérico - Cetim
Gravação de Campo -  Radiocomunicação táxis porto
Varg - Red Line II (127 Sätra C) 4 w  Yung Lean [NE39]
Apupópapa
DJ Meddle -  mete-com-1
Gravação de Campo - Informações de direcção maia
Música Smile do trailer Joker

Projecto vindo do Apocalipse invasor dos campos electromagnéticos modernos, duas mentes traumatizadas por este desastre artificial unem-se e apresentam um ébrio imaginário , fruto de uma ingenuidade voluntária e da procura do desconhecido. Devaneios sonoros apresentados em formato ‘programa de rádio’ onde serão usados meios de transmissão contemporâneos e antigos, analógicos e digitais
para mostrar raridades do futuro, arquivos perdidos do passado,
apropriações ilícitas, desconstrução de discursos , Instrumentos
musicais experimentais, audio-colagens, versões obscuras, técnicas de
desorientação, plunderphonics, cut up, mensagens subliminares…

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

De volta aos clássicos



CASSIBER Sao Paulo, July 1984 Label: ReR Megacorp, ReR CCD7 Released: 2013,
Elvis Has Left The Building DVD From “1982-1992”
(30th Anniversary Cassiber Box)

domingo, 1 de setembro de 2019

Epílogo

'
O primeiro sinal foi quando o galerista veio buscar o quadro que tinha encomendado e eu falei dos quadros que já pintei este ano e lhe disse que Raíssa, motivo dos últimos quadros, deixara de o ser. Há quase três meses que não nos falamos, disse-lhe. Ele opina e diz que, se calhar, a relação era uma coisa sem fundo, sem futuro. Eu defendo e digo que não foi bem assim mas tudo aconteceu porque eu não quis ser deixado para trás. Ela estava lá com ele e quando se zangava vinha para aqui beber cerveja e eu cansei-me, eu gostava dela mas ela sempre gostou de homens mais velhos, e ele até era bom para mim, chegaram a convidar-me para almoçar e ele cozinhou, cheguei a comer javali. Claro, disse o galerista, não quiseste ser trocado. Sim, não quis ser menino de mão. Quis tê-la, quis oferecer-lhe tudo o que Acá lhe dá mas ela sempre olhou para os meus esforços com displicência, sempre me viu como o seu padrinho de casamento, o seu amigo em Derza, no fundo desisti. Achei que não valia a pena continuar a amizade e, para que ela não insistisse, fui bruto e mal-educado nas palavras.
O segundo sinal veio na manhã seguinte a esta troca de palavras com o galerista e por volta das oito da manhã quando recebo uma chamada que me faz despertar do sono já em fase terminal e ao olhar o número no visor não o conhecer mas mesmo assim atender a chamada e desligarem. Ao pensar quem poderia ser que me ligasse àquela hora, fiquei mal disposto toda a semana, sim, suspeitei que fosse ela, ela chegou a ligar-me de um número novo das últimas vezes, um número que não guardei... fiquei tão mal disposto que me pus a lembrar ela ter dito que eu apunhalei o Acá, que traí a sua confiança. Defendi-me nestes dias dizendo a mim próprio, convencendo-me que se eu o traí foi quando a levei comigo à exposição na galeria, ele deixou afinal naquela tarde, eu estava lá a almoçar, eles zangados um com o outro, ela a dizer ironicamente «sim patrão», e eu salvei-os da discussão deles se agravar, dei-lhes um tempo, roubei-lha por três horas com o seu consentimento, ela esteve feliz comigo e até me disse elogiosamente «ah bandjido como foi capaz», mas, à noite disse-me ela noutro dia, quando voltou a casa dele, ele fez uma cena de ciúmes e pôs-se a tentar adivinhar o que diriam os amigos se vissem a mulher dele, como ele disse, a passear com outro. Já o verdadeiro marido, esse está longe e parece não notar os chifres, esse mudou de orientação sexual ou revelou-se finalmente, nem sei como ela nunca desconfiou. Mas ela gosta mais deste Acá, que podia ser meu pai, do que de mim, é ele que lhe dá garantias, ela mudou a verdade dos factos porque gosta dele... ah pobre de mim, que tenho pulgas e não marisco para cozinhar! Que me sirva de exemplo... vou pôr tudo para lavar, vou comprar ácido muriático para limpar a sanita, vou ganhar o brio da limpeza e da higiene.
Hoje, depois do almoço com os meus pais, depois de chegar a casa e estar a fumar um charro, depois do Giuliani vir oferecer um charro e falar sobre revisões ao texto final dos Contos de Deus e da Cidade, Volume 1, novo livro em edição de autor, depois de eu oferecer um café ao Vermelho e ao Giu, depois destes momentos ricos de convívio social, o telefone toca, Raíssa liga e eu deixo tocar. Não atendo porque estou com o Giu e o Vermelho a tomar café e a fumar. O Vermelho vai ficar hoje na ilha a dormir, porque à hora a que os jogos de Domingo terminam, ele já não tem transporte para casa, faz tenção de ir ao supermercado buscar uns rissóis para o jantar, o Giu também sai, vai reler a cópia impressa do seu novo livro à cata de erros e alterações, dia oito quando cair o dinheiro da reforma na conta bancária já terá um novo livro para «atingir o Nobel». Ó Giu, tinhas que estar traduzido em sueco, digo eu tentando desiludi-lo, mas ele responde dizendo que tem uma amiga sueca, o seu marido chegou-lhe a emprestar dinheiro, está bem Giu.
Fico sozinho, e ponho-me a pensar: olha, ligou, deve estar desgraçada... ela volta a ligar e, desta vez, eu atendo.
-- Oi.
-- Olá.
-- Eu sei que te devo dinheiro, quero combinar encontrar-me contigo para te entregar. O quadro... eu agora não tenho possibilidade mas quero que você guarde para mim.
-- Não, eu não quero o quadro de volta, senão pego nele e deixo-o numa paragem de autocarro para quem o quiser.
-- Atão fico com ele.
-- Ok.
-- Outra coisa, eu acho que te devo oito euros mas posso te dar dez pelo teu trabalho...
-- Sim as tuas contas estão certas mas aceito o teu dinheiro.
-- Amanhã podes vir ter à estação ao meio-dia? Agora estou a trabalhar...
-- Ah que bom! E a fazer o quê?
-- A cuidar de idosos, era o que eu queria fazer, queria trabalhar num hospital mas aqui até é melhor, não temos de dar injecções, por um lado estou muito feliz.
-- E pelo outro lado?
-- Também, estou muito bem, minha mãe me liga, o meu filho também...
-- Ainda estás na Vendana a viver?
-- Sim, ando entre a Vendana e a Lâmpada, vou passando o tempo lá e perto da estação onde é o lar.
-- E o teu marido já voltou?
-- Já voltou, já foi e vai voltar outra vez, mas eu não tenho de lhe dar explicações, ele continua a pagar as contas do palácio da Lâmpada onde às vezes estou... quanto ao divórcio, ele continua a dizer que não. Mas ainda este mês vou meter os papéis. Olha, estou noiva!
-- Para quando a boda?
-- Trinta de Fevereiro!
-- Ah isso não é novidade, já tinhas dito antes, é como tu ires ao Brasil, só acredito quando vir o bilhete comprado na tua mão.
-- E vc está bem?
-- Vai-se andando. Olha, fico contente por ti, por teres arranjado trabalho. É contrato ou recibo verde?
-- Contrato de seis meses.
-- Sim e renovável, passas a ter direito a subsídio de desemprego, é melhor que o rsi.
-- Claro. Eu gosto tanto, eu dou tanto carinho às senhoras, elas gostam de mim, estou feliz.
-- Olha, o livro está quase pronto...
-- Pois, depois eu quero uma cópia.
-- Claro e de graça, o livro é de nós dois.
-- Sim, depois eu vou levar para mostrar a minha mãe.
-- Eu menti nos nomes mas falo lá de todos e de nós, do teu marido, e... achas que ela vai gostar?
-- Eu digo a verdade a minha mãe, eu não escondo nada dela.
-- Só espero que ela não te rejeite.
-- Ela me ama, está descansado.
-- Olha, vou desligar que vou ver o Porto jogar.
-- Sim, eu também, depois eu te digo quando tenho uma folga e combinamos para te pagar os dez euros, está bem?
-- Não te preocupes. Beijinhos.
-- Beijinhos.

FIM
'






anónim@s do século XXIII

sábado, 31 de agosto de 2019

Urbi-Flat: uma bela obra do demo



https://www.discogs.com/Urbi-Flat-8-Petites-Pi%C3%A8ces-De-Vari%C3%A9t%C3%A9/release/11632798


'
-- Atão uma vez a bola foi parar ao campo do Estaca que era meu vizinho. Ele, como era mau, pegou na faca e desfez o couro em pedaços e deixou-os a um canto. Pois, eu saltei o muro e arranquei-lhe as estacas todas, só deixei uma em forma de cruz que decorei com os resíduos do couro da bola...
-- As estacas eram de quê?
-- De feijão.
-- E o Estaca tinha que idade?
-- Era vizinho do meu pai. Tinha talvez quarenta anos...
-- Ah ganda Giuliani, dá aí um passoubem!
-- Eheh e tenho outra... outra vez, desfez-me a bola de novo e eu peguei na diana 27, na pressão de ar e dei-lhe cabo das laranjas do pomar.
-- Ihih andaste ao tiro às laranjas. Boa, Eu, olha, o meu vizinho era um senhor idoso que tinha um pastor alemão e quando a bola caía lá... nem sempre dava para saltar para ir buscá-la. Mas tu eras um revolucionário!
-- Sim, e depois o meu pai proibiu-me de jogar futebol e eu decidi ser poeta.
'

J. Alberto Allen Vidal e Claudio Mur

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

«Está bem. Luta o melhor que puderes.»

'
Nyokabi e Njeri estavam sentadas a um canto. Njoroge via os rostos delas sulcados pelas lágrimas. Ficou deprimido, porque em criança lhe tinham dito uma vez que quando as mulheres choravam junto de um homem doente isso queria dizer que não havia esperanças de salvação. Mas mesmo ao olhar para o rosto irreconhecível do pai, Njoroge não teve forças para enxugar as lágrimas ou para confortar aquelas mulheres que choravam. Pela primeira vez, Njoroge estava diante de um problema para o qual nenhuma resposta podia encontrar no «amanhã». Foi o embate com esta percepção que o fez sentir fraco e encarar a emergência sob uma nova luz.
Ngotho mexeu-se de lado com grande esforço e pela primeira vez abriu os olhos. Nyokabi e Njeri aproximaram-se imediatamente da cama. Os olhos de Ngotho vaguearam pela cubata. Pousaram em cada uma das mulheres, numa de cada vez, primeiro em Njeri. Abriu a boca como se quisesse falar. Mas em vez de palavras, surgiu uma lágrima rolando-lhe pelo rosto. Tentou limpá-la. Mas como não conseguia levantar a mão, deixou que a lágrima rolasse desordenadmente. Duas outras se lhe seguiram e Ngotho desviou os olhos, repousando-os em Njoroge. Pareceu lutar com a memória. E depois fez um esforço para falar:
«Estás aqui...»
«Sim, pai.»
Njoroge voltou a acariciar esperanças. Sentiu uma fria segurança ao ver que o pai continnuava ao leme.
Estas eram as primeiras palavras de Ngotho desde que o tinham trazido do posto da guarda nativa, quatro dias antes. Njoroge iria recordar longamente esse dia. Ngotho teve de vir apoiado por um homem de cada lado. O rosto dele estava deformado por pequenas feridas e cicatrizes. O nariz estava partido em dois e as pernas tinham de vir de rastos. Fazia já quatro dias que a boca e os olhos se mantinham fechados.
«Vieste da escola?...»
«Sim, pai.»
«Para me veres?»
«Sim», mentiu.
«Espancaram-te lá?»
«Não, pai.»
«Então... vieste... só... para te rires de mim. Para te rires do teu próprio pai. Não te preocupes que eu hei-de voltar para casa.»
«Não diga isso, pai. Nós devemos-lhe tudo. Ó pai, que seria de nós sem o pai?» O lábio inferior de Njoroge estava a tremer.
Ngotho continuou: «Os teus irmãos andam todos por fora?»
«Vão voltar, pai.»
«Oh! Quando eu morrer. Para me enterrarem. E o Kamau? Onde está?»
Njoroge hesitou. Ngotho continuou: «Talvez o matem. Não o levaram para o posto? Mas porque é... Eles não querem o sangue de um velho. Não, não me faças perguntas. Fui eu que matei Jacobo? Fui eu que lhe dei um tiro? Não sei. Um homem não sabe quando mata. Há muito tempo que o julguei e executei-o. Ah! Ele que volte outra vez! Ele que se atreva!... Oh, sim, eu sei. Oh! eles... querem... o... sangue... novo. Olhem para ali. Para ali... ah!... eles levaram o Mwangi... E o Mwangi? Não era novo?»
Ngotho delirava. Durante todo o tempo, ficou com os olhos presos em Njoroge.
«Agrada-me que estejas a educar-te. Aprende tudo. Eles a ti não se atrevem a tocar-te. Sim, gostava muito que os meus filhos estivessem aqui todos... Eu quis, ah, ah, ah! fazer alguma coisa. Ah? O que é que aconteceu? Quem está a bater À porta? Já sei. É o Sr. Howlands. O que ele quer é chegar mesmo ao meu coração...»
A gargalhada de Ngotho era gelada. Deixou o ar opressivo, tenso. Mas agora as trevas tinham submergido a cubata. Nyokabi acendeu a lanterna como que para as afugentar. Sombras grotescas escarneciam dela, contorcendo-se nas paredes. De que valia a vida de um homem se podia ser reduzida àquilo? E Njoroge pensou: aquilo que ali estava era de facto o pai que ele secretamente adorara e temera? A cabeça de Njoroge ficou transtornada. O mundo estava virado do avesso. Ngotho continuava a falar. O riso dele não era claro, mas suas palavras eram surpreendentemente límpidas.
«Boro foi-se. Achou que eu era... um pai que não presta. Mas eu sempre soube que eles haviam de o mudar. Quando voltou parecia que nem me conhecia... Estão a ver...»
Njoroge virou a cabeça. Teve consciência de outra presença no quarto. Boro estava de pé à porta. Tinha o cabelo comprido e desgrenhado. Njoroge instintivamente desviou-se dele. Boro aproximou-se, em passo hesitante, como quem deseja furtar-se à luz. Viram Boro ajoelhar-se junto da cama onde Ngotho jazia. E num repente, muito antes de Boro começar a falar, Njoroge descobriu a verdade. Mal conseguia reter a respiração.
A princípio Ngotho não conseguiu reconhecer Boro. Pareceu hesitar. Depois os olhos pareceram recuperar a vida.
«Perdoe-me, pai... eu não sabia... oh! eu pensava...»
Boro voltou a cabeça.
As palavras saíram hesitantes, sem cor: «Não é nada. Ah, ah! Também tu voltaste... para te rires de mim? Serás tu capaz de rir do teu pai? Não. Ah! Eu só quis o bem de todos vocês. Não queria que te fosses embora...»
«Eu tive que lutar.»
«Oh... isso... Mas agora... Nunca mais te vás embora!»
«Não posso ficar. Não posso», gritou Boro, numa voz cava. Produziu-se uma mudança em Ngotho. Por momentos, voltou a ser aquilo que tinha sido -- um homem firme, com autoridade, o centro do lar.
«Tens que ficar.»
«Não, pai. Por quem és, perdoa-me!»
Ngotho fez um esforço e sentou-se na cama. Ergeu penosamente a mão e pousou-a na cabeça de Boro. Boro parecia uma criança.
«Está bem. Luta o melhor que puderes. Põe os olhos em Murungu e Ruiri. Que a paz seja com vocês todos. Ah! O quê? Njoroge olha... pela... tua... mã...»
Os olhos dele flamejavam ainda quando se afundou na cama. A cubata ficou em silêncio. Até que Boro se ergueu e disse num murmúrio: «Eu devia ter vindo mais cedo...»
Correu para a porta, fugindo da luz, mergulhando nas trevas da noite. Só quando viraram os olhos para Ngotho ficaram a saber que ele também nunca mais regressaria. Ninguém chorou.
'

''Não chores, menino''
páginas 166-169

Ngugi wa Thiong'o

tradução Alice Nicolau
edição Editorial Caminho 1980

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Um blog, do qual gosto muito, partilhou esta música.
Eu gostei e decidi partilhar igualmente
adicionando a transcrição da letra da música




Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Só por ter dois sóis Só por hesitar Fiz a cama na encruzilhada E chamei casa a esse lugar E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por inventar Só por destruir Tenho as chaves do céu e do inferno E deixo o tempo decidir E anda sempre alguém por lá Junto à tempestade Onde os pés não têm chão E as mãos perdem a razão Só por existir Só por duvidar Tenho duas almas em guerra E sei que nenhuma vai ganhar Eu sei que nenhuma vai ganhar

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Psicanálise para wannabes da boutique dos seiscentes

O id sendo aquilo que o pai Freud descreveu, é naturalmente uma besta, mal começa a gatinhar agarra-se ao varão do parque para se pôr de pé. Quer ser grande. Quer viver como os grandes.

Depois, se não se consumir nas chamas do inferno que criou, envelhece facilmente em seis meses, caem-lhe os dentes todos, fica careca e político. É aí que aparece o ego que lhe diz: meu crápula ignorante, ora bamos lá a ver se tu tens um restolho de tino e me deixas pintar o teu retrato de modo a que todos te possam admirar como o mais otário ou como o mais sublime dos cônsul-do-nadistão.

Por fim, vem o super-ego, que pode ser o funcionário da repartição de finanças do museu que fuma às escondidas ou a rainha de latão que anseia pelo mar enquanto manda beijinhos e mostra as nails ou esfaqueia mortos-vivos e os mete na arca congeladora, dizer: Sim, continua, tens aí material interessante, a tua vida parece um filme europeu dos bons, mereces ser divulgado, até te vou levar comigo para Vlad Moro, ocê gosta de mi não gosta?

O pobre do id, que até poupa nas telhas e as retira para que as pedras lhe caiam bem lá no fundo da consciência, perante os factos lembra-se da anedota e diz: deixa-os pousar, aprendi a fazer churrasco de urubu-vigilante-de-cabeça-preta, nome científico Coragyps atratus.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Urubu-de-cabe%C3%A7a-preta

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Melícias de terror

'
Ximenes chega ligeiramente atrasado «olha, se tivesses chegado há dez minutos tomavas deste café, não lhe tinha colocado o leite» mas vem com um bom propósito «põe música, olha trago uma prenda, o Vermelho pediu-me para eu lhe ir arranjar moks, eu fui e ratei este pedacinho».
Dirijo-me ao leitor de cd e ponho a tocar Charles Mingus. «Boa, eu também acabei agora o meu trabalho por hoje, passei seis textos do Giuliani, eu acho que até ao fim do mês estará pronto.»
«Olha, preciso de tudo para fazer o berlinde...»
«Tenho tudo o que precisas, aqui a caixinha do tabaco, as mortalhas, o cartão para filtros, agora ando a usar cartão da marca risperidona, a caixa acabou, já aviei a nova receita, vês?. ao usar este cartão também vou fazendo reciclagem...»
«Tabaco é que já tens pouco...»
«Tenho de sair para comprar, já nem me lembrava, o Giuliani pediu-me uma nota para gastar no seu maço Regina e o resto em ir trabalhar nos computadores da loja, que abriu no espaço onde ele estampava as t-shirts... mas eu disse-lhe que não à cara podre, disse que não podia, que ainda não tinha recebido pela venda do quadro à galeria... e afinal, a nota que eu tenho no bolso vou gastá-la em mais tabaco de enrolar, é da maneira que depois tenho trocos para o pequeno-almoço na dona Ana.
«Eu tenho um isqueiro mas não é melhor do que este.»
«Houve agora o baixo desta música, este Mingus era um génio. Diziam que era muito exigente e até mau com os seus músicos, mas isso todos são.»
«Sim, nós todos fumamos ganza e às vezes até mandámos acidos, gostamos do Zappa e ele era contra as drogas.»
«Sim, mas fumava prá mundial, fumava em todos s mundiais, até há capas com o seu cigarro fixo no braço da guitarra, também tinha a sua hipocrisia, olha foi casado com uma portuguesa segundo o Giu me disse.»
«Mas o melhor ainda é o Bob, não queres ouvir o Catch a Fire?»
«No tubo pode ser, queres o álbum ou a música?»
«O álbum. A primeira música Concrete Jungle, tu tem-la noutra versão naquele best-off.»
«Ah pois tenho, estou a reconhecer, um dia ainda vamos poder ir beber legalmente uma caneca de café com canábis...»
«É o sonho de todos nós.»
«Eu acho te vou fazer um café para acompanhar a tua prenda, e depois vamos apanhar ar, estou a ficar abafado, aqui em casa desde que fechei o postigo junto ao corredor tenho pouca circulação de ar, vamos até às escadinhas, fica a caminho da tabacaria.»
«Pois é, tu já nos falaste, o teu problema é expirar menos do que inspirar...»
«Sim, os meus pulmões retêm ar, portanto fumos e cheiros de tintas e aguarrás... fazem-mal, eu nunca conseguiria viver na China, em Pequim... de vez em quando, ouvem-se notícias do ar de Pequim...»
«O meu pai diz que me arranjava emprego lá, mas eu disse-lhe que não, eles lá têm a pena de morte, é por isso que Hong Kong se revoltou, o direito penal na China é mais ditatorial, em Hong Kong agora está muito mau...»
«Sim, olha aqui este blog, se quiseres mandares dinheiro... olha aqui a notícia, as fotos das manifestaçãoes, a conta paypal para apoiar...»
«Cada um faz o que pode.»
O café já ferve, a broca está feita, a obra está pronta a ser fumada, neste momento ouvimos Burning Spear ao vivo em Itália.
«Sabes uma coisa, eu aprendi a ouvir o meu pai mas continua a ser difícil de lhe aceitar as ideias, ele é mais vetusto que o nosso poeta, o nosso poeta leva e sempre levou a vida que lhe conhecemos e os resultados vêem-se, as suas ideias são paralelas, as nossas derivam em parte das da sua geração, seja nas drogas, na institucionalização hospitalar, na luta diária por arranjar beleza, o Giu na sua luta por um maço de tabaco, e lá anda ele com a sacola cheia de livros a ver se lhe aparece aquele visconde filho de reis que o salvou há dias, o meu pai era e é diferente, sempre poupou e eu revoltava-me, mas olha com a idade aprendi a dar valor à poupança, ele se tem um problema de saúde ou a minha mãe, eles não vão ao hospital enterrar-se numa fila de espera, vai ao hospital privado e paga a consulta e, olha, a minha mãe soube e retirou um sinal da cara que lhe poderia vir a dar problemas, revelou-se o mais benigno dos tumores malignos, vai ter duas consultas de vigilância por ano.»
«Sim, é para isso que o dinheiro serve, para gastar em saúde.»
«Mas olha a quase maldade das suas palavras... ele nunca bebeu nem fumou, dou-lhe algum valor por isso... mas ele não pode compreender, só quem já fumou um cigarro é que pode perceber, olha o que ele foi dizer, não compreende como uma nossa familiar depois de um enfarte e de um avc pode ter voltado a fumar, chegou a dizer: um colega meu fumava três maços de filtro e foi ao médico, o médico disse-lhe ou pára ou morre; e ele parou. Eu respondi-lhe calmo mas emocionado: a mãe da senhora morreu, a mãe passou um grande sofrimento e a filha sofreu com ela, ao mesmo tempo teve o enfarte, deixou-se estar na cama e de manhã o avc, a fisioterapia deu-lhe a mobilidade de volta, pediu a reforma, a mãe morreu, ela já tinha deixado de fumar mas voltou, pode muito bem ter pensado: sou eu a próxima, agarrou-se às poucas coisas que lhe dão prazer. Fumar é um prazer, alivia a ansiedade, faz-nos parar a rotina dos movimentos, coordena o nosso pensamento.»
«O teu café é melhor que o cimbalino dos cafés e o cheirinho lá dentro é muito bom, havemos de experimentar pôr uma broca do valor de uma nota dentro do café a derreter, quem experimentou diz que é do melhor.»
«Olha vamos à tabacaria, preciso de comprar tabaco, tu logo vais à sopa?»
«Sim, mas ainda temos tempo.»
Saímos de casa, corremos a ilha e virámos à direita na rua.
«Sabes, eu sou como um arqueólogo, ando sempre à procura de pepitas, palavras em livros, há quem ache que eu perco tempo com os textos do Giuliani mas foda-se!, com cinquenta inéditos alguma coisa de bom deve haver!»
«Sessenta, ele diz que tem sessenta inéditos.»
«E olha, hoje encontrei uma que já valeu o dia, e provavelmente até foi um erro dele, a gente até duvida se foi essa a intenção...»
«Estás a falar de quê?»
«Num dos vários textos sobre Timor, ela fala lá das milícias pró-indonésias que massacravam os timorenses, mas escreveu melícias, melícias de terror, e olha... gostei tanto do poder poético da frase que não lhe corrigi o engano e até pus em itálico.»
«Fizeste mal, devias corrigir...»
«Não, deixei passar, não sei se ele o quis ou não escrever, provavelmente se o corrigisse ele nem iria reparar, talvez nem agora repare, e eu ao pôr-lhe melícias de terror estou a engrandecer o poder de inflamar o leitor contra os indonésios. É uma grande pepita.»
«Ok.»
'

Claudio Mur

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Manuel da Fonseca - Domingo



'Domingo' 
de Manuel da Fonseca


Quando chega domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
«Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.

Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando por que seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!...
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.
Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bordou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
- porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.
Partindo deste princípio,
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!
Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casa de penhores…

Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
- ao sol
como num ritual consagrado a um deus! –
até chegar o homem bem-amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida…

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta:
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
venha a ânsia do peito para os braços!
E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!

Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez chovia
até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bem feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
- rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
- Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
- …no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caía um fio para a água…
…um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
…O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
comos e fosse uma festa?... –
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!
Mariazinha Santos,
que vá par ao cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!...

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

sábado, 17 de agosto de 2019

Amadeo on the Beat


'Amadeo on the Beat'
óleo sobre tela
70cm por 100cm
2019
ZMB
a partir da obra de
Amadeo de Sousa Cardoso


sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Felicidade relativa


'
Felicidade relativa

Atingí um grau de felicidade relativa razoável, o que, numa sociedade onde ninguém está bem, não é nada mau. Sendo pobre financeiramente, embora nada complexado perante a riqueza do mundo, levanto-me todos os dias por volta das cinco da manhã, agora, e vou até a uma confeitaria de pão quente onde trabalho até às nove e meia. Hoje, Domingo, saí de lá por volta das onze e sou muito mal pago, mas em nome da amizade que me liga ao sr. Santos, fecho os olhos. Sigo depois para a Metadona e para o Espaço T onde trabalho nos meus livros até às 12h30m. À tarde, por vezes, a minha namorada aparece e, na tarde ou à noite, o amor acontece. Quando não é o amor é a escrita, o Espaço T ou a Leitura que preenchem a minha vida, para escrever o que o meu querido ou querida leitor(a) merece.
 '


1999
J. Alberto Allen Vidal
em
'Contos de Deus e da Cidade, Vol. 1'
edição de autor

(em preparação para edição em Setembro 2019)

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Kill your Idols: The Saramago Affair

No meu ensino secundário foi um aluno da área B, ou seja, de ciências e no 12º ano nem Português tive, apenas Matemática, Física e Geometria Descritiva. Os meus pais não liam muito mas encomendavam livros a partir das Selecções e do Círculo de Leitores. Foi assim que não sei como caíram lá em casa obras como A Laranja Mecânica, A Servidão Humana do Maugham que jurei nunca ler por causa do título, com dezassete anos não queria ler coisas tristes. Queria e li livros como O Corpo em que contava a história de uma arqueóloga judia numa descoberta de umas ruínas ou do sudário de cristo, já não me lembro, mas lembro-me de me ter provocado excitação sexual, esse e o Konsalik eram obras que tinham sexo e amor. Livros talvez fúteis para um adulto de quase cinquenta anos mas muito importantes na definição e acção emocional e sexual de um adolescente.
Eram os poucos livros que me interessavam na biblioteca dos meus pais, havia outros que já surripiei mais tarde, mas eu lia pouco. Esse foi o ano da PGA, em que os estudantes tiveram de fazer uma prova de Português para entrar em qualquer universidade, uma prova que tinha um peso enorme na classificação final do acesso ao ensino superior.
Os meus pais e eu ficámos preocupados, eu lia pouco, até tinha sido aluno médio a Português no 11º ano mas lia pouco, começámos a comprar o Expresso ao Sábado por causa da revista que tinha artigos contemporâneos. No fundo, para me dar cultura geral e conhecer o ensaio, o poema, a crónica, as variadas formas e também poder formar opiniões e escrevê-las correctamente. Tive também umas aulas num centro de estudos privado onde se praticava aquilo que se chamava as composições, (SPOILER ALERT: é para rir aqui :) lembro-me de ter escrito uma composição bucólica sobre o prazer no campo e o professor dizer «oxalá consiga».
Não sei já que nota tirei mas consegui entrar no curso que escolhi na cidade que quis.
Foi nestas leituras de revista que ouvi falar de Saramago, na altura falava-se que O memorial do convento ia ser traduzido para inglês, até me recordo do título da tradução que lhe davam Baltazar e Blimunda. Foi um livro que comprei mais tarde numa daquelas edições de trezentos escudos e capa dura, mas nunca li.
A minha atitude e de quem me rodeava era como o Kill Yr. Idols dos Sonic Youth, não queríamos saber dos grandes, não queríamos saber se o Saramago e o Eugénio de Andrade vinham conferenciar no auditório da universidade, a gente ignorava: eu nunca sequer tinha lido Saramago, outros talvez por razões ideológicas, não queríamos saber a polémica das cartas de amor do Manuel Alegre: eu queria lá saber dos amores de um político, alguns colegas diziam «não! estás errado, é históricamente importante», a gente sabia quem o público considerava grande mas nós não queríamos saber deles, nem sequer ídolos, eram apenas estátuas e já não pessoas, nem sequer se punha a hipótese de pensarmos se gostaríamos de com eles trocar palavras, isso não era connosco, muito menos comigo. Houve uma vez que o Michael Gira veio dar uma sessão de prosa ao Carlos Alberto, eu fui ver, gostei, havia uma banca com livros e cds dele, e eu comprei um livro de prosa dele, disseram-me que se quisesse esperar pelo autógrafo ele estava quase a chegar. Mas eu não esperei eu quase fugi, não quis saber.
Esta era a minha atitude. O Saramago não me interessava, até que um dia li O Homem Duplicado e As intermitências da morte. E fiquei pasmado, surpreso, como foi possível eu ter ignorado o Saramago?!
(Já o poeta Giuliani diz «ai o que ele diz de jesus no evangelho, não se faz...»
Quanto ao meu primo Ximenes, ele discorda do Giu e a sós diz-me que é um grande livro, ainda não li.)




terça-feira, 13 de agosto de 2019

Ficarão as obras, a vida absurda será esquecida

Tirando o bom-dia ao sr. da mercearia, que fumava à porta do seu estabelecimento. quando por ele passei a caminho do meu pequeno-almoço, tirando o bom-dia à dona Ana e o pedido habitual da nata e do café, poucas palavras tenho trocado com o mundo. Dou-me até ao luxo de não estar presente na galeria na tarde de abertura da exposição colectiva onde participo. As últimas palavras que escrevo são por mensagem desculpando-me dizendo que me sinto doente e sem vontade de aparecer em público sorridente, pergunto como correu a abertura. O galerista saúda-me e diz que se vendeu um quadro meu para um casal de Paris. Fico um pouco melhor. Respondo um dia depois dizendo que o novo quadro já está pronto e pergunto quando posso ir lá levá-lo. O galerista diz que assim que o seu carro sair da oficina mo vem buscar a casa, diz-me para eu me pôr bom e pergunta-me o que tenho afinal.
Eu respondo:
«
miséria existencial

falta de pessoas com quem seja agradavel estar, solidão enfim

mas lá vou pintando um pouco

já muito fiz eu e com 4 internamentos no cv ando a superar-me há muito e com esforço, quase que pareço um rico que nunca sofreu um desgosto, um normal que nunca sentiu falta de nada, e no entanto nem agrado ao rico nem agrado ao pobre. mas o homem some-se e a obra fica, eu serei sempre o mau, talvez as obras façam alegria a quem as compra
»

tudo isto para dizer que a minha amiga especial desapareceu na sua nova vida, da qual eu desisti de fazer parte
tudo isto para dizer que me chateei de vez com o poeta Giuliani e o meu primo Ximenes e com a Comunidade do Além, a partir de agora só tenho estes mesmos vizinhos dos quais desisti. E não vou mais ficcionar as suas histórias quando estas interagem comigo, eu só falo dos outros quando algo de positivo posso deles tirar, não vou relatar as suas vidas tristes. 
Mas só para terminar de vez, escrevo:
Cansei-me das suas queixinhas eternamente repetidas e saltou-me a tampa, mandei-os para o caralho, eles têm inveja do que eu tenho, continuam a chamar-me de rico quando eu, se não tiver um mês excepcional com a venda de um quadro, tenho o mesmo dinheiro que eles. E se vivo em alojamento minimamente digno, pago esta renda com o subsídio da minha mãe. Eles não pagam renda, vivem em alojamento miserável, mas não tenho culpa que não saibam gerir a sua reforma, não tenho culpa que vivam do fiado e que, ao dia 8 do mês quando cai a prestação no banco, fiquem logo depenados. 
Não tenho de levar com indirectas por viver minimamente bem, tentando partilhar com eles o que tenho, quando eles não o têm porque não se preocupam em fazer por isso, andam sempre «ao tio ao tio», para mim deixou de haver Giuliani poeta para haver apenas Júlio pedinte, só não o mando ir trabalhar porque, se o faço, ele desfaz-se como um menino de seis anos a chorar. Para o aturar, é preciso ser hipócrita insensível católico protestante testemunha de jeová, que se foda a carcaça do antigo regime que quer que o rei regresse e pede a deus que lhe traga o nobel! 
O que me fode é ver as pessoas iludidas mas acompanhadas, eu que aprendi a me desiludir não tenho um único par com quem falar, uma companhia com quem me sinta bem. estou só e por isso sinto-me doente, à espera que a morte chegue um dia mas sem fazer o mínimo esforço para que ela chegue.
Ficarão as obras, a vida absurda será esquecida.

sábado, 10 de agosto de 2019

Misantropia para afastar nabos, the real thing



The only real thing's misery
Submission means you get murdered
You get revenge when you wait for it
Frustrated means you're insane
He's a dead thing under the sheet
Causing pain
Sex turns impotence into decay
Unconscious repression degrades the real thing
Causing pain, causing pain
You can't kill a criminal need
When you're polluted with fear you need comfort
You can't kill what you can't see
You cant' think what you don't own
You can't rub out what you don't recognize
You don't get what you really deserve
You can't fight if you don't feel it
Obedience pays if you use it right
When you eat your pain you keep your nerves
You degrade yourself when you hide your fear
Use it right
Or don't feel it
Use it right or don't feel it

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Vai trabalhar

eu e a lady alfa a mandarmos ir trabalhar!


No meu último trabalho com contrato
numa fábrica como empregado de armazém,
um empresa familiar com sete ou oito empregados,
cheguei a ter três chefes além do patrão:
o chefe de encadernação, o chefe de tampografia e serigrafia e o chefe de armazém.
Todos eles eram fixes, éramos poucos, 
e além destes chefes havia as mulheres costureiras, dois cartonageiros,  a secretária e a segunda.impressora de serigrafia
Eu era o gajo faz tudo, que não sabia nada mas ajudava onde fosse preciso 
e aprendi muito com os chefes e também trabalhei:
cheguei a tampografar dez mil sacarrolhas com publicidade numa semana, oito horas por dia.
Dava-me bem com todos,
houve uma vez em que estava a descarregar uma palete com o chefe Armando de sessenta anos
e vem o chefe Damião de quarenta e poucos falar, incomodar, perguntar, 
dizer qualquer coisa não relacionada com o trabalho, ele era assim,
gostava do trabalho e que as pessoas trabalhassem bem mas gostava também de dar à língua.
Ora nesse dia, eu devia estar mal disposto, nove e meia da manhã, 
deveria querer fumar um cigarro mal acabasse de ajudar o chefe Armando
e virei-me para o chefe Damião que estava a meter nojo eheheh
e disse: 
Ó DAMIÃO VAI TRABALHAR!

A minha sorte é que todos se riram, as costureiras, a Manela, o Tiago, o chefe António
e eu safei-me que a coisa chegasse com mau cheiro ao nariz do casal de patrões.
Passou a ser a nossa anedota,do Tiago que hoje está em França e minha.
O Damião já integrou duas colectivas de pintura comigo, é um tipo impecável a sério.

domingo, 28 de julho de 2019

Elogio da pessoa que escreveu Vátistuta

Eu tenho estado nestes dois últimos anos a transcrever livros de poemas do meu vizinho Giuliani. A sua poesia é muito simples, muito básica, pouco mundo e muitos lugares comuns, tem também a ilusão de se achar grande e diz-se incompreendido por nenhuma editora pegar nele. Eu que vejo nele um amigo e um bom vizinho ainda que, às vezes, um chato do caralho, vejo nele muita coisa na qual não me revejo e nas quais não quero cair quando chegar à sua idade: é um exemplo ao contrário, é vendo a sua ilusão e as consequências da sua ilusão que eu faço por ser uma pessoa com mais juízo, como disse ao Xis e ao Vermelhinho: ajudar o Giuliani é fazer uma boa acção, todas estas boas acções hão-de compensar as maldades que já cometi. Digo isto como uma piada. Mas o Giuliani é uma pessoa boa e eu sou amigo dele, estou a passar-lhe os livros para o computador e a preparar-lhe os ficheiros para ele imprimir e fazer edições de autor, arranjando mais uma maneira de fazer dinheiro e de subsistir. Tem dado resultado porque o Giuliani tem muitos amigos e amigas e eles vão-lhe comprando os livros, o que o ajuda a sobreviver e a ser menos doente.
Dito isto, pergunto-me quando leio a sua prosa:«Isto não vale nada, porque hei-de eu perder tempo com esta literatura, porque hei-de eu impedir que ela se perda no tempo e no esquecimento?»
Digo isto como nota ao texto que a seguir transcrevo e que pertence a uma nova edição, esta chamada ''Contos de Deus e da Cidade, vol. 1'', um texto em que ele mistura o futebol com a falta de sono e de um cigarro e confunde jogadores com treinadores e com presidentes e soldados, é mel num pote, é quase absurdo e boçal, «para quê perder o meu tempo?»
O Giuliani pergunta-me todos os dias o que eu acho dos textos que vou passando, e eu velo um bocado o que sinto dizendo «Giu, tu não mentes, tu és o que escreves, mesmo a tua ficção se compreende conhecendo a tua vida e a memória que tens dela.»
Hoje, dei pela resposta à minha pergunta sobre o porquê de perder tempo com um poeta menor mas uma pessoa maior ou pelo menos boa, é essa resposta que resume o porquê de achar que não perco tempo: «Todas as pessoas são importantes, todas elas contam, todas elas hão-de ter voz, merecem ter voz, que fazer? Que queriam que o Giuliani fizesse às quatro da manhã, sem sono e sem cigarros, que fosse cravar para a bomba de gasolina ou fosse roubar? Não, fez melhor, escreveu um texto alucinado e um pouco burro, mas por uns bons minutos, já que o seu texto é longo, esqueceu a neurose do cigarro, não roubou ninguém e talvez tenha mesmo conseguido adormecer nessa noite.

Claudio Mur,
prefaciando:


'
Querido Vátistuta

(Soldado a rapar frio na Bósnia)

Porto, quatro da marmita, acordado sem mais qualqué tipo de sono

Cara nu-ma-pe-té drumir. Cara mim, só gosta de golo... as fímbrias do vinagre daquela senhora já num me interessam, desculpe amigo os meus azeites, não tenho cara de azeiteiro. Estou teso e sem um cigarro no bico. Donde herdei eu esta fala, donde herdei eu este bico, cheira-me a pronúncia de homem do Norte, mais bacas, menos bacas, mais vois, menos vois, com o azar de não ser Pinto da Costa e o gosto, apesar do desgosto, de ser bermelho.
Estás com sorte ó Zé Vátistuta, estou teso e sem cigarros às quatro da marmita, num cartel onde não há sérvios nem bósnios nem portugueses nem portuguesas às quatro da marmita. De qualquer maneira, se estiveres interessado na minha vetusta escrita, contacta-nos. De certeza que o irmão Jorge vá gostá da oportunitá de eu publicá mais qualqué coisa, eu também. Ora passa muito bem que, como vês, escrevemos a qualqué hora, são quatro da marmita e sinto a necessidade de ir à Galp dar um golpe num cigarrito cravado. Aqui fica a deixa para o dr. Carrilho: os escritores sem subsídios e sem cigarritos não podem ir muito longe, mais valia irem para a Bósnia com trezentos contos e cigarritos, porque se aguenta melhor o frio com trezentos contos e cigarritos.
Desculpa não te mandá mais dinheiro mas estou teso, faz de conta que já tinha fechado o envelope para o Tráfico de Ideias ou quem sabe para a Con(tacto), que é a tal revista que te pode con(tactar). Não! Não te assustes que não é nenhuma nova arma, é uma rebista que o teu capitão não poderá fazer, apenas talvez encontrar na tua mochila e que, embora inofensiva, é altamente operacional. Este número é dedicado aos extraterrestres, agradeço-te Zé Vátistuta que nos informes da possibilidade de os sérvios serem extraterrestres, agradeçemos igualmente informações sobre os marcianos bistos daí. Dizem que as bósnias têm boas bistas, aqui o Boavista ficou em segundo lugar e o Porto foi pentacampeão, imagina o meu desgosto já que sou bermelho como o teu sangue.
Infelizmente na tua terra, se calhar a tua terra é Lisvoa e o teu clube o meu, o vem-já-não-fica, imagina ao que chegaram estas coisas por culpa dos supelentes estranjas que deixam agora o Eusébio no banco, ainda por cima quase sem crédito, acredita Zé Vátistuta que isto está falido... mais valia, mesmo ceguinho, o Ray Charles que o Thomas, o Sanders, o Harkness e o Gary Charles que não contam nada, desculpa o desabafo, mas bê se encontras aí alguém no teu polotão, alguém que jogue melhor, a gente sabe que o teu capitão não joga nada, a não ser quando faz reforço de marmita, coitado, também tem fome e precisa de desculpar o seu reforço... coitado.
E cuidado com os bósnios e com os sérvios malandros, aguardo confirmação sobre os sérvios que possam interessar ao nosso vem-fica, talvez tenhas aí uma solução de italianos, franceses, ingleses e portugueses que joguem melhor do que jogar para o terceiro lugar, lugar que eu aqui tenho rodeado de Andrades e Jorge Coutos, aqui, na Avenida de França junto à Boavista, onde fica o Espaço T e onde aguardo urgentemente a minha libertação, que nunca se sabe se pode vir da Bósnia ou se de Lisvoa.

Boas curtes Zé Vátistusta. Trabalhar de graça só mesmo para a Con(tacto)
'

J. Alberto Allen Vidal
em
''Contos de Deus e da Cidade, vol. 1''
edição de autor

O mal de Rubião

'

CLV

Espalhou-se a nova da mania de Rubião. Alguns, não o encontrando nas horas do delírio, faziam experiências, a ver se era verdadeiro o boato, encaminhavam a conversação para os negócios de França e do imperador. Rubião resvalava ao abismo, e convencia-os.

CLVI

Passaram-se alguns meses, veio a guerra franco-prussiana, e as crises de Rubião tornaram-se mais agudas e menos espaçadas. Quando as malas da Europa chegavam cedo, Rubião saía de Botafogo, antes do almoço, e corria a esperar os jornais; comprava a Correspondência de Portugal, e ia lê-la no Carceler. Quaisquer que fossem as notícias, dava-lhes o sentido da vitória. Fazia a conta dos mortos e feridos, e achava sempre um grande saldo a seu favor. (...)
Em casa, os amigos do jantar não se metiam a dissuadi-lo. Também não confirmavam nada, por vergonha uns dos outros, sorriam e desconversavam. Todos, entretanto, tinham as suas patentes militares, o Marechal Torres, o Marechal Pio, o Marechal Ribeiro, e acudiam pelo título. Rubião via-os fardados; ordenava um reconhecimento, um ataque, e não era necessário que eles saíssem a obedecer, o cérebro do anfitrião cumpria tudo. (...)

CLVII
A compaixão de Sofia -- explicado o mal do Rubião pelo amor que ele lhe tinha -- era um sentimento médio, não simpatia pura nem egoísmo ferrenho, mas participando de ambos. Uma vez que evitasse alguma situação idêntica à do coupé, tudo ia bem. Nas horas em que Rubião estava lúcido, escutava-o e falava-lhe com interesse -- até porque a doença, dando-lhe audácia nos momentos de crise, dobrava-lhe a timidez nas horas normais. Não sorria, como o Palha, quando Rubião subia ao trono ou comandava um exército. Crendo-se autora do mal, perdoava-lho; a ideia de ter sido amada até à loucura, sagrava-lhe o homem.
'

'Quincas Borba',
página 166 - 167
Machado de Assis
Edição RBA editores

sábado, 27 de julho de 2019

«Cópias», uma exposição na Galeria Inklusa, Porto

Desde que fui obrigado a deixar a minha morada na Ribeira
 para passar a residir em Paranhos,
não perdi só cosmopolitismo e a vista de belas mulheres no centro histórico
mas deixei também de frequentar o Espaço T.
Quando estava na Ribeira ia a pé até perto do Palácio, era um passeio;
aqui em Paranhos, tinha de apanhar um autocarro e depois caminhar, ficava muito longe
e deixei de ir.

Entretanto, os meus colegas da turma de pintura,
orientada pela professora Teresa Brito,
pintaram uma série de quadros este ano
que foram montados por Leonel Morais e Catarina Oliveira na galeria Inklusa
(Escola primária da Rua do Sol, à Batalha, Porto)
Estão até Setembro.

Estão tão bons, fui vê-los hoje na inauguração.
Em Setembro, sou capaz de voltar ao Espaço T:
A professora diz que HÁ material para pintar!
Fiquei orgulhoso dos meus colegas,
que saudades do Álvaro «pinta-galinhas» por exemplo :)