quarta-feira, 30 de agosto de 2023

A propósito do Rubiales e da mãe

 Uma destas noites no final do jantar com os meus pais e ao estar a fazer café ouvindo as notícias do Rubiales e da mãe, disse alto mais ou menos isto:

-- O Rubiales deve ser da minha idade ou mais novo, quando se tem 20 anos fazem-se muitas asneiras mas com a idade que ele tem, um marmanjo daqueles, imagina que eu era patrão e ao dar o cheque à minha empregada, agarrava-lhe a cabeça e dava-lhe um chocho!?, ainda iam dizer que foi consentido!, era isso ou rua com ela!, palhaçada. E pôr a mãe, a mãe que tem idade para passar as tardes a ver a versão espanhola do canal Canção Nova, a defender o filho como se ele fosse criança, uma vítima?!, mãe!, se eu alguma vez fizer asneiras não quero que faças o mesmo! Farias isso e eu abdicaria logo, tu mãe não mereces a psicose do teu filho.


Não é só a gebalhada da bola, é toda a sociedade que está doente.

Diamanda Galás. I put spell on you.

Joyous and Happy Birthday to Diamanda Galás


Never never never never never


quinta-feira, 24 de agosto de 2023

Evaldo Braga - A cruz que carrego

Sinto que é grande a tristeza Intenso o inverno O meu destino cruel Me expõe ao inferno Em nada mais posso crer Para mim nada existe Somente eu sei dizer Porque vivo tão triste Sinto a cruz que carrego, bastante pesada Já não existe esperança, do amor que morreu Há solidão, amargura, desprezo e mais nada Vou amargando a sorte, que a vida me deu Vou caminhando tão triste Na noite escura Meu coração vai sofrendo Minh'alma murmura Quem de amor me chamava Na hora da ceia Quem de mim tanto gostava Agora me odeia Sinto a cruz que carrego, bastante pesada Já não existe esperança, do amor que morreu Há solidão, amargura, desprezo e mais nada Vou amargando a sorte, que a vida me deu Sinto a cruz que carrego, bastante


terça-feira, 22 de agosto de 2023

A minha vez de opinar sobre política nacional

 Temos um governo de maioria absoluta e portanto o PS tem o poder executivo, o poder de legislar.

O presidente ou veta ou manda para o tribunal constitucional ou assina ou usa a bomba-atómica e demite o governo e provoca eleições.

Acontece que o presidente, sobrinho de um presidente em ditadura, deve estar-se a confundir e a pensar que é o presidente do conselho.

Deveríamos talvez lembrar ao presidente que foi ele que deu a maioria absoluta ao PS, quando provocou eleições antecipadas. Quis pôr lá o Rangel mas o povo preferiu levar o Rio a votos e depois ganhou o PS. E depois vimos o Rio a demorar 3 horas a abrir a porta à polícia e a vir gozar com o pagode para a varanda. Só para lembrar que a mim, se a polícia me batesse à porta e eu não os ouvisse, a polícia arrombava-me a porta.

Está muito arreliado porque o povo parece gostar do PS e não do seu PSD.

Bastava na altura o sr. presidente ter forçado, como o PCP queria, que o PS apresentasse novo orçamento, um que fosse aprovado pelo parlamento. Mas o presidente quis de maneira diferente, e agora temos que aturá-lo na praia a tomar banho, enquanto lê uns textos quaisquer de trabalho, para depois anunciar que vai anunciar para a semana que vem, etc etc, o presidente xetáculo! como diz o ex-gordo do Preço Certo (e diga-se a verdade, o Fernando Mendes tem agora certmente uma melhor saúde arterial, boto gósto na sua perda de obesidade).

É claro que o PS é quero, posso e mando.

Mas que temos em alternativa?

Um Montenegro que abandonou o sorriso irónico no canto da boca e agora se irrita perante os jornalistas quando fala do mal do socialismo?, um Ventura que qualquer dia sai do armário onde o seu padre confessor o colocou, padre que reza missas em latim e até foi visado por denúncias de abuso clerical?, uma IL que só vê dinheiro e lucro e meninos e meninas cosmopolitas?, um Raimundo que até começa a ser bem visto porque o PCP apoia o catolicismo do papa xicos?, o BE onde a massa de jovens militantes artistas votam nas autárquicas no Rui Moreira porque têm medo de perder a bolsa do Criatório?, no Livre e no Pan? No Florimelo do CDS?

C'mon!, eu vou masé votar no Partido dos Reformados!


Throbbing Gristle - Endless Not {2007}

Fear not and unravel the endless knot

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

quinta-feira, 17 de agosto de 2023

A prosápia sobre o apoio aos desfavorecidos e sobre o amor lá do cristo

 ''

Moçambique, 2006. Estava a trabalhar num bairro de realojamento de vítimas das cheias, cujo terreno tinha sido cedido pelo Estado moçambicano e era tutelado por uma congregação religiosa. Alguns dias depois de eu ali ter chegado, as freiras convidaram-me para passar a almoçar com elas, no intervalo dos trabalhos -- como eu já tinha sido aceite pela comunidade, não haveria indecoro em deixar-me entrar nas suas instalações. Pensei que a abundância gastronómica que me foi apresentada nesse repasto fosse uma excepção, talvez apenas uma forma um pouco primária de cortesia para com a minha inédita presença. No dia seguinte, porém, entendi que aquele banquete faustoso era uma prática quotidiana, que estava nos antípodas da prosápia sobre o apoio aos desfavorecidos e sobre o amor lá do cristo. Nesse segundo almoço, conversava-se sobre a visita do prior, daí a uns dias, e definia-se o plano para ir a um sítio específico, na capital, comprar bacalhau, a peso de ouro, porque o senhor prior gostava muito de bacalhau. Aproveitei para perguntar como poderíamos financiar as refeições dos participantes na obra-escola que eu ali estava a coordenar, porque tinha chegado à conclusão de que os jovens vinham de casa, de manhã, quase sem comer e assim passavam o dia. A resposta foi uma brusca mudança de uma tese pro orgia-gastronómica (para o prior) para um rigor espartano no que diziam ser a «educação» dos jovens realojados, que tinham de aprender que não se lhes pode dar tudo, assim de mão beijada. Mesmo que o tudo fosse comida para a boca, que não tinham, para poderem trabalhar o dia inteiro.

Esta foi a minha última refeição com as freiras.

''

MM

extraído do jornal A Batalha nº298 Mar / Ago 2023

domingo, 13 de agosto de 2023

Primeiro, eles vieram pelos judeus

 e eu não me importei porque não era judeu.

Depois vieram pelos desempregados e pelos sem abrigo e pelos ciganos

mas eu não me importei porque tinha casa e renda mensal e não era cigano

Depois vieram pelos amigos e pelas namoradas

Quis lá saber!, eu não tinha amigos nem namoradas

Depois vieram pelo merceeiro e pelo pai pela mãe e pelo gato comunista do merceeiro

Ora foda-se, mando vir tudo pela néte!

Depois vieram por mim

e já ninguém estava cá para contar.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

E a culpa é de quem? Do doente, do médico ou da doença?

 Há coisas das quais me arrependo. Estando mentalmente estabilizado é-me difícil hoje aceitar alguns erros do passado. Estive doente e isso tira apenas alguma culpa. Quando uma pessoa está louca mesmo que seja ateia, essa pessoa sente-se omnipotente, em ligação directa com o mundo, sente-se criador de opinião pública, sente-se deus e reage como se fosse dono do mundo, como se fosse deus e se deus é fascista o louco torna-se fascista e todo o fascista é violento. A minha violência mostrou-se nas palavras que expeli contra os mais próximos de mim: pai, mãe, irmãs e cunhados; mas também contra antigos amigos e antigas namoradas. Os únicos que ficaram foram a família, os restantes desapareceram, tem a doença culpa do que eu fiz ou a doença revelou a minha maldade?

Vem tudo isto a propósito de me estar a lembrar que uma vez um amigo ao telefone disse-me que a sua mãe tinha morrido e eu, parece-me hoje, caguei de alto nos pêsames inflingindo mal ao meu amigo e, anos mais tarde num ataque virulento meu contra ele eu escrevi online: tu mataste a tua mãe!

Lembro-me disto porque são hoje os tempos em que sinto que a minha mãe está a entrar nos últimos anos de vida devido aos diabetes e a um avc que teve há uns anos e cujas sequelas começam a aparecer, e eu penso que estou a contribuir para o seu fim, agora que voltei para casa. Ela ouve mal e temos de lhe falar alto, temos de lhe dizer que agora somos nós que temos de tratar dela e não ser ela que trata de mim. Quando eu morava longe de casa, quase não sabia do que se passava. Voltei para a casa familiar e foi como se o menino tivesse voltado ao berço. A minha mãe torna-se quase chata, ainda estou a mastigar o almoço e já me está a sugerir comer um figo, uma fatia de melão, um cacho de uvas, comer, comer, comer, sempre a preocupação com que o filho coma porque enquanto esteve longe, o filho não comeu. E agora, a mãe vem carregada com sacos da frutaria para que o filho coma e como o filho não come, come ela para a fruta não apodrecer e ir para o lixo. Come ela, a fruta tem açúcar e aumentam os diabetes, o sol do meio-dia, os problemas da ciática, o saco das compras fizeram com que, em duas semanas, a minha mãe tivesse caído duas vezes na rua. Por sorte, não partiu nenhuum osso, hoje na urgência fizeram-lhe exames, disseram-lhe que os diabetes estão descontrolados, a minha mãe confessou que a médica de família na última consulta lhe dissera para parar com a medicação anti-diabética com o argumento de que os diabetes da minha mãe estão controlados.

Eu respondi: -- Mãe, é como a minha medicação anti-psicótica. Eu estou bem porque tomo a medicação. Se não tomar pioro. A tua médica procedeu mal.

E estamos nisto, e a culpa é de quem? Do doente, do médico ou da doença?

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Detalhe sem título



Manual de Sobrevivência

 

 

1. Título

 

a)

 

Nas cenas do covil o olhar das coisas, o porquê da desconfiança e o porquê do narcisismo explicam porque desejo falar de mulheres; o lugar de nascença, a moral, a dependência psicológica e o aborrecimento contínuo explicam o porquê do senhor que se segue ser os pedidos de ajuda e o conflito

mundial.

 

 

b)

 

O covil é um lugar onde dormem os lobos. Os lobos são animais furtivos que olham na noite as presas que olham na noite as presas. Africano. Quadro de grande porte num café em Rova, de proporções: quatro metros de largura por três de altura. Tons castanhos e pretos mostrando um rio escuro e preto no meio de uma selva castanha onde três mulheres negras estão. Espelho ao longo de toda uma parede comprida. Nos dois salões, mesas de pelica de linha preta, abstracto. No primeiro salão, o quadro africano na parede oposta ao espelho, chão de pedra pintado com certas influências de Seurat, tamanho quadrangular com um metro e trinta, reflexos fotográficos no centro de uma cidade, um estranho em terra estranha, um novato em terra nova.

 

 

c)

 

Deadlock. Não é possível. Registo com ar cínico, que dir-se-ia objectivo, frio, penetrante em nуs. Não, não registo nada. Os meus buffers de transmissão estão congestionados. Operam no limite. Para não haver deadlock, preciso de resolver problemas de comutação de pacotes. O meu dedo, o teu dedo nada é além de cínico, ambiciona a auto-destruição.

 

 

d)

 

Pai, pai... sou gay.

Não te preocupes meu filho, não há problema nenhum. Eu também sou mas isso não me impede de gostar de outras mulheres além da tua mãe.

 

 

e)

 

Existe quem diga que nós não somos o trabalho que fazemos, também não seremos a formação ou educação que recebemos. No limite e no absurdo, talvez também não sejamos aquele que nasceu e, então, somos 'nada', nem mesmo pó depois das cinzas.

 

 

f)

 

Tu que dizes que não gostas de conversas sobre definições e, depois, te chateias quando alguém tem uma definição básica diferente da tua discutindo no fundo a definição que, és tu próprio a dizê-lo, dizes não gostar... para ti e especialmente só para ti aqui vai mais uma definição. Apresento a minha definição de falhado: Um falhado é aquele que foi e deixou de ser.

Digo-te alguma coisa de novo? Vá lá!, não sejas mais uma cegonha, não metas o bedelho no buraco onde não és chamado...

 

Claudio Mur

sábado, 5 de agosto de 2023

the world of skin: nothing without you




i'm weak and i'm slow, when you are near.
defeated, i'll disappear. in the blood of your mouth, i'll disappear.
i'll stand behind you. we'll be here, forever. we won't move again.
your body's open, we're slipping down, through an open floor
we'll fall forever. i'm weak and i'm slow, when your eyes are on me.
defeated, i'll disappear. i left myself, beneath your skin
what were you? who was i then? look over there, against the wall
there's a memory there: red hands, blood and hair. i dont know where you are.
i don't know where i end, i'm nothing without you

SKIN - cry me a river


[Verse 1]
Now you say you're lonely
You cried the long night through
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried a river over you
Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried, cried, cried a river over you

[Chorus]
You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
You told me love was too plebeian

Told me you were through with me and

[Verse 2]
Now you say, you say you love me
Well, just to prove you do
Come on and cry me a river, cry me a river
Cause I cried a river over you

[Chorus]
You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, remember, all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me and
Now, now you say you love me
Well, just to prove you do
Come on and cry, cry, cry me a river, cry me a river
Cause I cried a river over you

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Estou chorando um rio para ti




POETA REREREVOLUCIONÁRIO

Dedicou-te o poeta alguns versos bem bons
do melhor que pôde, do melhor que soube.
Suou as estopinhas, tirou macacos do nariz,
irritou-se com a mulher, com a filha e com a criada.
Saiu nervoso de casa e, por ti,
nesse dia, em vez de uísque bebeu bagaço.

O poeta quase morreu a pensar em ti
na forma, no conteúdo, no poema,
no dilema, no crítico e na crítica
situação de dizer tudo, tudo
com palavras-pedra, palavras-chave
graves, agudas, fortes e esdrúxulas.

Garanto-te que o poeta quase se suicidou
para transmitir apenas numa folha
de 35 linhas tudo o que sabe de ti;
e disse coisas maravilhosas.

Falou dos horizontes vermelhos, dos amanhãs que cantam,
dos direitos totais e de outras regalias bestiais
até que cansado parou.

Foi quando enviou o poema ao director do jornal
com pedido de publicação e os cumprimentos do autor.


Fernando Madureira 

no volume «Da Angústia de cada coisa»
edição Língua Morta