segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Detalhe sem título



Manual de Sobrevivência

 

 

1. Título

 

a)

 

Nas cenas do covil o olhar das coisas, o porquê da desconfiança e o porquê do narcisismo explicam porque desejo falar de mulheres; o lugar de nascença, a moral, a dependência psicológica e o aborrecimento contínuo explicam o porquê do senhor que se segue ser os pedidos de ajuda e o conflito

mundial.

 

 

b)

 

O covil é um lugar onde dormem os lobos. Os lobos são animais furtivos que olham na noite as presas que olham na noite as presas. Africano. Quadro de grande porte num café em Rova, de proporções: quatro metros de largura por três de altura. Tons castanhos e pretos mostrando um rio escuro e preto no meio de uma selva castanha onde três mulheres negras estão. Espelho ao longo de toda uma parede comprida. Nos dois salões, mesas de pelica de linha preta, abstracto. No primeiro salão, o quadro africano na parede oposta ao espelho, chão de pedra pintado com certas influências de Seurat, tamanho quadrangular com um metro e trinta, reflexos fotográficos no centro de uma cidade, um estranho em terra estranha, um novato em terra nova.

 

 

c)

 

Deadlock. Não é possível. Registo com ar cínico, que dir-se-ia objectivo, frio, penetrante em nуs. Não, não registo nada. Os meus buffers de transmissão estão congestionados. Operam no limite. Para não haver deadlock, preciso de resolver problemas de comutação de pacotes. O meu dedo, o teu dedo nada é além de cínico, ambiciona a auto-destruição.

 

 

d)

 

Pai, pai... sou gay.

Não te preocupes meu filho, não há problema nenhum. Eu também sou mas isso não me impede de gostar de outras mulheres além da tua mãe.

 

 

e)

 

Existe quem diga que nós não somos o trabalho que fazemos, também não seremos a formação ou educação que recebemos. No limite e no absurdo, talvez também não sejamos aquele que nasceu e, então, somos 'nada', nem mesmo pó depois das cinzas.

 

 

f)

 

Tu que dizes que não gostas de conversas sobre definições e, depois, te chateias quando alguém tem uma definição básica diferente da tua discutindo no fundo a definição que, és tu próprio a dizê-lo, dizes não gostar... para ti e especialmente só para ti aqui vai mais uma definição. Apresento a minha definição de falhado: Um falhado é aquele que foi e deixou de ser.

Digo-te alguma coisa de novo? Vá lá!, não sejas mais uma cegonha, não metas o bedelho no buraco onde não és chamado...

 

Claudio Mur

sábado, 5 de agosto de 2023

the world of skin: nothing without you




i'm weak and i'm slow, when you are near.
defeated, i'll disappear. in the blood of your mouth, i'll disappear.
i'll stand behind you. we'll be here, forever. we won't move again.
your body's open, we're slipping down, through an open floor
we'll fall forever. i'm weak and i'm slow, when your eyes are on me.
defeated, i'll disappear. i left myself, beneath your skin
what were you? who was i then? look over there, against the wall
there's a memory there: red hands, blood and hair. i dont know where you are.
i don't know where i end, i'm nothing without you

SKIN - cry me a river


[Verse 1]
Now you say you're lonely
You cried the long night through
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried a river over you
Now you say you're sorry
For being so untrue
Well, you can cry me a river, cry me a river
I cried, cried, cried a river over you

[Chorus]
You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, I remember, all that you said
You told me love was too plebeian

Told me you were through with me and

[Verse 2]
Now you say, you say you love me
Well, just to prove you do
Come on and cry me a river, cry me a river
Cause I cried a river over you

[Chorus]
You drove me, nearly drove me, out of my head
While you never shed a tear
Remember, remember, all that you said
Told me love was too plebeian
Told me you were through with me and
Now, now you say you love me
Well, just to prove you do
Come on and cry, cry, cry me a river, cry me a river
Cause I cried a river over you

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Estou chorando um rio para ti




POETA REREREVOLUCIONÁRIO

Dedicou-te o poeta alguns versos bem bons
do melhor que pôde, do melhor que soube.
Suou as estopinhas, tirou macacos do nariz,
irritou-se com a mulher, com a filha e com a criada.
Saiu nervoso de casa e, por ti,
nesse dia, em vez de uísque bebeu bagaço.

O poeta quase morreu a pensar em ti
na forma, no conteúdo, no poema,
no dilema, no crítico e na crítica
situação de dizer tudo, tudo
com palavras-pedra, palavras-chave
graves, agudas, fortes e esdrúxulas.

Garanto-te que o poeta quase se suicidou
para transmitir apenas numa folha
de 35 linhas tudo o que sabe de ti;
e disse coisas maravilhosas.

Falou dos horizontes vermelhos, dos amanhãs que cantam,
dos direitos totais e de outras regalias bestiais
até que cansado parou.

Foi quando enviou o poema ao director do jornal
com pedido de publicação e os cumprimentos do autor.


Fernando Madureira 

no volume «Da Angústia de cada coisa»
edição Língua Morta