quinta-feira, 23 de novembro de 2017

80 anos de Zeca Afonso


'For Zeca Afonso
(nos 80 anos do seu nascimento)'
óleo sobre tela
40 cm por 80cm
2009 - 2017
ZMB

Pretendi colocar o Zeca fazendo a revolução num moliceiro
num canal da ria de Aveiro (a arder)

e investindo contra a porca das finanças.


(fotografia de época)



Este quadro integrou uma exposição colectiva de homenagem
a Zeca Afonso e organizada pela associação
Cadeira de Van Gogh em Maio de 2010 no Porto.
A organização produziu o catálogo seguinte em formato 'livrinho de cd'


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

sábado, 18 de novembro de 2017

O inferno e os capeta

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Pois é leitor amigo, estou já deitado debaixo de quatro cobertores porque o frio já se começa a sentir, estou bem e a fumar o penúltimo cigarro do dia. São, agora que escrevo «agora», dez horas e vinte e três da noite, e o dia foi socialmente produtivo, muito hoje aconteceu nesta pequena ilha de vizinhos em Derza, também tenho aqui vizinhos maus, mas os melhores são meus amigos, somos uma comunidade, ocupámos duas casas, e eu pago a minha renda por um quarto a um senhorio, eu estou bem e dentro da lei, eles não têm nem água nem luz, andam a velas e a água... bem, a água somos nós -- os vizinhos bons -- que lhes damos, ou senão, vão fora da ilha recolhê-la no fontanário.
Dizia que estou a fumar o penúltimo cigarrro do dia, o último irei fumá-lo quando acabar de escrever estas novidades sociais do meu dia de hoje.
De manhã, o Benjamim tocou-me à porta a pedir se eu lhe podia guardar o portátil porque ele tinha de ir arranjar os cigarros avulso e ir visitar o Giuliani ao hospital onde estava internado. Giuliani tinha saído de casa na Quarta-Feira, bem antes da sete da manhã, antes de qualquer dos vizinhos acordar, estava com medo porque se dirigia ao hospital, tinha uma consulta às oito da manhã, Giuliani não tem passe social de transporte e como é reformado por invalidez como eu (mas com uma reforma de miséria, e de um valor inferior ao meu, que também não é grande), mas eu safo-me bem, eu tenho passe social de transporte público mas Giuliani anda a pé, não tem dinheiro para comprar nem sequer bilhetes de viagem quanto mais dar vinte e poucos euros por uma assinatura mensal e social de transporte público, eu posso pagar, Giuliani anda a pé, vai para todo o lado a pé, quer chova quer faça sol, e foi a pé que ele saiu de casa há dois dias para ir a uma consulta. Como não voltou nesse dia a casa, percebemos que tinha sido operado, ele tinha um quisto do tamanho de uma moeda de cinquenta cêntimos no pescoço, bem por baixo da orelha. Como hoje ainda não tvesse regressado, dois dias depois, Benjamim fez tenção de o ir visitar, a Raquel ligara ontem à tarde para mim e eu passei o telemóvel ao Benjamim que ficou a saber e nos deu as novidades: Giuliani está internado. Hoje, Benjamim pede-me para lhe guardar o portátil, bate-me à porta, acompanhado do Adriano (marido da Raquel), dizem-me que voltam já depois de arranjar uns cigarros, o que me dá tempo de ir comprar umas coisas no supermercado, e que depois eu guardarei Speed, o nosso cão de estimação, enquanto eles irão visitar Giuliani ao hospital. Quando eu volto do supermercado vinte minutos mais tarde, fico a saber que Giuliani afinal já regressou, deram-lhe alta esta manhã, deram-lhe um bom pequeno-almoço, trataram-no tão bem que ele até escreveu um poema que mostrou ao médico e às enfermeiras e ao qual o médico quis tirar um foto para  recordação, ou até para meter no face, quem o saberá, eu não, nenhum de nós, ficámos todos contentes quando vimos o Giuliani em casa de novo. A verdade é que ele nos faz falta, arranja-nos cigarros quando pode, vai-nos comprar vinho ao supermercado, eu não bebo mas estou sempre com eles, e até contribuo para a recolha de fundos, eles pagam-me de outra maneira, eu ganho uma vida social, até tenho pintado menos mas também não posso só pintar, até porque já não tenho quase paredes disponíveis no meu alojamento para pendurar quadros a secar, tenho de pintar com mais lentidão e aproveito os dias em que não tenho trabalho de pintura para passar o tempo com os vizinhos bons... recordo algumas palavras do Giuliani quando o vi da janela e ia ele já a sair para caminhar quarenta e cinco minutos para almoçar no albergue:
«Vocês são uns queridos ao se terem preocupado comigo, sabes que eu estava com medo, a gente não sabe se acorda da anestesia e depois da operação, mas correu tudo bem, estou vivo!»
É isso, Giuliani!, como o Mané disse um dia destes, és um sobrevivente, escrevo eu agora. O Giuliani estar às onze e meia da manhã cheio de energia e vivo, foi a primeira manifestação do dia importante que tenho para contar, o melhor vem ainda a seguir, é o que vou contar já, mas acho que vou parar para enrolar um finex de tabaco, porque preciso de dar descanso ao dedo, já teclei bem mais que uma crónica da leninha... o texto segue dentro de dois minutos, são agora vinte e três horas e dois minutos.

Despedi-me do Giuliani pela janela, fiquei a vê-lo descer a ilha, e voltei para começar a fazer o almoço, tinha arroz de pimentão doce num taparuere que sobrara do tacho de ontem, tinha dois hambúrgueres já descongelados, foi só grelhá-lhos, depois pensei no Benjamim: «Ele não pôde ir buscar comida ao restaurante da prima, não pode ficar sem comer nada todo o dia, vou-lhe fazer uma sandes com este hambúrguer, cômo só um, e vou tomar o meu café ao sol com ele.». E assim foi, almocei, lavei a louça, fiz café e a sandes, seriam já agora talvez quase uma da tarde.
Saí de casa e perguntei-lhe se não queria comer uma sandes de hambúrguer, ele perguntou se tinha queijo porque não gosta de produtos lácteos, e eu disse que não, é só um pão com hambúrguer, «pensei em pôr um pouco de manteiga mas lembrei-me que tu nã gostas», «sim, vou comer, obrigado Mur».
Comeu, eu bebi o meu café, e estávamos a apanhar sol e a conversar quando aparece o Adriano, de volta a casa, Speed até ladra e Benjamim acha estranho pois o Speed adora Adriano, reparámos então que com Adriano vem a Elisa.
A Elisa é uma amiga que a Rasa está a ajudar, Elisa está por uns dias a viver em casa de Rasa até resolver a sua situação, o seu visto expirou, e ela ou arranja um contrato de trabalho ou tem de voltar para o país de origem. De modo que Elisa aparece com Adriano na nossa ilha. Elisa tinha ido a uma entrevista de emprego de manhã que correra sem sucesso, ao voltar e como tinha de esperar por Rasa, lembrou-se de ir esperar por Rasa perto do trabalho, Rasa está neste momento quase a entrar no terceiro dia de teste num emprego, e amanhã saberá ao fim do dia se fica nesse trabalho, estou também a escrever este texto para ordenar as ideias e fazer a minha parte na história caleidoscópica que fará com que Rasa consiga um trabalho efectivo com salário e folga, é bem melhor que o trabalho anterior onde era tratada abaixo de cão pela Fa, a patroa que gostava de dela mas a fazia trabalhar quinze horas sem folga por trezentos euros, pois é leitor amigo!, quem precisa de ganhar dinheiro tem por vezes que aceitar trabalhos de quase escravo, Rasa saíu dessa escravatura e amanhã ligar-me-á a dar as novidades, que serão boas, vamos aqui pôr um like e transformar o que um católico chamaria de prece, e vamos nós transformá-lo no movimento «Rasa a Efectiva!» 
Assim, esta manhã, Rasa e Elisa saíram de casa, Rasa para o trabalho e Elisa para a entrevista, como esta correu mal, Elisa pensou em esperar por Rasa perto do restaurante, mas enganou-se na referência do local de trabalho, esta referência era a paragem de metro perto do hospital, mas ela saíu na paragem do hospital errado, como reparasse que estava perto de minha casa e como ontem também já cá estivera procurando empregos a partir de anúncios na internet, foi assim que ela arranjou a entrevista desta manhã, assim ela lembrou-se hoje de vir ter aqui à ilha e logo que Rasa terminasse o trabalho iria com ela para casa. Foi um filme, ela não se lembrava do caminho que fizera ontem para aqui, andou perdida pelas redondezas perguntando se ninguém conhecia um Mur pintor, foi assim que deu com o Adriano na rua e ele a trouxe para cá.
Ela chega e conta a história, diz que foi Deus que pôs aquele amigo no caminho dela. Chega e conta a entrevista que fizera de manhã, onde lhe disseram que não lhe fariam contrato, então ela chega e conta isto e diz que se se vai embora, ontem fora ao Centro Nacional de Apoio ao Imigrante e que eles a encaminham para o Estado lhe pagar a passagem de regresso ao país de origem, ficando impedida de voltar durante cinco anos e com uma dívida que lhe será cobrada se ela voltar antes dos cinco anos, diz que chegou a um ponto de ruptura, este país já lhe fez muito mal. Conta que se não fosse a Rasa estaria a viver na rua e que já chega de miséria, ela estava a viver na rua porque, diz ela calmamente, tão calmamente que parece maluca, que fugiu dos irmãos que estão em Portugal a gerir uma casa de alterne, e que a ameaçaram de morte, extorquilharam-lhe o salário, ela era garota de programa no bar dos irmãos e ela simplesmente fugiu, contou o sonho da cobra amarela e da cobra preta, ela tivera um sonho em que duas cobras apareciam: a amarela representava o irmão e ela pisou a cobra amarela mas a cobra preta ia atacá-la, era a irmã que tinha inveja dela, ela conta o sonho, Benjamim e eu ouvimos, eu penso que ela está tendo intuições próximas da loucura, o Benjamim pensa e diz-me mais tarde a sós que ela parece fugida da máfia, Benjamim fala em que ela deve ir à embaixada pedir asilo político, mas eu digo que não, ela está sendo ameaçada pelos irmãos em Portugal, o que ela precisa é de não ver mais a família, nunca mais ter contacto com eles, arranjar um trabalho com contrato e ficar com a autorização de residência e daqui a um ano ela obtém o seu cartão do cidadão. 
Pergunto ao Benjamim se não sabe se alguém precisa de funcionária num restaurante, ele diz que talvez e liga do meu telemóvel para um amigo da família que tem um restaurante, combina-se uma entrevista para amanhã de manhã.
Amanhã de manhã, Elisa sairá de casa com Rasa, irá ter com Benjamim que a levará à entrevista, Benjamim diz-me depois que fará tudo e só dependerá dela o ficar no trabalho e ganhar o contrato. Elisa foge de um submundo que ela próprio definiu como «O inferno e os capeta», nós tentámos dar-lhe boa moral, ela oscila e conta pormenores da sua vida no inferno do alterne, nós dizêmos-lhe: «só depende de ti, amanhã se tudo correr bem ficarás já a trabalhar, se trabalhares bem, o patrão faz-te um contrato como a Rasa terá já amanhã após o seu período de experiência, faz por te correr bem, trabalha duro e fala pouco e faz o teu melhor, é a tua última oportunidade, aproveita-a bem, tu podes sair do inferno, os teus irmãos podem ser da máfia mas de dia dormem numa cidade bem longe daqui, se tu tiveres um trabalho diurno e te afastares dos locais nocturnos de alterne, não terás problemas em desaparecer e a tua família não mais te fará mal, eles não saberão onde te procurar. Arranjas o contrato e trabalhas, ao fim de um ano e alguma burocracia tornas-te portuguesa e tudo correrá pelo melhor, terás o teu dinheiro, sairás de casa da Rasa que não te pode ter em casa por muitos mais dias, e arranjarás um quarto para dormir, ter-nos-ás como amigos, este é o caminho bom e o melhor que a gente te pode ajudar, não é fácil, se seguires este caminho bom saírás bem desta situação, se amanhã não ficares ao trabalho irás ao CNAI na Segunda-Feira e pedirás a tua passagem.»
Ela ouviu-nos, entretanto a Rasa passou por cá depois do trabalho de hoje, concordámos todos com este plano de fuga da Elisa, estamos conscientes que ela vive numa situação pior que a nossa, uma mulher na rua está sujeita a muitos mais perigos que um homem, e vamos todos esperar que amanhã ela resolva a situação. 
Eu agora vou rever este texto e fumar um último cigarro e dormir. É meia-noite e quatro, é já Sábado, amanhã é um dia importante para a nossa comunidade. Vai correr tudo bem, boa noite leitor ou leitora.
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Claudio Mur

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Hermes & Afrodite



'Hermes & Afrodite'
óleo sobre tela
80cm por 70cm
2001 - 2017
ZMB

(fotografia de época)



domingo, 12 de novembro de 2017

Um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura

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Num Domingo de São Martinho, sem castanhas mas com uma vaquinha reunida entre os vizinhos para comprar um pacote de vinho, ao qual se adicionará acúcar para o vinho virar suminho, disse-lhes eu: «vocês gostam é do suminho eheheh!» e eles respondem: «Sabes?, Mur irmão, é para cortar o amargo deste vinho...» «Sim, eu sei, faz-me lembrar o vinho doce, a primeira tiragem pela torneira do lagar, antes da fermentação, antes até de se pisar as uvas, dá cá uma diarreia eheheh».
De modo que o Benjamim quis saber: «Mur, diz lá, tu outro dia disseste que estiveste hospitalizado, pois eu diria que tu és normal, irmão!»
«Eu pareço normal não pareço?»
«Tu não pareces, tu és!»
«Sim, eu sou normal.» Concedo porque reparo que ele acha estranho eu lhes ter um dia dito que tinha sido internado, sei que eles querem perceber o porquê, porque eu não pareço louco, pareço até o mais calmo e são desta pequena comunidade que se foi formando este ano de 2017, algures na mitológica cidade de Derza, acabo por dizer:
«É complicado explicar, sei que hoje estou bem, mas nem sempre foi assim, a minha sorte foi melhor que a do Giuliani e do Heitor, a família deles abandonou-os, a minha nunca o fez, sei que tenho as minhas culpas, fui uma espécie de agente-provocador, mas sempre que saí do hospital tive o meu pai, a minha mãe e o carro de família para me trazer de volta à casa, isso diz tudo o que é necessário dizer, é tudo o que preciso de reconhecer como nota-testamento de vida, o que os meus pais me deram -- se não foi boa-vida e boa-educação -- foi amor filial, um pai, uma mãe não abandonam a cria e a cria volta sempre pródiga para casa e agradece, agradeço a meus pais o terem-me dado uma cama, comida, roupa limpa, um tecto para dormir, uma anexo para desenvolver o meu passatempo que começara a germinar, se eu não tivesse tido esta necessidade básica da vida resolvida pelas pessoas que mais sofreram com a explosão da minha cabeça, eu certamente morreria na rua como sem-abrigo ou na prisão com a cabeça aberta, se eu não pudesse, caso os meus pais não me dessem abrigo, alugar um quarto... eu na rua estaria desgraçado, teria fome e iria roubar um pão?... levavam-me para uma prisão com presos comuns e eu não passaria da primeira noite, chegaria lá dentro, pôr-me-ia a espingardar com um maioral e tratar-me-iam do sebo!... acredita.»
«Sim, irmão, mas... o que eu gosto em ti é tu és tão calmo, não procuras confusão, pareces um buda, que...»
«... que não pareço gajo maluco, não é? Olha que te digo, que um maluco não é idiota, um maluco sabe quando parar, por exemplo, uma vez evitei que me fodessem o corpo, levantei o braço e disse 'tens razão, desculpa, eu errei, vou-me embora', e eles, sorte a minha que repararam que eu estava alterado, eles recuaram quando já se formavam neles as mesmas chispas assassinas que devolvi do meu olhar a um gajo que estava comigo a assistir ao concerto do Iggy Pop em Coimbra, na Queima das Fitas em '94, porque eu me lembro do meu olhar nesse concerto que procurava uma eventual vítima para uma bulha, também eu nesse olhar a formar-se neles reparei, levantei a mão, pedi desculpa e vim-me embora, por isso tive a consciência de que se continuasse a provocar iria sair mal e magoado da bulha, por isso um maluco não é um idiota!»
«Sim, é do caralho!, tu tens consciência do que fazes mas isso só prova que não és maluco, irmão acorda!»
E eu pensei, tenho de lhe contar algo de verdadeiro que o faça perceber porque eu próprio me considero um maluco-lúcido, então digo-lhes:
«Uma vez fiz de cicerone de um amigo imaginário, e passei pela noite dentro na cidade de Triza, de cabeça pregada no chão e só a levantando para dizer ao meu amigo que ia a meu lado e não existia nem como fantasma e quem me visse só viria um gajo a falar sózinho e parar numa casa e dizer alto '... e então aqui no ano de '93 morei e estive com estas pessoas e aconteceu isto e aquilo...', é claro que eu sabia que o meu amigo imaginário não existia, era eu que estava a representar uma peça de teatro em directo para o mundo, as estrelas, a lama e o azul escuro do céu eram a minha audiência.»
De modo que eles ficaram pasmados, e eu pedi um pouco de vinho, senti-me emocionado ao falar e quando falo com emoção sinto a garganta a ficar seca, e só ouvia o Benjamin a dizer com o seu sotaque angolano: «é do caralho essa história irmão!»
«Mas há mais irmão Ben!, houve uma altura em que eu e um amigo estávamos na fase de roubarmos bicicletas, passámos num bairro social e roubámos uma bicicleta...»
«Oh, isso é coisa má irmão...»
«Sim eu sei!, e deu problemas porque eu fui reconhecido um dia num café ao qual fui com a bicicleta e o dono confrontou-me e eu devolvi a bicicleta e fui-me embora, não me aconteceu nada e o meu amigo mais tarde foi lá explicar-se em meu nome e saber de eventuais novidades ou se o assunto morreria ali. E morreu ali. Até que eu o desenterrei nessa viagem que já te falei pela noite a dentro em Triza, até à hora do primeiro comboio de volta à Derza, cheguei nesse Domingo a Derza e liguei a televisão no quarto, e observei que passavam um especial em directo na cidade de Triza, o jornal falava de teatro, é estranho, num tempo em que ainda não havia internet e tecnologia e redes sociais era como se a televisão e os jornais comentassem a minha viagem de véspera a Triza, é muito estranho... mas dizia-te desenterrei nessa noite o caso das bicicletas roubadas porque ao fazer a minha caminhada nocturna entrei no tal bairro social, primeiro olhei para o chão e disse alto 'encontrei uma pedrinha, vou já fumá-la!', e depois disse 'oh é merda é apenas um calhau de merda', e continuei a avançar, seria meia-noite, via-se pessoas reunidas no café do bairro, cá fora a fumarem, eu não olhava para eles mas sabia que eles olhavam para mim, então cheguei ao sítio das bicicletas e disse alto ao meu amigo imaginário ' e aqui no ano de '95 roubei uma bicicleta' e continuei a andar, diz lá que isto não é de maluco! Um gajo entra num local cheio de gente e começa a dizer que os roubou, é mesmo não ter amor à vida, e eu na altura não me importaria de morrer, mas não... para te provar que não sou um total idiota e apenas um maluco lúcido que se reformou da vida de merda... pois eu digo-te que bastou ter pressentido ou mesmo ouvido dizerem não sei se para mim ou não 'está a pisar a linha!', para eu ter virado costas ao local de bicicletas, ter seguido em frente sem falar, e a ouvir enquanto me afastava as vozes a silenciarem-se ao fundo, no fundo o que te digo é que um maluco testa os seus limites até ao ponto de ruptura, às vezes até ao colapso, compreendes agora, Benjamim?»
«Sim, agora te compreendo irmão, fumemos!»
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Claudio Mur




sábado, 11 de novembro de 2017

Abraçar e chorar, beijos e lágrimas de perdão

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As mesmas ideias que todo o dia na rua o haviam perseguido amontovam-se-lhe agora no cérebro doente, sem lhe deixar um minuto de repouso. Reflectiu, reflectiu, e levou-lhe muito tempo a dormir.
«Se ele quis matar-me sem premeditação -- cismava --, o pensamento já lhe devia ter vindo à mente, pelo menos uma vez. Sonharia com isso nos seus dias maus?»
Respondeu a essa pergunta de maneira bastante estranha: «Sim, Pavel Pavlovich queria matá-lo, mas a ideia do assassínio nunca antes lhe acudira.» Isto é: «Pavel Pavlovich queria matar mas não sabia quem queria matar.» «Não faz sentido, mas é assim -- dizia consigo Velchaninov. -- Não foi por causa de Bagautov nem para obter a nomeação que veio a São Petersburgo, ainda que, tivesse corrido os ministérios e ido ver Bagautov; a morte deste enraiveceu-o; ele, porém, desprezava Bagautov como um insignificante. Foi por minha causa que veio a São Petersburgo e que trouxe Lisa...»
«E eu? Estava à espera que ele tentasse matar-me?» Concluiu que sim, precisamente a partir do momento em que o vira a acompanhar de carro o enterro de Bagautov. «Desde aí eu esperava qualquer coisa, mas sem saber que era isto; não esperava com certeza que ele me degolasse!»
«Será possível -- exclamou erguendo bruscamente a cabeça da almofada e abrindo os olhos -- que fosse sincero quando me declarava ontem a sua amizade, de queixo a tremer e mãos no peito?»
«Sim, era sincero -- deduziu levando mais longe a sua análise. Esse Quasimodo de T.... era bastante generoso e estúpido para se enamorar do amante da mulher cuja conduta, durante vinte anos, acreditara irrepreensível. Pelo espaço de nove anos respeitou-me e venerou a minha memória, guardando consigo as minhas «expressões». Deus meu! E eu que não suspeitava de nada! Ontem, ele não mentiu. Mas estimar-me-ia ao afirmar essa estima e ao dizer: «Saldemos as nossas contas?» Sim, estimava-me odiando, que é o amor mais forte...»
«Foi pois assim. Em T... produzi-lhe uma impressão verdadeiramente formidável e «benéfica». Não podia acontecer de outro modo com este Schiller desdobrado em Quasimodo. Julgou-me cem vezes maior do que aquilo que sou porque o impressionei na sua solidão filosófica... Seria curioso saber o que ao certo o impressionou. Talvez as minhas luvas claras ou a maneira de as calçar? Os Quasimodos apreciam muito a estética! As luvas são o bastante para certas almas muito generosas, sobretudo para os «eternos maridos». Quanto ao resto, exageram e batem-se por nós se for preciso. E como ele avalia os meus meios de sedução! Talves esses meios de sedução o conquistassem. E a sua exclamação de outro dia: «Se aquele foi também, em quem posso acreditar?» Depois de um tal desabafo, tornou-se selvagem...»
«Hum! Veio aqui para me abraçar e chorar, como ele próprio se exprimiu tão vilmente; o que quer dizer que veio a São Petersburgo para me cortar a garganta, embora julgasse que não era senão para me abraçar e chorar... E trouxe a Lisa. Se eu chorasse com ele talvez me perdoasse, porque ele desejava furiosamente perdoar!... E tudo, desde o primeiro encontro, resultou em esgares de bêbado, em gestos grotescos, em lamentos de mulher ofendida (e os cornos, os cornos de que se gabou?) Foi por isso que apareceu embriagado, para poder despejar o que ocultava na consciência. Se não estivesse bêbado, não ousaria falar... Muito ele gosta de caretas e de palhaçadas! E qual não foi a sua alegria quando por fim conseguiu que eu o beijasse! Não sabia ainda, no entanto, como tudo terminaria, se por beijos, se por facadas. Finalmente achou que o melhor seria beijar e matar. A solução mais natural. Sim, a vida não ama os monstros e desembaraça-se deles por meio de soluções naturais. O mais monstruoso dos monstros é o que tem sentimentos nobres. Sei-o por experiência, Pavel Pavlovich! A natureza não é mãe para os monstros, mas madrasta. A natureza produz um monstro, e em vez de ter pena dele, condena-o. E assim deve ser. Beijos e lágrimas de perdão não convêm sequer às pessoas honestas, na época em que vivemos, quanto mais a nós, Pavel Pavlovich!»
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, páginas 167-169

Dostoievski
em 'O eterno marido'
Edição Livros Unibolso
Tradução de Maria Ondina

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Like Giuliani's methadone

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... then I arrive home after spending two hours washing and drying my clothes on a self-service laundry and turn on the door key. Ben looks to me from his flat window and says «come along for a spiced fag!», I think first on saving my clothes on the drawer and go for an homemade coffee and reply to Ben «maybe in a while.»
So I go to the kitchen, put the coffeemaker over the electric oven and go upstairs to unpack and save  the clothes. Then, I listen to smashing knocks on the door and go to see what's going on, I open the door and she enters and says «hold me love, hold me, let me kiss you...» I hold her and kiss her one time, hold her skinny torso and think «where were you for the last couple of days...» but I just kiss one more and go to the kitchen to finish the coffee, she comes along and says «you are angry with me, aren't you?», I say nothing and look to the coffee starting to boil, I switch off the oven, take a cup from the drawer and spill the coffee in it and she says «yes, you are angry with me but I am in deep trouble, just hold me, I'll tell you...».
I sip a bit of coffee and say «so, tell me, where have you been?»
«At home, I could not call in, I lost my cell phone...»
«You lost your cell...»
«Yes, in the toilet, it was swallowed by the toilet, I could not call you...»
«But you were not to just call me on the phone, you were to come in here two bloody days ago...»
«I have a problem, I'll tell, just hold me dear...»
«Let's go upstairs and you'll tell me all of it...»
«At least what I can tell love, let's just listen to our record!»
«Yeah, I told you, I have a new one»
So, we go upstairs, she sits on a bench and I go on to switch the Nass El Ghiwane CD for the newest Blackhouse record I bought over just because she told back in the day how beautiful their sound was and I had to buy it. The first one was a massive hit in our private parties, full of hash and beer, sometimes champagne and black beans with chicken, yeah loads of Blackhouse for our private nights, every night she had a new story and I always took the time to listen to her just like now I will listen to this new story of her because she is drunk and I can see it clearly and she is feeling alone and in need of shelter and I if I reach the very deep of the situation, I think and I realise she really needs me, she thinks on me when she's in deep trouble and looking for a secure place, so I will put the new Blackhouse and will listen to every bit of her story and will take the true parts out of her drunkenness «if only she thought of me she wouldn't drink so much, but let's just listen...»
«So tell me your story?»
«It's a maf situation, it's either kill or be killed, tomorrow is the deadline and will be over, I'll be in forever. I am being monitored»
«So what are you doing here?»
«I am giving you the explanation, are you still upset?, I will have to leave tonight at eight o'clock, I needed to talk to you, to hold you, I have to kill a person tomorrow...»
«How's that? That's way too far, what the fuck are you drinking, Rasa?»
«It's the truth babe, I am being monitored, they have put five g's on my account, there's no way out, I can not go back where I was before...»
«So, you're telling me you've accepted money from a guy to kill a person, and now you are telling me exactly what?»
«My blood is venom, I will not die, I will kill, I'm telling you, the guys are watching me, if I don't kill they kill me, this guy...»
«Who the fuck is he?»
«You wouldn't want to know, it's the maf, I told you already, it was the guy I trusted more and he is in the maf...»
«I thought I was the guy you trusted more...»
«The guy put money on my wallet and said tomorrow you'll fly and kill a person...»
«Yeah, I can see, you said yes for the money and the drinks, so now just deal with it, I will visit you at Santa Cruz do Bispo...»
«Hôw's that? I'll be dead tomorrow, they will catch me, I have to kill, actually I am a killer you know, do you still love me dear?»
«No, I can not love a killer, I am just waiting for eight o'clock, the moment you'll leave, I want to have nothing with your killings, at least you'll have money to fly home...»
«Wait a second, turn off this record, put our record, I don't like this, let's listen to 'Five minutes after I die', please?»
«Oh, this is great also, I bought it for us...»
«Just put five minutes, it's an order!»
«Ok ok your voice is my command.» (when I am on the mood I'll tell you Rasa)
So I put the old Blackhouse and she starts to calm down, asks for a cigarette and doesn't remember if she has taken her pouch, I go downstairs and grab it, she looks for her cigarettes and asks me for lights, I give her fire, she breeds, and asks me to unzip her cowboots.»
«I was with Fa, she's from the maf too, the guy works for her, I was there until now and I am drunk and I came because I wanted to tell you, do you understand?»
«You need sleep, you'll not go to work tonight.»
«But I have to kill someone...»
«Kiss me instead!»
«Call me a cab!»
«No deal Rasa, I am just waiting your leaving.»
And she falls over the bed in deep sleep like if she didn't sleep all the weekend. I switch Blackhouse for a Gipsy air mail music CD, and leave her sleeping for the afternoon, and go out for a walk to Ben's flat, well just to relax and have a spiced fag.
«I tell you Mur, I saw her, she was knocking Ernest's door, I told her Mur's door was the next one...»
«Oh brother, she's totally fucked up, she told me such a story, she's sleeping now...»
«What story did she told?»
«I can't tell, she's like Giuliani, whether he's for the methadone, she's for the drink, I'll tell you, I'm feeling like a father instead of a lover, she's in bad shape, her life is in a mess.»
«Yeah, I sensed that the other day she came here, but I tell you, if she comes to sleep in your house you should be grateful because if she comes to sleep with you it is because she feels secure with you... Is she going to work tonight?»
«That's what I am telling I don't know, she's sleeping, she once told me her boss, Fa, a woman you know, wants to take her out to Madeira, go with her everywhere sleep included you see, but she once told me also that Fa before, she was actually a man that has done a surgical operation for dick removal, so you see, she's sleeping now, I came here now but I have to go back because she may awaken and freak out because I'm not there...»
«Ok but just roll a fag to calm down brother, what's her story I sensed before?»
«Her head is on a mess, she's married, her husband is on a long vacation with a dragqueen, they are there for the whole year...»
«You mean, her husband is with a guy, oh I get it, I had a girlfriend who once told me about a friend who was left out for a man, she was so... she felt so abandoned... she even had thoughts on not being a woman at all, she even thought she was a lesbian, oh I understand Rasa's head brother and I totally support you but hey why don't you give her a way out of the situation, why she just don't come to live here with you?»
«No, I can't, I cannot afford, and she lives by the night and I live by the day, she's nice as a friend but I wouldn't live with her, I would have to support her booze, her smokes, her food, her music, it would not be us, it would be only her eating my self, that's the way she is, she is a child in need of a father to whip his ass and crave for annihilation of the other, my life is collapse, but I will not collapse anymore, I like her as a friend, she's a good laugh, she's tender, but her life is not for me, I get few for so much given, no, I will not be cheated again...»
«Yeah brother Mur, I totally understand you, When you told me before you were hospitalised for craziness... I'll tell you, you look no fool to me!»
«I'v been hospitalised four fucking times, nobody fools me anymore, yeah this fag is great your turn now...»
«Do another, roll on!»
«No, I don't have time for another, let's just finish this, I have to go and check her sleep.»
«Ok brother, see you later.»
'

John Moore,
o irmão imaginário de Claudio Mur

domingo, 5 de novembro de 2017

Para os fãs de Zero Kama

Alcatrão e penas

'
E era a pura verdade.
-- Não falemos mais disso, meu jovem e excelente amigo. Tomemos juntos e cordialmente um copo deste sauterne.
Bebemos e o grupo seguiu o nosso exemplo. Eles tagarelavam, brincavam, riam e cometiam mil absurdos. As violas rangiam, o tambor multiplicava os seus rataplãs, os trombones mugiam como tantos touros de Phalaris, e todo o cenário, alterando-se cada vez mais à medida que os vinhos aumentavam o seu domínio, tornou-se, com a continuação, uma espécie de pandemónio in petto. Entretanto, o senhor Maillard e eu, com algumas garrafas de sauterne e de clos-vougeot entre nós dois, continuávamos a dialogar com toda a força. Uma palavra pronunciada no diapasão vulgar não tinha mais sorte de ser ouvida do que a voz de um peixe no fundo do Niagara.
-- Senhor -- gritei-lhe ao ouvido -- falava-me antes do jantar do perigo que apresentava o antigo «sistema da bondade». Qual é ele?
-- Sim -- respondeu-me -- havia algumas vezes um grande perigo. Não era possível dar conta dos caprichos dos doidos, e na minha opinião bem como na do doutor Goudron e na do professor Plume, nunca é prudente deixá-los passear livremente e sem vigilante. Um doido pode ser adouci, como se diz, por um tempo, mas é sempre capaz de actos de turbulência. Para mais, a astúcia é proverbial e verdadeiramente muito grande. Se quer executar um projecto, ele sabe escondê-lo com uma maravihosa hipocrisia; e a habilidade com a qual ele contrafaz a sanité oferece ao estudo dos filósofos um dos mais singulares problemas psíquicos. Quando um doido aparece tout a fait, estamos mesmo a tempo de lhe vestir a camisa de forças.
-- Mas o danger, meu caro senhor, o perigo de que me falava? Com a sua própria experiência, desde que a casa está sob a sua direcção, tem uma razão material, positiva, para considerar a liberdade como perigosa num caso de loucura?
-- Aqui? Depois da minha própria experiência? Certamente, posso responder: sim! Por exemplo, «não há muito tempo», um estranho acidente ocorreu nesta mesma casa. O «sistema da bondade», sabe, estava então na moda e os doentes andavam em liberdade. Eles comportavam-se notavelmente bem, a tal ponto que todas as pessoas de senso teriam podido tirar, do que se passava, a conclusão que se urdia entre estes rapazes qualquer plano demoníaco. E, com efeito, uma bela manhã, os guardas encontraram-se atados de pés e mãos, deitados nos calabouços, onde eram vigiados como doidos pelos próprios doidos, que haviam usurpado a função dos guardas.
-- Oh!, que me diz? Nunca na minha vida ouvi falar de um tal absurdo.
-- É um facto. Tudo isso aconteceu graças a um tolo animal, um doido, que tinha, não sei como, metido no cérebro que era inventor do melhor sistema de governo, de doidos, bem entendido. Ele desejava, suponho, fazer uma prova da sua invenção, e, assim, persuadiu os outros doentes a juntarem-se a ele numa conspiração para deitar abaixo o poder reinante.
-- E realmente conseguiram?
-- Perfeitamente. Os guardas e os guardados tiveram de trocar os respectivos lugares, com uma única diferença: os guardas foram imediatamente metidos nos calabouços... e tratados, confesso-o com desgosto, de uma maneira pouco gentil.
-- Mas presumo que teve de se efectuar prontamente uma contra-revolução. Os camponeses da vizinhança, os visitantes que vinham ver o estabelecimento deram, sem dúvida, o alarme.
-- Nisso é que está errado. O chefe dos rebeldes era demasiado astucioso para que isso pudesse acontecer. Ele não admitia daí em diante nenhuma visita, com excepção, uma só vez, de um jovem gentleman com uma fisionomia muito ingénua e que não podia inspirar-lhe nenhuma desconfiança. Permitiu-lhe visitar a casa, como para introduzir nela um pouco de variedade e para troçar dele. Assim que o deixou descansar suficientemente, deixou-o sair e enviou-o à vida dele.
-- E quanto tempo durou o reinado dos doidos?
-- Oh!, muitíssimo tempo, um mês, talvez mais; quanto, não saberei dizê-lo. No entanto, os doidos proporcionaram a eles próprios uma boa vida -- poderia jurar-lhe. Eles deitaram fora os fatos velhos e rasgados e usaram à sua vontade o guarda-roupa da família e as jóias. As caves do castelo estavam fornecidas de vinhos, e esses diabos dos doidos eram conhecedores e sabiam beber. Eles viveram à larga, posso afirmá-lo.
-- E o tratamento? Qual era a particularidade do tratamento que o chefe dos rebeldes pusera em prática?
-- Ah!, quanto a isso, um doido não é na verdade um idiota, como já lhe fiz notar, e a minha humilde opinião é de que o seu tratamento era bem melhor do que aquele por que foi substituído. Era um tratamento verdadeiramente simples, realmente delicioso, era...
Aqui as observações do meu hospedeiro foram bruscamente interrompidas por uma nova série de gritos, da mesma natureza dos que já nos tinham desorientado. Desta vez, no entanto, pareciam provir de pessoas que se aproximavam rapidamente.
-- Valha-me Deus! -- exclamei eu -- os doidos fugiram, sem dúvida alguma.
-- Receio bem que tenha razão -- respondeu o senhor Maillard, tornando-se muito pálido.
'

, páginas 194-196
''O sistema do Doutor Goudron e do Professor Plume''
por
E. A. Poe
em ''Histórias Extraordinárias'
Tradução revista por L. Nazaré'
Edição Ediclube 1990

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Momento publicitário

Chegado a casa com uma nova tela para fazer um quadro inspirado em 'Jealousy' de Edvard Munch, liguei a aparelhagem e pus-me a ouvir um disco de Current 93, a edição gatefold de dois albuns: 'Swastikas for Noddy' e 'Crooked crosses for the nodding god', pus-me a pensar: «Isto é do tempo em que o David Tibet e acólitos tinha alguma coisa subversiva para dizer, ele, a última vez que pesquisei, é agora totalmente cristão, talvez continue como um gnóstico, mas o som do apocalipse que prega, isto é, o conteúdo sonoro é aborrecido. Ainda assim, estes dois albuns de 1987 soam ainda hoje frescos e cheios de ideias!»
Terminada a audição, desci para aquecer no micro-ondas o jantar. Como estou em modo poupança de luz, entro na cozinha acendendo a luz desta e apagando as restantes. Abro o frigorífico, retiro o taparuére e tocam à porta, mais precisamente, penso que com um objecto de metal batem no vidro da porta, de modo que apago a luz da cozinha, «deve ser o Nélson a pedir uma mortalha... mas ele não costuma bater com tanta força...» e acendo a luz da sala, abro a porta da rua e reparo que é noite, a hora já mudou, escuro como bréu, até que vejo o branco de uma camisa, olho e vejo um rosto oval com maçãs do rosto salientes e cabelo preto esticado, ela diz com um sorriso: 
« Ouvi dizer que hoje o jantar é em sua casa?!»
Êu olho para baixo mas sem nada ver e nem reparei na cor das calças mas imagino pelo tom afirmativo da voz que seja uma daquelas mulheres que nós, os rapazes de antigamente, costumávamos chamar de «cavalonas», quero dizer, mulheres com botas pelos joelhos, daquelas que gostam de dar ordens, de modo que eu lhe disse em tom igualmente firme:
«E porque razão?»
Ela olhou para mim, e, a sorrir, disse: «Estava só a brincar... nós andamos aqui a fazer um estudo de mercado sobre serviços de televisão... tenho o prazer de estar a falar com quem?»
Eu olhei para ela e disse ligeiramente irritado: «E trabalha para que empresa?»
Ela respondeu a sorrir: «Serviço Interactivo.»
«Nunca ouvi falar!»
«Prontos, nós estamos apenas a falar com as pessoas... qual o serviço de televisão do senhor?»
«Não tenho televisão.»
«Mas porquê?»
«Não vejo, não quero televisão.»
«Ah, e internet... qual o seu serviço?»
«É Optimus, quero dizer, é Nos...»
«Vive sózinho aqui?»
«Sim, sou sózinho.»
«Então, muito boa noite!» E estende-me a mão.
«Boa noite.» 
Depois de lhe apertar a mão, fecho a porta e volto para a cozinha para preparar o jantar. Ponho-me a analisar: «É! Quase que me saía a terminação, será que ela ia gostar do meu frango? Bruxo, são oito da noite, também já fui vendedor porta-a-porta, cheiinho de fome a bater a casa das pessoas, inventava-se cada maneira de iniciar conversa com os clientes... também corria mal de vez em quando, coitadinho de quem precisa de trabalhar...»


Mas antes do natal, vem o hallow'een



Café Campo Lindo
Porto

domingo, 29 de outubro de 2017

Sarah

Is it you Sarah?
No, it's the storm



well, i could dig up some words
but I prefer to read one master's voice,
the voice of Julian Cope,
about this cult album and band: 'Golem' by Sand:
https://www.headheritage.co.uk/unsung/albumofthemonth/sand-golem

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Mahana No Atua (O dia do deus)


'Mahana No Atua (O dia do deus)
óleo sobre tela
70cm por 100cm
2017
ZMB a partir de Paul Gauguin

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Traições e infidelidades

Nem mesmo as poucas pessoas que conhecem 'coisas' sobre mim
se terão apercebido desta história que vou contar.
Pois bem, eu namorava com a Maria (nome fictício) e estava satisfeito
mas depois num jogo de sueca ofereci à Joana (nome fictício) 
uma rosa acabadinha de roubar de um jardim.
Tanto eu como a Joana não nos apercebemos do desconforto que provocámos à Maria, a minha parceira no jogo.
As semanas passaram e eu comecei a aborrecer-me.
Um dia no café disse à Maria que queria novidades, acção e reparei que a Joana acabara de entar no café.
Vieram as férias e a Maria ainda não tinha chegado quando a Joana me encontrou
e disse que me queria,
eu disse que sim, mas o meu corpo teve alguma dificuldade em satisfazer logo o seu desejo
mas com a sua persistência e carinho, o desejo veio e durou um mês.
Só a Maria não sabia ou talvez fizesse que não sabia.
Eu acabei por me sentir mal em estar a enganá-la e decidi voltar só para ela.
Causei um desgosto à Joana e jurei que ia tratar bem a Maria.
Mas já não era igual ao antes-de. 
Comecei a sair mais com os amigos, ela fez o mesmo.
Até que novas férias vieram e eu pensei: sou um nabo, ela é bonita e fixe para mim, vou mudar.
Mas ela voltou e disse que já não me queria, e eu colapsei.
Seis meses mais tarde, voltámos a ver-nos, deu-nos o desejo de fazer amor,
e ela falou-me do novo namorado que vivia na terra dos pais
e quando se tinham conhecido, foi só fazer as contas aos meses.
Os meses passaram e conheci a Maria Joana (nome fictício, também conhecida como Ga...nza, ou simplesmente G.)
e também ela me escolheu entre vários pretendentes do momento
e também eu optei por ela enquanto me separava de uma X-Ana,
também ela teve a oportunidade de recusar os avanços do namorado anterior
e de me deixar no café informando-me que uma antiga amiga íntima lhe queria falar,
e também eu andava a ver se arranjava alternativa
e alternativa também talvez me quisesse mas eu não me sentia confortável com a situação.
Até que passei pelo deserto, comecei a satisfazer-me com 
cassetes de vídeo e os comerciais das televendas pela noite dentro na televisão,
até que fui trocado por quem uma amiga dela disse ser 
um cigano vizinho e eu ser já parecido com um papá.
Mais tarde tive a oportunidade de aguentar com as despesas emocionais de uma mulher
abandonada pelo marido que a deixou para ir viver com a amante num apartamento
e ainda lhe tirou as filhas e a deixou com sequelas de uma aborto que não quis assumir,
e eu fiz de cabrão-que-come-a-mulher-do próximo, passei por ser namorado, 
depois fui companheiro, vivêmos juntos e passei a ser o visconde que pagava as contas,
até que as constantes zangas e diferenças de opinião fizeram com que quase
nos batêssemos fisicamente, até que tivemos a coragem de evitar nos matarmos um ao outro
e nos separámos.
Fim.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O acórdão

Foram dois juízes que assinaram o acórdão, 
pensar que um homem pôde assinar isto remete-nos para a Idade da Pedra, 
mas saber que um dos juízes que assinou é uma mulher... 
é tão estranho que só o Imprensa Falsa quase consegue iludir:
Depois não há-de a gente se rir por desespero e contra os pilares da Autoridade!
Como se fosse verdade a Justiça ser Cega e não apenas Bem-Instalada,
esta mulher ofendida pelo acórdão devia também receber o afecto do Presidente,
mas deve ser pedir muito o ridículo em que a Justiça cairia, 
ganham pouco, dizem, para tão má qualidade de trabalho, digo eu.

'
Depois das notícias que dão conta de um acórdão que atenua o crime de violência doméstica porque a vítima terá cometido adultério, gerou-se uma enorme discussão em torno das fundamentações do magistrado para tal decisão, que passam pela Bíblia, por leis muito antigas e ainda por regras em algumas tribos.
Perante tanta polémica, o Imprensa Falsa tentou contactar o juiz responsável pela decisão mas foi-nos dito que está fora, durante pelo menos a próxima noite, estando a caçar um animal de grande porte para comer e fazer um casaco para o Inverno.
“Como não puderam almoçar, porque o senhor doutor juiz não pôde fazer o fogo – e não foi por não ter pedras, mas porque agora é proibido – ele pegou logo na lança e foi andando, porque diz que não tarda chega o frio e ainda não caçou o seu casaco”, esclarece fonte do Tribunal.
'
em

New Tomorrow, from Crushed Velvet Apocalypse,
by The Legendary Pink Dots

Silent as the final hour heralding a quake, we cut the wire . . .
We slipped the guard, sprayed "LOVE" across the barricades.
As searchlights swooped and froze and failed to isolate
a trace of life outside the gates of New Tomorrow.
The penalty for deviation's clear to those with ears
and eyes. We stretch our claws behind closed doors.
We always have our alibis. Outside we smile with
lips zipped, eyes fixed forward. We never criticise the
pure and guiding Light of new Tomorrow.
But though they burned the history books, they
cannot kill the ghost that cruises Blindman's
boulevard and plants a rose . . . who flings his seeds
of Breakdown Bridge and sees a legend grow of life
beyond the throes of New Tomorrow.
And we have watched the sun roll down the
mountain to a frozen lake. We have heard our laughs
go on forever deep inside a crystal cave. We
told them as they plunged the needle, pledging
our escape from the all-embracing arms of New
Tomorrow. WE SHALL SEE OUR KINGDOM COME!


https://www.discogs.com/The-Legendary-Pink-Dots-The-Crushed-Velvet-Apocalypse/release/138663


As imagens são catitas mas iludem a mensagem.
Como diz um comentador no tubo:
'This song is about facism with a smiley face.'

Editado em 1990 na Holanda.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O funâmbulo segue em frente e desenha o futuro


'O funâmbulo segue em frente e desenha o futuro'
óleo sobre tela
80cm por 60cm
2017
ZMB

(A partir deste desenho de 2002)

How ironic


Este desenho foi realizado nos meses que antecederam a minha terceira hospitalização.
Desenhei no verso de uma página de um livro fotocopiado.
Este e mais outros desenhos estiveram esquecidos até este ano de 2017.
Este ano reparei que este desenho, lendo-o de baixo para cima, poderia ter o título:
O passado, o presente e o futuro;

sendo que o presente se referia ao ano de 2002.
O presente na corda-bamba, o funâmbulo seguindo o seu caminho por entre o caos.
O futuro ser passar o tempo a desenhar, a pintar, ou qualquer acto de criação com as mãos.
O passado seria os anos de aprendizagem e a oscilação de emoções durante a universidade.
O passado pensei-o uma vez quando disse a uma namorada que a minha vida era uma seca,
demasiado estável, sala de aula, casa, bilhar com a namorada, etc, poderia estar hoje casado com ela
caso ela não me tivesse mandado passear.
Nessa conversa, e que mais tarde transformei em conto, eu falei-lhe do preço justo,
do quanto é justo pagar para obter algo, qualquer conforto, qualquer coisa: food vs. price,
imaginei um talho e uma balança, de um lado, os bifes e do outro lado, os pesos, os dólares.
Neste desenho pus, na parte inferior, uma balança e do lado direito,
a oscilação, o comboio, a natureza ingénua do campo, a morte do amor;
e do lado esquerdo a grande cidade
(ver pintura em cima e os arranha-céus no lado inferior esquerdo, inspirados no trabalho de
Little Annie e seu livro 'Meditation in chaos')
e o preço a pagar pela 'island of love'

Penso que esta metáfora, que eu desenhei num estado de quase-louco,
se cumpriu no Tempo com apenas ligeiras diferenças.
O futuro que eu previa em 2002 cumpriu-se em 2017.
Passo hoje o meu tempo a pintar.
Valeu a pena ser teimoso e nunca desistir.

domingo, 8 de outubro de 2017

Já não tenho motivos para deixar de pintar.

Uma amiga,
antes de partir de avião para o que não sei definir 
se como uma aventura gangsta-romântica ou um acto de caridade
envia-me a mensagem seguinte,
uma simples mensagem do facebook, daquelas que pretendem ser virais,
(anda praí a gripe dos afectos)

A vida na terra é uma passagem, o amor uma miragem, mas a amizade é um "fio de ouro" que só se quebra com a morte. Você sabe? A infância passa, a juventude a segue, a velhice a substitui, a morte a recolhe. A mais bela flor do mundo perde sua beleza, mas uma amizade fiel dura para a eternidade. Viver sem amigos é morrer sem deixar lembranças. Envie a quem vc tem amizade e para mim se eu fizer parte de suas amizades.

e eu dou por mim a devolver-lhe a mensagem
sabendo que esta amizade, 
e a sinceridade para lá das palavras que se partilham em cadeia no face, vale platina.
É bom saber que não estou sozinho.
Ter uma amiga é melhor que ter uma esposa.
A gente não desculpa as pequenas mentiras a uma esposa que se sente constrangida a esconder.
A amizade é partilha, 
é maior que só o sexo, a cozinha e a obrigação de pagar contas 
a que se resumem ao fim de algum tempo as ligações com anel oficial.
Estou bem com o mundo.
Não sinto já, com raras excepções, o mundo como uma ameaça.
Não sinto já a necessidade de ameaçar como auto-defesa.
Estarei curado da paranóia que me diagnosticaram?
Sinto-me lúcido, é tudo, eu e ela estamos para lá do ciúme,
e quando os nossos caminhos se encontram fazemos a festa
como se não nos víssemos há anos,
e tirando uma família ranhosa de vizinhos
os restantes são, como se diz, Top e multiculturais.
Já não tenho motivos para deixar de pintar.
Até ao próximo post, caros leitores!

adenda: este artigo que acabo de ler:
https://www.dn.pt/sociedade/interior/voltar-a-ser-pessoa-depois-de-estar-fora-da-vida-8826689.html

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Aborto


'Aborto'
óleo sobre tela
40cm por 40cm
2001 - 2017
ZMB


'Aborto 2'
pastel de óleo e grafite sobre papel
59,4cm por 42cm
2006
ZMB

Desenhos associados:
SIM no referendo ao aborto

Santo António e o aborto

Não me recordo se votei no primeiro referendo ao aborto em 1996.
Eu na altura abstía-me por desinteresse e falta de informação.
pude ser irónico quanto ao resultado do referendo.
Em 2008 no segundo referendo votei Sim em consciência.

Já antes tinha a ideia de que uma muher que abortasse não devia ser presa
e que devia ter o direito (juntamente com o companheiro caso o tenha)
de poder escolher se querem dar vida a um filho.
Sempre me preocupou o nascimento de 'abortos':
filhos não desejados, ou filhos que vão crescer na miséria também às vezes porque
os pais não têm condição económica.
Neste casos é preferível uma criança não nascer do que lhe serem cortadas as pernas à nascensa.

No último desenho (realizado em 2017) faço alusão
ao santo antónio, padroeiro dos casamentos,
como contraste à, felizmente, já não criminalização do aborto.



(fotografia de época com linha de sombra)


terça-feira, 3 de outubro de 2017

Claro qu'ela tava cheia de speeds, como sempre
e um dos gajos perguntou-lhe s'ela é qu'era a noiva
e ela disse que não, qu'usava contraceptivos,

'
Bom, seja lá como for, quando a Suzy disse ó Tommy que tava de barriga, calculo qu'ele tenha ficado um bocadinho espantado. Não sei. Ele não disse nada, mazeu acho que sim. De maneira qu'ela contou-lhe e foram os dois dar um passeio p'la marginal e no regresso pararam em Coney Island e comeram uns cachorros no Nathan's e nessa época ele tava a trabalhar e deve-lhe ter dito que casava coela, calculo eu. P'lo menos não me parece que tenha dito que não casava. A verdade é que não lhe fazia lá muita diferença. Qué dizer, ele já tinha uma mota, paga até ó último cêntimo e toda artilhada comele qu'ria, e podiam ir os dois morar pa casa dos velhotes dela, no andar de baixo. Por isso que se lixasse. E acho qu'ele até se qu'ria casar, sei lá. Sabem como é. Mas não sei se ela lhe chegou a pedir. Qué dizer, ela podia-se ter livrado do puto sem demasiada chatice. Há mil e uma maneiras. Mazo Tommy era um gajo porreiro, nunca chateava ninguém e nunca tinha batido nela nem nada, de maneira qu'ela devia ter vontade de se casar coele, acho eu. É cassim não ia ter de trabalhar, só dar de comer ó puto e esse género de coisas. De maneira caté resultou bastante bem. Seja como for, o Tommy entrou no Greek's uma noite e disse à malta qu'ia ser pai e o Alex serviu-lhe um café por conta da casa e o Tommy deixou o Susto dar uma volta na mota.
Quando o velhote dela cozeu a bebedeira (já ela tinha voltado pa casa do hospital co bebé nos braços e dito assim, este é o avô, e o velhote tinha-se posto outra vez a choramingar), disse-lhe qu'ia dar uma ganda festa e foi ter co Murphy, o dono do bar, e disse-lhe que qu'ria alugar a sala do andar de cima pa um copo-d'água. E quando o Murphy lhe perguntou pa quando é qu'era ele disse que não sabia mas qu'era pa daí a poucos dias e então o Murphy disse-lhe co Exército da Salvação ia reservar a sala pa um ajuntamento daí a poucos dias, de modo co velhote disse daqui a duas semanas e deixou um sinal e foi pa casa e contou à velhota e à miúda e foram à procura do Tommy e ele disse que tava bem e continuou a puxar o lustro à mota e foi assim que marcaram a data do casamento e combinaram as coisas pò batizado. É claro que mentiram um bocadinho no baptizado, tão a ver, maza velhota achou que sempre era melhor mentirem um bocadinho do que não conseguirem baptizar o pobre do puto. De maneira que trataram dos papéis e alguns dos rapazes foram coeles e a coisa só durou uns minutinhos e depois fomos pò Murphy's pa esperar que fossem horas do baptizado e pa eles deciderem quem é qu'iam ser os padrinhos. Acho qu'eles lá acabaram por arranjar uma tia e um tio, não sei, mazenfim, foi nessa altura cas coisas coimeçaram a animar. O salão do Murphy's é grande à brava e fica por cima do bar e ele tinha posto garrafas de whisky num balcãozinho ó canto e barris de cerveja e uma mesa comprida cheia com todo o género de sandes. De maneira que cada um de nós agarrou numa caneca de cerveja e começámos a enfardar as sandes e o Susto entrou e disse à malta que tinha arranjado uma mota. Vocês deviam ter visto. Tinha comprado uma moto velha da polícia por meia dúzia de dólares e tinha-a arranjado toda. Sabem, deu-lhe uma lambuzadela de tinta e gamou um assento maluco todo forrado com pêlo e cheio de cromados e tava em pulgas pa nos mostrar a máquina. A gente dissémos-lhe pa ter calma e pa se descontrair e festejar o casamento do Tommy. De maneira calguém lhe meteu uma cervejola na mão, mazele passou-se quando lhe tentaram tirar aquela porra daquele boné da cabeça, de modos ca gente disse que tava bem, qu'íamos até lá baixo pa ver a mota dele. Ganda coisa. Vocês sabem como é, quando os chuis pôem uma mota de parte, enfim, é porque já deu o que tinha a dar. Mas sempre era uma mota e andava. Tenho cá a impressão caquele filho da mãe era gajo pa tê-la comprado mesmo que tivesse de andar a empurrá-la ó a dar ós pedais como num carrinho de putos. E vai daí ó fim de 5 minutos ele carregou no pedal de arranque e a gente ouviu a mota a tossir e a engasgar-se e o Susto lá levantou ferro cum sorriso de orelha a orelha e nós tornámos a subir as escadas e ó fim dalguns minutos ele tornou a aparecer, a sorrir à porra da sala toda e coa alça do boné muito bem presa por baixo do queixo. Só vos digo, pá, era de morrer a rir. Mas que se lixe, a gente tava-se a divertir à brava e não sabíamos o qu'era querer uma mota e não a termos e quando demos por isso o gajo tava a falar coa velhota da Suzy sobre a mota e ela tava a enfrascar-se que nem gente grande e ó fim de pouco tempo começou a choramingar, a falar da sua crida menina, a dizer ó Susto com'era a carinha dela quando tinha nascido, parece que foi ontem e agora ela aí tá, uma mulher cresccida, casada e mãe de filhos, e o Susto ia fazendo que sim coa cabeça e disse pois, mazeu só preciso é de limpar bem as velas e lavar o carburador bem lavadinho -- o que ele próprio podia fazer de noite sem gastar um tostão -- e aquela mota vai andar tão bem na estrada como qualquer outra e se formos a ver que só custou uma nota de cem, foi um ganda negócio... e já há muito tempo ca Suzy tinha mandado passear o velhote e a velhota e tava a enfardar sandes de mortadela que nem uma doida e as coisas começaram mesmo a animar. É claro calguns dos vadios que tavam no bar subiram escada acima e deram muitos parabéns e deitaram a unha a tudo o que puderam e quando o baptismo acabou e os noivos voltaram co puto toda a gente se pôs a dizer ó velhote e à velhota qu'ele era igualzinho a eles (e a velhota é cá um coirão qu'eu nem vos conto!) e eles choramingaram e deram muitas palmadas nas costas dos convidados e disseram-lhes que bebessem maizum copo e alguém tinha uma máquina fotográfica e as lâmpadas de flash faziam pop! e depois o gajo atirava-as contrá parede. Claro co puto desatou a berrar mas lá trataram dele e a festa começou a valer. Tinham um gira-discos e uma data de discos muito porreiros, do Illinois Jacket e do Kenton; e a Roberta, uma bicha toda desempoeirada das redondezas, apareceu e começou a dançar e a gingar e alguns dos rapazes tavam pedrados e puseram-se a dançar coela e ela tava-se a divertir à brava! Claro qu'ela tava cheia de speeds, como sempre (a não ser quando tinha erva) e um dos gajos perguntou-lhe s'ela é qu'era a noiva e ela disse que não, qu'usava contraceptivos, e depois começou a dançar coa velhota e co velhote da Suzy. Issé que foi um gozo do caneco! A velhota ainda tava toda ranhosa e a choramingar e pôs-se a abanar aquele cu enorme cheio de banhas e a malta íamo-nos mijando nas cuecas. Eh, pá, foi dum gajo se cagar a rir!
'

, páginas 108-112
'Última saída para Brooklin'

Hubert Selby Jr.
Tradução de Paulo Faria
Edição Antígona 2006

domingo, 1 de outubro de 2017

A mesa do fado


'A mesa do fado'
óleo sobre tela
65cm por 80cm
2014 - 2017
ZMB

Descobri que a cor 'ivory black' é um preto usado para fazer misturas com outras cores.
Ao substituir o fundo laranja pelo preto que sempre usei, reparei que este tinha uma tonalidade baça,
ou seja, não era absolutamente preto. Disseram-me que eu deveria procurar um 'ebony black'.
Fui à loja de pintura habitual e perguntei
dos três pretos em venda: o marfim, o fumo ou o marte, qual deles seria o mais preto,
foi aí que me disseram que o mafim (que é branco apesar de eu pensar que ivory black era simplesmente 'preto da Costa do Marfim) era usado para misturas,
 e não estando o preto-marte disponível em óleo trouxe o preto-fumo.
De modo que repintei o fundo com 'preto-fumo' (lamp black)
deixando uma marca de ivory black para poder verificar a diferença de tom entre os dois pretos.
Com esta nova camada de preto, tornou-se mais imperceptível as marcas da torre
que tinha eliminado anteriormente.


(foto com fundo preto-marfim)
--
[em Setembro 2017]

Por sugestão de um potencial comprador, que me disse que a cor do fado é o preto,
substituí o fundo laranja, por preto com vestígios de vermelho-escuro.
Eliminei iguamente a torre que tinha uma luminosidade verde-alien
e que distraía e perturbava o observador.

(A fotografia tem algumas reflexões de luz vinda de uma janela virada a norte.
o preto engole a claridade e eu não tenho melhores condições para fotografar.
como em tudo, é preciso ver com os nossos próprios olhos e
não a partir de uma foto, a imagem fotografada dá apenas uma perspectiva incompleta da obra,)


-
[em Janeiro de 2015:]

Abro aqui uma nova etiqueta para colocar seis trabalhos
de algum modo relacionados com o fado.
Na verdade, pouco perccebo de fado
embora haja alturas de solidão em que gosto de o ouvir.
Para os puristas, este trabalho que aqui apresento 
não é fado
porque lhe falta uma viola para tocar o ritmo.