domingo, 24 de setembro de 2017

Foto da exposição


(foto de Jorge Marques)

Da esquerda para a direita:

- O vocalista da mítica banda Tarântula, também pintor
- Arnaldo (se não me falha o nome) pintor com quem me lembro de falar quando eu vendia aguarelas na Rua das Flores
- Damião Vieira pintor e designer e um dos meus chefes no meu derradeiro trabalho com contrato antes de me reformar e dedicar em exclusivo à pintura
- eu-próprio ZMB em frente a dois dos meus quadros expostos.

De referir que Damião Vieira também está presente com quadros em acrílico nesta exposição.
Ele é detentor de uma técnica da qual tenho inveja e com quem muito aprendi,
além disso pinta uma 'arte pop com intervenção social'. Muito bom!


Mas o melhor da exposição foi mesmo ter conhecido a Redonda
É uma senhora mulher, muito bonita, elegante e com uns olhos fundos lindos
(não de morrer porque isso seria sinistro mas)
lindos de desmaiar em êxtase :)
Mais uma vez obrigado por teres vindo.

domingo, 17 de setembro de 2017

Passara-se ali qualquer coisa, um sentimento qualquer, que parecia pintar aquilo com cores risonhas.

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Harry sentiu-se confuso e aturdido ao sair de casa da mãe. Não estava somente confuso e aturdido, estava também ciente disso. Sabia que lhe custava sempre imenso estar ao pé da mãe, pois ela parecia perita em mexer os cordelinhos na cabeça dele e em fazê-lo trepar pelas pareces, mas daquela vez sucedera qualquer coisa diferente e inesperada, e ele não sabia ao certo que raio era aquilo. Não tinha vontade de gritar com ela nem de lhe chamar nomes, tinha era vontade de se esconder no mais fundo de si próprio. Ou talvez se sentisse sempre assim, na verdade. Não sabia ao certo. Foda-se! Era confuso comò caraças. O cabelo ruivo. O vestido vermelho. O concurso de televisão. Tudo aquilo parecia um disparate completo, mas, ainda assim, passara-se ali qualquer coisa, um sentimento qualquer, que parecia pintar aquilo com cores risonhas. Talvez fosse porque a mãe estava feliz. Isso era porreiro. Nunca se dera conta de até que ponto desejava que a mãe fosse feliz. Nunca antes pensara no assunto dessa maneira. A questão é que estar ao pé dela era sempre uma seca. Mas hoje ela estava nas nuvens, oh se estava. Bruxo, a tripar co'aquela merda das pastilhas. Santo deus, ele não sabia o que fazer, porra. A velhota dele a tripar com pastilhas para emagrecer e a pintar o cabelo de ruivo... Harry abanou a cabeça à medida que as palavras e os pensamentos o bombardeavam, aumentando a sua confusão e perplexidade. Não sabia o que estava a acontecer com a mãe, mas sabia que ele próprio estava a precisar de uma dose. Isso me'mo, uma quarta de castanha e vai tudo ficar na maior.
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, páginas 175-176

'Requiem por um sonho'
Hubert Selby Jr.
tradução de Paulo Faria
edição Antígona 2017

"The love you give is the love, the love you get, you get..."



(Dedicado aos meus amigos irlandeses,
eles são a terra daquela que foi a maior banda do planeta)

Lyrics: Heathen, a pagan No sun shines for me Savage but gentle The animal within And I see it now And I see it now I had a weird dream - watch but don't touch I had a weird dream - I'm taking away "put it in a bag - Hide it in tree" "put it in a bag - Hide it in tree" I want to steal your heart, your heart With these eyes I cannot see And this cold heart never bleeds, Never, No never... Sweet smell, this poison, the watch but don;t touch Tongue swollen venom, so touch to...to love, Ah i see it now, and I see it now I had a weird dream - watch but don't touch I had a weird dream - I'm taking away "put it in a bag - Hide it in tree" "put it in a bag - Hide it in tree" I want to steal your heart, your heart I reach for the sky but never, ever can touch It seems so easy, easy to me Still I cannot, will not take this thing Hearsay, this heresy A victim to sin Eternal the torment, the answer lies within I had a weird dream - watch but don't touch I had a weird dream - I'm taking away "The love you give is the love, the love you get, you get..."

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A mesa do fado


'A mesa do fado'
óleo sobre tela
65cm por 80cm
2014 - 2017
ZMB

Por sugestão de um potencial comprador, que me disse que a cor do fado é o preto,
substituí o fundo laranja, por preto com vestígios de vermelho-escuro.
Eliminei iguamente a torre que tinha uma luminosidade verde-alien
e que distraía e perturbava o observador.

(A fotografia tem algumas reflexões de luz vinda de uma janela virada a norte.
o preto engole a claridade e eu não tenho melhores condições para fotografar.
como em tudo, é preciso ver com os nossos próprios olhos e
não a partir de uma foto, a imagem fotografada dá apenas uma perspectiva incompleta da obra,)

--
[em Janeiro de 2015:]

Abro aqui uma nova etiqueta para colocar seis trabalhos
de algum modo relacionados com o fado.
Na verdade, pouco perccebo de fado
embora haja alturas de solidão em que gosto de o ouvir.
Para os puristas, este trabalho que aqui apresento 
não é fado
porque lhe falta uma viola para tocar o ritmo.





terça-feira, 12 de setembro de 2017

For Merzbow



Merzbow é o nome do projecto de um artista japonês de música noise
activo desde o final dos anos 70

https://www.discogs.com/artist/12551-Merzbow


For Val Denham


'For Val Denham'
tinta acrílica e aguarela sobre desenho em papel colado em cartão canelado
37,5cm por 32cm
2017
ZMB
 Val Denham é uma artista visual transgénero, também faz música.
Vive em Inglaterra.

As suas imagens no google aqui

sábado, 9 de setembro de 2017

Scuascraamo 2017


'Scuascraamo 2017'
técnica mista sobre papel
59,4cm por 42cm (tamanho A2)
2017
ZMB

É a segunda chamada à pedra para pintar o tema.
Um quadro sobre tela foi terminado em 2014, aqui:

Ambos são baseados num poema que deu origem a este desenho em 2000/2001, este:

Os mortos também dançam


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Os senhores fiscais querendo extorquir meia cabeça grande

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-- viva Odorico! -- o bêbado gritou novamente
os fiscais DestaVez e DaOutra aceitaram, sem pagar, a cerveja que MariaComForça lhes ofereceu, deambularam pela festa, miraram de longe o recolhido galo, trocaram breves palavras com Edú e dirigiram-se intencionalmente à jovem jornalista
-- a jovem está munida da respectiva autorização?
-- como?
-- a jovem faz-se acompanhar da necessária documentação?
-- como assim?
-- estamos em Angola, minha jovem, aqui os acompanhamentos da comunicação social exigem documentações várias
-- não entendo
-- mas já vai entender -- DestaVez sorriu
-- sim, já vai entender -- DaOoutra confirmou
-- e os outros jornalistas, também precisam desses documentos?
-- os nacionais são inerentes
-- como?!
-- os nacionais já são inerentes, minha senhora, a documentação para reportagens, sobretudo de teor fotográfico, custa dinheiro, espero que a senhora esteja preparada
-- não sei se entendo
-- por sorte nós somos fiscais de funções multifacetadas, poderemos talvez ceder algumas informações e até a respectiva autorização
-- os senhores é que fornecem esses documentos? -- a moça, séria, quis resolver a questão para continuar com as fotografias -- trabalho para a BBC, e sou credenciada
-- mas está credenciada para este evento?
-- para este evento, especificamente, não... mas no geral...
-- no geral é uma coisa -- disse, lentamente, DestaVvez
-- no particular, mesmo que conjuntural... -- disse DaOoutra -- é outra estória
-- os senhores quem são?
-- somos DestaVez e DaOoutra, os fiscais
-- fiscais? de que Ministério?
-- de vários
-- vários? mas quais?
-- vários, quer dizer, também os que implicam este tipo de autorização
-- não sei se entendo
-- isso já percebi, que está com dificuldades em entender, quanto mais difícil de entender, mais difícil de fazer o seu trabalho
-- mas é preciso alguma autorização especial para cobrir eventos?
-- sim, porque há uma diferença entre comparecer e cobrir -- anunciou DestaVez
-- sim, há uma diferença -- confirmou DaOutra
-- mas normalmente...
-- minha senhora, isto não é uma situação normal, isto é uma inauguração cultural de teor paralelo...
-- como? -- a jornalista chegou a pensar que os fiscais estivessem bêbados
-- veja bem, a questão é que a senhora precisa de uma autorização, mas só nós sabemos que a senhora precisa dela... não é assim?
-- acho que sim
-- e só a senhora sabe que não a tem, então para quê complicar?
-- os senhores é que estão a complicar
-- não, a senhora é que não está a facilitar, se não facilitar mesmo, é que depois aparece a complicação
-- e como é que eu «facilito mesmo»?
-- por exemplo, com meia cabeça grande
-- como?
-- meia cabeça grande -- explicou DaOutra -- é uma nota, normalmente verde, de cinquenta dólares americanos, isto para não cobrarmos em euros, só porque no caso trata-se de uma madame jornalista
-- e se fosse homem?
-- homem? -- DaOutra olhou para DestaVez para que o irmão avaliasse a situação
-- homem seria cem euros ou mais
-- e porquê? -- a jornalista estava irritada
-- porque os angolanos são mais simpáticos com as damas
-- e se for um angolano que goste de homens?
-- que gosta de homens? mas como assim? -- DestaVez ficou nervoso
-- de homens, se for um fiscal que goste de homens... sabe? nesse caso talvez ele cobrasse meia cabeça grande a um jornalista da BBC homem... e podia cobrar cem euros a uma jornalista, mulher...
-- não estou a par de nenhum caso -- DaOutra também parecia confuso
-- eu ouvi dizer que os fiscais aqui em Luanda... costumam ser mais simpáticos com os jornalistas homens... não sei se é o vosso caso. aliás, eu ia escrever justamente sobre essa questão... vi tantos homens aqui na festa... até os senhores, que chegaram juntos
-- nós somos irmãos de pai
-- mas isso, lá na BBC, ninguém sabe...
-- bom, então vamos lá resolver as coisas melhor... -- DestaVez tossiu. -- desta vez a senhora pode prosseguir com o seu trabalho, e fica com esta nota verbal só de prevenção
-- agradeço a atenção, senhor fiscal
-- muito bem -- disse DestaVvez
-- muito bem, sim -- disse DaOutra
-- então sejas feliz, como dizem na igreja
-- obrigado, senhor fiscal
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, páginas 225-228

'Os transparentes'
Ondjaki
edição Caminho, 8ªed, 2015

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Only love can break your heart



[Verse 1]
When you were young
And on your own
How did it feel
To be alone?
I was always thinking
Of games that I was playing
Trying to make
The best of my time

[Chorus]
But only love
Can break your heart
Try to be sure
Right from the start
Yes only love
Can break your heart
What if your world
Should fall apart?

[Verse 2]
I have a friend
I've never seen
He hides his head
Inside a dream
Someone should call him
And see if he can come out
Try to lose
The down that he's found

[Chorus]


[Verse 3]
I have a friend
I've never seen
He hides his head
Inside a dream
Yes, only love
Can break your heart
Yes, only love
Can break your heart

terça-feira, 5 de setembro de 2017

«As novas desilusões da cor» por Claudio Mur

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Devo agora contar-vos coisas difíceis de contar, principalmente quando se trata do passado longínquo. Vai para aí quinze anos desde que tudo se passou. Agora os tempos são bem diferentes. Quatro cafés por dia. Às vezes um hamburguer, outras vezes uma sandes de frango ou atum ou uma bifana no Marnoto. Mas a rotina ainda impera: a cantina alternando com a casa dos papás.
Alto! Alto e paira o baile! Disse papás e enganei-me. Onde escreví papás deveria ter escrito pais. Mas mesmo assim não ando assim tão longe da verdade, pois não sou eu o filho de duas estátuas egípcias? Escrevo tudo isto agora como se se passasse num futuro onde fosse possível que um filho adoptivo de um casal homossexual pudesse amar. Esse filho seria um funâmbulo de profissão. Chamar-se-ia de C. e teria uns vinte e um anos de virgindade gemendo ansiosos de bruta violação. Devido às realidades culturais seria admitido ao centro de reeducação alimentar CReEA de Derza e logo aí revelaria dotes literários, eis o que ele escreveu ouvindo COIL, numa toada egípcia enquanto olhava uma foto de família:
“Eu sou o filho de duas esfinges e Ela está representada por um busto namesma página. É a mulher, a princesa do meu destino. As duas estátuas egípcias são os meus verdadeiros pais, a minha mãe canta uma música retirada de um CD, parece descrever um ritual, ouço e tento corresponder ao criar a minha última obra. Então, esborrato metade de um tubo de verde na tela, simboliza aquilo que eles, os meus pais, mais querem, ou seja, sémen. Eles cantam e rejubilam aleluias, dizem: "oohh..."
Sou um filho liberal!, aceito o facto de os meus pais serem um casal homossexual e um deles dever ser a minha mãe que canta. Eu sei que eles só agora se revelaram, ou só agora os descobri, mas eles estiveram sempre presentes, eles sempre me vigiaram, nunca se impuseram, codificaram a informação para que um dia eu descobrisse a verdade. Acredito que sou o único detentor deste segredo. Nunca o revelarei. Chamar-me-iam de maluco. Não é correcto dizer as verdades que podem ofender o mundo. Claro que digo isto porque estou aqui no CReEA. A minha princesa sabe obviamente tudo, ela também faz parte deste plano cósmico, eu sei, foi tudo planeado entre as famílias, eu sei que ela sabe mais do que eu e mais do que revela ao telefone, ela é a princesa que espera que eu, o filho humilde de duas estátuas egípcias, vá ter com ela. O tempo não conta, afinal vivemos na eternidade, somos imortais.”
Quanto a mim, o humilde pintor R. diz não mais do que isto: a princesa is no more, ela mudou de identidade. Não sinto remorsos. Vivo na tristeza de revisitar a obra passada, na altura esta velha estória passava-se há trinta anos. Ia regressar de umas férias passadas na aldeia. Escrevera a Maria falando-lhe das danças do dia 15 de Agosto, dia da senhora da ascensão. Há trinta anos, ainda dançava. Depois, só dificilmente e com muita resignação, em casamentos ou baptizados. Hoje, não tenho vida social para a dança. Dias antes de lhe telefonar para combinar o reencontro, no momento em que as raparigas da aldeia me pareceram novas de mais, decidi que preferia a suave maturidade da beleza escultural da minha maria porque a joana apagara-se dos desejos da memória ou da wish list dos sistemas de pagamento das bibliotecas online. Pensei-o ouvindo a sua voz mas não o disse. Estava aninhado no chão da sala a consertar o suporte de madeira das cortinas da larga janela da casa dos meus pais em Triza. A meu lado, a lista telefónica e o telefone. Disquei os números e ela atendeu. Disse-lhe que voltava a Derza para a semana. Ela aludiu um pouco furiosa à dança que vinha descrita na missiva feita quase como uma declaração de amor... e ela perguntava se, quem sabe? não certamente o Deus fodilhão, eu não teria curtido curtido com alguma moçoila na festa. Umas cervejas e tal, um charrito inocente às nativas. Inocentes! Que palavra esta, a inocência, as índias americanas têm o peyote que... o meio de chegar à divindade. Inocentes estas nativas que eram bem folgosas,
apetitosas, mas não dava tempo para nada. Era a festa da aldeia, daqui a pouco no fim da rapsódia de quinze minutos anunciar-se-ia a meia noite com o fogo de artifício, e tudo chegaria ao fim. Nem tempo para um beijinho. Oh que pena! Não foi um telefonema agradável.
Na semana seguinte o gato morreria três vezes e o seu eu ficaria down sendo admitido no CReEA. Eis o que o professor O. disse a C. lá dentro encostado a paredes brancas com aquecedores eléctricos:
“A primeira morte: A secção dourada, a amizade. Bang! A segunda morte: Os cinco minutos após a morte, a droga. Bang! A terceira morte: Montecute. O amor e a Maria. Bang, bang, bang!!! Numa semana apenas, sim... em três dias! Uma dose de arromba para um filho da lasciva dedicação dos seus pais solares, sempre com a banda sonora dos COIL.
Toma lá que é para aprenderes, eu também tive a minha dose, oh C., eu podia ser teu pai... “
Depois disso e isto mais lá para a frente, freneticamente no futuro, o gato viria a falecer mais vezes do mundo, do amor e, por fim, da sua própria identidade. Como uma cebola, o seu eu seria descascado e fugir-lhe-ia a julgar pela incrível maneira de andar pela rua à hora do almoço a falar para paredes, entrando em salas de espera de camionetas para regiões longínquas e partilhando charros com sotaque com mortalhas violeta da loja Cassiber, imaginando que Joana apareceria salvadora para o tentar resgatar à impotência.
R. pega no livro cinzento e começa a ler ao acaso:
O mundo, o amor, a identidade, o dom da palavra e da comunicação, o dom de amar, o dom de não ter dúvidas de ser suficientemente amado, o dom de ser feliz e ser capaz de trabalhar...
O funâmbulo sai de casa. Esta está afastada dos primeiros vestígios de vegetação citadina, pessoas, prédios e luzes por um percurso de cinco minutos que tenho de percorrer ao longo de uma rua em alcatrão em trajectória parabólica com o feedback dos grilos e o ruído dos comboios que passam ao fundo. I’ve allways liked trains, diz a minha voz interior. Na rua, ouço a resposta de alguém que diz: Bem pelo menos poderá trabalhar nos comboios.
Por vezes, é bom sentir este silêncio. Hoje, ele é claustrofóbico. Ao chegar aos semáforos e em vez de entrar na confusão sonora da cidade, sigo a calma pela estrada nacional até aos próximos semáforos. Sinto uma estranha confusão mental. Já a tinha experimentado em books, no entanto, a realidade é uma coisa bem distinta, talvez por achar que nada deve ser real. Passo por um centro comercial e um cemitério quase de mão dadas, por ruas lentas, escuras e ladeadas por belas vivendas com roseirais de onde retiro flores para a colecção. Quando chego finalmente à civilização deverão ser onze horas da noite. Para passar tempo decido ir ao casino. Procuro gente desconhecida e um ambiente informal. Nunca tive sorte mas hoje não é importante, até parece um daqueles dias em que se joga lerpa com o pretexto de perder e descobrir os telhados de vidro do vizinho.
Bem! Preciso de explicar esta imagem real: por um truque na televisão passa um filme chamado Hunger com a Catherine Deneuve e o David Bowie, começa com lobos e vampiros. Eu digo aos benfiquistas do futebol: ja xau grande filme! Há quem pergunte que piada tem ver um animal a devorar carne. Não digo nada... mas existe um benfiquista, para o caso lhe vamos chamar de mr.grelos, que diz que viu o filme, que diz a frase subliminar com a qual se enterra magistralmente a meus olhos que nada dizem - na hora de assumir é que é o caralho. Nada digo. Apenas me rio, mais um que foi descoberto, descaíu-se e eu sei o seu segredo, ele sabe que eu sei, é mais um a odiar-me. Prefiro obviamente rir e ignorar o provável cisco no meu olho... e agora, quase por magia, o seu telhado foi-se. Quanto a perder aos dados ou à lerpa, posso sempre desculpar-me com a má-sorte.
Peço um fino mais outro e a seguir um Martini.
Enquanto marco os números, vou associando algumas ideias adquiridas através da leitura de Genet como a traição, a elegia da beleza, a definição do ideal glorificado como situação actual, um pouco fascista digamos. Eu, na vida real, duas horas após ter praticado um acto que defini como um acto de traição, e que acto é este? Em minha opinião, traí a amizade e a confiança. Se à traição misturar a ingenuidade posso definir a pureza ou a minha pureza. Serei eu puro então? Mas quererei ser eu puro? Estou aqui maquiavelicamente a perder dinheiro sem me importar e esse acto, digno de um qualquer gestor de empresas apenas porque tem dinheiro o suficiente para desperdiçar, é apenas o meu modo de me lamentar por ter realizado o acto de traição. Misturo o bem e o mal com confusão. Misturam-se, tornam-se um só ser andrógino sem significado interno, apenas exterior – a imagem. Assim, digo que não deveria haver pureza, eu deveria ter traído em consciência por o querer fazer mesmo e por razão nenhuma.
Compreender as razões não faz com que tenhamos razão. A ingenuidade não faz de nós menos culpados. Sobre a minha pele desce o escárnio e o frio, como admitir que se fazem coisas que se não deveriam fazer?
E depois do casino, qual o destino que a carta joga? Ainda não sei. Talvez um café chamado Oldman onde como moelas com pão e vinho tinto. Bebo para esquecer, não é bom beber para esquecer. Moon is violent with scarlet horses. Moon is violent with scarlet horses. (ad eternum...), diz a minha voz interior, o velho revolucionário O..
A partida dá-se para o bar seguinte, do Oldman para o Arménia. Dentro do Armenia, encosto-me ao balcão mais chegado à pista de dança onde posso observar outros seres humanos a divertirem-se ou, sei lá!, quem sabe igualmente cheios de merda. É tudo uma questão de disfarce talvez. Alguém vem falar comigo mas a minha fala é estranha. Hoje, não sou o tipo beto do liceu com os cabelos compridos que fuma ganzas nem o maior galã do planeta de facto azul marinho na discoteca, cortei o cabelo há quinze dias e quando fumava um cigarro à porta de casa os meus vizinhos disseram-me que parecia mais homem assim, quanto ao fato só se ele for o meu fato-macaco. Hoje, envelheci subitamente e a minha voz reflecte o meu pensamento, não é a mascara do mesmo. Parece-me que, a partir de hoje, vai ser sempre essa voz estranha, tensa, fria, reflectida em demasia com a excepção de alguns casos cada vez mais frequentes de delírios de loucura. Para melhor ocupar o meu tempo, deito-me no sofá e quando paro de ler lentamente uma frase olho para o tecto absolutamente branco, flipo, faço comparações, tiro conclusões e tudo parece adaptar-se à realidade como se em cada frase houvesse um conteúdo psicogeográfico em acção. É tudo tão estranho, tudo tão diferente. É como se estivéssemos num perigoso processo de falha de objectividade. Engraçado, não sinto ódio pela humanidade, apenas emerge o ódio por mim próprio. Sinto náuseas de me não estar a divertir como todos os outros. Como nem sequer tenho vontade de tentar, a realidade começa a transparecer como uma sucessão infinita de círculos e mais círculos desenhados sobre brasas onde me tento equilibrar. Tenho que confessar que nunca pratiquei yoga. Sou um puto.
Alguém me fala de um negócio. Alguém me fala em experimentar coca.
Quanto é? Três contos, amanhã no Oldman por volta das nove. Combinei com o elemento X., o Y., o Z.. Está bem. Estendo o cartão de consumo, peço mais um fino. Mais tarde aparece a ganza. É raro encontrá-la mas quando aparece nunca falha, há sempre ganza por perto. Queres fumar um charro? Sure! Uma montanha deles… mas aqui dentro? Olha à nossa volta, analisa e conclui: Tens razão, é melhor lá fora, vamos esperar um pouco, agora não me apetece, já fumei muitos aqui dentro. Quando o bar fechar, então? Sim.
Quando saímos, os nossos olhos procuram de imediato um lugar confortável de preferência recatado e verde porque dizem que a polícia tem andado por aí, olha, é mesmo aqui nestas escadas, queres ver? Olho e vejo as escadas traseiras de um edifício de quatro andares, é mesmo aqui. Daqui a duas horas talvez amanheça. Tens um cigarro? Queres que te faça um filtro? Pode ser. Penso que não passo de um crivo enferrujado onde o milho é seleccionado. Observo a ganza, concluo que não importa o tempo que se demora a fazer um charro, é sim necessário que a qualidade permaneça, que estecticamente seja sempre mais, seja sempre um outro distinto no meio de todos. Penso em retórica, penso em felicidade, penso em porque sentem as pessoas necessidade de falar com outras pessoas. Quando a prata é retirada da carteira, a ganza embrulha a pedra e explica-me que assim o calor pode
ser distribuído regularmente por toda a superfície. Descubro que ainda tenho muito para andar. Quando ela queima a ponta para não fumarmos papel e finalmente o acende, começa a desenvolver-se uma estranha conversa a três: a ganza, a minha consciência e eu.
Ela começa a contar uma de longas histórias sobre ganza e algum pó. Eu duvido, pergunto como e porquê, respondo sim ou não, a minha consciência tira as suas conclusões cheias de duplos sentidos. Ela descobriu que era irónica, uma vez chamaram-lhe até de cínica, talvez a minha consciência seja um psiquiatra maluco ou um analista de massas. Fumamos mais um? Estava a ver que nunca mais falavas. Amanhece.
Quando vou para casa caminhando muito lentamente por volta das nove da manhã, tento sair do nevoeiro. Se para alguma coisa serve dizer isto, só me deito passado o meio-dia após ter escrito oito páginas. Além da ganza agradou-me o formato, um diálogo a três. Infelizmente perdi tudo isto quando o eu alienado mas apaixonado se despistou e mudou de pele uma vez mais, desta vez seria para o eu ressacado.
Na longitude do tempo, segue-se um sonho branco.
Acordo por volta das seis da tarde com a cabeça, os olhos pesados e sobretudo muito calmo. Penso nessa calma exterior mas o interior diz que estou sozinho e pendurado no mundo, posso permitir-me não falar nada durante o caminho para o café, no entanto parece-me tabu. Enquanto tomo café releio o que escrevi, procuro compreender a ideia ainda obscura e muito imperceptível de me tornar escritor. Certamente para me curar.
Combinei ontem no Armenia fumar coca. Falo de um livro, dum pecado, duma fracção de maldade, de uma pura tentativa de moralidade, ser sincero. Ao sentir-me culpado, o meu desejo é auto destruir-me, esquecer-me.
Pouco antes das nove horas entro no Oldman e sento-me ao lado de Y. que aguardava sozinho. Peço um café e ponho-me a pensar no livro Narrativa com cocaína de Aguéev. Dez minutos depois, X. entra. Conheço-o superficialmente mas não demora o tempo de fumar dois charros para o passar a detestar e verificar que não tenho nada para lhe dizer. Tal como para mim, é a sua primeira vez mas é como se tivesse o nervosismo de um agarrado, passa várias vezes a mão pelo nariz, diz frequentemente coisas sem nexo, a sua histeria sugere-me vagamente a de um chulo falando com as mulheres numa noite em que tudo corre mal. Nunca uma espera foi tão desagradável. Durante vinte minutos, penso em Aguéev e no Filipe LaFéria e no que terei eu a ver com tudo isto?
Finalmente toda a gente chega, somos seis ao todo, vamos a uma casa ali perto, o dono da casa começa a desembrulhar a prata e explica-nos: não vamos snifar a coca, vamos sim fumá-la. Diz-se que é a base do crack, não somos assim tão ricos. Não interessa, todos esperamos e o elemento X. coça-se. Surge-me a imagem de Alice numa terra de neve. Estranho, a minha passa não sabe a nada, o elemento Y diz o mesmo, só X. se passa. Estúpido ou porque a sociedade cria estúpidos. Dou mais uma passa, na minha cabeça surge Portishead, sinto-me só e além disso penso que te amo.
Nada acontece. A mim está a bater largo, diz X.. Quem já tinha fumado nada diz, terá o seu modo de curtir.
Saímos todos e voltamos ao Oldman onde se pede cerveja. Nada nos une, ouviste!, diz a minha voz interior. Bebemos um fino hoje porque a maior parte de nós tem vontade de beber todos os dias, porque hoje fumamos coca em conjunto. É para mim um acto nihilista. Sinto os lábios frios. Bebo e
sinto esse frio, um frio leve e contínuo. Sinceramente esperava outras sensações, sinto-me um provador de vinhos irritado com a má qualidade e que ninguém me toque! Fala-se de negócios, alguém não conseguiu arranjar ganza ou então o amigo fumou mais do que devia, berrou os colegas e por fim alguém dá a ideia de irmos a outra casa para mais que uma simples cortesia.
Entramos. As divisões estão vazias na escuridão. Sentamo-nos na sala e vemos televisão. Passado algum tempo, o elemento Z. levanta-se e bate a uma das portas de onde sai pelas franjas luz. Que queres? Quero ter o nosso filho aos quarenta anos, divago a minha voz interior falando para ninguém.
Quero enterrar a minha mente na merda. Minutos esvoaçantes. O barulho de uma porta a abrir, uma degradação onde nunca tinha estado, fuma-se pó em cima da cama. O que mais me impressiona é não o acto de fumar mas sim a alteração das expressões faciais, os desejos, as frases impacientes: se tivéssemos coca podíamos fumar speedball, hey a prata parou por aí? Queres experimentar? Não. Talvez a minha vontade de desaparecer não seja assim tão verdadeira.
Y. e o meu eu exterior voltam ao Oldman. Pedimos vinho verde. Diz-me que o vinho corta o efeito da coca mas como pode ser se não bateu nada? Não percebo. Parece-me que esta noite nunca mais passa. Interessava-me, isso sim, que os meus três contos tivessem servido para alguma coisa e não se ficasse apenas pelas histórias de sublimados poetas, nem que fosse só para me transformar numa qualquer espécie de zombie como aquele que entrou no café sem conseguir dizer uma palavra, soltar um gesto, deixar de cambalear. Quando se fuma pó por uma questão de experimentação, é bem capaz de ser fixe olhar fixamente para a ponta do sapato durante uma tarde inteira mas quando se observa ao longo do tempo a evolução de cúmplices de ganza que até são pessoas fixes, contam anedotas e tudo e depois caem no sofrimento físico, na ilusão de realidade entrando em quartos implorando bafos e ninguém os pode ajudar porque somos todos capazes de estar na mesma situação ou então porque não temos a vontade ou a paciência de estômago para ajudar, algo me convence que o desejo de desaparecer necessita de outros meios para se realizar.
Não me recordo de muito mais coisas deste dia a não ser ter-lhe telefonado. Ela deve estar a chegar de férias, eu tenho uma tonelada sincera de saudades e de amor para dar… de volta. É-me difícil falar da noite seguinte. Há coisas que me assustam.
Combinamos em sua casa para jantar. Não nos vemos há três meses. Não posso estar bem disposto como consequência dos dias anteriores e vou reparando em alguma reserva da sua parte, por exemplo, em coisas muito simples como o facto de a querer como habitualmente beijar e ela dizer que a cozinha tem de ser arrumada primeiro e, segundo, tem de ir telefonar, ir a qualquer lado. Vamos telefonar então, vamos ao Arménia beber uma cerveja, nota-se que tem algo para dizer que não parece ser fácil de dizer, decidimos jogar bilhar. Não faço uma única jogada decente, a cabeça pesa-me, está mais frio do que nunca. Quando o jogo acaba quero ir para casa, ela quer ir para algum lado. Foda-se!, não estamos juntos há mais de três meses. Não é difícil desconfiar dos porquês, no entanto quando esses porquês parecem estar a acontecer é fácil eu desejar-me acéfalo e pensar que se trata de uma simples indisposição. Quando finalmente entramos vamos ver televisão e passado algum tempo ela retira forças de dentro de si para dizer que a partir de hoje não quer mais estar comigo, quer ser apenas minha amiga. Ouço tudo. Já não dá para pensar em ser acéfalo, diz a voz interior, a lâmpada estava acesa, era apenas eu que tinha um pano a tentar encobri-la. Agora a lâmpada pegou fogo.
As minhas primeiras palavras são um monumento à frieza: Então, já não há nada a fazer aqui. Vou-me embora. Ela diz: Não vás, gostaria que passasses uma última noite comigo. Porquê, se queres acabar tudo? Com lágrimas ela diz: Eu queria fazê-lo antes das férias mas não tive coragem, estava muito perto de ti… passaram-se três meses onde tive tempo de pensar em tudo, em se valeria a pena continuar… quero ser tua amiga. Oiço tudo isto e vejo-me para minha incredulidade a aceitar tudo muito placidamente. Estou deitado no seu regaço, digo-lhe que gosto da música que está a passar no
canal de música, digo-lhe que não vou passar a noite com ela, ela diz que assim seria mais fácil de aceitar. Como se fosse possível dois namorados que acabaram de romper dormirem juntos como amigos, como se não houvesse amor ou houvesse uma espécie de amor superior.
Tudo pela sanita abaixo.
Fomo-nos deitar. Digo: até amanhã; e viro-me para o outro lado, reparo porém que não consigo dormir e que sinto todo o tempo que passamos juntos passar à frente dos meus olhos. Posso abraçar-te? Ela diz que sim, eu começo a abraçá-la, a beijá-la, a beijá-la cada vez com mais sofreguidão até que em desespero lhe peço para fazer amor e é engraçado notar quantas vezes já não tinha pensado nisto antes, comme s’il était la derniére fois. Vocês sabem a letra.
Ela começa a chorar dizendo que não. Tento forçá-la, sinto-me louco e com vontade de a violentar. Nada . Choramos os dois abraçados. Estou a ficar louco, sem ar, tudo me parece pequeno, escuro, nada existe mais.
Quando acordamos no dia seguinte, o primeiro pensamento do funâmbulo é sair dali e fugir para bem longe. No entanto, volta a bater à porta, esquecera-se de calçar os sapatos. Caminha em direcção a casa. A manhã está radiosa. O sol está e exige óculos de sol para as olheiras. A caminho de casa para numa pastelaria para acalmar os nervos.
No sábado seguinte, o eu alienado foi jogar futebol com os seus colegas. Foi um sinal de que ao gato se impunha uma mudança. Mas vamos por partes. Agora vou-vos ler um poema muito importante pois esse gato passaria a prestar mais atenção ao seu espelho e a seguir em direcção aos lobos. Começaria a reflectir sobre si próprio:
“Terror e medo.
Stranger than kindness comme s'il était la derniére fois a young god will ever kiss Her or perhaps it was just no one saw the carny go watch 3 crows during 3 days, born young dead on the 3rd week of Autumn.
Terror e medo.”
'

do livro 'Kcoillapso'

por Claudio Mur

--

Este texto, na maior parte, é baseado em factos ocorridos
e a conversa entre 'a ganza, a minha consciência e eu' marca o momento
em que me apercebi que havia uma dissociação/oposição entre mim e o meu interior:
como se eu pensasse uma coisa e fosse levado a fazer o contrário 
só para ninguém, nem eu próprio, se ficar a rir.
Na altura não compreendi o significado mas 
hoje acho que foi a minha primeira manifestação de esquizofrenia social.

As novas desilusões da cor


'As novas desilusões da cor'
óleo sobre tela
40cm por 30cm
2000 - 2017
ZMB

( foto em 2014 )


Este trabalho faz parte da exposição 'ZMB na Casa da Horta'

Uma fotografia de época e num dia de sol:



Alguns dos meus quadros têm por título
o título de capítulos do livro em que andava a trabalhar na altura
e que na minha ilusão seria 'grande'.

O ficheiro html do texto 
ao qual este quadro pretende corresponder está aqui
(No final do ficheiro existem links para o pdf e para a versão inglesa)
Nota: este link terminará em Dezembro de 2014.

O texto pode agora ser lido aqui:
http://zmb-mur.blogspot.pt/2017/09/as-novas-desilusoes-da-cor-por-claudio.html


sexta-feira, 1 de setembro de 2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Carreiros 2008


'Carreiros 2008'
óleo sobre cartão canelado
56cm por 76cm
2008 - 2017
ZMB

Este quadro tinha inicialmente o título:
'A vizinha, a sobrinha, a maradinha e a coisa que olha a foto que tirou'
Ainda não tinha colocado uma fotografia de época aqui no blog, porque
ainda não tinha resolvido interiormente 'a maradinha e a coisa'.
Maradinha era um adjectivo carinhoso; e a Coisa um sinónimo de baixa auto-estima.

Este quadro é um reflexo de um momento feliz.

(fotografia de época)


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

As damas de Avinhão



'As damas de Avinhão'
óleo sobre tela
70cm por 100cm
2017
ZMB a partir de Picasso


Fiz algumas pequenas alterações desde que publiquei a foto em baixo:
o traço negro não estava balanceado no quadro, 
as damas do lado esquerdo não tinham 'linha de mama' :)

Este é o primeiro de vários quadros de versões em grande formato 
que estou a fazer por encomenda.
O próximo será 'A dança' de Matisse, já está no cavalete.


(fotografia há um mês atrás)


Le Tour de France in Ireland



'Le Tour de France in Ireland'
óleo sobre pano cru
90cm por 72cm
2007 - 2017
ZMB

Em 1998, a volta à frança em bicicleta passou pela Irlanda.
Em Cork, local de fim de etapa numa longa recta citadina,
o ambiente nas ruas era quase de assombro.
E depois quando eles passaram, trinta segundos depois,
a volta à cidade acabou. 
- Era só isto?, e fomos tomar chá.

Este ano, clarifiquei alguns pormenores,
 não porque a tela estivesse degradada pelo tempo, mas porque
havia partes mal pintadas e quase desleixadas --
sinónimo pelo qual o comprador chamou de aldrabão,
tendo-me dito para melhorar esses pormenores.
Fi-lo com todo o gosto, porque não sou aldrabão, apenas às vezes um pouco descuidado
 e porque considero este um dos meus melhores quadros.



(fotografia de época)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O estúdio de ZMB


'O estúdio de ZMB'
óleo sobre tela
60cm por 80cm
2005 - 2017
ZMB

Baseado num desenho de 2001 (ver em baixo)
é agora uma paisagem desactualizada 
pela passagem do tempo
e das circunstâncias.

Este ano de 2017 ao voltar a pegar neste trabalho. adicionei-lhe alguns elementos:
a imagem do caçador com o cão é uma peça de artesanato que ainda hoje continua no Anexus 51;
as capas de dois discos -- um de Albert Ayler e outro de Annie Anxiety;
e uma interpretação minha de um desenho de Austin Osman Spare.
 que está incluído numa re-edição do livro 'The Focus of Life' de AOS pela editora Fulgur Esoterica.

(desenho de 2001)

Anexus 51


(fotografia de época)

domingo, 20 de agosto de 2017

sábado, 19 de agosto de 2017

Alfa-Chaud gotajava, gotejava;
Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava.

'
-- Esse homem está a perder a razão! -- exclama Jill.
-- Estás mais uma vez enganada -- diz Jabber. -- Acabo de encontrar a razão, só que é uma espécie de razão diferente da que tu imaginavas. Pensas que um poema deve ser encarado. Mas não. No momento em que o escreves, o poema acaba. O poema é o presente que não és capaz de definir. Vivê-lo. Qualquer coisa é um poema se tem o tempo em si. Não precisas de apanhar o "ferry-boat" ou de ir para a China para escrever um poema. O mais belo poema que jamais escrevi foi um lava-louça. Já alguma vez te falei nisso? Havia duas torneiras: uma chamada Froid, a outra chamada Chaud. Froid vivia a vida "in extenso", por meio de um tubo de borracha ligado ao "schnausel". Chaud era viva e modesta. Chaud estava sempre a gotejar, como se tivesse gonorreia. Às terças e sextas ia à mesquita, onde havia uma clínica para torneiras com doenças venéreas. Às terças e sextas Froid era obrigada a fazer o trabalho todo... uma torneira danada para trabalhar. Isso constituía todo o seu mundo. Chaud, por outro lado, tinha de ser mimada, adulada. Se não dizíamos «mais devagar», escaldava-nos a pele. Por vezes, trabalhavam em uníssono, Froid e Chaud, mas isso era raro.Nas noites de sábado quando lavava os pés na pia do lava-louça pensava na maneira perfeita como funcionava o mundo que estas duas torneiras governavam. Só existia esse lava-louça de ferro com as suas duas torneiras. Nem princípio nem fim. Chaud, o alfa, e Froid, o ómega. Perpetuidade. Os Gémeos, com domínio sobre a vida e sobre a morte. Alfa-Chaud percorria todos os graus de Fahrenheit e Réaumur, os fios magnéticos e as caudas de cometas, ia do caldeirão efervescente de Mauna Loa até à luz seca da lua terciária Ómega-Froid, atravessava o Gulf-Stream e ia até aos leitos paludiais do mar de Sargaços, corria por marsupiais e foraminíferos, corria através das baleias mamíferas e das brechas polares, descia os universos insulares, atravessava os cátodos mortos, os ossos mortos e a podridão seca, os folículos e os tentáculos de mundos incriados, modos inatingíveis, mundos invisíveis, mundos por nascer e para sempre perdidos. Alfa-Chaud gotajava, gotejava; Ómega-Froid, trabalhava, trabalhava. Mãos, pés, cabelos, rosto, pratos, legumes, peixe, tudo bem lavado; desespero, tédio, ódio, amor, ciúme, crime... gotejando, gotejando. Eu, Jabberwhorl, minha mulher, Jill, e, depois de nós, legiões sobre legiões... tudo diante do lava-louça de ferro. As sementes iam pelo cano abaixo: tenros canatupos, abóboras, caviar, macarrão, bile, cuspo, muco, folhas de alface, espinhas de sardinhas, flocos de aveia, tabaco de mascar, pólen, poeira, gordura, lã, algodão, fios, fósforos, vermes vivos, trigo desfibrado, leite a escaldar, óleo de ricino. Sementes de desperdício, caíam para sempre, voltando em puras emanações de uma miraculosa substância química que recusa ser denominada, classificada, rotulada, analisada, desenhada, esquartejada. Voltavam como Froid e Chaud perpetuamente, como a verdade que não pode ser negada. Pode-se tomá-la quente ou fria, ou pode-se tomá-la tépida. Com ela, pode-se lavar os pés ou gargarejar a garganta, tirar o sabão que se tem nos olhos ou o pó das folhas de alface, dar banho aos bebés acabados de nascer ou esfregar os membros rígidos dos mortos; pode-se ainda molhar com ela o pão das "fricadellas" ou misturá-la ao vinho. As primeiras e as últimas coisas. Elixir. Eu, Jabberwhorl, saboreio o elixir da vida e da morte. Eu, Jaberwhorl, de desperdício e de H2O composto, de quente e frio e de todos os níveis intermédios, de espuma e de crosta, das mais finas e das mais minúsculas substâncias que jamais foram perdidas, de grandes costuras e de osso compacto, de brechas de gelo e de tubos de ensaio, de sémen e de óvulos misturados, dissolvidos, dispersos, de "schnausel" de borracha e de torneiras de latão, de cátodos mortos e de infusórios retorcidos, de folhas de alface e de sol engarrafado... Eu, Jabberwhorl, sentado ao lava-louça de ferro, estou perplexo e exaltado, nunca mais nem nunca menos que um poema, uma estância de ferro, um folículo efervescente, um leucócito perdido. O lava-louça de ferro, onde cuspo o coração, onde banho os meus pés delicados, sobre o qual levantei o primeiro filho, onde lavei a gengivas irritadas, onde cantei como um diamante e estou a cntar neste momento e cantarei através dos canos entupidos e das torneiras enfrujadas, embora o tempo corra e eu seja tudo o que há de presente, de passado e de futuro. Canta, Froid, canta transitiva! Canta, Chaud, canta intransitiva! Canta Alfa e Ómega! Canta Aleluia! Canta, ó torneira, canta enquanto o mundo desencanta...
E a cantar numa voz alta e clara, como um cisne ferido, deitámo-lo na cama.
'

, páginas 144-146
"O Oho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

sábado, 12 de agosto de 2017

A canção do rei Salomão


'A canção do rei Salomão'
técnica mista sobre papel
59cm por 42cm (tamanho A2)
2006 - 2017
ZMB

Este trabalho começou por ser um auxiliar de memória para este trabalho:

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

É a primeira pergunta do assistente social.

'
.. Decerto -- torna Boris --, se o tivesse conhecido em Manila poderia ter feito alguma coisa por ele. Podia ter-lhe dado trabalho então...
Manila! Jesus, isto parece-me grotesco! Que tem Manila a ver com o que se passa agora? É como dizer a um homem que se afoga: «Que pena, que pena! Se ao menos o tivesse ensinado a nadar!»
Toda a gente deseja endireitar o mundo: ninguém deseja ajudar o vizinho. Querem fazer de nós um homem sem ter o corpo em conta. Está tudo vesgo. E Boris estava também vesgo quando lhe perguntou: Tem parentes na América? Eu conheço isto. É a primeira pergunta do assistente social. A sua idade, nome, morada, ocupação, religião, e depois, com muita inocência -- o mais próximo parente vivo, faz favor! Como se uma pessoa não tivesse passado por isso tudo. como se não disséssemos a nós mesmos, mil vezes -- «Morrerei primeiro! Morrerei de preferência a...» E eles, sentados muito placidamente, na nossa frente, perguntam o nome, o lugar nunca revelado da vergonha, e vão lá imediatamente, tocam a campainha e deitam tudo cá para fora -- enquanto uma pessoa está sentada a tremer e a suar de humilhação.
Max responde à pergunta. Sim, tinha uma irmã em Nova Iorque. Já não sabe onde ela se encontra. Mudou-se para Coney Island, eis tudo. Decerto, não tinha motivo para abandonar a América. Ganhava lá bom dinheiro. Passava a ferro e pertencia ao sindicato. Mas, quando os negócios começaram a dar para o torto, ele, Max, sentado num banco do parque de Union Square, compreendeu que não valia nada. Montados nos seus garbosos cavalos, os polícias investiam sobre o passeio e afastavam de lá os desempregados. Porquê? Por se estar desempregado? A culpa era sua... ele, Max, fizera alguma coisa contra o governo? Aquilo enfureceu-o, amargurou-o e começou a sentir aversão por si mesmo. que direito tinham de lhe pôr as mãos em cima? Que direito tinham de o tratar como um verme, de levá-lo a pensar que não passava de um verme?
'

, página 35
"O olho cosmológico"
Henry Miller
Edição Editorial Estampa, 2ºedição Julho 1997

'
Aconteceu-me algo parecido quando precisei de ajuda oficial, perguntaram pelo telefone da minha mãe. Ainda hoje vejo pessoas na rua que me agridem só por eu existir, um dia destes uma cabeleireira vinha a descer a rua com a companheira e um pequeno cão, o cão ladrou-me, ela afastou-o e disse: -- Ainda se fosses comer Alguém. Eu nada disse, o que ela queria era que eu respondesse para que dali surgisse a algazarra dos ditos e contos, se eu lhe respondesse qualquer coisa como «És linda como a noite, tens penteado muitos camones?, eles não te dão que chegue?, precisas de me incomodar?» Viriam certamente acusações em altos berros para todo o bairro ouvir dizendo isto e aquilo como aconteceu a semana passada quando, por causa de um cano da água, tive o vizinho a chamar-me de porco e de pintor da droga e o filhinho, aprendiz de gorila de claque, a querer bater-me. Pouco faltou para que eu entrasse em casa e pegasse no martelo e fosse lhes responder à letra dizendo «andem cá agora, quem são vocês para me insultarem!», mas foi melhor não ter feito nada porque o senhorio, ainda assim, veio e disse-me que «a corda parte sempre pelo lado mais fraco», pelo que eu engoli a mensagem. Não deixa de ser irónico porque o cano pertencia ao senhorio e eu estava a defender o seu património, é!, as pessoas odeiam o meu modo de vida, pisam no mais fraco e lambém o cu ao mais forte.
'
Claudio Mur

sábado, 5 de agosto de 2017

We are doomed my friend fiend



'We are doomed my friend fiend'
óleo sobre tela
60cm por 30cm
2008 - 2017
ZMB

Eis a representação da JJ sentada no sofá.

Não bastaram uns beijinhos para que fôssemos namorados
mesmo que os nossos amigos o pensassem.
Também ela sucumbiu psiquiatricamente às drogas.
Filha de uma família de classe média foi parar a uma clínica privada.
Cheguei a escrever-lhe uma carta.
Não a enviei não fosse ela ficar com esperanças.
Preferi gravar-lhe um cd com Psychic TV e enviá-lo através da mãe.
Esteve lá mais de um ano e não sei como estará agora.

Fica este trabalho como a prova de uma espécie de amor chamado Solidariedade.

**
Este ano, 2017, melhorei a cor na referência que faço a este trabalho
http://zmb-mur.blogspot.pt/2014/05/a-estatua-de-laocoon-e-seus-filhos.html
que se encontra aos pés da JJ

Pretendo significar a dificuldade em educar de modo correcto um filho/a
e referir a sensação de o/a filho/a se sentir perdido/a tal como eventualmente também o seu pai.


(fotografia de época
com luz eléctrica e filtro de balanço de brancos)



terça-feira, 1 de agosto de 2017

O fim da cidade paraíso

R. sempre fora um nostálgico. Não tivera uma infância. Afastado da sua cidade natal sofria do mal das saudades. Fora assim durante os estudos universitários, seis anos passados a ir e vir de comboio ao fim-de-semana, da universidade para casa, nascera com dezoito anos e saíra de casa praticamente sem conhecer a cidade mas já nostálgico, a cidade era mito, sabia que voltaria um dia, passou parte desses anos imaginando subir as ruas na direcção do autocarro, que o levaria a casa de seus pais, carregando uma tela para pintura. R. estudava electrónica mas viera-lhe o desejo de pintar quadros, não se importava muito com o futuro, tinha apenas o desejo um pouco romântico de pintar, a sua relação com a arte era ambígua, sabia que era difícil vir a ter um nome estabelecido no mundo da arte, mas na sua alguma inocência pensava que seria o suficiente forte, que produziria obras que desmaiariam os críticos, sonhava com uma exposição retrospectiva em Serralves quando fosse um decano de oitenta anos, uma bomba prestes a explodir com o alguma-vez-conhecido, o alguma-vez-feito na pintura em Portugal, sonhava que iria sempre andar pela sombra, ilustre anónimo sem ninguém nele reparar até um dia... um dia esse dia chegará, dizia ele e olhava para alguns quadros na parede daquele que pôde ser considerado o seu primeiro quarto atelier, O Covil, é esse o nome que lhe deu, esses quadros deram-lhe um fundamento, um futuro que ele quereria aprofundar, disse a um pintor chamado Zé de Aveiro que o seu futuro seria trabalhar como engenheiro e viver a vida comprando telas para pintar, mais tarde quando o seu futuro imediato foi pôr parte do oceano entre si e a sua cidade natal, mais tarde quando emigrou, dando um passo de fuga em frente, disse a um colega de trabalho que não queria ser um Sunday Painter, era algo que ele não queria, isso de ser pintor nas horas vagas, esta mudança de ideias aconteceu no espaço de um ano, a sua mente mudou no espaço de um ano, a ilha para onde foi residir e trabalhar deu-lhe o conhecimento de uma nova língua, havia quadros em todos os bares e cafés que frequentou, havia bibliotecas, estúdios de arte abertos ao público, centros artísticos e universidades, tudo de fácil acesso, mas faltava a mulher, R. não tinha mulher nem deixara namorada em local nenhum, deixara apenas a lembrança, ela fora sua até ao momento em que a sua vida explodiu, depois recusara continuar com ela porque não tinha já o amor-próprio para gostar de si próprio e para poder gostar de estar com alguém, o seu futuro era fugir do mundo mas haveria sempre mundo em todo o lado e ele não contava que tivesse saudades dos portugueses, quando foi disse que não voltaria, enquanto lá esteve tentou permanecer ou mesmo mudar de país de trabalho mas... a verdade é que R. não sabia como safar-se sozinho num país estrangeiro, o dinheiro que recebia era pouco, o contrato terminara e ele perdera a bolsa que recebia de Portugal, estava já a trabalhar por menos dinheiro à espera de uma renovação com aumento de salário, tal não ocorreu e R. decidiu apanhar um avião de volta, voltou a casa pelo natal, parecia um extraterrestre, trazia na bagagem livros de arte, música nova, estudos em papel, uma ou outra tela pintada, e muita vontade de ser alguém... na arte, a electrónica era uma miragem, continuava a não pensar seriamente no ganha-pão, não aprofundava os seus conhecimentos, durante uns anos ainda teve um currículo e arranjou empregos mas o seu persistente desinteresse fez com que acabasse despedido ou se demitisse, durante estes anos que se podem chamar de adolescência residiu parcialmente em casa dos pais, o restante tempo em quartos alugados nas cidades onde de momento trabalhava, chegou até a viver no hotel, a empresa pagou, a idade adulta chegou no Verão em que fez trinta e cinco anos e foi internado pela última vez, a quarta vez, a idade adulta chegou porque R. conheceu a mulher que o fez esquecer a mulher que estivera mais de dez anos na sua memória, não conhecera até aí ninguém que o fizesse esquecer essa mulher, essa mulher nova era uma aspiração de R., algo que ele escrevera como: ter um futuro sem passado. Esta mulher nova fê-lo esquecer tudo o que dentro da cabeça de R. o preocupava e o obcecava: a sensação de culpa, a sensação de não gostar o suficiente de ninguém, a sensação de ver que não havia ninguém que pudesse voltar a interessar-se por ele, sim, porque ele degradara-se muito a nível físico, estava sem cabelo, gordo, com poucos dentes não cariados, com uma doença para toda a vida. A razão para toda esta velhice precoce estava no facto de ele ter querido viver intensamente, recuperar o tempo perdido já que ele aos dezoito anos não tinha o entendimento de um jovem de dezoito anos, por isso eu digo que ele abriu os olhos para o mundo e começou logo a andar apenas na universidade, para trás está o olvido, ainda hoje R. sabe que o mundo não o desejou. Esta mulher nova desejou R., teve uma necessidade imediata de R., R. sentiu desejo e depois amor, aprendeu o que era o amor adulto, esse misto de carinho, compromisso, obrigação e miséria, libertou-se do passado, foi até capaz de, quando mais tarde a voltou a ver, ignorar essa mulher-passado porque reparou que já não gostava dela, ela também não, R. viveu livre um novo presente, a dois, um presente proletário, ela empregada de limpeza, ele trabalhando num armazém de artes gráficas. Foram felizes durante algum tempo, alguns anos que deram uma raiz a R., consolidaram a crença que o passado foi necessário, foi necessário errar e sofrer com os erros, R. vive. 
R. é hoje adulto, vive sozinho na cidade onde nasceu, vive com a sua reforma e a ajuda da mãe e de uma amiga, já não é pintor de Domingo, não vende muitos quadros mas vai tendo dinheiro para comprar uns discos e vai pagando a renda a horas, continua a não se dar bem com os vizinhos, talvez seja a altura de se enfiar no casulo e só aparecer daqui a trinta anos, é claro que tudo isto é imaginação, eu é que escrevo sempre o mesmo «desde que não deixe de pintar tudo é suportável... haverá sempre vida nas ruínas da cidade paraíso, o problema é quando não se aguenta com a cruz, mais vale deixá-la na berma da estrada.»



segunda-feira, 31 de julho de 2017

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Natureza viva com bico de fogão


'Natureza viva com bico de fogão'
óleo sobre tela
80cm por 60cm
2004 - 2017
ZMB

Este é um quadro surrealista
que brinca com a noção de natureza morta:
em vez de apresentar uma terrina com maçãs
apresento dois seres vivos sendo cozinhados.

(fotografia de época)


terça-feira, 25 de julho de 2017

Sabes, eu compreendo parte da tua dor, parte dela é minha também, compreendo que não tenhas conseguido integrar-te, eu próprio não gosto deste país, também eu sou um estrangeiro aqui, perguntas-me se eu não gostaria de emigrar e eu digo-te que já o fiz, tive bons momentos, fui até feliz em certos momentos mas o custo de vida era alto, na altura gostava de beber e embora bebesse menos de metade do que os meus colegas bebiam ao fim de um ano pouco dinheiro pude trazer para Portugal, não ganhava o suficiente, para poder comprar antecipadamente um bilhete de regresso com desconto estive um mês a jantar pão-de-forma com manteiga e leite de pacote, até fiz rádio numa rádio pirata por convite de um amigo mas a maior parte dos meus discos estavam aqui, nunca pude fazer um programa em condições, eram apenas remendos, a minha vida continuava aqui, os meus pertences, todas as minhas memórias, as pessoas amigas, os ódios de estimação, a família, a língua, falar a minha língua, entender tudo o que me dizem, tudo isso me faltou, cheguei cá pelo Natal e fui ao café, tive a sensação que era figura pública, houve até quem dissesse que tinha chorado por eu ter ido para fora, coitadinho... o menino teve saudades que eu não voltasse, uma amiga que no passado não tinha querido fazer amor comigo por não o desejar agora queria conversa, os conhecidos do café queriam saber novidades, como era tudo e diziam que este país é uma merda, que lá fora é que é bom, e eu com saudades deste país a não saber como esconder que apesar de tudo a vida lá fora não fora fácil, no fundo indo contra a multidão e em sentido contrário, eu com saudades do país e das pessoas e as pessoas com saudades do que eu tive, dei palestras, fiz discursos, urso a troco de nada, senti-me importante, comecei a contar a minha vida a qualquer bicho careto que me aparecia, o dinheiro que trouxe deu para quatro meses à grande, depois tive de aceitar um emprego numa multinacional, entrei lá a pensar no paraíso, tinha a ilusão que ia ser alguém, ter uma carreira e tal, uma cama cheia de dinheiro, continuei na empresa a vida nova que trouxera do café, falava de mais, confidenciava, inventava, confiava segredos que tinha lido nos livros, mas a verdade é que começou a surgir em toda a gente à minha volta a sensação de que eu era um aldrabão, um bem-falante, só forma e nenhum conteúddo, afinal de contas eu não sabia sequer programar uma folha excel e passava o tempo de trabalho a escrever no computador, a folha excel era apenas passar o tempo, era o tempo em que as multinacionais recebiam do estado apoios à integração de licenciados, a multinacional recebia o dinheiro, pagava ao licenciado encostando-o a um canto com trabalhos de fantasia e o restante dinheiro ia para equipar os escritórios dos directores com computadores de último grito, no fundo estava no meio de aldrabões, a diferença de mim para eles era a minha falta de filtros, a minha falta de hipocrisia, ao acusarem-me de ser aldrabão e dizendo «mantem-te assim e serás recompensado» eu respondi que não queria aquele mundo, ganhei inimigos, houve quem se quisesse aproveitar da minha ingenuidade, bati no fundo sem saber que parte da culpa era minha, eu falara demais, fizeram-me a folha e contigo mulher passa-se o mesmo, tu contas a tua vida  a qualquer pessoa que te faz um sorriso e te paga um copo e te fala em trabalho, não consegues perceber as segundas intenções, acredita o trabalho honesto  e com os direitos de lei... é preciso lutar por ele, concorrer com milhares de outros candidatos pela vaga, e depois de muitas negativas ser finalmente aceite, ser melhor que os outros candidatos para aquela posição e o patrão fazer-te a festa, ter um sorriso de confiança, sentires que foste valorizada, que és útil a terceiros e vais ser razoavelmente bem paga, é isso que tens de procurar, alguém que te valorize e que te não conte histórias da carochinha, e sabes que mais?, quando eu ia ao restaurante almoçar e jantar havia alturas em que me queixava da comida, podia às vezes não estar aceitável ou podia simplesmente o cozinheiro oferecer um pitéu de qualidade e eu não dar o valor, reclamava, há sempre quem reclame contra o serviço de terceiros, mas agora que cozinho a minha comida eu nunca reclamo, está sempre boa, a melhor do mundo, tão boa que penso até em ta oferecer, no fundo o que eu quero dizer é que o caminho é fazermos nós próprios, com o nosso esforço, o nosso trabalho, dando passos seguros, aprendendo na carne com erros, fazendo a nossa parte e com a esperança que os outros façam a parte deles, tudo o mais surgirá, eu sei que estás farta deste país, tiveste tudo de graça e agora que precisas deste país sentes que ele não te dá o que queres, mas tens de lutar, tens de aprender a lutar, não há soluções fáceis. Ao querermos ser tudo sem esforço, criamos pés de barro, fáceis de cair do pedestal.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

Dies Irae by Gonzo



https://www.discogs.com/Gonzo-Dies-Irae/release/8579997

beware of false prophets
which come to you in sheep's clothing
but inward they are ravening wolves
you shall know them by their fruits
beware of Andre Ventura the crook

sexta-feira, 21 de julho de 2017

R. Butterfly


'R. Butterfly'
óleo sobre tela
54cm por 81cm
2002 - 2017
ZMB

Este quadro foi inspirado numa fotografia que tirei a partir da tv ao filme
M. Butterfly de David Cronenberg.
As borboletas foram pintadas segundo esta foto: 



(fotografia de época com sombras de árvore)


terça-feira, 18 de julho de 2017

Uma imagem de #MyMentalPrison

Uma vez escrevi que não queria uma bengala
e portanto neguei
faltou formular o lado positivo
esta imagem fá-lo por mim
por isso a reproduzo


~The Outsider #MyMentalPrison

Segundo moks ao acordar

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Ao fundo ouve-se um leve murmúrio. Vindo por uma porta interior da memória e aproximando-se cada vez mais, assemelha-se à buzina de um comboio antigo. R. dorme, tem a sensação que alguém, uma entidade dentro do seu sonho dentro da sua memória, lhe quer chegar perto. R. caminha com um
machado nas mãos. Trata-se de uma situação instável. Está preso por correntes invisíveis ao tronco de uma árvore ao fundo de um rio de carris incandescentes. Essa entidade swingante subindo pela espinha até ao cérebro aponta-lhe o dedo e sussurra-lhe, é tudo fictício, encenaste tudo, é tudo mentira, encenaste tudo. Quando parece ir tocar o seu corpo e cortar o que resta da raiz, tudo fica claro e R. acorda com a voz swingante de Ka-Spel dentro da sua cabeça dizendo: I'll keep you alive.

Nove horas da manhã. O despertador dispara / martela insistentemente junto dos seus ouvidos. 
Apetece-me atirar este objecto obsceno contra as paredes mas não posso fazer isso porque depois precisava de ir às compras.
Então acalma-se e vira-se para o outro lado aconchegando os lençóis.
Nunca durmo o suficiente, sempre menos que seis horas. Todos os dias ligo o rádio, ouço o mundo, é fundamental saber que os chineses estão em paz com toda a gente excepto com o Tibete, que o aborto foi finalmente legalizado, é bom saber que a dona Maria compra as hortaliças no hipermercado só porque lá as coisas são mais baratas que na loja do sr. J.
A manhã é fundamental. Tem cinquenta e um anos e hoje quebra a rotina, decide ignorar os conselhos do médico tais como se você não consegue passar sem o vício de fumar ao menos que fume lights. Hoje com alegria, estende a mão até à mesinha de cabeceira, retira de lá um amarrotado tabaco português, o velho Águia tabaco dos velhos e enrola um cigarro enquanto observa o trabalho de ontem.
Preciso de trabalhar melhor aquela luz, aquele vermelho não é irreal. Nada pode ser real.
Se esta manhã fosse igual a tantas outras ter-se-ia levantado e dirigido à palete de modo a encontrar a cor mas não. Hoje sente-se feliz de modo diferente. Hoje não se levanta. Aliás, se tivesse menos trinta anos talvez tivesse com o cérebro colado pelo segundo moks sem água ao abrir os olhos. Os seus olhos. Os olhos de R..
Hoje sou livre de ouvir o silêncio apenas interrompido pelos pássaros, sou livre de ver o tecto absolutamente branco, branco de estrelas e sorrir e sonhar, sonhar nele uma quantidade enorme de vidas dispersas.

São aproximadamente três horas da manhã. Deixei o Arménia em plena paz. A chuva continua a cair miudinha e os poucos candeeiros intactos reflectem-se nas poças de água existentes no passeio. Sei que estou sem rumo definido mas estou cansado, vou-me sentar num banco do jardim. Vou enrolar um cigarro. Tenho no entanto a sensação de que alguém me espia, alguém que poderão ser muitos, três mil pessoas a apontar o dedo. É melhor ter cuidado.
R. deita-se ao comprido enrolando-se na sua longa camisola cinzenta. Quando em estado de sonolência o sino começa a tocar a Sexta sinfonia Segundo movimento de Glenn Branca. Quando adormece entra num cenário artificial. Está num leito de madeira usando uma camisa fina, branca com folhas, e umas calças pretas de flanela. Está descalço. Numa fracção de segundo, uma pequena luz branca toca-lhe nas virilhas mas logo se esvai para longe. Então R. acorda sobressaltado olhando para todos os lados, para as seis barreiras que o separam do espaço real. Nem uma só janela. Ao longe nos cantos dessas barreiras minúsculas fosforenciais, formas que sugerem pirilampos começam a luzir. Ao principio inofensivas, depois começam a agitar-se. Alongam as suas espadas de laser em várias direcções mas sempre aproximando-se, os tentáculos chegando perto. Não sabe o que fazer. Nem uma só janela. Uma luz verde atinge-o no ombro, é sua cor favorita, a marca fica registada, torna-se o símbolo de uma primeira acção. Um olho verde. Um risco verde confunde-se com a cor branca da camisola que transparece a cor vermelha do seu corpo. Uma voz de igreja diz-lhe: eu perdoo-te R., eu perdoo-te, eis a minha bênção. Não sabe o que fazer. Sente calores frios pelas costas abaixo. Nem uma só janela. Agora é a sério. As luzes lançam-se de frente para ele e sem lhe tocar vão-lhe tirando as medidas exactas, esquadrinhando ângulos, amplitudes. Já não está deitado, sentou-se na borda do leito de madeira. Puxa de um cigarro mas uma luz vermelha tira-lho da boca. Compreende então que está perdido. Nem uma só janela. Repara que do seu lado direito, um fusil de Napoleão espera que ele lhe toque com carinho. Os calores frios então invertem o sentido da sua marcha, encontrando-se agora ao nível do pescoço. Dentro de breves momentos estarão já a subir pelas faces albinas em direcção às poucas madeixas que ainda possui. Surgem então os tambores. Vem do lado daqueles poderosos lasers. Começa a limpar o fusil. Repara que só tem um cartuxo, tem ainda para o caso de precisar a baioneta Just-in-case. A luzes continuam a fazer-se notar em movimentos tipo hit and run. Faz tenção de colocar o velho fusil no ombro direito e olhar pela mira telescópica uma rua calcetada ao fim da tarde e/ou a fachada de uma casa de pedra. Desce a rua sempre com os olhos na mira, apontando às luzes que continuam a surgir. Pára numa fonte. Do outro lado a casa acabou e tu e/ou ele pode ver uma cerejeira com pequenos gémeos idênticos, idênticos e violeta e púrpura, um menino e uma menina. Então uma luz surge uma vez mais, uma luz púrpura e ele não resiste mais. Foca o alvo e bang... um pequeno melro cai em espiral a seus pés junto aos cantos da fonte. Continua a olhar pela mira e vê esse melro transformar-se num gato bebé com um pequeno ponto cruz no seu peito, o ponto de mira eu verifico. Quando a ferida sara, levanta-se e então ronronando vai deitar-se a seus pés pedindo alimento enquanto R. olha de pé o fusil, que sendo comprido é o seu terceiro membro. Após uma breve interrupção as luzes voltam, surgem agora aos milhares. Começa agora a suar de verdade. O fusil roda no ar e na última extensão do seu corpo, a luzes atingem-no em todas direcções, electrochoques cegam-no parcialmente. No entanto, não desiste e continua a apontar o mais que pode, consegue até que elas se extingam num momento sendo substituídas por tambores em compasso de espera. Agora também ele espera, ouve. Tem o fusil em pé, é o seu terceiro membro, ele espera. Os tambores deixam de tocar e ela surge, a luz negra, o eclipse total. Então R. levanta o fusil virando-o de encontro a si próprio com a baioneta mesmo à frente do rosto. Ela, esta luz é agora parte constituinte do fusil e pretende engoli-lo. Um ultimo compasso, um ultimo tambor. R. puxa para dentro de si a baioneta e a luz apaga-se e tudo termina.
R. acorda do banco de jardim todo encharcado. A seu lado vê no chão estilhaços, um candeeiro preto. Passa o coveiro com a sua lamparina antiga a óleo. R. olha para o relógio. Cinco horas da manhã. Decide seguir o coveiro que vai completamente nas nuvens. Repara que recuperou os velhos sapatos e a camisola cinzenta. Agora faz planos para enrolar um cigarro enquanto sobe a rua. Uma medalha de cem metros olímpicos de Bolt à sua frente, o coveiro entra já numa álea em terra batida rodeada por árvores enormes, das quais não recordo o nome, que dão acesso ao cemitério. Quando finalmente R. o apanha, ele. o coveiro, começa a falar:
Ontem, o meu filho contou-me que lera em qualquer sítio a história do regresso malogrado de um homem após uma longa estadia no éter. Aterrara no mesmo lugar de onde tinha partido trinta anos antes, mas agora nada de pompa ou circunstância. Tudo vazio. À saída apenas viu uma pessoa velha de bengala. Pensou em chamar um táxi mas desistiu. Seguiu a pé decidido a encontrar alguém que lhe explicasse o suicídio. Nem sem sequer um ramo de flores. Finalmente entrou na cidade às dez da manhã, a coelhinha da páscoa aproximava-se, ouviam-se os pássaros que saem dos ninhos de uma palmeira. Caminhou pela rua apoiado por uma bengala e tropeçou numa velha vigorosa que se dirigia para a igreja, de olhos cegos falando-lhe em modos incompreensíveis, dizem que era a sua única mãe, diz o coveiro fazendo uma pausa. Então continuou a andar estupefacto, viu três sombras verdes que resolveu ignorar saindo das lojas. À sua frente viu três velhos vestidos de fato e gravata mostrando cartões a meninos e dirigindo-se igualmente para a igreja. Parou nos semáforos que dão prioridade verde aos táxis amarelos e laranjas surgindo desgovernados. Quando finalmente a sua prioridade verde surgiu e atravessou aquela rua, parou numa montra para ver uma série de quadros com o nome de Cenas de um covil. A principio não quis querer mas os seus olhos não o podiam enganar com tanta certeza.
O homem, continua o coveiro, ainda não pronunciara uma única palavra. Foi esse o erro. Quando gritou de espanto não reconheceu a sua própria voz, aquela voz doce que a sua mulher de cabelos ligeiramente pretos lhe dissera que ele possuía. Então acreditou que aquilo que via no espelho quebrado em ângulo recto na montra era mesmo ele. Uma cópia, uma imagem, um ser disforme e retorcido, sem dentes, sem cabelo e verde, muito verde.
Destroçado, continua o coveiro, decidiu largar a bengala, ultrapassou a ponte e chegou à estátua de Cristo, subiu a custo lá cima, observou com calma, com toda a calma possível do momento o espaço, tão diferente de tudo aquilo que deixara para trás em prole da descoberta científica, e atirou-se.
R. interrompeu perguntando: essa história foi inventada ou está escrita?, que idade tem o seu filho, é albino?
O coveiro respondeu que todos o somos um pouco, mas que isso não passa de um pormenor que em nada pode alterar os propósitos pelos quais você me seguiu. Dito isto parou num túmulo e disse: aqui pode ver com os seus próprios olhos a campa desse homem que nunca foi reconhecido, pode ver também que por ele velam dia e noite, consegue ver não consegue?, um anjo com sombra e um pote de flores albinas.
Sim, vejo um anjo azul, lindo como nunca tinha visto antes. Obrigado.

Ik ben a zombie.
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Claudio Mur em 'Kcoillapso'