sábado, 11 de abril de 2015

As bruxas voam, o polvo caminha


'As bruxas voam, o polvo caminha'
Técnica mista de caneta de preto permanente, lápis de cera e pastel de óleo 
sobre folha de papel a4
2015
ZMB

Esta semana a minha irmã festejou o aniversário com um jantar em sua casa
e não é que eu,
após brincar com capa e espada de plástico com o meu sobrinho de quatro anos,
resolvi assustá-lo quando ele perguntou «O que é isso?»
Eu respondi «È um polvo, na casa do tio há polvos!»
Ele olhou para o desenho e depois para mim assombrado mas nada disse.

Eheh, sou o tio a quem os sobrinhos na brincadeira puxam a mosca da cara!
Eles são a alegria das duas avós e de nós também.
São a cola que une as partes, o futuro será para eles.
Quando eles estão contentes todas as desavenças familiares se apaziguam.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Abominável homem das neves avistado a tentar serrar os cornos [para os esconder] de um yak

'
Nunca o homem poderia desaparecer repentinamente de tal modo está aqui sentado na sua linda casa, que atrai à noite a escuridão das florestas e o preconceito dos seus habitantes. Fica-lhe mesmo bem! Esta mulher não precisa de piedade. Os poros do filho ainda são pequenos. A mulher vacila sob o fardo da sua pesada sorte. Com uma condução inteligente ainda se lhe pode abolir a prisão, mas não pode negar acolhimento ao marido. O prato rápido já devia estar a ser cozinhado nela. O simples facto de ele aqui estar, faz humidificar o seu orifício. Na maior parte das vezes, o fim das excursões de empresa é alegre e bem regado, o que está escondido palpita, quer lançar livremente as suas secreções. A vida consiste em grande parte no facto de nada querer ficar onde se encontra. Portanto, venha a mudança! Desta maneira cria-se o desassossego, e as pessoas visitam-se, mas têm sempre de carregar consigo próprias como se fossem um fardo. Criados cumpridores, apresentam-se com os seus chouriços sexuais, e com o talher sobre a mesa, para que lhe ofereçam rapidamente um buraco, apenas para, mais ávidos agora, aparecerem e oferecerem a sua hospitalidade a outros simplórios. Nem as secretárias querem admitir que se sentem expostas aos apalpões nas blusas. Riem-se. Há incrivelmente tanta gente, que nem todos conseguem ter a sua parte no deboche.
'

, página 36
"Lust"
Elfriede Jelinek
Edição Editorial Estampa, 2ªedição 2005

sábado, 4 de abril de 2015

«Enriquece à vontade, mas se não chegar para mim não entras no clube.»


'
O liberalismo diz: «enriquece à vontade, mas se não chegar para mim não entras no clube.» 

Os liberais ou adeptos do liberalismo escreveram nos seus princípios também o princípio da liberdade e dizia mais ou menos o seguinte: 
Os homens não podem ser forçados à liberdade, a liberdade não pode ser um presente chegado do exterior, os homens não podem esperar que lhes dêem ou tirem mais ou menos quantidade de liberdade como num regime totalitário, são os homens que devem agir para conquistar a liberdade. 
Mas este sentido de liberdade nunca teve como referência geral o homem comum mas sim o homem económico e religioso no poder da ordem social. 
Para o liberal o estado não deve intervir na economia, na criação de riqueza, dizem que o homem é livre de enriquecer e o estado apenas deve intervir na área social como formar e educar indivíduos e integrá-los como uma força de trabalho, incentivá-los a subir na escada social, mas só até certo ponto pois ele não poderá agitar as suas próprias ideias acerca da liberdade, acerca da repressão estatal, económica efectuada pela ordem instalada. Seja feito tal e os liberais dirão que o indivíduo deve ser castigado. 
Primeiro difamam-te, depois tiram-te o emprego, depois a mulher e os filhos, a casa e até o carro quando agora este te serve de residência, daí a pôr-te na cadeia por delitos de sobrevivência... É um pequeno passo. O liberalismo prega uma cartilha de valores morais, mas quando se chega à realidade vê-se que se algumas pessoas injustiçadas conseguem mesmo assim se tornar mais fortes, são essas apenas as poucas que conseguem sobreviver, as pessoas são forçadas a trocar a dignidade pela corrupção, pela hipocrisia, apenas essas sobrevivem, o liberalismo pode dizer que o tempo é de mudança, mas a direcção é a de um iluminismo para um absolutismo anti-histórico, uma regressão. 
Caminhamos para o totalitarismo liberal.
'

Claudio Mur,
adaptando as ideias radiofónicas propostas por Joel Costa 
no seu extinto programa 'Questões de Moral'
na rádio  Antena 2 em 2011

Fortune presents gifts not according to the book



Dead Can Dance - 'Aion' - 1990

Fortune presents gifts
Not according to the book
Fortune presents gifts
Not according to the book

When you expect whistles it's flutes
When you expect flutes it's whistles

What various paths are followed
In distributing honours and possessions
She gives awards to some
And penitent's cloaks to others

When you expect whistles it's flutes
When you expect flutes it's whistles

Sometimes she robs the chief goatherd
Of his cottage and goat pen
And to whomever she fancies
The lamest goat has born two kids

When you expect whistles it's flutes
When you expect flutes it's whistles

Because in a village a poor lad
Has stolen one egg
He swings in the sun
And another gets away with a thousand crimes

When you expect whistles it's flutes
When you expect flutes it's whistles


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Não há instinto de morte

'
Um masoquista, tal como diz Wilhelm Reich, não é biologicamente causado por um instinto ou desejo de morte. Ele prefere um sofrimento mediano porque teme a destruição final. Não gosta de estar sozinho, não gosta de perder o contacto com a pele quente, esta alivia a tensão erótica e dá prazer. Não gosta de perder o contacto com o objecto amado, estar sozinho é estar frio como morto. Quando perde este contacto e fica sozinho no mundo, queixa-se, vitimiza-se, faz-se de importante, procura um novo contacto com o passado, ah se pudéssemos voltar... Mas o sujeito masoquista aproxima-se do passado por meios errados, provoca e tal, faz merda e escândalo e tudo o mais porque, ao ter medo de perder a pele e ao errar uma vez mais, aumenta a sua culpa e sofre por fazer sofrer e fazer afastar aquela pele tão quente. Por isso, escreve, escreveu «faz frio muito frio, viesse um asteróide incendiar tudo» a ver se aquecia, não há instinto de morte mas sim o contrário, um instinto de vida e digo tudo isto ao caderno de linhas, digo o passado, agora não [digo agora], agora estou estabilizado, tenho até calor de mais, sinto-me com metade da minha idade, sei gerir a ansiedade, o emprego, o perigo de a empresa fechar por falta de encomendas, depois de amanhã volto ao trabalho, sei gerir o problema da residência, sei onde me dirigir, até [vejam só!] encontrei uma lavandaria perto, tenho um plano com soluções previstas e actualizações diárias, não não penso ser compulsivo mas também não serei tecnicamente masoquista, esse sofrimento menor foi uma máscara, um substituto em quem só eu acreditei e do qual me desligo cada vez mais, perdeu a razão de ser, essa armadura foi fabricada pelo ego como resistência, como um meio de defesa, nunca fui capaz de verbalizar correctamente e com voz moderada os males que sofri. A minha culpa que sinto é essa: perder a razão por responder a ofensas com palavras desbocadas mas também não fui criado num ambiente de concórdia, como pode hoje um homem explicar-se racionalmente num mundo de gritos e insultos? nunca me ensinaram a ser bem-educado, apenas a calar e a consentir, hoje digo que essa chantagem devia ter sido denunciada, a ruptura devia ter acontecido mais cedo. Assim esgotaram-se as possibilidades. Nem amigos sequer. 
'

Claudio Mur

Mudar de vida


'Mudar de vida'
óleo sobre tela
60cm por 70cm
2007-2015
ZMB

Filho de um pai reaccionário e de uma mãe adepta da hipocrisia da jonet
(porque assim ainda se consegue dar uma côdea a um pobre e o céu fica garantido, dizem)
que poderia eu ser, que poderia eu fazer da minha vida?
Se ele fosse director de uma empresa e eu o bajulasse tanto como os meus cunhados
podia quem sabe ter o meu lugar ao sol e agradecer ao papá
e dar-lhe netos para que também ele pudesse invejar o tablet oferecido
mas não...
não foi esta a vida que escolhi.
Mas queriam o quê então? Que fosse revolucionário e assassinasse o pai?
Não, apenas o escrevi morto. Nada aprendi com ele a não ser fascismo.
E então como vivo?
Fugindo, recusando o seu dinheiro, sendo pobre por opção,
ele não gosta de mim e eu não gosto dele.
E sinto vergonha, escondo-me, não saio à rua.
Eu não nasci maluco nem foi a droga que me fez um doente psicótico.
Acho que foi a falta de amor filial.
Ser maluco foi uma escolha que fiz para ser livre.
Sim, eu mudei de vida: sofro menos se me desligar.
O meu papá tem quem lhe dê vales de desconto.
Não precisa de mim para nada.
Ele nunca mudará e eu estou farto de tentar conciliar o impossível.
A minha família acabou.


(fotografia de época)